Personagens
Eu sou um inventor de personagens, e disponho delas a meu
belo prazer. Eu próprio sou uma invenção, uma personagem assumida com adereços de
outras histórias. Poderia ter escrito uma peça de teatro para a minha última
invenção. Uma história de amor e glória fatídica numa época de adventos que se
sucedem a uma cadência vertiginosa. Podia falar de mim, e da minha experiência
pessoal; uma Odisseia real sobre um homem real com uma doença real. Que belo
monólogo ficaria registado para a posteridade. Seria fado comédia, esperança fatalista,
egoísta e suicida, apologia da sobrevivência, religioso e místico, agnóstico e idolatra
em eterno conflito, ateu por despeito e humanista por defeito, panfletário e
radical, comunista liberal e socialmente pequeno-burguês. Seria retórico e pessimista,
disfarçado de optimismo, assertivo na demagogia, mas cínico e sarcástico no
discurso moralista, facilmente reconhecido pela idiotice incoerente. Aliás, seria
esta a sua maior virtude; mergulhar na ambiguidade racional, e perder-me nas imperfeições
da inteligência humana. Inteligência superficialmente profunda, porque tocava
na consciência sem a revelar, e profundamente superficial, porque desnudaria os
defeitos mais mesquinhos. Sem dúvida que construiria, a partir do barro pobre,
a personagem mais honestamente fingida e o monólogo mais fragmentado na
história do teatro por escrever, o sonho de qualquer actor medíocre, ou
encenador desprezível. Felizmente, ainda tenho uma réstia de decência, o que me
impede de envergonhar a língua portuguesa.
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