2026-06-22

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - último acto; André e Jorge

 A história deixou de ser nossa. O Jorge já não precisa dos serviços de dois humildes trabalhadores que carregaram consigo uma vida inteira. Olhamos para ele com saudades precoces. O Jorge ainda é, mas já tomou uma decisão. Não houve despedidas com abraços e beijos, nem apertos de mão prometendo futuros encontros. Abalou sem olhar para trás, de mãos dadas com outra vida.

 

Tenho uma mala na mão direita. Sei que está vazia. Não tenho nada para levar. É um adereço para aquilo que sou ir mais composto. O André deu-me um abraço quando chegou, e só depois cumprimentou a Filomena:

— Olá, avó!

— Olá, André!

Tudo simples e familiar. Se houve um sorriso cúmplice, ele foi dissimulado. O André pegou-me na mão livre e convidou-me a sair do quarto. Deixei-me levar até à porta. Virei-me e passei os olhos pelo quarto. Estava escuro e encontrava-se vazio. Não me surpreendeu vê-lo assim. Sorri e voltei-me para o André. Ele devolveu-me o sorriso e disse qualquer coisa que eu não entendi.

 

É noite, mas os corredores encontram-se fortemente iluminados. Está tudo silencioso e não se vê ninguém. Caminhamos de mão dada até chegarmos à porta do elevador. A porta abre-se e as luzes acendem-se. Atrás de nós, os corredores escurecem. O elevador inicia o seu movimento, mas não consigo perceber se sobe ou se desce. Instintivamente, dirijo o olhar para os números digitais que indicam o piso, procurando informação que não me será útil. De qualquer maneira, o meu olhar não consegue descodificar o que vê. O elevador imobiliza-se e a porta abre-se. Junto a mim, o André espera pela minha decisão. À minha frente, tudo perdeu dimensão e a luminosidade é indefinida. Também eu perco dimensão, e o que de mim sobra deixa-se levar. Nunca me senti tão bem.

 

Em casa do Sr. Jorge, encontra-se uma sebenta aberta. Repousa na mesa da cozinha. Junto dela, a caneta que escreveu um último poema…

 

Quando me entrego à cegueira,

vou aonde as minhas mãos não podem ir.

Consigo ouvir as palavras despidas do seu significado,

e, por não pensar,

viajo nos seus ritmos e melodias.

Dessas viagens trago a liberdade do que senti,

e, do que senti,

a liberdade de nada ter visto.

2026-06-21

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo oitavo acto; Filomena

Não sentimos as pernas. As mãos, que ainda há pouco estavam presas, rodopiam no ar simulando um estranho bailado enquanto cantam:

 

Uma à frente e outra atrás,

como faz quem precisa.

Uma levanta-se e avisa

que quem vem, não traz.

 

Mas quem tem, não precisa,

se o mundo lhes pertence;

podem despir a camisa,

podem fingir-se indigentes.

 

Vamos abrir o punho e fingir,

que o mundo não é nosso;

que o deixámos cair,

só por sentir remorsos

 

Nós sabemos dançar, mas nunca aprendemos a escrever. Isso é coisa de mãos que foram à escola. Nós também por lá fizemos vida, que elas sem nós não iam. A carteira sempre nos separou, elas em cima, escrevendo e folheando, e nós, em baixo, ansiando pelo intervalo. Mas isto não é tempo de recordar diferenças, até porque, se olharmos bem para a nossa relação, momentos houve, de grande intimidade.  

 

A casa perdeu a graça. Eu perdi a graça. A minha vida perdeu a graça. Pensei muito na Cecília, nos primeiros anos da nossa relação, e no nosso filho. Ela escreveu-me quando o miúdo acabou o curso de enfermagem. Junto com a carta vinha uma fotografia. Nela, um rapaz bem-apessoado exibia um sorriso imaculado. Trazia vestida a farda de um hospital da capital. Junto dele, uma colega olhava-o de viés. Nos seus olhos percebia-se que o rapaz não lhe era indiferente. O meu filho tinha os olhos da mãe, e a expressão também, mas as restantes feições eram minhas: os lábios carnudos numa boca bem desenhada, o queixo com uma covinha, as faces coradas, um nariz um pouco largo e uma testa proporcional que revelava emoções quando ele a franzia. O cabelo era castanho-escuro e cortado a preceito. Não tinha falta de cabelo, e a orelha esquerda ostentava uma pequena argola prateada. Ainda hoje tenho essa fotografia numa moldura, na cabeceira da cama. Sonhei muitas vezes com ele. Talvez fosse para compensar a ausência de pensamentos quando estava acordado. Sempre pensei em visitar o rapaz quando regressasse a Portugal. Sei que casou e que comprou um apartamento com o dinheiro que tínhamos na conta conjunta. Mais tarde, também fiquei a saber que a rapariga da fotografia engravidou. De tudo isso eu sei, porque a Cecília o escreveu numa carta. As cartas que ele enviou são anteriores a ter terminado o curso. Por essa altura, a Cecília decidiu contar a verdade sobre a nossa separação. Nunca pensei que ela aguentasse tanto tempo.

Filomena, já lhe tinha dito que a minha mãe também foi enfermeira? Fez pelos outros o que não fizeram por ela. Não ligue, Filomena, isto é a mágoa a falar. O meu avô materno também morreu num hospital. O outro finou-se no trabalho, que é um lugar digno para quem não soube fazer mais nada na vida. As minhas avós foram mais pacatas e decidiram levar para o caixão os aromas do lar. Só eu é que não sei qual o ar que irei levar.

Uma manhã, recebi uma chamada da Cecília. Precisava falar urgentemente comigo. Respondi-lhe que, no dia seguinte, iria a Lisboa, porque hoje não tinha ninguém para ficar com o meu pai. A Cecília disse-me que o assunto não podia esperar e que ainda hoje viria a minha casa. Estranhei a impulsividade da sua decisão, pois nem sabia a minha morada, mas ela lá teria as suas razões. Chegou depois de almoço. Vinha sozinha. Tinha deixado o marido num café para podermos falar à vontade. Convidei-a a sentar-se na sala e ofereci-me para lhe trazer qualquer coisa. Ela recusou de uma forma que me era familiar e me fez recordar outros tempos. Continuava uma bonita mulher, talvez mais bonita ainda. Uma beleza madura e serena que nem a falta de maquilhagem, nem as lágrimas nos olhos, conseguia estragar.

 

Que digo eu? De que lágrimas falo eu? Agora que estou para me ir embora é que a memória se lembra de fazer as suas manobras manipuladoras? Filomena, ainda tenho tempo para uma última recordação? Só uma. Como quando eu era pequeno e te pedia para ficar na rua só mais um bocadinho. Vá lá, mãe, deixa lá. Deixas? Está, Jorge, mas é só mais uma, que o André está a chegar e ele é que te vai levar. Obrigado, mãe.

 

Quais foram as palavras exatas que a Cecília utilizou? O André morreu. O meu silêncio e o meu pai a perguntar: “O quê?”, e eu calado, sem palavras para querer confirmar, para saber porquê. Um acidente de automóvel levou-me a esperança de uma reconciliação. O tempo e a espera. Sempre esperei tempo demais. A mesma desculpa e o mesmo medo. Agora nada podia fazer. Verguei o corpo e encostei a cabeça aos joelhos. Deixei que a Cecília me abraçasse e entreguei-me à triste realidade que atingira a minha vida. Finalmente, preenchi o vazio que me atormentava. O velório, o funeral, o crematório foram decisões da Cecília e da minha nora. Conheci a minha neta, mas a minha atitude de completa abstração não ajudou a uma aproximação. Por esses dias ficou traçado o meu futuro.

 

Pronto, já está. Depois da morte do teu neto, vivi para dar algum conforto aos últimos dias do teu marido. Foi uma questão de tempo até que a falta de vontade para continuar vivo desse os seus frutos. Quando o corpo escorreu pela parede, pensei: coisa fácil de resolver com um balde meio-cheio de água, uma tampa de detergente e uma esfregona. Mãe, estou pronto.

 

Jorge, olha quem aí vem!

2026-06-20

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo sétimo acto; Pedro

 Quando pisamos solo pátrio, é natural sentir conforto. É uma sensação uterina e protetora. Aqui dentro, ninguém nos vai fazer mal, que a mãe não deixa. Sabemos que ele sentiu de maneira diferente o nosso regresso. Nem poderia ser de outra forma. No que nos diz respeito, o regresso só teve vantagens. Passámos a dormir uma hora depois de almoço, a ir ver o pôr do sol na praia, a passar horas no cadeirão enquanto ele dormia: um sem-número de atividades de pouco desgaste. É certo que o seu pai necessitava de muita atenção, mas nada que se comparasse com o trabalho na plataforma. Foram tempos de descanso como nunca tivemos.

 

Sofri muito quando ele morreu. Quem me ajudou foi a minha vizinha do lado, a Dona Maria. Vem dessa altura a minha decisão de lhe dar uma cópia da chave da porta de minha casa. Ouvi dizer que foi isso que me salvou, mas não cheguei a confirmar. Ele partiu em paz. Primeiro, fechou a boca e, depois, arrancou tudo o que lhe permitisse manter a sua presença por cá. Morreu no hospital, ao fim de um dia de internamento. Os dois últimos anos coincidiram com a pandemia, e o isolamento roubou-lhe o que restava de lucidez. Ele nunca entendeu a mudança das nossas rotinas, e desconfio que me atribuiu a responsabilidade por ela. Nunca o verbalizou, mas também já não conseguia fazê-lo. Foi o seu olhar melindrado que me fez ter uma certeza quase absoluta. Ao fim de algum tempo, esqueceu as antigas rotinas, e o seu olhar melindrado passou a revelar apenas tristeza. Assim é a doença do esquecimento. Mesmo desorientado e com medo, nunca me tratou mal, e foi relativamente fácil cuidar dele. Devo-lhe um obrigado por esse motivo. Estou a ser injusto com o meu pai. Durante a sua doença, eu aprendi a dar valor à vida, e a sua companhia evitou que eu caísse novamente num abismo.

 

O dia nasceu, mas já pouco me ligam. Sinto-me melhor e não percebo porque não me transferem para a outra ala. Ponho-me de pé e chamo pelo Pedro. Ele passa por mim e ignora-me. Se eu fosse outro, ficava ofendido e não o deixaria ir embora sem um pedido de desculpas. Mas ficámos assim: eu, em pé, junto da cama, e ele, caminhando em direção aos lavabos.

 

Continuo sem me lembrar do que aconteceu durante a doença do meu pai. Sei que foi antes da pandemia; essa é a única certeza que eu tenho. Olho para mim e vejo-me sentado no sofá, com o corpo vergado sobre os joelhos. O meu pai olha-me sem compreender. Há alguém junto de mim que me abraça. Percebo que é uma mulher, mas não a consigo reconhecer. Mais cedo ou mais tarde, hão de vir à memória os pormenores dessa recordação. Por agora, o melhor é não pensar mais no assunto.

 

Hoje esqueceram-se do meu almoço. É verdade que eu também não tenho fome, mas podiam ter dito alguma coisa; assim, escusava de esperar feito parvo pela paparoca.

Já que me deixaram à seca, vou tentar dormir um pouco. Talvez a enfermeira Filomena se mostre mais simpática que o Pedro.

 

2026-06-18

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo sexto acto; Fernando

 Na plataforma, o equilíbrio é essencial. Vivemos numa ilha metálica, e o ambiente que nos rodeia é hostil. Foram quase vinte anos de trabalhos esforçados. A meio da viagem, eu acho que perdemos a noção do tempo. Mas isso também pouco interessa. Se ele quiser contar como passaram esses anos, que peça a palavra e diga de sua justiça. Nós sofremos, essa é que é a verdade. Se ele queria fustigar a alma, não era preciso levar-nos com ele. São sempre os inocentes a sofrer com as decisões das cabeças pensantes, mas, mesmo contrariados, nunca ficaram por cumprir as tarefas que ele nos delegou. A lealdade faz parte da nossa natureza.

 

Já me posso levantar, mas não me mexo do lugar. Tenho receio de não conseguir voltar. É de noite, e o silêncio incomoda-me. Vai ser difícil habituar-me ao escuro.

 

O escuro fez-me voltar a Portugal. O meu pai cegou de um olho, e a mulher acabou por abandoná-lo. Pouco tempo depois, foi a alma que escureceu. Demência depressiva, esse foi o primeiro nome. Alzheimer veio substituir o primeiro e manteve essa posição até ele morrer.

Cheguei a Portugal no inverno. Chovia que Deus a mandava, e tive vontade de voltar para África enquanto a via cair pela janela do avião. De vontades está o mundo cheio, e a minha não há de ser diferente das outras. Subjuguei-a ao dever moral, ao apelo silencioso de uma consciência em colapso.

Atravessei o Tejo e aluguei uma moradia em Vila Nova de Santo André. No mesmo dia, fui ao lar ver o meu pai e decidi, naquele momento, que o iria acompanhar na sua última caminhada. O dinheiro não seria um problema, pelo menos foi isso que eu pensei na altura. Trouxe-o para casa no final do mês. Durante um ano, ainda soube o meu nome. Eu passava os dias com ele. As rotinas repetiam-se religiosamente, e recuperei o meu gosto pela guitarra. A doença gostava de música, e eu aprendi a apaziguar o seu temperamento instável. Recomecei a escrever e fiz desse hábito um relato muito pessoal da vida de um cuidador. Não pedi ajudas ao Estado, apenas porque tinha uma descrença endémica nas instituições governamentais. Ao fim de dois anos, o estado do meu pai obrigou-me a contratar alguém para me ajudar. Mais uma vez, entreguei a minha vida. Se em Angola foi o corpo, em Portugal foi a alma.

 

Tenho a impressão de estar a esquecer alguma coisa. Faço um esforço para me recordar e acabo por chorar sem saber porquê. Fecho mais os olhos e procuro dentro de mim a razão para aquelas lágrimas. Quando os abro, percebo que procurei um vazio. Quem foi que apagou o sumário do quadro antes de eu ter tempo de o passar para o caderno? Ninguém se acusa? Eu só quero saber o que se passou. Consigo distinguir todos os pormenores do quarto, apesar de ser noite e de as luzes se encontrarem apagadas. A minha visão melhorou muito. Adquiri algum tipo de superpoder. Sou herói de mim mesmo. Estou no meio da rua e vejo-me esvoaçar com a capa presa ao pescoço. Reconheço, nas letras que ela ostenta, a minha identidade postiça. O “Supereu”, sou “Superdeus” do meu mundo. Aquele SE na capa diz muito sobre a minha vida. A noite está quase no fim. Da janela do meu quarto vê-se o nascer do sol, e os galos já o anunciaram há mais de uma hora.

2026-06-16

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo quinto acto; Filomena

 Os meus pés andaram perdidos e só se encontravam ao balcão de um qualquer estabelecimento que vendesse bebidas alcoólicas. Conheceram a noite e abraçaram-na com uma entrega que não estabeleceu limites, nem os do esquecimento.

Bebe, que quem te leva sou eu. Antes de a luz chegar, ao abrigo dos astros no céu, quantas vezes vou tropeçar e carregar o que é teu. Encostar-te o corpo ébrio nas esquinas da cidade e ver-te chorar e rir sem qualquer necessidade; procurar no fundo do bolso o conforto de uma cama que não te ama. Deixaste peúgos espalhados em cama alheia, enquanto o corpo se deitava numa teia. Não conhecesse eu a cidade e terias dormido na rua, encostado às portas da estação, com baba no canto da boca, sonhando por uma vida que não fosse oca. De madrugada, às primeiras horas da manhã, obriguei-te a comer canja com folhas de hortelã. Guiei-te por becos que não recordas, enquanto bebias sobras; os olhos pesados da culpa que inventaste para te punir onde falhaste. Nunca olhaste para mim, nunca me perguntaste porque te dizia sempre que sim. Quem te fala é o meu irmão, o pé direito. Mas eu, que sou esquerdo, dir-to-ia do mesmo jeito.

 

O tempo voa. Ainda agora falava com o Pedro e quem está ao meu lado é você. Não me entenda mal, enfermeira Filomena, eu não tenho nada contra si. É que, num repente, a tarde foi-se, desapareceu como por magia. Posso fazer-lhe uma pergunta? Agora que estou melhor, quando é que me mudam de quarto? Sabe, eu gostava de estar num quarto com televisão, daqueles que têm horário para as visitas, e onde os doentes se podem levantar e passear pelos corredores. Eu sei que não depende de si, mas podia dar uma palavrinha ao médico. Por mim? Não é preciso prometer. Eu acredito em si. Enfermeira Filomena, já lhe disse que é muito parecida com a minha mãe? Não me olhe dessa maneira. O que eu quero dizer é que a imagem que guardei dela tem muitas semelhanças consigo. A minha mãe morreu muito nova, ainda não tinha chegado aos cinquenta, além disso, parecia ter menos idade. Ela era muito bonita e estava sempre bem arranjada, por isso não deve ficar ofendida com a comparação. Estivesse ela viva e a minha vida nunca teria dado a volta que deu.

Lá estou eu outra vez a planar por cima do quarto. Junto da minha cama, a enfermeira Filomena aconchega-me a almofada. Ia jurar que ela olhou para mim e sorriu. Devo estar a sonhar. Estar tantos dias fechado confundiu-me o juízo.

Onde estou agora? O meu corpo está sentado à mesa com a Cecília. O meu filho também lá está. Já está tão crescido! Que idade terá ele? Espera! Isto foi no dia em que disse à Cecília que tinha um assunto sério para falar com ela. Reconheço aquela expressão que me informava não serem necessárias muitas palavras. E não foram mesmo necessárias. Ela ditou as condições do divórcio e eu aceitei em silêncio. Enquanto eu andei entretido com o sindicato, com o partido e com a Maria do Carmo, ela tratara sozinha dos papéis do divórcio. Estava mesmo acabado! E não me refiro à relação. Na altura, deve ter sido um alívio para ela o nosso casamento ter terminado. Olho para mim e mal me reconheço. Estou magro, tenho barba de preguiça, olheiras de solidão, uma cor macilenta na pele, unhas grandes e sujas, cabelo comprido desgrenhado e uma roupa que tinha dias a mais no meu corpo. O meu filho olha-me sem ressentimento, mas com uma tristeza profunda. Como foi possível eu não ter olhado para a sua cara? Deixa-te de merdas, tu sabes bem porquê! Tinhas acabado definitivamente com a Maria do Carmo e tinhas apanhado uma bebedeira de caixão à cova. Mas não te ficaste por aí! Foste para uma reunião com a administração totalmente ressacado e sem ter dormido. O teu hálito cheirava tanto a álcool que te colocaram na ponta da mesa. Só não foste despedido porque estavas a tempo inteiro no sindicato. Só depois foste para casa, onde chegaste naquele estado.

A Cecília deixou-me dormir lá em casa nessa noite. Quando acordei de manhã, sabia o que tinha de fazer. Pouco queria levar: meia dúzia de livros que ainda não tinha lido, a minha viola, os CDs do Zeca e uma mala de roupa. Consegui um quarto numa pensão em Lisboa. Nesse tempo, ainda se conseguiam estes pequenos milagres. Este foi o primeiro de muitos quartos onde vivi. Liberto de responsabilidades, fui de mal a pior. Meti baixa psicológica e alimentei-me com uma mistura explosiva de antidepressivos e álcool. Passados poucos meses, comecei a falhar com a pensão de alimentos. A Cecília perdoou-me essa falha, mas não fez o mesmo quando faltei aos fins de semana com o miúdo. Foram tempos muito difíceis. Ainda hoje me dói pensar neles.

 

O que se passa, Filomena? Porque estão tantas batas brancas à minha volta?

 

A Rosa trabalhava numa fábrica na Amadora. Conheci-a num plenário e nunca mais a tinha visto até aquele dia. Encontrei-a por acaso junto ao estádio do Estrela. Eu tinha-me mudado há pouco tempo para um quarto que arrendara na Damaia e vagueava sem destino por ruas já esquecidas. Foi ela que me convidou para jantar. Vivia perto da praça da igreja, com a mãe e um cãozinho branco de raça indeterminada. O pai tinha morrido, havia um ano, com um tumor nos pulmões, presente da tabaqueira, a premiar, com diploma dourado, os cinquenta anos de consumo intensivo. Foi à mesa daquela casa modesta que eu me rendi à mãe de Rosa. Sim, Dona Amélia, um dia destes trago cá o miúdo. Esta promessa não foi um pacto de sangue, mas teve o mesmo efeito: deu-me o incentivo que a Rosa não conseguira dar-me sozinha. Primeiro os comprimidos, depois o álcool e, por fim, o abuso de haxixe; larguei tudo em menos de um mês. Já morava com elas e, durante esse mês, nunca saí de casa sem a sua companhia. Não vou mentir, sofri imenso, principalmente da cabeça, mas estava focado e determinado a cumprir a minha promessa. Nos meses seguintes, tudo se passou muito depressa. Larguei o sindicato e o partido e pedi a reintegração no meu posto de trabalho. Equilibrei as minhas contas e voltei a pagar a pensão de alimentos. Só faltava cumprir a minha promessa à Dona Amélia. Demorei algum tempo até ganhar coragem para voltar a ver o meu filho.

 

Vejo-me à porta do meu antigo apartamento. Tenho o cabelo cortado muito curto e a barba aparada. Não estou deslumbrante, mas o meu aspeto é asseado. A roupa ainda cheira a nova e empresta-me uma outra idade, uma outra identidade, talvez mais dignidade. Tenho orgulho naquele homem que se apresenta àquela porta com uma postura tímida, quem sabe, envergonhada. Resisto à vontade que tenho de o abraçar. Entretanto, a porta abriu-se e quem aparece é um menino feito homenzinho, como acontece a todos aqueles que a vida fez crescer mais depressa. O homem que está à porta olha para o rapaz e tem dificuldade em suster as lágrimas. O miúdo devolve o olhar do pai com uma serenidade demasiado madura para a sua idade. Cecília aparece por detrás dele e pergunta-lhe: “Não dás um beijo ao teu pai?”. Vejo o rapaz abraçar-me e dar-me um beijo na face. Não consigo perceber, mas ia jurar que o homem foi incapaz de impedir que uma lágrima se libertasse e escorresse discreta pela face oculta da cara. Falta-me coragem para assistir ao que aconteceu depois. Ainda me lembro do esforço que aquele homem fez para não cair aos pés de Cecília e implorar que ela o aceitasse de volta. Nesse dia, levou o seu filho para a casa da Rosa e pagou finalmente a promessa que havia feito à Amélia.

 

Será que não saem de cima de mim? Mas, o que é que se passa que não me deixam em paz.

 

Julguei que era mais forte, mas os contactos regulares com a Cecília deram cabo de mim. De tal forma fui egoísta que ansiava pelos fins de semana com o meu filho apenas para a ver por breves instantes. Não queria admitir, mas estava novamente apaixonado por Cecília. O que se passou depois fui só eu a ser eu próprio. Fraco a confessar sentimentos, não aguentei quando vi aquele homem bem parecido e de aspeto saudável que um dia abriu a porta do meu antigo apartamento. Fugi, que mais pode fazer um cobarde? Abandonei quem me ajudou e abandonei o meu filho. Incapaz de resolver o meu conflito interior e sem coragem para ser honesto e admitir o que sentia, menti à Rosa e parti. O que me custou mais foi despedir-me da mãe de Rosa. A Dona Amélia tinha um sexto sentido que a avisava de que eu não estava a ser honesto e que isso faria sofrer a sua filha.

 

A enfermeira Filomena olha entristecida para mim. Não olha para o meu corpo, mas para cima, como se quisesse dizer-me alguma coisa. De repente vejo-me novamente no meu corpo. Este vai e vem, está a dar cabo de mim.

 

Que mentiras eu contei, que meias-verdades deixei escapar? Disse que o dinheiro era pouco e que tinha recebido uma oferta para ir trabalhar para Angola que era irrecusável. Disse também que era um trabalho de gestão e que poderia vir a casa de três em três meses, por períodos de quinze dias. Iria enviar dinheiro todos os meses para ajudar no que fosse necessário e que a amava muito.

Fui eu que me ofereci para ir trabalhar para a plataforma de exploração de petróleo como técnico especializado de manutenção. Receberia muitíssimo bem, e em dólares. Efetivamente, poderia vir a casa de três em três meses, mas eu tencionava aproveitar todo o tempo livre para ganhar mais dinheiro. Mantive uma renda generosa à Rosa durante quatro anos; foi esse o tempo que demorou a substituir-me. Quanto ao amor, decidi guardá-lo numa gaveta e deitar fora a chave. Do dinheiro ganho, reparti-o em quatro partes iguais: uma para a Rosa, outra para mim, uma para a Cecília, e a última parte numa conta cujos titulares eram o miúdo e eu.

O miúdo atingiu a maioridade ainda eu trabalhava na costa africana. Por essa altura, a Rosa deixou de me escrever. As redes sociais começavam a ocupar o espaço de convívio, mas eu não fui seduzido; por isso, só havia três formas de entrar em contacto comigo: o telefone, que eu não atendia, o mail, que eu lia ao final do dia, e as cartas, que me davam uma agradável sensação de proximidade e às quais eu respondia regularmente. Durante todos esses anos, foi assim que mantive a ligação com o meu filho. Tenho guardadas todas as cartas que me escreveu. Estão guardadas na minha mesa de cabeceira. Ainda hoje as leio com nostalgia desses tempos de solidão.

É noite, e o quarto está vazio. Ao longe ouço a voz do Fernando. Vem fazer o turno da escuridão. Quem sabe se não estará com paciência, e eu possa recordar com ele um dos momentos mais traumáticos da minha viagem por este mundo. Cala-te, Jorge, que ele vem ai.

 

2026-06-15

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo quarto acto; Pedro

 Não tenho como saber se eles voltarão a andar. Gostava de os confortar com palavras de incentivo. Olharia para eles, olheiras nos calos, e debitaria parágrafos repletos de lugares-comuns disfarçados de originalidade e inteligência. E eles, do alto das suas micoses, ficariam de dedos à banda com o meu saber das coisas do mundo. Veriam refletido nas minhas ramelas um charme de reputada dimensão. Isto, porque quem ama é cego a pequenas nódoas de personalidade.

Não temos essa cegueira de que falas. Conhecemos-te todas as nódoas, todas as imperfeições de carácter que nos fizeram dar passos inúteis. Repara como fomos gentis. Poderíamos ter referido os caminhos errados que nos obrigaste a percorrer. Mesmo estando sós, tu numa ponta e nós na outra, não há de ser a distância que nos vai separar. Sempre ouvimos dizer que os extremos se tocam. Tu, do alto, e nós, cá em baixo, na prática queremos a mesma coisa. Não é por comeres carne e nós o pó que tens mais valor. Esquece lá isso da cegueira por amor. Se não precisássemos de ti, já tínhamos descalçado esta bota há mais tempo. Mas não penses que ficas melhor sem nós.

 

Pois é, Pedro. Às vezes andamos uma vida toda enganados só porque não queremos ver. Peço desculpa se estou a incomodar. Pelo que vejo, continua de greve. Esse autocolante ao peito não engana. Quer que lhe conte uma história engraçada? É sobre a greve de 98, aquela greve que todas as pessoas julgavam impossível. Quer que eu não me mexa? Mas, ó Pedro, eu já não consigo mexer nada! Mais quieto do que isto, só depois de morto, e mesmo assim não sei. Olhe que há por aí mortos muito irrequietos. Basta ver as notícias para confirmar a sua teimosia. Há aqueles que morrem no hospital e fogem da urna só para apoquentar familiares pesarosos e direções incompetentes. Também há aqueles que morrem na guerra e depois se escondem em valas comuns para aborrecer os zelosos funcionários da guerra. Há aqueles outros que toda a gente sabe que morreram, mas que se mantêm desaparecidos. Esses lembram-me alguns miúdos lá da rua que continuavam escondidos, mesmo depois de o jogo acabar. Você não imagina a raiva que isso me dava. Com o tempo contado até à berraria do jantar, e eles enfiados sabe-se lá aonde. Existem mortos aos quais se perdoa a teimosia. Como pedir ao cadáver de uma criança soterrada em Gaza para acudir aos apelos dos pais, até porque também podem estar mortos? Mal é arrebanharem esses corpos infantis e fazerem de uma vala algo banal e comum. Estou a ser inconveniente? Não? Ainda bem. Sabe, Pedro, é que, depois de perder a voz, tornei-me um fala-barato. Afinal, sempre quer ouvir a história da minha greve? Foi a primeira como delegado sindical. Isto não há amor como o primeiro. As primeiras reuniões, os primeiros plenários do lado de lá, os primeiros confrontos com a administração, a adrenalina da desobediência, que, mesmo legal, era sujeita a pressões e ameaças. Sim, Pedro, mas isto sempre teve consequências. Só depois da greve é que as sentíamos, mas fazia tudo parte do jogo. A vida não passa de um enorme jogo coletivo onde cada um de nós decide o que há de apostar. Nem sempre se aposta dinheiro e nem sempre se ganha dinheiro. Às vezes ganha-se vida; outras vezes perde-se parte dela. O mais importante é não a perder toda. É verdade que nem sempre estamos dispostos a correr riscos, mas o sentimento de injustiça pode ser avassalador, e a necessidade de deitar cá para fora tudo o que engolimos pode levar-nos a pôr as fichas todas na mesa. Acho que foi isso que me levou à subcomissão de trabalhadores e, depois, ao sindicato. O partido veio no fim, e foi por sua causa que acabei por largar tudo. Você deve estar a pensar: porque não vai este indivíduo diretamente ao assunto? Eu prometo que não vou mais engonhar. A partir de agora vai tudo de seguida. Passei duas semanas que mal fui a casa. Saía do trabalho e ficava por lá a reunir nos setores com os trabalhadores. Quando chegou o dia da greve, fiz parte do piquete durante três dias. Íamos à vez dormir um pouco na sala da subcomissão, onde havia duas cadeiras e uma mesa. Eu, como não era muito grande, encolhia-me e dormia em cima da mesa. O meu camarada Rui, sei que dormia no chão. Não vou entrar em pormenores e vou direto ao ponto que interessa: a greve foi um sucesso e quebrou um longo jejum de lutas inconsequentes. Com esta adesão, levaríamos outros argumentos à mesa das negociações. No último dia, cansados, sem tomar banho, mas eufóricos por tudo o que acontecera nesses três dias, fomos almoçar a uma churrasqueira que havia na zona industrial. Era uma casa com preços para a malta que trabalhava na ferrugem, de longos bancos corridos, de madeira gasta, e mesas sempre cheias. Nesse dia, para não variar, a casa estava a abarrotar e quase não ouvíamos o que cada um dizia. Pedimos jarros de tinto, febras grelhadas com batata frita e, para entrada, uns queijos secos, pão e azeitonas. A meio da refeição, deixei de ouvir o Rui, que estava ao meu lado. Quando olhei para ele, não queria acreditar no que via. O Rui dormia abraçado ao prato, com a cara encostada às febras, que lhe serviam de almofada. Quando chamei a malta à atenção, todos desatámos a rir. Com a galhofa, o Rui acabou por acordar. Olhou, estremunhado, para nós, resmungou meia dúzia de palavras que ninguém percebeu e continuou a comer como se não fosse nada com ele. O mais engraçado é que nem a cara limpou, e o molho das febras escorria-lhe pela face e ameaçava pingar pelo queixo. Está a entender, Pedro? Era muito mais do que a luta. O verdadeiro combustível que nos alimentava nesses dias era a camaradagem e a solidariedade, a certeza de um ombro ao nosso lado que não nos deixaria vacilar. Pedro, você já sentiu essa força? Estou a incomodar, não é? Vou deixá-lo sossegado. Agora que já posso comer pela minha mão, vou aproveitar esta sopinha enquanto ainda está quente. 

2026-06-12

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo terceiro acto; Fernando

 Levarei a imagem dos meus pés; mais não será necessário. Os meus pés já não se arrastam, não percorrem a fábrica para lá e para cá, não se esgotam nos corredores das administrações, em negociações infindáveis, ou nas inúmeras reuniões do partido. Estão leves. A ausência do seu peso faz-me duvidar da sua existência material. Talvez noutra dimensão lhes possa tocar. A estranha leveza dos meus pés poderia ser objeto de um estudo científico sobre a imaterialidade morfológica dos membros inferiores. Temos tanto orgulho na verticalidade adquirida que distinguimos as classes através duma escala baseada nessa posição relativa. O que dizemos de quem se dobra? E de quem se coloca de joelhos? E de quem se deita em submissão suprema? Quem não aspira a ter o mundo a seus pés? E o supremo orgulho de morrer de pé? De fincar o pé? De não arredar o pé? E aquele conselho que nos diz para não irmos para fora de pé? Tem cuidado, não fiques sem pé! Enfim, um sem-número de pés que regem as nossas relações. Que dizer das ordens: “Chega-te ao pé de mim!”; “Não te quero ver ao pé de mim!” Ou da fanfarronice: “Fui eu que lhe dei com os pés” ou “mantive-me de pé”. Também os queixumes têm os seus pés: “Levei com os pés” ou “levei um pontapé”. Se quiser ameaçar alguém, também há pés que podemos usar: “Levas um pontapé” ou “corro contigo ao pontapé”. E qual é o jogo mais popular? Se responderam em português, posso então perguntar-lhes qual é a parte do corpo mais usada nesse jogo?

Levarei uma imagem difusa dos meus pés, e a minha verticalidade deixou de estar neles.

 

 

Vou deitado, disso não tenho dúvidas. Neste momento, não venho nem vou. Deitado estou e assim permanecerei. Com um sorriso nos lábios, procurando caminhos com astrolábios que comprei numa terça-feira, em Lisboa. Digo coisas à toa, mas juro que sou boa pessoa. Perguntem na minha rua se o Jorge uivava à lua, se a vida que viveu foi maior do que a sua. Não irão encontrar quem se lembre do chão que pisei. O meu rasto fui eu que o apaguei. Fugi num dia de verão e nunca mais voltei. Quis o destino que fosse essa a viagem, que atravessasse o rio para a outra margem.

 

Fernando, está aí? Consegue ouvir os meus devaneios? Continuo deitado e viajo para outro lado.

 

A greve está marcada para quinta e sexta. É um piscar de olhos ao horário normal, que também agrada ao turno das 8 às 16. Escolhemos, para começar a greve, um turno de fortes convicções. É muito importante arrancar com um turno forte, mas não podemos dar nada como garantido. A indignação e a revolta que nos fazem lutar têm de ser cuidadosamente regadas. Com falta de água morrem; com excesso dela, apodrecem. A monitorização dos dias que antecedem a greve é fundamental. Entre outros, é esse o papel do delegado sindical. Somos batedores que vivem na trincheira e sentem a mesma fome. Somos os olhos da Direção Distrital. É na Direção Nacional que toda a informação é centralizada. Compete aos membros da direção assumir as negociações nas reuniões com as entidades patronais. Eventualmente, alguns delegados podem estar presentes. Enquanto delegado, sempre preferi ficar na fábrica.

 

Nos dias em que estava escalado para rondas de esclarecimento, ia para a fábrica à meia-noite. Levava uma pequena mochila com sandes, sumos e três maços de SG filtro. Geralmente éramos três, eventualmente dois. Muito raramente íamos sozinhos, mas também podia acontecer se o setor fosse o nosso local de trabalho. Nem sempre isso era uma vantagem, pois os santos da casa tendem a perder os poderes milagreiros. Nalguns casos mais bicudos, chegávamos a pedir ajuda a um membro da direção, geralmente alguém com muita experiência e que não se perturbava quando as discussões aqueciam. E aqueciam sempre. Às vezes, levantavam fervura e vinham por fora. Tínhamos sempre como limpar esses derrames: um cigarro, um café e uma conversa a sós, com as estrelas como únicas testemunhas. Ia-se o ímpeto heroico e revelava-se o homem. As diferenças desvaneciam-se e perdiam importância. Todos queríamos o mesmo: mais dinheiro, tempo livre, condições no local de trabalho. Depois vinha o resto: os subsídios, o tempo para a reforma, o preço da hora extra, as férias frias, o prémio de regularidade, a assiduidade, a prevenção, o seguro de saúde, tudo preto no branco e assinado no acordo coletivo de trabalho. Tudo selado com um forte abraço e sem ressentimentos. Agora só faltava a promessa de adesão. “Então, estás com a malta?”; “Deixa-me pensar, pá! Sabes que não é uma decisão fácil. Eu contava meter cá o miúdo para o ano, estás a ver?”. E eu via sempre, ou pelo menos tentava. Às vezes era eu que fazia de “polícia mau”. Tudo era combinado com antecedência. Havia pouca margem para improvisos emocionais, e mesmo esses eram antecipados e tinham um plano de fuga. Éramos uma máquina bem oleada, e tenho muito orgulho no que conseguimos com as lutas reivindicativas dos trabalhadores. Na direção nunca senti este tipo de satisfação. Há pessoas que não são talhadas para funções dirigentes, e eu sou uma delas. Se passei despercebido, foi apenas porque sou bom a disfarçar a mediocridade.

 


2026-06-11

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo segundo acto; Filomena

Começam a faltar-me adjetivos para descrever os meus pés. Já lhes tracei finalidades e preconceitos, sem me esquecer das suas imperfeições. Agora, deixo-os andar.

 

A passagem do turno ocorre no meio de um burburinho que não é usual. Tento virar ligeiramente a cabeça para satisfazer a curiosidade. Ao fim de algum tempo, consigo obter um ângulo de visão que me permite olhar para as duas batas brancas. Ambas ostentam dois círculos vermelhos com a seguinte afirmação: “Estou em Greve”. Como é possível que não tenha reparado naqueles círculos que gritavam furiosamente o seu protesto? Apurei o ouvido e fiquei a saber que a greve começara no turno da noite. Tendo de cumprir os serviços mínimos, aqueles dísticos afirmavam a sua adesão. Naquela ala, pouco havia para poderem afirmar a sua luta. Soube que não haveria visitas, mas isso não me incomodava. Estava solidário com a sua luta e, se conseguisse falar, teria dito de minha justiça. Falaria dos dias sem dormir para garantir a adesão dos trabalhadores, das horas passadas nos piquetes para manter o ímpeto reivindicativo, dos olhos vermelhos que se mantinham abertos à força de grandes quantidades de cafeína, dos comunicados que eram distribuídos ainda mornos da impressão recente e dos anos que acabaram por dar cabo da minha relação com a Cecília. Que digo eu? A bata branca aproxima-se e consigo ver a indignação que lhe corrói a alma e a faz duvidar da sua decisão precoce. Foi por causa do seu avô que decidiu abraçar a profissão. Foram dois meses de visitas diárias ao hospital. Saía do velho edifício com lágrimas a escorrer pelo rosto, num choro compulsivo que exasperava a mãe. Eram as batas que lhe apaziguavam o coração. Seria enfermeira para cuidar do corpo aos avôs e da alma às netinhas. Teria Filomena feito essa confissão tão pessoal? É provável que assim tenha acontecido. Um moribundo é sempre um ótimo confessor. Não poderia haver melhor prova de sigilo. Digamos que é algo inerente à função de acamado. Até na doença devemos ser profissionais. A Filomena tem um turno descansado. No dia anterior esvaziaram a sala e, durante a greve, só dariam entrada casos urgentes. Por estarem sós, a Filomena foi buscar uma cadeira e estacionou junto dele com uma revista no regaço. Aquela bata branca ainda sentia o apelo do cheiro a tinta impressa em papel novo.

 

Cumpri o serviço militar durante ano e meio. Perdi a minha mãe enquanto perfilava em frente do Convento de Mafra. A ocasião era solene. O Presidente da República era Mário Soares, que cumpria o seu primeiro mandato. Era um homem que gostava de sair do Palácio de Belém; por esse motivo, não foi de estranhar que tivesse ido assistir ao concerto de carrilhões que inaugurava a sua restauração após um longo período de inatividade. Terá falecido às primeiras notas metálicas do bronze recém-polido? Quero acreditar que sim. Duas semanas antes, vi-a pela última vez. Detido no quartel, junto à casa da guarda do portão norte, dispondo de alguns metros quadrados, uma tarimba para dormir, um buraco para o que saísse cá de dentro, um chuveiro com água à temperatura ambiente e uma janela que nunca deixava ver o sol, decidi deixar de comer. Não cedi a ameaças de agravamento da pena nem às palavras piedosas do major capelão. Estava decidido a levar o meu ato até às últimas consequências, e só a raiva me impedia de chorar. Para passar o tempo, tinha um rádio que também lia cassetes. O único problema é que, sem eletricidade, tinha de usar pilhas. Ao fim de um dia, já só ouvia rádio. Tinha também um caderno quadriculado e uma caneta que me trouxeram da secretaria da companhia, e nos quais fiz o relato poético do meu cativeiro. Ah, não me posso esquecer do meu camarada Reis, que trabalhava na tipografia do quartel e que me fez uma cópia artesanal de um livro de poemas de Ian Curtis, vocalista dos Joy Division. Não sei se foi a minha teimosia, se por intermédio do meu pai, mas acabei por ser chamado ao tenente-coronel. Compareci ladeado por dois camaradas armados com G3, a célebre metralhadora de fabrico alemão que equipava o exército regular português. Estranha arma que simbolizou a guerra em África e, mais tarde, se transformou num símbolo da revolução e da liberdade. Para tal, bastou apenas colocar uma flor no seu cano, um cravo vermelho. Assim fica provado que o significado dos objetos depende do uso que se lhes dá. Estou a perder-me em rodriguinhos e voltinhas. Mas o que é que quer? A cabeça é mesmo assim. Umas coisas levam a outras e, quando damos por nós, estamos enredados em filigranas de pechisbeque. Não se vá já embora, que eu estou quase a acabar. A minha mãe está quase a morrer, já não falta muito. Obrigado, enfermeira Filomena, você nem imagina o bem que me faz. Então, é assim: fui ao gabinete do comandante, onde o meu pai também se encontrava. Tudo indicava que o meu pai explicara a situação ao comandante e que ele concordava em me deixar ir ver a minha mãe. Para que isso sucedesse, só eram necessárias duas coisas: eu tinha de voltar a comer e o meu pai comprometia-se com o meu regresso ao quartel para cumprir o resto da pena. Não tinha como não aceitar. No dia seguinte, desloquei-me ao IPO com a farda de saída. Foi o meu pai que me levou, mas não foi ele que me trouxe de volta ao quartel. A minha mãe tinha pedido para se maquilhar e estava tão bonita. Parecia impossível que não viesse a aguentar até ao final do mês, apenas quinze dias depois do meu vigésimo segundo aniversário. Escrevera uma carta para eu ler depois. Só não lhe digo o que ela escreveu para não me desfazer aqui, num pranto de criança. Antes de voltar para o quartel, tomei uns drunfos e bebi uma carrada de aguardentes na Rua do Coliseu. Sei que enchi a farda de crachás: Sex Pistols, Clash, Jim Morrison; destes eu lembro-me. Depois? Devo ter apanhado o comboio para o Cacém e, depois, um que me levasse para a Malveira. Não lhe consigo dizer mais nada. No dia seguinte, estava outra vez atrás de grades.

Está a fazer-se tarde, enfermeira. Lá fora já escureceu e, daqui a pouco tempo, será rendida. Antes de se ir embora, não se esqueça do meu comprimido para dormir. Também lhe desejo uma noite descansada.

2026-06-09

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo primeiro acto; André

Os meus pés estão junto dos teus. Que felizes foram os meus pés. Dormiam dedos com dedos, entrelaçados em carinhos miúdos. O que aconteceu aos nossos pés para ficarem de calcanhares voltados, dormindo cada um para seu lado, caminhando cada um na sua direção? Aconteceu o que acontece a todos os pés que deixam de partilhar o mesmo caminho. Mais dia, menos dia, acabam por ficar tão afastados que não se conseguem ouvir. Nunca voltei a ter, junto dos meus, uns pés como os teus. Os meus pés estão junto dos teus: é esse o seu sonho, o seu desejo. Se o sonho não se concretiza, a culpa não é deles. Mais acima, a parte racional do corpo decidiu de outra forma. Cada cabeça por si, sem olhar a meios, afastou estes pés que tanto se amaram.

 

Estou feliz. O André voltou para a minha beira. O quarto encheu-se de sol. Terá sido a sua presença? Seja qual for a razão, sinto-me menos morto, mais presente. Não falo e não me mexo, mas estou em paz, e isso é quanto me basta. Já só me alimentam pelas veias. Por lá entra tudo o que necessito para continuar vivo.

 

Sei que a decisão foi dos dois, mas não partilhámos a verdadeira razão. Pelo menos foi isso que aconteceu comigo. Quero acreditar que o motivo foi semelhante, mas nunca poderei ter a certeza. Hoje, o tempo é escasso para confissões tardias, e de convicções está o mundo cheio. Recordo a minha, para ficar registada a minha confissão, o meu propósito egoísta. Pode ser que sirva de atenuante quando estiver na presença do tribunal divino. Sim, Sr. Doutor Juiz, sua meritíssima excelência, agora em minúsculas, para não abusar, eu admito que o fiz sem amor, apenas com o objetivo de salvar a minha relação com a Cecília. Não, meritíssimo, agora com letra maiúscula, para amansar a sua ira, o meu casamento não foi católico. Posso mesmo afirmar que não teve nada de católico. Mas o que poderia ser católico numa relação repleta de imponderáveis e construída sobre compromissos improváveis? Se rimou, a culpa não é minha, mas dos termos do nosso contrato, que nos permitia desacordos sem necessidade de compromissos. Posso afirmar que fomos de desacordo em desacordo até ao desacordo final. E foi isso mesmo o que aconteceu: eu, perdido na revolta, e ela, farta de mim. Como podia eu assumir a paternidade sempre fora de casa, e com tantas tentações? Eu sei que a carne é fraca, mas a cabeça poderia ter compensado essa fraqueza. Tudo começou num plenário na fábrica. Eu já era delegado sindical, mas foi aí que aceitei o desafio. O cargo de dirigente sindical era muito mais exigente e obrigava a um altruísmo ao qual eu não estava habituado. Bem diz a sabedoria popular que uma coisa é falar, e outra é fazer. Se tive boas intenções, disso não tive dúvidas. Entreguei o corpo e a alma à função, também por orgulho, com medo de me mostrar incapaz de desempenhar a tarefa, de desiludir quem tinha apostado em mim. É aqui que entra em cena uma mulher roliça, de olhos verde-esmeralda. Ela trabalhava no secretariado do sindicato, mas também fazia parte dos quadros do partido. Tinha estado na preparação daquele célebre plenário, e fora ela que me recrutara para dirigente. Não será necessário somar dois mais dois para chegar ao número quatro, e quatro foi demais. André, tenho pena de que não me consiga ouvir. Gostava de saber o que você teria feito se tivesse conhecido uma mulher como a Maria do Carmo. Entreguei-me, totalmente seduzido. Tudo nela me seduzia, mas o que mais me atraía era o seu carisma. Aos quarenta anos de idade, era totalmente independente. Foi mãe solteira aos quinze anos, começou a trabalhar na fábrica aos dezasseis, e aos dezoito já militava no partido. Daí para a estrutura do partido foi um pulinho. Manteve-se ligada ao movimento sindical, onde ganhou fama pela sua capacidade de mobilização das forças trabalhadoras. Os homens não se serviam dela; era ela que se servia deles. Foi também esse o meu caso. Escusado será dizer que, da frustração ao álcool, não demorou mais de um ano. Entretanto, a Cecília cuidava do miúdo sozinha. Se alguma razão havia para o nascimento daquela criança, no que dizia respeito à minha pessoa, ela tinha perdido a validade. Tudo o que me aconteceu depois foi inteiramente merecido. Hoje, olho para o passado e percebo porque me quis castigar, mas percebo também que castiguei o meu filho. Para tapar um buraco, abri outro ainda maior. André, se você me pudesse compreender, dar-me uma palmadinha nas costas como prova da sua solidariedade, olhar-me nos olhos e dizer qualquer frase que me ajudasse a conciliar-me com o passado... O André já não me está a ouvir. Quando estamos bem, o tempo voa, mesmo quando o bem é relativo.

2026-06-07

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo acto; Fernando

 Tenho os pés para a cova, mas nem sempre os tive nessa direção. Também é verdade que houve alturas em que não estiveram assentes no chão, mas a culpa não foi deles, a cabeça é que andava no ar. Seja como for, acabaram por ser eles a levarem-me ao altar. E tão elegantes que eles iam. Um pouco apertados, mas elegantes. Nessa noite acabaram a dançar sozinhos. Eu devo ter deixado de os sentir após não sei quantos balões de brandy. De manhã percebi que não os tinha abandonado. Estou a ser injusto, foram eles que não se esqueceram de mim e me deitaram na cama. Traí a Cecília logo na primeira noite, e com uma garrafa de brandy. Os meus pés perdoaram-me, mas a Cecília não foi capaz de esquecer.

 

Olho para o quarto e vejo-me deitado. Por cima do mundo, observo o meu corpo doente. Quanto tempo lhe resta? Um dia destes, abalo de vez e abandono-o à sua sorte. Não sei qual será o seu destino. Não deixei nada preparado e o dinheiro que tenho no banco mal chega para as despesas. Quem se irá preocupar com o destino do invólucro biológico de um homem solitário? Será que vão chatear o meu filho? Deus queira que não. Talvez o Estado trate de tudo e me conceda um funeral com suficiente dignidade para poder afirmar que não deixa ao abandono nenhum dos seus cidadãos. Uma vala comum com vista para o mar, não vá o diabo tecê-las, e os olhos saírem das órbitas e voltarem à superfície para um último olhar. Seria algo digno de ser visto.

Continuo a ver o meu corpo, mas já não está sozinho. Ao seu lado está o corpo de Cecília. Tão novos os dois, navegando em lençóis de paixão carnal. Acabaram de fazer sexo e estão ambos ofegantes. Reconheço o T1 para onde fomos viver juntos em meados dos anos noventa. A renda levava um terço do nosso rendimento e o resto das despesas não nos deixava folga para grandes avarias. O país andava eufórico com o dinheiro da Europa e os portugueses sentiam-se uns centímetros mais altos. O que é certo é que o dinheiro chegava às pessoas certas para manter uma maioria. Embora não tenha sido contemplado com uma teta gorda, este foi o período mais feliz da minha vida. Amava e sentia-me amado como nunca me tinha acontecido antes. Já não sonhava com bandas de rock, mas o meu gosto pela música manteve-se. Continuei a tocar a minha guitarra acústica, uma Maison de cordas de nylon, e a ouvir muita música. Os CDs surgiram por esta altura, mas o preço era proibitivo para a minha bolsa. Isto, já para não falar dos leitores de CDs. Mas a minha Cecília tudo compensava, o amor e uma cabana, algo em que eu não acreditava. Quanto tempo durou o paraíso na Terra? Julgo que até ao começo do século XXI. A eternidade tem pernas curtas e a minha felicidade também. Não foram necessárias maçãs, serpentes, ou árvores, bastou o quotidiano sem expectativas para corroer as fundações da nossa relação. É sempre assim, quando nos esquecemos dos trabalhos de manutenção, não há edifício que aguente. Esta foi a primeira e a última relação estável que construí. Mas tenho de ser justo, mesmo com um final infeliz, houve algo que prevaleceu e nos manteve em contacto. O nosso filho nasceu já no final da nossa relação e cresceu com a culpa da nossa separação. Esse estigma acompanhou-o até deixar de me falar. Tenho na minha ideia que deixou de me querer ver quando entendeu, finalmente, que a culpa que carregou durante tantos anos não era sua. Seja como for, nunca deixei de o amar. Posso até afirmar que é graças a ele que estou vivo, pelo menos por enquanto.

 Voltei ao meu corpo. Estou novamente imóvel, novamente refém de tubos e de máquinas. O enfermeiro Fernando dorme. Consigo antecipar a sua respiração por debaixo do uniforme branco. Por brincadeira, procuro sintonizar a minha respiração com a dele. É assim que chega a manhã, eu dormindo e o Fernando a passar o turno. O André voltou.


2026-06-05

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - nono acto; Filomena

 Será que os meus pés souberam o que era calçado? Estiveram calçados, disso não tenho dúvidas, mas se sentiram conforto e proteção, essa é outra história. Sim, os pés contam sempre outra história. Como podia ser de outra maneira, se encaram a vida sob o peso de um corpo que nem sempre os respeita? Qual será a melhor versão, aquela que tem os pés assentes no chão e que conhece o sabor da terra, ou aquela que os olhos contam em direção aos céus? Cada qual terá o seu valor. Os meus pés finalmente têm descanso e são lavados por mãos carinhosas e que sabem o que fazem. Pés que são pés dignos desse nome nunca devem deixar de andar. Enquanto houver uma unha para cortar e um calo para tratar, eles devem caminhar sem vacilar. Se alguém fez o homem à sua imagem e lhe colocou nas extremidades inferiores uns pés, alguma razão teria.

 

Não reconheço este uniforme. Não me parece a jovem que me ajuda a adormecer. No entanto, ela olha-me com compaixão. Eu não gosto que me olhem com compaixão, é um olhar que me sabe a morte. Que digo eu? Isto é o orgulho a falar, de certeza que é, mesmo moribundo ainda sou eu, necessitado, mas sem favores, coitadinhos murmurados sem escrúpulos nem cuidado. Atenção, ela aproxima-se. Devo fingir que estava a dormir, ou mantenho os olhos abertos, pregados no teto do quarto? Agora já não vale a pena, ela já olhou para mim.

Está acordado, Sr. Jorge? Não vê que estou, minha querida menina? Porque acha você que eu tenho os olhos abertos? Posso ter dificuldade em falar, mas os olhos ainda conseguem ver. Não precisa de responder, Sr. Jorge. O meu nome é Filomena e hoje o turno da tarde é meu. Quero saber dos meus olhos verdes, os olhos da Isabel. Não tive coragem para perguntar. Desculpei-me dizendo a mim próprio que seria deselegante e pouco simpático se o fizesse. Recordo uma festa de aniversário em casa do Rui. Já tínhamos partido o bolo e estávamos todos na sala a dançar músicas lentas, em pares muito agarradinhos. Eu estava de fora e esperava por uma oportunidade. Enquanto esperava, olhava para a Maria Júlia e sonhava. Bastava esperar que a música acabasse e intrometer-me entre o João e ela. Era tão simples, mas não aconteceu. A música acabou e eu, de tanto esperar, perdi a oportunidade para o Zé. Acabou por ser a Maria José a puxar-me para um “Yesterday” que já tinha começado. A Maria José já tinha corpo de mulher e os rapazes mais velhos, e com as hormonas mais irrequietas, esqueciam a fealdade da rapariga em troca do prazer que os fazia endurecer. Mas eu era um romântico e não apreciei a oportunidade. Sempre deixei passar comboios à espera de um que estivesse vazio. Isto é coisa de quem usava os transportes públicos à hora de ponta. Aqui não temos esse problema, até porque aqui os transportes públicos são tão raros que o problema é outro. Isto tudo para lhe dizer que sempre fui um cobarde no que diz respeito a revelar os meus sentimentos ao sexo oposto. Mas eu acho que já tive esta conversa consigo, Isabel. Estou a ficar confuso. Não é o meu anjo que está ao pé de mim. Os olhos são escuros e maduros, de uma colheita antiga, de finais de oitenta. Chama-se Filomena e ainda não me conhece para além da doença. O meu coração está fraco e não me permitem visitas, mas eu estou desconfiado de que é tudo mentira, uma mentira piedosa. Eu quase que jurava que já vi gente ao pé dos meus companheiros de quarto. E, quando me refiro a gente, estou a falar de pessoas sem uniforme. Sem batas, sejam elas grandes ou pequenas, brancas ou cinzentas, de médicos, enfermeiros ou auxiliares. Alguém me disse que, quando eu melhorar, vou mudar de quarto e aí sim vou poder ter a visita de familiares e amigos. Familiares e amigos… talvez a minha vizinha me venha visitar, ela que tem sido o único ser humano a preocupar-se comigo. O único que eu deixei aproximar-se nestes últimos anos.

 

Onde está o meu anjo? Onde estou? Já morri? Saiam de cima de mim, por amor de Deus, estão a apertar-me o peito. Colocam-me uma máscara que me tapa a boca e o nariz, enquanto apertam uma espécie de balão. Sinto que me vou embora e deixo de ter dores ou falta de ar. É agora? Porque é que ninguém me responde? É assim, deixam-me ir embora sem uma palavra de despedida, de conforto? Está bem, eu vou! Viro as costas a tudo e piro-me daqui. Tchau, boa noite e um queijo da serra. Parto em direção ao pôr do sol montado numa serpente de vento. Levo na mão as sagradas escrituras, as leis do universo, para atestar da minha fé. Carrego comigo uma mochila com todas as pedras que fui encontrando pelo caminho. Quando as verter aos vossos pés, poderão ajuizar das minhas escolhas. Estou pronto para concretizar o que não pode ser evitado! Estou pronto…

 

O quarto encontra-se escuro e silencioso. Apenas os equipamentos médicos apresentam sinais de vida. O uniforme branco mudou novamente de pessoa. A bata do uniforme tem um nome, Fernando.

2026-06-03

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - oitavo acto; André

 Pelo meio ficaram os sapatos de biqueira de aço. O frio das ferramentas que manipulei também me marcou. As mãos ganharam calos rijos de homem feito operário. Os sapatos apertados também provocaram estragos nos pés. À noite, quando os libertava, sentia a sua alegria e a sua satisfação. Por mais que os massacrasse, os meus pés aguentavam tudo, desde o trabalho até ao divertimento. Chegavam a aguentar 48 horas sem dormir, sem…. Tenho saudades desses pés, da sua resiliência, da sua juventude, da sua boa disposição. Nunca mais serão os mesmos, eu sei, mas nem por isso fico mais satisfeito. A idade deixou-lhes um gosto amargo. Da juventude desses pés, guardo sensações que nunca mais senti, guardo também emoções que ficaram marcadas para sempre na minha consciência, seja lá ela o que for. Foi com eles que tive contato com a morte, com a perda e com o sofrimento por ela provocado. Foi com eles que eu caminhei até ao cemitério e foi em cima deles que derramei lágrimas inconsoláveis, como se estas pudessem ser de outra forma. Foi com eles que eu carreguei o sofrimento por mais de dois anos até ficarem em sangue. Nunca foram tão maltratados e eu nunca devi tanto a uma parte do meu corpo... Gostava de lhes ter passado um cremezito, mergulhá-los em água quente, algo que os reconfortasse e lhes desse vigor, mas nunca lhes dei essa satisfação. Se um dia os levar para a cova, tenho a certeza que irão descansados, pois livrar-se-ão do meu peso. Resta-me essa consolação, já que mais não posso fazer.

 

Volta a confusão. As manhãs perturbam-me, não me deixam pensar, pelo menos como eu gostava. A sala está cheia de batas brancas, umas mais importantes que outras. Que estou eu para aqui a dizer, como se não fossem todas importantes. Sei que umas vestem médicos e outras enfermeiros e que de todos eu preciso. A maior parte das batas estão de volta do rapaz que entrou e que não para de gemer, agora que os sedativos começam a perder o seu efeito. O André, a única bata da qual conheço o nome, já se virou para mim duas vezes, mas não teve coragem de se aproximar. Possivelmente uma das batas que está com ele cobrar-lhe-ia esse abandono, deserção injustificada perante as leis da medicina. Sendo assim fecho os olhos novamente e procuro na minha memória vestígios da minha ex-mulher. Quando a conheci, estava convencido de que seria um amor eterno, talvez porque tivesse sido uma paixão à primeira vista, pelo menos é assim que eu a relembro. Não tinha o hábito de me meter com mulheres que não conhecia, nem mesmo quando bebia, mas naquela noite, com a cabeça cheia de mortes, eu não era o mesmo. Tinha uma sensação de urgência, como se a solidão fosse um veneno, um ácido que iria corroer a minha alma até ao seu desaparecimento. Entrei sozinho no bar, pensando em abandonar tudo, quem sabe ir ter com o João que por esta altura, segundo informações de um amigo comum, encontrava-se a trabalhar na Venezuela.  A ideia de partir agradava-me sobremaneira, insinuava-se no meu espírito mostrando-me caminhos que eu imaginava redentores. As luzes do bar, no entanto, destruíam a magia dos meus pensamentos e obrigavam-me a retornar a uma realidade que eu ainda não estava disposto a aceitar. Sim, foi esse o estado de espírito, o enquadramento racional sobre o qual a visão da minha ex-mulher se impôs. Peço desculpa por este mau hábito. Esta história de classificar seres humanos com sentimento de posse não faz sentido, muito menos quando me refiro a alguém como ‘’ex’’. Correção feita, aproveito o momento para dar um nome à mulher por quem me apaixonei nesse período turbulento da minha vida. De nome Cecília, era uma mulher alta, ligeiramente mais alta que eu, magra, cabelos negros até meio das costas, nariz aquilino, maçãs do rosto salientes, olhos escuros de um negro misterioso. Os seios eram pequenos e no geral não era uma mulher que sobressaísse pela opulência do seu corpo. Sentada ao balcão bebia tranquilamente um cocktail de cor avermelhada. Sentei-me ao pé dela por pura atração, uma atração semelhante àquela que uma traça sente por uma luz. No meio daquele ambiente anónimo ela surgia como uma estrela a guiar o meu caminho. Sim, André, estou a soar um pouco lamechas, descrevendo lugares-comuns, coisas sem sabor. Mas, sabe André, a vida é um acumular de lugares-comuns, apenas as narrativas lhes dão importância e cor. Vamos esquecer a estrela e a luz. Debrucemo-nos então sobre o ambiente escuro e pesado do bar. As luzes perdiam-se na bola de espelhos, e na pista de dança improvisada, onde uma névoa de suor e fumo de tabaco criava um ambiente artificial, muito próximo da descrição de um pântano num livro de Sir Arthur Conan Doyle. Quantas vezes olhei para ela até que ela desse por mim? Não sei responder. Talvez ela tivesse olhado para mim mais cedo, num momento em que me perdia observando as garrafas de bebidas alcoólicas alinhadas nas prateleiras por detrás do barman. Sim, talvez tivesse olhado mais cedo, mas não o posso afirmar. O que posso afirmar é que o nosso olhar se cruzou e que assim nos mantivemos durante alguns segundos. Quem desbloqueou o momento fui eu, com uma frase sem jeito, que ela teimou em me recordar mais tarde, «não achas que a música está muito alta? Assim nem se consegue conversar». A resposta de Cecília foi lapidar «Quem é que te disse que eu estou aqui para conversar?» e voltou a sua atenção para o lado oposto. Não sei a razão por que não desisti, talvez fosse o medo da solidão, o pânico de ficar sozinho nessa noite. Deixei que o momento de tensão desanuviasse. Disse a mim próprio, ou pelo menos disso me convenci, que se ela não se levantasse haveria outra hipótese de voltar a meter conversa. Cecília voltou novamente a olhar para mim, e quando o fez perguntou, «Ainda estás aí?». Desta vez não me acanhei e respondi-lhe «Sim, ainda aqui estou. Esperava apenas uma palavra simpática da tua parte, para salvar o meu dia». Espantada pelo meu atrevimento, Cecília manteve-se em silencio, olhando-me com os seus olhos negros e perscrutando a minha alma. Por momentos senti-me nu, como se todos os meus pensamentos tivessem sido revelados. E que pensamentos tinha eu? Pouco mais que nada, solidão e vazio, tristeza e amargura. Receei que tudo isso tivesse sido apercebido por aquela mulher e apressei-me a oferecer-lhe uma bebida, convidando-a a sentar-se numa mesa junto á pista de dança. Não sei quais foram as palavras exatas, o que é certo é que Cecília aceitou o convite. Não, André, não acabei a noite na cama com Cecília, nem era esse o meu objetivo. Queria apenas a companhia daquela mulher que se me apresentava tão agradável. Saímos quando o bar fechou e levei-a a casa de táxi. Foi ela que se predispôs a deixar-me um número de telefone, dizendo-me que se o marcasse poderíamos, eventualmente, voltar a encontrar-nos. Só no dia seguinte percebi que me encontrava irremediavelmente apaixonado.

 

Falo sozinho. André há muito que abandonou a minha cama. Olho para os meus braços e constato que os pensos foram mudados sem que eu desse por isso. Tenho um sabor amargo na boca, um sabor que eu identifico com alguns medicamentos que eu tomava na minha infância. Tento levar a minha mão direita ao peito, mas sem sucesso. Ao fim de alguns minutos e após diversas tentativas frustradas, decido chamar por André. O som que sai pela minha boca não se assemelha a nenhuma palavra, mas sim a um gemido de um animal ferido. Tomo consciência do meu estado. Quantas vezes terá o meu coração falhado? O que sobrará de mim?

 

O André chega-se à cama de Jorge. Eu, que sou o narrador, posso revelar que Jorge declama um dos seus poemas sem que isso seja audível.

 

«O meu sentido mais apurado é a audição,

por isso consigo ouvir um choro nas frequências mais baixas,

mesmo quando ele se propaga em Infrassons.

Já ouvi chorar em lugares distantes,

e senti a tristeza apenas porque escutei uma lágrima a cair.

Tudo se desvanece quando abro os olhos.

O meu superpoder não suporta a luz.

O mecanismo que regula as minhas emoções é sensível à corrosão,

e a luz corrói lentamente.»

 

Jorge adormeceu. Leva consigo a lembrança de Cecília e do seu segundo encontro. Nele, pela primeira vez pegou na mão de Cecília. Quando o fez sentiu estremecer todo o seu corpo. Aquela mão tão frágil, dedos longos de pianista onde se sentiam todos os ossos, fazia-lhe lembrar o quão efémera é a vida. Talvez tenha pensado na morte, talvez a tenha visto num vislumbre, mas nada disto é certo e não me cabe a mim, narrador, desvendar coisas que não sei.

2026-06-02

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - sétimo acto; Pedro

 Um dia deixei de olhar para os sapatos e imaginei-me respirando o hálito da morte crua. O desprezo pela vida é sazonal na vida dos adolescentes, e a adoração do altar onde morrem os heróis, uma religião apetecida. Depois do primeiro beijo, a desilusão de uma paixão proibida. Felizmente que a desilusão é mais frequente e rapidamente despi as meias que me magoavam os pés, no entanto, o desprezo manteve-se e o medo nunca constituiu um problema que me levasse a ponderá-lo para uma tomada de decisão. As meias sujas nem sempre ficavam no cesto da roupa, muitas das vezes espelhavam a minha vida pelo hall de entrada, indicando corredores e quartos, como tabuletas sujas e gastas. Hoje, pequenos modelos de carros blindados numa escala de um para 72, jazem sem vida no móvel da sala, protegidos por vidro que mais tarde ficou baço. Conforme a prateleira se foi povoando de copos de vodka, trazidos por uma marca conhecida, (seria Smirnoff ou Eristoff? Nunca me dei ao trabalho de verificar a veracidade do meu testemunho, talvez porque o líquido no interior dessas garrafas não me tivesse trazido o poema desejado, a palavra que eu admirava nos outros. Os blindados foram desaparecendo sem que eu tivesse noção da sua não existência. Calcei sapatos que não eram meus, calcei os do Jim e os de Lou, e procurei sentir calos que também não eram meus, feridas de caminhos que nunca percorri, mas que imaginei serem porto de abrigo. O comboio saía da estação da Amadora e esperava sempre por mim, orgulhoso do A que exibia no lado direito da lapela. Nessa altura eu entrava na carruagem de primeira classe e sentava-me junto à janela. Quinze minutos para chegar a Campolide e perfurar a Rocha que me levava ao centro do universo. Levava calçado o que tinha mais à mão e na mão, o que tinha mais ao pé. Isto foi depois das botas da tropa e das flores no cemitério que nunca foram as minhas. Penso que me esqueci de muitos sapatos, botas, ténis, e outros utensílios de colocar nas extremidades inferiores. Palmilhei muito chão com os olhos e nunca os calcei. Dos cansaços que trouxe para casa o dos olhos foi o que mais me doeu.

 

Como está o meu amigo, está-me a ouvir? A bata branca que eu identifico com o Pedro está a falar comigo e pergunta-me qualquer coisa. Como eu estou e se estou a ouvir.  Eu tentei responder-lhe que estou bem, que estou a ouvi-lo, mas não consigo verbalizar a minha resposta, não tenho forças, mal posso olhar para ele, e se ele conseguir ver dentro de mim, através dos meus olhos, saberá todas as respostas. Sabe Pedro, é que eu passei a minha vida toda a falar com os olhos. Raramente fui entendido quando falava. Nunca culpei ninguém, sempre atribuí o sucedido a uma má formação que me vergou, a um defeito de fabrico que fazia da minha voz algo etéreo e sem existência. A primeira vez que gravei a minha voz foi num leitor de cassetes da Sanyo. Jurei para nunca mais. Como poderia eu ser aquela voz esganiçada de adulto precoce, de adolescente receoso? Como poderia eu usar o dom da palavra, para fazer valer as minhas opiniões, se a sonoridade com que elas saíam da minha boca era risível? O pequeno microfone que eu ligava ao gravador de cassetes passou a ter outras funções. Pedia discos emprestados e tocava-os na aparelhagem da sala, onde colocava o meu Sonny e rezava para que não houvesse barulho na rua. Foi assim que gravei as minhas primeiras cassetes áudio magnetic com «made in Europe», dos Deep Purple, ou o álbum triplo ao vivo de Emerson Lake and Palmer, todos emprestados pelo tio do meu amigo Paulo, mesmo sem ele saber. Com um bem-haja, onde quer que eles estejam. Também gravei programas de rádio como o «Rock in Stock», ou «Dois Pontos», que passavam álbuns inteiros, o que permitia uma audição sem interrupções. Mais tarde comprei uma mala que tinha também um gravador de cassetes e um rádio, além de um gira-discos, onde os «33 rotações» saíam, transbordando do equipamento, cuja marca nunca mais esqueci, Silvano era o seu nome. Não tinha ainda experimentado nada de especial. A banda com o amigo João e com o meu amigo Eduardo ainda não se tinha formado, mas foi lá que eu ouvi os primeiros álbuns dos Beatles, «o álbum vermelho» e «o álbum azul». Não julgue que lhe conto isto apenas para o aborrecer. Para mim, estas histórias são a fundação do meu carácter, seja ele qual for, tenha ele chegado, ou não, a algum sítio merecedor de uma menção, para lá ou para cá de uma linha moral, do que é bom ou do que é mau.

 

O Pedro não me ouve, está de volta da Cristina, a única paciente que dá trabalho desde que conseguiram acalmar à força de sedativos o incómodo que é o António. Ouvi pelo canto do olho a Isabel dizer ao Pedro que amanhã de manhã teria um novo cliente, um rapaz jovem que teve um acidente de mota, e que neste momento se encontra na mesa de operações. Não vão conseguir fazer-lhe todas no mesmo processo, pelo que a recuperação da primeira não lhe tirará as dores antes de chegar a seguinte. Entre dentes deixei escapar algumas palavras de desespero. Começo a ficar farto e estou desejando sair daqui. Ouvi a Isabel dizer que eu deveria ser transferido para uma área mais sossegada, a ala dos enfartados. Não, ela não se referiu aos desapertados, enfartados, nem lhe chamou desempregados ou desesperados, apenas se referiu aos fracos de coração e que precisam de repouso e de silêncio. Eu tinha a certeza que mais cedo ou mais tarde iriam descobrir que era fraco do coração. Houve uma altura em que pensei que o meu coração era de pedra, que estava calejado com desilusões, que nada o podia atingir, mas o coração não funciona assim, e por mais forte que seja, existem sempre partes fragilizadas, furos na blindagem. Ainda lhe pintei cruzes de guerra na torre do meu carro blindado, equipado com armas de alto calibre, obuses potentes e explosivos que fariam tremer qualquer atacante. O que eu não sabia é que há várias formas de atacar um coração. Ai Pedro, que conversa que para aqui vai; atacar, defender corações, como se eu percebesse alguma coisa disso. Sei de mim porque me aconteceu, mas nem sempre sei explicar. No entanto, posso relatar na primeira pessoa e descrever as consequências. Se não aprendi, ou se não me soube defender, não é algo que eu possa colocar nos ombros de outras pessoas e chamar-lhe responsabilidade. Essa carrego-a eu com penosa satisfação. Estou a tentar lembrar namoradas, mas não consigo contar mais do que uma mão cheia, namoradas a que eu possa chamar namoradas. Mulheres, passaram muitas pela minha vida. Algumas delas passaram pela minha cama sem deixar rasto. Cheguei a abraçar cheiros e beijar aromas, fantasmas que nunca tive a certeza de ter tocado. Culpa minha, ou das substâncias que tomava, nunca poderei dizer com alguma certeza. Sim, os anos 80 foram tudo isso, sexo, drogas e rock and roll, tudo regado com muito álcool. Tínhamos dois ou três cafés de referência, mas o circuito poderia ser diferente, conforme o vício e a carência. Na Amadora quase todos os cafés tinham os seus vendedores. Perto de casa ficavam aqueles onde a minha presença mais se fazia sentir. A Florença Pequena, o Arco Íris, a Esquina do Bilhar, e a pizzaria onde se comia croissants e se bebia umas jolas. Foi no Arco Íris que a nossa banda se fez e foi no Arco Íris que me despedi do João. Foi também no Arco Íris que soube da morte do Eduardo. Por essa altura eu era um rapaz apagado, não fosse tocar guitarra e ninguém daria por mim. Para falar a verdade, para mim bastava que as minhas mãos tivessem contato com as cordas da viola. Como é que morreu o Eduardo? Ninguém sabe. Falou-se de overdose num quarto de uma pensão no bairro alto, mas o corpo ficou com a família, e se foi autopsiado ou não, eu não tenho conhecimento. A mãe e a irmã, visto o pai já ter falecido, nunca falaram sobre o assunto, e eu nunca tive coragem para perguntar. A única coisa que sei, foi que na noite em que ele foi encontrado, tocámos ao vivo num bar na Almirante Reis. Acho que o nome do bar era “Palmeiras”, um edifício velho com duas palmeiras à entrada. Vem-me agora à ideia que talvez fosse a antiga sede do PSR, mas não tenho a certeza e já não tenho mãos para googlar e confirmar estas palavras. Lembro-me do concerto, lembro-me de termos tocado particularmente bem, fruto de uma agenda preenchida por força dos contactos do Eduardo. Já sabíamos que o João ia embora, e em cada acorde fazíamos a sua despedida. Nesse dia só tinha bebido uma cerveja e fumado um charro, pelo que os solos de guitarra me saíram soltos e com a distorção controlada. Tudo isto saía de dentro de mim com uma honestidade como nunca me tinha acontecido. O Eduardo, embora estivesse completamente embriagado, nunca cantou com tanto sentimento, e até as desafinações me soaram bem. O João foi o mais equilibrado de todos, aquele que melhor sabia utilizar as substâncias sem se perder. Foi o João que me trouxe para casa. Embora tivéssemos insistido para que o Eduardo viesse connosco, ele não quis, mesmo não estando acompanhado pela namorada. A última imagem que tenho dele é a sua pose, um ar desprendido no meio de três punks completamente embriagados. Um dos punks era uma mulher, e agarrava-se ao seu pescoço esforçando-se por obter uma atenção que ele não tinha para dar. Demorei algum tempo a substituir essa imagem por outra mais condizente com o feitio do Eduardo e com a sua memória.

 

Que horas são? Sei que é de noite e que a bata branca não está junto a mim. Não tenho força para levantar a cabeça, levantá-la o suficiente para conseguir avaliar o espaço em redor. Cada vez mais o meu mudo é interior, cada vez mais a visualização das coisas não tem significado. Deixo os meus olhos fechados e penso no que escrevi em tempos numa velha sebenta onde largava pensamentos.

 

O meu ouvir é feito de emoção,

Mas nem tudo o que ouço me provoca emoções.

Quando me deixo prender pelo pensamento,

Não me foco nas sonoridades e perco-me nas origens.

Há quem diga que eu não sei ouvir,

E há quem diga que eu não sei sentir.

Àqueles que o dizem eu pergunto:

Que saber é o vosso que retira o meu saber,

E o substitui por um pensamento que não é meu?

Mas quando o digo eu estou a mentir

Pois raramente eu pergunto alguma coisa

A alguém que tanto sabe.

Volto a essa sebenta, vezes sem conta quando tento justificar a minha solidão. Já lhe acrescentei alguns versos, mas apenas sublinhei o que já estava escrito. Tudo vem de uma mesma raiz. O que sei é o desenho sonoro do que imagino quando tenho os olhos fechados. A tal ponto aperfeiçoei este meu sentir que quase o transformei numa arte. Arte, porque projeção do meu pensamento em forma poética, informalmente poética, sem regra nem jeito de querer ser digno de coletâneas nacionais, nem tão pouco de recortes de jornal antigo.

 

A minha vida de músico terminou algum tempo depois. Pelo meio fartei-me de repetir o 12º ano de escolaridade que nunca terminei. Não por ser malcomportado, apenas e só por desleixo e desinteresse. Deixei, no entanto, que alguma dessa sabedoria perdurasse na minha memória, o suficiente para atamancar um emprego na indústria química. Eu acho que não confessei tudo. Faltou dizer da minha paixão por um comprimido, Rohypnol, um barbitúrico que me fazia esquecer muita coisa. Não foram só os barbitúricos o motivo da minha paixão, também abusei de um comprimido utilizado para a doença de Parkinson, Artane. Enfim, eu abusei de muitos comprimidos e na altura as farmácias não faziam grande controle sobre o que vendiam, muito menos se tivessem algum receio do aspeto de quem comprava. Barba grande e cabelo comprido, o ar de cão abandonado sempre pronto a morder, ajudava a evitar problemas, pelo menos com a sociedade civil, porque com a polícia de segurança pública funcionava de maneira contrária, como um íman, um chamariz à rusga e a permanências assíduas na esquadra mais próxima. Anos 80, sim foram assim os meus anos 80. Se tenho mais coisas para contar? Sim, mas não esta noite. Estou a guardar um pouco de coração para o resto da história, para poder contar também ao André e à Isabel. Sei que você não me vai levar a mal, no fim de contas também precisa dormir.

 

Estou acordado. Oiço um coro de roncos e tento adormecer. O ronco barítono do António e o roncar baixinho da Cristina, acompanhados pelo solavanco arrítmico de sopro obstruído do Pedro. Ao fim de algum tempo acabo por adormecer embalado por este trio. Concentro o meu olhar no ecrã que contém os meus batimentos cardíacos. Observo com atenção a prova mecânica de que estou vivo, de que ainda não morri, de que o meu consumo de oxigénio é apenas contributo para a destruição do planeta. Do outro lado ouço um chamamento. São as palavras de um poema que o Eduardo declamou, certa vez, à mesa de um café, depois de uma noite em claro. Estávamos os dois sozinhos e nenhum de nós estava disposto a abdicar da irrealidade para onde os estupefacientes nos tinham enviado. Ouvi tudo de olhos fechados;

 

O mínimo não me chega.

As cores desmaiadas da realidade fazem da minha viagem uma monotonia.

Não me chega o ir e vir diário que eu pratico por um salário,

O haxixe fumado no intervalo para o café,

A garrafa metálica de whisky no bolso do casaco,

A anfetamina que me faz desfazer o corpo em suor,

O mínimo denominador comum.

 

Foi talvez nesse dia que eu percebi o buraco onde me tinha enfiado. De pouco me serviu, pois continuei lá dentro durante mais uma dezena de anos. Levei mais outra dezena a escavar os degraus que me fariam sair dele. O mínimo denominador comum nunca chegou para compreender completamente o Eduardo. Levei algum tempo até conseguir assimilar o seu desaparecimento. Com ele morreu o meu sonho de rock and roll e a minha vida de artista boémio. Ele foi o meu Syd;

 

Perco-me na lucidez do Syd,

Onde o denominador não é mínimo nem comum.

Porque nós somos peixes,

Cada um refletindo a sua cor inventada,

Todos o fazemos,

E o que fazemos é movermo-nos,

Fechados num largo aquário,

Reflexos multiplicados num vidro que é também uma ilusão.

Amor,

Estou arrepiado por tua causa.

Leva-me pela mão através das minhas imagens,

Dos meus inconscientes,

Seres flutuantes

No caldo sonolento onde, novamente inventados,

Assumimos a desconstrução.

 

Estou sozinho no quarto. Reconheço o meu quarto de adolescente. Dele encontro todos os sinais de uma infância recente, jogos de tabuleiro, uma pequena caixa com Lego, bandas desenhadas, do Asterix, do Lucky Luke, do Tintin, enfim, de todos os heróis que me fizeram sonhar durante a puberdade. Não entendo porque estou no meu quarto. Poderia estar sentado no sofá castanho, que tão bem fica com a pintura da parede, uns gatafunhos que se distribuem pela tela branca de gesso. Esqueci-me de dizer que os gatafunhos foram pintados de azul-escuro, marinho, para ser mais preciso. Os rabiscos sem sentido valem apenas como decoração. Estamos a falar de finais dos anos 70. Por momentos reconheço-me naquele jovem que se encontra à janela conversando com alguém. Sempre a mesma conversa à janela. Quando não se pode sair à rua, é assim que os diálogos se concretizam. O Jogo da bola decorre lá fora e é o guarda-redes que vem ter comigo para conversar enquanto a ação decorre na outra baliza. Então Jorge, hoje também não podes sair? Não, hoje também não. Dói-me a garganta e passei a noite sem respirar. Essas memórias de prisão domiciliária irão perseguir-me a vida toda. Por breves momentos o quarto desaparece e dá lugar a uma sala de hospital. Na cama, alguém parecido comigo, dorme. O Pedro, assustado, debruça-se sobre mim procurando sinais vitais. Será possível que eu não tenha descanso? Deixo-me levar pelas salas do hospital apenas pela curiosidade de espreitar o que nelas existe. Aparentemente tudo descansa, menos o Pedro. Volto novamente à sala de cuidados intensivos. O Pedro acalmou e já não mexe no meu corpo. Agora eu já não me vejo. Estou deitado na cama e olho para ele sorrindo. Ele devolveu-me o sorriso. Que susto que você me pegou, senhor Jorge. Por causa de si, hoje não vou pregar olho. Se o Pedro não dormiu, o mesmo não aconteceu comigo. Não me lembro do que sonhei nem me lembro de ter acordado durante a noite para urinar. Lembro-me apenas do André, que voltou com o amanhecer. Oiço comentários, batas brancas falando uma com a outra, acenos de concordância e olhares preocupados na minha direção. André eu prometo que me vou portar bem. Demorei um pouco a entender que o caso era um pouco mais complicado e que durante esse dia teriam de ser realizados alguns exames complementares, coisas que o médico iria escrutinar numa reunião, quem sabe com os estagiários do piso de baixo enquanto tomavam café com leite e comiam uma sandes mista. Será que este gajo nunca mais morre. Vai não vai e acaba sempre por ficar. Terão sido estas palavras proferidas, ou apenas produto da minha imaginação? Seja como for, a minha indecisão causa transtorno hospitalar. A ocupação de uma cama que poderia ser utilizada para um fim mais proveitoso, como a que se encontra à minha frente, onde brevemente repousará um jovem. As batas brancas ainda se encontram conversando quando a maca chega com o miúdo após intervenção cirúrgica. Eu já o aguardava, afinal tinha sido tema de conversa, embora eu não me lembrasse bem com quem. No entanto, vem-me à ideia de que o estado em que o rapaz chegou é consequência de um acidente de moto. A minha mota era uma Cagiva 350 cc cujo modelo, Elephant, pesava perto de 180 kg. Acabei por me desfazer dela por meia dúzia de trocos, quando abalei de Lisboa. Foi assim que fechei mais um capítulo e que conheci a minha mulher. Chamo-lhe minha, de forma abusiva, porque foi a única com quem partilhei a paternidade.