2026-08-26

Poesia, para que te quero?

 

Poesia, para que te quero?

 

Regaço de coisas escritas,

aconchego de emoções.

Palavras que por não serem ditas,

versam noutras dimensões.

És Pacto de tinta e papel,

entre o que é doce e o fel,

manifesto de ilusões.

Estrofe que por ser da mão, és minha.

Verso que por ser meu, és pão.

No meu prato és sardinha,

em português és certidão.

És prosa, fado e lamento,

riso, pranto ou excremento,

sala cheia ou solidão.

Leio em ti o mundo inteiro,

o que na minha alma couber.

Do que sobrar vou inteiro,

enquanto não recolher.

Declamada és sangue que corre,

quem te escreveu nunca morre

se na palavra viver.

Faço em ti tudo o que sou,

o que não sou nem serei.

Por te ter feito onde estou

mostrarás por onde andei.

Serás vida por viver

E, da vida, o que houver.

Serás tudo o que encontrei.

Serás tudo o que eu quiser.

2026-08-25

O Livro

 

O livro

 

Debruçado numa estante

Esquecido na cadeira

Derramando as suas folhas

Junto de uma ribanceira

Joga as letras ao ar

Procurando numa frase

Uma razão para ficar

Repousando numa mesa

Seja próxima ou distante

Despojada de riqueza

Ou inchada de importante

Pode traçar o destino

E desbravar o caminho

A quem se encontra distante

A palavra que nele foi escrita

Para ser equilibrada

Será fiel de balança

Ou boca amordaçada

Depende da mão que o segura

Se no corpo a amargura

É sangue escorrendo na espada

Tenho na tua lombada

Um sonho porque te vi

Por teres nome te lembrei

Por seres livro te despi

E em cada folha passada

Prosa que foi desfolhada

Em poesia escrevi.

Hoje a mão que te segura

É uma mão virtual

Fez do corpo uma armadura

Transparente e de cristal

Nela Verti o meu vinho

Que bebendo devagarinho

Mistura o bem com o mal

Hoje o livro é destroço

Espalhado pela casa

É cicatriz com remorso

Carvão ainda em brasa

Que queima a mão que o procura

Que não a deixa segura

Que corta à alma uma asa

2026-08-22

Roupeiro

 

Roupeiro

 

Hoje

enquanto tomava o pequeno-almoço

tive uma ideia

mandar fazer um roupeiro

armário trôpego e brejeiro

que guardasse a minha roupa

quando

numa trouxa

não a quisesse usar

 

procurei um carpinteiro

mestre para tal ofício

qual o tamanho propício

para um tal roupeiro

ele olhou para mim

medio-me do princípio ao fim

e calculando a olho

tirando a parte ruim

declarou

cinco tábuas a preceito

outra em cima a fechar

e a resguardar o peito

ficará daqui ali

e dali até aqui

caberá em qualquer lugar

no quarto

ou na salinha de estar

terá sempre o mesmo efeito

será móvel delicado

onde poderá guardar

roupa velha ou o destino

roupa nova

o que sobrar

 

Deixei marcado o assunto

e sinal a condizer

esperarei pelo trabalho

como esperei por nascer

2026-08-21

O meu céu não tem as cores do arco-íris

 

O meu céu não tem as cores do arco-íris

 

O meu céu

não tem as cores do arco-íris

tem uma cor pálida

quando a força que dispensa se esgota

O vermelho da rosa

Quando tento trepar às nuvens

e cor de coisa nenhuma

quando

por cima sonho

a visão se sobrepõe

para lá do pensamento.

2026-08-20

Um poema e um bagaço para a mesa do fundo

 

Um poema e um bagaço para a mesa do fundo

 

Sento-me sempre na mesa do fundo

ouvi dizer

que é lá que os poetas se sentam

que nesse lugar escondido

as palavras sedimentam

sem lugar para fugir

levei um balde e uma pá

E pedi uma chávena de chá

Quando acabei de beber

comecei a escavar

 

Há dois dias que bebo chá

No balde a pá que o enche

não me traz nada de novo

Talvez o Rio que aqui passa

não desague neste povo

Talvez a água que eu bebo

Infusão displicente

não tenha a erva Correta

que me torne consciente

 

Hoje sentei-me de frente

lá no fundo como sempre

sei que o hei-de encontrar

Que não mudou de lugar

O que corre dolente

vem do lado da nascente

E eu estando presente

serei como a Foz

da palavra serei voz

Da frase um paladino

Só preciso de um copinho

para me ambientar

faço sinal para o balcão

gesto discreto com a mão

Para Não perturbar

De Longe o homem responde

que para a mesa do Fundo

vai um bagaço profundo

com poema a acompanhar

 

 

2026-08-19

Uma Canja

 Uma Canja

 

Sentado à mesa da cozinha,

com um copo na mão,

dou início à refeição.

No prato uma canja de galinha,

temperada com limão,

aquece-me o coração.

 

Bebo o caldo com cuidado,

com a colher meia de lado,

cheia de recordações.

Do calor que de lá vem,

o aroma que me detém,

é regaço acolhedor.

 

Lembra viagens antigas

a uma casa perdida,

onde deixei a infância.

Coisa sem importância,

assim vista à distância,

pelo tempo que passou.

 

Sabe a leite materno,

seio perene e eterno,

que fez de mim decoroso.

Sabe a febre e a espanto,

a conforto e a encanto,  

de um passado saudoso.

 

 

Sabe a história presente,

de uma mão que me sente,

e não me deixa cair.

Sabe ao lar que abriga,

à voz que me alimenta,

e à esperança que sustenta.

 

A canja é feminina;

é cuidado e amor,

uma carícia na dor.

Ela é paixão e sustento,

é alguém que te quer,

e tem corpo de mulher.

2026-08-17

Sem Limites

 

Sem Limites

 

Um risco e a razão para o limite.

Deste lado o sol brilha,

Ilumina o olhar de quem espera.

Por dentro, tudo o que fica oculto espera a sua vez.

De dia nada se vê,

E de noite é infinito.


A janela é a fronteira onde derramo o olhar.

Sou imigrante sem causa nem origem,

E procuro na vertigem uma razão para viver.

Queira lá quem houver,

Donos do mundo ao redor,

Um pedaço onde ficar.

 

Dobram-me a vida em traços,

Perpendiculares clandestinas e ilegais,

Que me devolvem retornos, insondáveis negações.

De tudo eu fujo:

De geometrias paralelas,

De outras formas diversas, com princípio e fim,

Da máquina que rosna e tortura sem conhecer o meu nome,

Dos inventores de padrões, que medem as liberdades e lhes definem limites,

Do sossego das estrelas, que já não existem, mas teimam no seu brilho,

Dos caminhos reservados e da reserva dos seus donos,

Do fastio das ideologias que se consomem em ambições,

Das chagas mal repartidas,

Dos estilhaços que marcam o território das emoções,

De tudo eu tenho fastio,

De tudo eu fujo.

2026-08-16

Quantificação da Banalidade

 Eis uma quantificação fácil de fazer. Se à existência subtrairmos a revolta e o amor, restam apenas banalidades. A banalidade não necessita de explicação, pois é o meio onde tudo existe. Podemos evitá-la, escondê-la, renegá-la com paixão, mas ela estará sempre lá para nos recordar as nossas origens. Quanto mais depressa a aceitarmos, melhor será a nossa relação com a realidade, seja ela transcendente, ou não.

Este conjunto apresentou-me as dificuldades inerentes à simplicidade. O que poderia fazer de diferente mantendo a banalidade indispensável à sua quantificação? A resposta só podia ser uma: manter-me banal.

2026-08-15

O Que Fica do Amor

 

O que fica do amor

 

De Vénus, o amor idolatria, uma herança de heresia que ainda nos faz sonhar. Dela renasce a poesia para cantar um sentimento que se quer nobre. Venham as Ninfas de tragédia grega, entidades de sagradas vaginas, que emanam odores de suor pós coito. Declamem-se insinuações de língua desnuda numa orgia de sexo oral, e cantem-se paixões de tesão mal resolvida que vomita louvores a um mecanismo biológico. Venerem-se amores de clássica dignidade, e derramem-se as suas estórias em romances repetidos.

O amor é de posse exclusiva, assim o choram os poetas. Não existe espaço para o amor do cuidado, um amor de granito sem compensações óbvias. Mas é neste amor que se encontram os diamantes mais puros, quase impossíveis de lapidar. Eles não estão guardados nos cofres de Amesterdão. Não são de sangue, nem sujam o coração. Um amor assim é despido de ciúmes e de inseguranças egoístas. O choro deste amor é um lamento silencioso, é um carpir recatado que ninguém quer escrever. Ele existe em clausura e alimenta-se dessa solidão. Há quem pense que é drama, mas não passa de puro amor.

Eu louvo o amor sublime, semeado nos socalcos da vida onde o jardim não existe. É um amor de mãos sujas de terra, calejadas por agruras constantes. É o amor do jardineiro, que cuida do jardim, mesmo quando ele está a morrer. É amor para sofrer, não é amor para mostrar. Tem outro degustar, e bebe-se em copos descartáveis, pois não se pretende acessório. Não é amor de cristal, nem se veste de eternidade só para demonstrar grandeza. Dispensa Sagradas Escrituras, mas não resiste à saudade.

Eu não podia passar sem um amor assim sublime. Repleto de subtilezas, revela-se constantemente em pequenos gestos. É a mão que me alimenta, que me veste, que me aconchega durante a noite e ainda é capaz de um sorriso quando tudo à volta desaba. Amor com tal dimensão, se não houver quem o cante, terá em mim a sua voz.

2026-08-14

Um Soneto Só Para Ti

 

Um Soneto Só para ti

 

Só para ti, um soneto

Para dizer que o amor

Se o tocar num coreto

Brilhará ao teu redor.

 

 

E se o guardar no peito

Fechado no coração

Ele será nessa prisão

Um soneto insuspeito

 

 

Se foi música de coreto

Em vida de desenganos

Poderá soar doutro jeito

 

 

Mas se te amar a preceito

E deixar escorrer os anos

Será sempre o teu soneto

2026-08-13

Soneto IV (do amor de que me acusam)

 

Soneto IV

 

No instante em que respiro,

Quando embebo do teu ar

Sinto no corpo um abrigo,

Livre espaço para te amar.


Não me julguem por gostar,

Nem me façam julgamento.

Mas vivendo do momento,

Como poderei eu escapar ?

 

Se vivi num amor indecente,

Foi porque a vida é urgência

E não me inventei paciente.

 

 

Não é por o amor ser urgente

Que não demonstra inocência,

Ou que se desnuda descrente.

Soneto III (Doce miragem)

 

Soneto III


Esculpi a paixão em rocha vulgar;

De nudez protegida do sol.

Inventei, cinzel na mão, o meu lar,

Refúgio do cantar de rouxinol.

 

Mirei-a de cima, e por debaixo,

Procurando, na pedra, imperfeições.

E foi por me vergar assim tão baixo,

Que do melhor, lhe desenhei as feições

 

Tacteei o meu rigor, e das formas, o amor.

Da sua beleza, a ausência de rancor.

E, deslumbrado, derramei-o na paisagem.

 

Pedra esculpida na alma, e com dor,

Precisa de nome para ter cor,

Por isso a baptizei: “doce miragem”.

2026-08-12

Soneto II (Amor sem Limites)

 

Soneto II

 

Doce sentimento, o amor,

Perfume por dentro do corpo

Que esconde a cara do morto,

Tingindo-lhe faces doutra cor.

 

Da morte, porque está perto,

Aprendi a rir dos seus humores.

Seus gélidos beijos de amor,

São prova de que estou certo.

 

Também na morte vejo amor.

Sem carne, tem outro encanto,

Outra maneira de abraçar.

 

Despindo-se de falso pudor,

Embala o meu sono sem pranto,

Cantando canções de embalar.

2026-08-11

Soneto I (em jeito de negação juvenil)

 

Soneto I

 

Do amor, confesso, sei pouco.

Tive sintomas, ardores,

Que confundi com amores,

Mas disseram que era louco.

 

Ainda me ergui em protesto,

Alma em dor e sofrimento.

Mas tão belo fingimento,

Não passou de manifesto.

 

Ficou de mim vã angústia,

Sangue gelado no peito,

 Soltas mágoas por retractar.

 

Nos lábios, triste alegria,

Palavras no ar rarefeito,

Por não ser capaz de amar.

2026-08-10

Quantificação do Amor

 

Quantificação do Amor

 

Depois da revolta, o amor, tema superlativo da poesia. Decidi dedicar-lhe alguns sonetos antes de lhe entregar o coração. Quantificar o amor pode ser doloroso, se a medição for efectuada com excessos de paixão. O amor é universal e pode manifestar-se de diversas formas e sobre diversos sujeitos, sejam eles singulares ou colectivos, animados ou inanimados, materiais ou imateriais.

Este é o meu maior desafio. Em mim, o amor nunca teve palavras fáceis. Se as outras quantificações não me inibem com preceitos e regras, esta assusta-me de morte. Se as primeiras são viscerais e despidas de remorsos, a quantificação do amor é frágil, e por vezes infantil. Mesmo acusada de falta de maturidade, não deixa de ser um testemunho com a sua validade própria.

2026-08-09

Fake future (apologia da bioexclusão)

Fake future (apologia da bioexclusão)

 

O futuro será nano qualquer coisa,

Universo quântico de incertezas.

O futuro será intimamente artificial,

mas a sua afiguração será natural.

O futuro será fake,

contrafacção ordinária.

Virá do fundo de um abismo,

e sem certificado de origem.

 

O futuro será proveito,

no céu e na terra,

na paz e na guerra,

artificial no conceito,

inteligência por defeito,

que numa máquina se encerra.

O futuro inovará a verdade

numa versão não binária,

Firmeware X ponto zero

de uma mentira ordinária.

Fake Future, fuck tudo,

fuck o homem moribundo,

Homem fake, homem presente,

Fuck o homem inocente.

Fuck o homem do passado,

Já não é em nenhum lado.

Fake man, homem ausente,

referência pertinente,

que perdeu o significado.

 

O futuro será qualquer coisa;

Judas dependurado numa oliveira

Numa versão de brincadeira.

Play game, smartphone,

fake de um fake, ou clone.

Será quarta dimensão,

será tempo sem perdão.

Serás tu e serei eu

sem saber se aconteceu.

Será fuck de fodido

Com direito a desmentido.

serão bites lá no céu,

Internet de cú ao léu.

Será costa sem horizonte,

Só porque alguém a criou.

Será ilha sem ponte,

Avatar que não voou.

Será a história ao contrário

Contada depois de amanhã.

Será vento na cidade,

Com cheiro de hortelã.

Será viagem temporal,

com o canastro num divã.

Viver com ansiedade,

sem precisar de nascer.

Garantir continuidade,

sem precisar de foder.

 

O futuro será qualquer coisa

Será presente ou passado,

Aqui ou em nenhum lado.

Será tudo o que eu quiser,

E se assim o programar,

Poderá nem acontecer.  

2026-08-08

Páscoa

 

Páscoa

 

No primeiro Concilio de Niceia

Ditou-se que seria o primeiro

Domingo depois da lua cheia

Logo após o início

do equinócio vernal.

 

A lua cheia pascal

Lua das penitências

Lua de Cruzes, urgências

Paixão de Cristo, Calvário

Pilha de crânios, sinal

Julgamento, execução,

Pensamento, expiação,

Crucificação passional

Ressurreição,

Menos mal…

 

Ao cumprimento Pascal

“Cristo ressuscitou!”,

Vem a resposta formal

“Em verdade ressuscitou”,

 

Mas a raiz é diferente,

E esconde-se do tempo presente.

 

“Passar adiante”.

Páscoa

“Passar adiante”.

Pesach.

Passa adiante

Anjo exterminador.

Vê este sangue na porta,

Sinal que te revela,

Ó anjo redentor,

Assassino viajante,

Aquele que deves evitar,

Qual tu não deves matar.

Eu sou o divino emigrante,

O que matou o cordeiro,

Do povo divino, o primeiro.

 

Ó Anjo arrogante,

Vai e observa o preceito.

Vai e deixa o meu coração,

Deixa-o bater no meu peito,

Voltar à terra prometida,

Cumprir a sorte de um povo

O povo eleito por Deus,

Um povo que vai de fugida.

 

Vai anjo de Morte

Mata tudo o que puderes,

Mata com um só corte

Os homens e as mulheres.

 

 

O filho de Deus no final

Irá pagar o destino.

Quando hoje ouvires o sino

Louvarás num ritual,

Aquele que morreu na cruz.

Será a missa Pascal

Quem te fará peregrino

E no árduo caminho

Onde andarás clandestino

Mesmo sem crer verás luz.

2026-08-07

Portugal Revoltado?

 

Portugal Revoltado?

 

Henriques, Afonso de nome próprio

Lutou por um condado.

Homem revoltado?

Qual o objeto da sua revolta?

Terá sido explorado?

Possivelmente espoliado,

Ou apenas alma solta?

 

Um papel e uns quadrados.

Será um poker de mão,

Ou sondagem com recados

Fingindo revolução?

 

Alguém, escravo de modo próprio,

Entregou-se em todo o lado.

Homem vendido ou enganado?

Onde está a sua revolta?

Terá sido ameaçado?

Espancado, acorrentado?

Ou um revira sem volta?

 

Numa mão um papel.

Na outra, uma ilusão

É uma moeda que raspa;

Tem a força de um tostão.

 

Dom “Não Sei das Quantas”,

Por quem demanda Portugal?

Onde está esse povo

Que te imaginou imperial?

 

Hoje é mendigo envergonhado,

Perdeu a identidade

Nas praias de além-mar,

E nunca a recuperou.

 

Ser português, é ser herdeiro

De um nome sem dinheiro.

Esclavagista e interesseiro,

É racista por inteiro.

 

Não vale a pena negar.

O passado é presente,

E dizer-se inocente

Só irá piorar.

 

Num Portugal revoltado,

A culpa de ter nascido

Num país acontecido,

É certidão de pecado.

 

Enterrada a revolução,

Europeus reciclados,

Fizeram da culpa um senão

Para nos manter calados

 

Portugal envergonhado,

País perdido na história,

Nunca será revoltado,

Nem conhecerá a glória.

2026-08-05

O Homem Revoltado e a Poesia Revoltada (Parte II)

 

Parte II

 

A ingenuidade das questões não lhes afeta a pertinência. As duas últimas, de assustadora simplicidade, ecoam desde os primórdios do pensamento filosófico. Quantas as respostas dadas, e quantas sobrevivem aos tempos e às vontades? Recicladas, reinventadas, reafirmam incessantemente a sua inequívoca justiça.


Poetastra da modernidade decrépita, limito o meu olhar aos resultados visíveis, e as questões surgem novamente, como uma dor relembrada:

Qual o objetivo comum da revolta, e porquê?

Mais do que uma resposta, a poesia também pode personificar a impotência sedimentada da gênese humana.

Arqueólogo de banalidades desenterrei versos escondidos.

Primeiro, e último, dia de escavações:

 

“E assim versejou Paulo de Santo André;

 

Abertura


Sem objetivo, a revolta é tumulto,

Um escarro, ou um insulto,

pura inveja, ou egoísmo.

 

Palavra vã, ou recado,

Grito de loucura e raiva,

Sede de sangue ou castigo.

 

Qualquer que seja o sentido,

Finalidade, objetivo,

Tem de ser compreendido.

 

Tem de sair do peito.

De cada um o seu jeito,

Para expressar as emoções.

 

Posso gritar “Liberdade”,

Sem saber bem o que quero.

Pode ser só desespero.

 

Não basta ser consistente

Na palavra apregoada

Vendida à porta de entrada.

 

Não se deve confundir

Precisão com exatidão.

A cada uma o seu chão.

 

A palavra repetida

Não fica mais importante.

Só por gritar revolução.

 

Pode tornar-se vulgar,

Se ninguém a entender.

Ser, não é parecer.

 

 

Interlúdio

 

Digam ao que vêm, camaradas!

 

Se temos o mesmo sentir,

E o devir é igual,

Não haverá problemas.

 

Não faças da minha luta,

Uma expiação de pecados,

Um serviço de recados.

 

Revolução não é religião,

Nem justiça é sacramento

Para engolir no momento.

 

Não me ponhas de joelhos,

Fazendo promessas em vão,

Apenas para ter servidão.

 

A revolta é permeável,

Às águas que vão para o mar,

Mesmo que vão devagar.

 

 

Final

 

Sem mais para cantar,

nem alma para atormentar,

Vou calar a minha voz.

 

Esteja eu onde estiver,

Aconteça o que acontecer,

Nunca ficaremos sós.

 

Enquanto a revolta existir,

E houver pão para repartir,

Ela estará entre nós.”

 

(Poeta popular do início do século XXI. Depósito de Arqueologia Digital do Litoral Alentejano)