O que fica do amor
De Vénus, o amor idolatria, uma herança de heresia que ainda
nos faz sonhar. Dela renasce a poesia para cantar um sentimento que se quer
nobre. Venham as Ninfas de tragédia grega, entidades de sagradas vaginas, que emanam
odores de suor pós coito. Declamem-se insinuações de língua desnuda numa orgia
de sexo oral, e cantem-se paixões de tesão mal resolvida que vomita louvores a
um mecanismo biológico. Venerem-se amores de clássica dignidade, e derramem-se
as suas estórias em romances repetidos.
O amor é de posse exclusiva, assim o choram os poetas. Não
existe espaço para o amor do cuidado, um amor de granito sem compensações
óbvias. Mas é neste amor que se encontram os diamantes mais puros, quase
impossíveis de lapidar. Eles não estão guardados nos cofres de Amesterdão. Não
são de sangue, nem sujam o coração. Um amor assim é despido de ciúmes e de
inseguranças egoístas. O choro deste amor é um lamento silencioso, é um carpir
recatado que ninguém quer escrever. Ele existe em clausura e alimenta-se dessa
solidão. Há quem pense que é drama, mas não passa de puro amor.
Eu louvo o amor sublime, semeado nos socalcos da vida onde o
jardim não existe. É um amor de mãos sujas de terra, calejadas por agruras constantes.
É o amor do jardineiro, que cuida do jardim, mesmo quando ele está a morrer. É
amor para sofrer, não é amor para mostrar. Tem outro degustar, e bebe-se em
copos descartáveis, pois não se pretende acessório. Não é amor de cristal, nem se
veste de eternidade só para demonstrar grandeza. Dispensa Sagradas Escrituras,
mas não resiste à saudade.
Eu não podia passar sem um amor assim sublime. Repleto de
subtilezas, revela-se constantemente em pequenos gestos. É a mão que me
alimenta, que me veste, que me aconchega durante a noite e ainda é capaz de um
sorriso quando tudo à volta desaba. Amor com tal dimensão, se não houver quem o
cante, terá em mim a sua voz.
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