2026-08-15

O Que Fica do Amor

 

O que fica do amor

 

De Vénus, o amor idolatria, uma herança de heresia que ainda nos faz sonhar. Dela renasce a poesia para cantar um sentimento que se quer nobre. Venham as Ninfas de tragédia grega, entidades de sagradas vaginas, que emanam odores de suor pós coito. Declamem-se insinuações de língua desnuda numa orgia de sexo oral, e cantem-se paixões de tesão mal resolvida que vomita louvores a um mecanismo biológico. Venerem-se amores de clássica dignidade, e derramem-se as suas estórias em romances repetidos.

O amor é de posse exclusiva, assim o choram os poetas. Não existe espaço para o amor do cuidado, um amor de granito sem compensações óbvias. Mas é neste amor que se encontram os diamantes mais puros, quase impossíveis de lapidar. Eles não estão guardados nos cofres de Amesterdão. Não são de sangue, nem sujam o coração. Um amor assim é despido de ciúmes e de inseguranças egoístas. O choro deste amor é um lamento silencioso, é um carpir recatado que ninguém quer escrever. Ele existe em clausura e alimenta-se dessa solidão. Há quem pense que é drama, mas não passa de puro amor.

Eu louvo o amor sublime, semeado nos socalcos da vida onde o jardim não existe. É um amor de mãos sujas de terra, calejadas por agruras constantes. É o amor do jardineiro, que cuida do jardim, mesmo quando ele está a morrer. É amor para sofrer, não é amor para mostrar. Tem outro degustar, e bebe-se em copos descartáveis, pois não se pretende acessório. Não é amor de cristal, nem se veste de eternidade só para demonstrar grandeza. Dispensa Sagradas Escrituras, mas não resiste à saudade.

Eu não podia passar sem um amor assim sublime. Repleto de subtilezas, revela-se constantemente em pequenos gestos. É a mão que me alimenta, que me veste, que me aconchega durante a noite e ainda é capaz de um sorriso quando tudo à volta desaba. Amor com tal dimensão, se não houver quem o cante, terá em mim a sua voz.

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