Estacionou o carro. Olhou para o relógio, nove horas da manhã. Ainda se ouve o rádio, o motor ainda se mantém a trabalhar, ainda se ouve o gasóleo a circular, a queimar, o som de barítono rouco numa vocalização subaquática.
Sabe que vai esperar e essa certeza impede-lhe os movimentos. O corpo recusa-se a obedecer consciente das horas de torpor que lhe estão destinadas. Ele olha para a matéria que o suporta e diz-lhe “Sou eu que mando. Levanta-te corpo e cumpre a tua missão! Leva a consciência que te comanda de modo a que ela te possa alimentar e, quem sabe, talvez matar.”.
Esta ligeira disfunção é momentânea, dura o tempo das notícias, são nove horas e sete minutos e talvez não fosse o corpo que estivesse a fazer ronha. Seja como for o binómio orgânico precisa reagir. Desliga o rádio, roda a chave da ignição, faz calar esse motor rouco que te adormece, sai do carro e fecha a porta, esquece o calor do ar condicionado, deixa o bafo quente encontrar o ar frio da manhã, deixa que eles se entrelacem numa nuvem de vapor, deixa como se isso importasse.
O caminho até á porta do edifício é curto, não mais que cinquenta metros, talvez nem tanto, mas ele não tem fita métrica e hoje parece-lhe mais longo. As escadas só têm quatro degraus, talvez cinco, mas esse número multiplicou-se por um factor de grandeza igual à sua frustração à raiva que não consegue evitar.
Tem hora marcada para as nove e meia, deve estar presente quando o pensarem ausente. Leva um livro debaixo do braço, pequeno almoço reforçado, alguns cigarros e isqueiro. Também leva o telemóvel porque é necessário manter-se comunicável, de telemóvel ligado ele existe.
São onze horas da manhã e ainda não o receberam. As entrevistas atrasaram-se, a necessidade não é igual de ambas as partes. Lembra-se da última nota gasta em combustível, do café com leite, das carcaças com manteiga e fiambre, dos filhos em casa, da mulher longe, da mulher em casa, dos filhos longe…do último dia em que se sentiu útil e lembra-se de uma frase num livro “Ser optimista é pensar que vivemos no melhor sistema possível. Ser pessimista é acreditar que isso é verdade.”.
Chegou a sua vez. Entra devagar num trejeito que poderia ser confundido com timidez. Procura um lugar para poisar o livro. De modo algum o livro deverá ser abandonado como um objecto inútil. “Sente-se!”. O pedido é mais uma ordem, a última que vai receber.
Ele senta-se. “Sabe que vai ser difícil…”. A frase é cortada pela violência do impacto com que o pisa papéis embateu na cabeça do funcionário. O golpe foi fulminante, o corpo tombou sobre a secretária escorrendo sangue abundantemente.
Somente o silêncio. Esperou ainda alguns minutos até decidir levantar-se. Afinal não foi assim tão difícil. Sentiu-se aliviado. Pegou cuidadosamente no livro e saiu do gabinete. “Já está despachado?”. Ouviu a pergunta e sorriu. Virou-se para a mulher e como que segredando respondeu-lhe, “Sim! O assunto não era complicado. O Doutor pediu-me um favor…”, “o que é que o Doutor lhe pediu?...”, “Que você lhe levasse um comprimido para as dores de cabeça.”.
A rapariga, cuidadosamente vestida ficou olhando para ele vendo-o afastar-se. Já cá fora o ar deixara de ser frio. Percebeu pelos gritos que a secretária do senhor Doutor tinha entrado no gabinete, imaginou-lhe o corpo esbelto cingido pelo negro do vestido, sentiu-lhe o espanto e as tremuras.
O corpo agora obedecia-lhe melhor. A chave rodou na ignição, o gasóleo começou a circular provocando um ronronar manso.
Dai a pouco o carro circulava pelas ruas da cidade…
2012-04-07
2012-03-21
Amanhã
Amanhã eu vou ser grilo,
Vou cantar até morrer.
Vou ser vida proibida,
E teimar-me em nascer.
Vou ser luz, vou ser calor,
Um quadro de cores tentadoras.
Serei esperança e coragem,
Um assomo de liberdade,
Ou apenas a sua imagem.
Vou ser a flor que não é
E o verde que devia ser.
Vou ser a força que não tenho,
E a que poderia ter.
Vou ser palavras amigas,
E o outro com ouvidos.
Vou ser dois braços amigos,
O que sinto e os teus sentidos.
Amanhã eu vou lembra-me,
Fingir tudo sem fingir,
Ser o poeta que não sou,
Poetastro de mau vinho.
Vou esconder os meus rancores,
E deixar de ouvir o mar,
Resmungar palavras tolas
E brindar à Vera Prima.
Vou cantar até morrer.
Vou ser vida proibida,
E teimar-me em nascer.
Vou ser luz, vou ser calor,
Um quadro de cores tentadoras.
Serei esperança e coragem,
Um assomo de liberdade,
Ou apenas a sua imagem.
Vou ser a flor que não é
E o verde que devia ser.
Vou ser a força que não tenho,
E a que poderia ter.
Vou ser palavras amigas,
E o outro com ouvidos.
Vou ser dois braços amigos,
O que sinto e os teus sentidos.
Amanhã eu vou lembra-me,
Fingir tudo sem fingir,
Ser o poeta que não sou,
Poetastro de mau vinho.
Vou esconder os meus rancores,
E deixar de ouvir o mar,
Resmungar palavras tolas
E brindar à Vera Prima.
2012-02-03
Biblioteca
A biblioteca da Amadora esteve em tempos sediada na rua da “Nau”. A poucos metros da minha casa assediava-me sempre que me dirigia para aquela cervejaria. Com a sua grande montra virada para a rua deixava os seus frequentadores em posição inferior provocando nos transeuntes a sensação de verem estranhos seres subterrâneos debruçados sobre mesas. Não tenho a certeza mas penso que terá sido essa a razão que me fez lá entrar pela primeira vez. Do lado de dentro as pessoas cá fora eram só pés e pernas. Para que tal não acontecesse era necessário levantar a cabeça e nesse gesto pouco usual procurar nas alturas as feições de quem passava. Sim, eu passei algumas horas lá dentro. Sim, era um acto individual provocado por necessidades estranhas de silêncio acompanhado.
Actualmente, quando quero saber do meu pai e tenho o telemóvel sem bateria vou procurá-lo na biblioteca de Santo André. Penso que ele sente essa mesma necessidade. Nunca discutimos o assunto mas percebe-se o conforto silencioso da biblioteca. Muitas vezes chego e dou-lhe um beijo, também ele silencioso e deixo-me ficar a seu lado vendo-o transcrever palavras de um velho manual de Inglês. Nunca procurei a biblioteca de Santo André por vontade própria, talvez porque encontre no sossego de minha casa a paz para ler e escrever.
Mas a vida prega-nos partidas…Hoje levei a Deolinda ao médico a Santiago do Cacém. Santiago do Cacém também tem uma biblioteca e esta fica precisamente em frente da clínica onde eu ia deixar a Deolinda. Levava debaixo do braço um caderno, uma caneta e o jornal. Dentro do bolso o meu inseparável MP4. Escrevi algumas folhas e cansado de escrever fui procurar um livro. Fixei-me num pequeno livro já usado e sem apelos gráficos desmedidos. O livro “O Spleen de Paris” continha pequenos poemas em prosa de Charles Baudelaire.
Poderia falar do imenso prazer que me deu ler estas prosas poéticas, do facto de as ter lido a ouvir Keith Jarrett, “The Koln Concert”, de estar junto a uma janela virado para o castelo de Santiago, do calor do sol, ampliado pelas vidraças, me ter feito esquecer as notícias do frio. Sim poderia falar disso tudo…
Ficou-me este excerto do VII poema/prosa “ O Louco e a Vénus”:
Que dia admirável! O vasto parque sob os olhares flamejantes do Sol, tal como a juventude sob o domínio do amor.
O êxtase universal das coisas não se exprime por nenhum ruído; as próprias águas estão como adormecidas. Bem diferente das festas humanas, a orgia aqui é silenciosa.
Bom fim de semana!
Actualmente, quando quero saber do meu pai e tenho o telemóvel sem bateria vou procurá-lo na biblioteca de Santo André. Penso que ele sente essa mesma necessidade. Nunca discutimos o assunto mas percebe-se o conforto silencioso da biblioteca. Muitas vezes chego e dou-lhe um beijo, também ele silencioso e deixo-me ficar a seu lado vendo-o transcrever palavras de um velho manual de Inglês. Nunca procurei a biblioteca de Santo André por vontade própria, talvez porque encontre no sossego de minha casa a paz para ler e escrever.
Mas a vida prega-nos partidas…Hoje levei a Deolinda ao médico a Santiago do Cacém. Santiago do Cacém também tem uma biblioteca e esta fica precisamente em frente da clínica onde eu ia deixar a Deolinda. Levava debaixo do braço um caderno, uma caneta e o jornal. Dentro do bolso o meu inseparável MP4. Escrevi algumas folhas e cansado de escrever fui procurar um livro. Fixei-me num pequeno livro já usado e sem apelos gráficos desmedidos. O livro “O Spleen de Paris” continha pequenos poemas em prosa de Charles Baudelaire.
Poderia falar do imenso prazer que me deu ler estas prosas poéticas, do facto de as ter lido a ouvir Keith Jarrett, “The Koln Concert”, de estar junto a uma janela virado para o castelo de Santiago, do calor do sol, ampliado pelas vidraças, me ter feito esquecer as notícias do frio. Sim poderia falar disso tudo…
Ficou-me este excerto do VII poema/prosa “ O Louco e a Vénus”:
Que dia admirável! O vasto parque sob os olhares flamejantes do Sol, tal como a juventude sob o domínio do amor.
O êxtase universal das coisas não se exprime por nenhum ruído; as próprias águas estão como adormecidas. Bem diferente das festas humanas, a orgia aqui é silenciosa.
Bom fim de semana!
2012-01-24
Que seca!
Que seca! Olho para o outro lado da rua e vejo o jornaleiro que já não existe, a banca que desapareceu e os jornais que já não tentam desprender-se dos elásticos ausentes.
Que seca! O velho café fechou e o novo que lá abriu, LCD na parede, cadeiras com ergonomia assegurada, visualmente moderno, pop, ou lá o que seja, deixa-me um sabor estranho nos olhos, talvez o perfume que me arranha a pele.
Que seca! Diz a minha filha quando lhe infernizo o juízo e perante uma qualquer justificação parva exclama, LOL! E eu sem mais digo-lhe, SOS! O quê pai? SOS! Tu estás bem pai? Que seca tentar estar actualizado, perceber o que há-de ser sempre igual com vocábulos diferentes, vocábulos inventados na fobia juvenil de tudo codificar, de tudo diferenciar. E eu que tanto diferenciei sinto-me perdido por tudo me parecer igual. Fogo pai não percebes nada! Sim filha, eu também gosto de ti. Um sorriso teu que vale por mil, um ligeiro beijo…Pai tu picas! Eu sei, amanhã eu corto-a!
Que seca! O olhar provocador do cão enquanto me mija o pneu do carro. ÃO! ÃO! Este carro pode ser teu mas entre aquela curva da estrada e este sinal de passadeira tudo tem de cheirar a mim. Eu não me importo que me mijes a roda do carro, o que eu não gosto mesmo é essa perna alçada, esses tomates à mostra, do género, “Olha o que eu tenho para ti!”.
Que seca! Estou sentado e tento concentrar-me, as letras fogem-me e eu teimo em não usar os óculos para ver ao perto, para ler, para os detalhes…estou-me nas tintas para os detalhes! Olá Paulo! Posso sentar-me? Claro, meu irmão, estava mesmo farto de tentar ler o jornal. Nem sei porque é que ainda compras essa treta.
Que seca! Há obras por todo o lado! Agora que me dizem não haver dinheiro só vejo é máquinas de asfaltar, “Estradas da Planície”, que imaginação! P…Que os Pariu! Já nem dinheiro têm para fazer o resto até Beja! Que seca!
Este verão irão aparecer cartazes apelativos, “Sinta as pedras a bater no seu pára-brisas, sinta os fantasmas das árvores abatidas, sinta as camadas de asfalto fazerem-lhe cócegas nos pés, tudo isto que fazemos fazemo-lo para si, visite-nos, estacione a sua caravana junto das dezenas de outras que bordejam a praias, muro de casas sobre rodas em nome da mobilidade, da liberdade…” P…Que Pariu a liberdade! Que seca!
Que seca! Escrevo estas palavras como um desabafo…Sou um falso…Não digo o que me vai na alma, apenas o que me incomoda, o que perturba a minha epiderme sensorial. Que seca, o copo está vazio, são vinte e três horas e apetece-me fumar um cigarro.
Este Inverno falta-me um pouco de chuva…Que seca!
2012-01-16
Um conto
Jonas é um homem já feito. Feito porque foi feito, feito porque assim se mantém. Poder-se-ia dizer que depois de feito só lhe bastava crescer. Jonas tornou-se “Jonas” porque João não lhe bastava, nem aos amigos que assim o baptizaram.
Jonas nasceu numa família pequena, numa casa pequena, numa terra pequena, num país pequeno, Jonas também é pequeno, mas só de tamanho, mas disso não tem culpa assim como de tudo o resto.
Jonas andou na escola mas não estudou, teve empregos mas não trabalhou, mas quando sonhou partiu. Esteve em África quando todos se vieram embora, foi para o Brasil quando o Brasil era favela e fez-se pescador quando voltou a Portugal.
Jonas teve um barco pequeno, pequeno foi o barco mas grande foi o amor que teve por ele. Jonas que é um homem já feito disse que tinha sido feito para o mar. Foi o mar que lhe levou o barco e por pouco também a vida. Maldito dia em que um barco maior não o viu e numa madrugada enevoada o entornou para a água.
Benditos os braços de Jonas que lhe despiram a roupa, lhe tiraram as botas e lhe remaram o corpo para terra.
Jonas, homem já feito, tornou-se mendigo, habitou-se a pedir, trocou o mar pela terra e vagueou sem destino à espera de outro sonho, Jonas queria ser poeta.
Mas Jonas não sabia escrever, ou já não se lembrava, sabia no entanto as palavras que descreviam a vida do homem que era. Jonas recordava da mesma maneira que os poetas inventam.
Jonas comia pouco e bebia o que podia. Jonas tinha uma tenda por detrás do pinhal.
Jonas trocava poemas por sandes, frases por cigarros, filosofias por um copo.
Hoje Jonas partiu…Não morreu! Partiu apenas. Deixou a tenda e o sonho da poesia. Diz quem sabe que o viu a caminho do Algarve, a pé, pela estrada que sai do Cercal.
Jonas, homem já feito, não para de sonhar…
Jonas nasceu numa família pequena, numa casa pequena, numa terra pequena, num país pequeno, Jonas também é pequeno, mas só de tamanho, mas disso não tem culpa assim como de tudo o resto.
Jonas andou na escola mas não estudou, teve empregos mas não trabalhou, mas quando sonhou partiu. Esteve em África quando todos se vieram embora, foi para o Brasil quando o Brasil era favela e fez-se pescador quando voltou a Portugal.
Jonas teve um barco pequeno, pequeno foi o barco mas grande foi o amor que teve por ele. Jonas que é um homem já feito disse que tinha sido feito para o mar. Foi o mar que lhe levou o barco e por pouco também a vida. Maldito dia em que um barco maior não o viu e numa madrugada enevoada o entornou para a água.
Benditos os braços de Jonas que lhe despiram a roupa, lhe tiraram as botas e lhe remaram o corpo para terra.
Jonas, homem já feito, tornou-se mendigo, habitou-se a pedir, trocou o mar pela terra e vagueou sem destino à espera de outro sonho, Jonas queria ser poeta.
Mas Jonas não sabia escrever, ou já não se lembrava, sabia no entanto as palavras que descreviam a vida do homem que era. Jonas recordava da mesma maneira que os poetas inventam.
Jonas comia pouco e bebia o que podia. Jonas tinha uma tenda por detrás do pinhal.
Jonas trocava poemas por sandes, frases por cigarros, filosofias por um copo.
Hoje Jonas partiu…Não morreu! Partiu apenas. Deixou a tenda e o sonho da poesia. Diz quem sabe que o viu a caminho do Algarve, a pé, pela estrada que sai do Cercal.
Jonas, homem já feito, não para de sonhar…
2012-01-04
Os dias estão bonitos!
Os dias estão bonitos. Talvez por estarem tão bonitos deixaram-me mais atento. Que melhor desculpa poderia eu ter para ouvir diálogos alheios?
À portaria da fábrica, por volta das oito horas, juntam-se uniformes de trabalho num mesclado cinzento. São os “empreiteiros”, pessoal que veio de longe, de perto, de qualquer lugar onde falte emprego, a construção da nova unidade assim o exige. Os quartos da região estão todos ocupados, os andares arrendados, a espanhóis, a imigrantes do leste, a brasileiros, aos africanos de nascença ou de descendência, a portugueses vindos do norte, a gente de sul que deixou de poder trabalhar em Espanha, na Holanda, em qualquer outro lugar, onde o dinheiro ganho de forma sazonal, ia dando para a despesa.
Formam-se grupos, esperam-se os encarregados, os responsáveis pela segurança, aguardam-se chamamentos que permitam a entrada ordenada pelo torniquete. No meio desde burburinho tento entrar despercebido, sigo um atalho de corpos, espero a minha vez e sigo atrás de um pequeno grupo. O passeio construído em “I’s” de cimento é ladeado por vários metros de relvado durante os duzentos metros que separam a portaria da rede das fábricas. Não costumo seguir, ordeiro, na corrente que se forma até à segunda entrada, geralmente entretenho-me a fazer gincanas.
Mas os dias estão bonitos, frios mas bonitos e convidam-me a passos lentos. Sigo aquele pequeno grupo, quatro homens, uma mulher, a responsável pela segurança, mulher nova com menos de trinta anos. Um dos homens, moço novo com pouco mais de vinte anos, queixa-se com o frio do quarto, “F…tu tinhas dito que ias comprar a m… dum aquecedor”, o mais velho, moço de trinta e poucos, responde-lhe à letra “Porque que não o compras tu c…? Sais á noite para mamar mas para comprar o c… do aquecedor tá quieto!”. O outro tentou responder qualquer coisa que o vento abafou e o mais velho continuou, “Eu se tivesse guita também andava nos copos, mas f…., se vou para o quarto já não saio! E tu não precisas de aquecedor meu cabrão, tu cagas-te como ò c….!”. Riram-se todos, eu também me ri...por dentro…
Houve troca de acusações até que o mais velho fez valer a experiência “Meu, eu na paragem dois mil só havia um dia que não vinha bêbado e era à sexta feira!”. Virei para o lado direito, pressenti-os e lancei-lhes um último olhar…Cabo Ruivo 1983!....o que a memória vai buscar…
F… os dias estão mesmo bonitos!
À portaria da fábrica, por volta das oito horas, juntam-se uniformes de trabalho num mesclado cinzento. São os “empreiteiros”, pessoal que veio de longe, de perto, de qualquer lugar onde falte emprego, a construção da nova unidade assim o exige. Os quartos da região estão todos ocupados, os andares arrendados, a espanhóis, a imigrantes do leste, a brasileiros, aos africanos de nascença ou de descendência, a portugueses vindos do norte, a gente de sul que deixou de poder trabalhar em Espanha, na Holanda, em qualquer outro lugar, onde o dinheiro ganho de forma sazonal, ia dando para a despesa.
Formam-se grupos, esperam-se os encarregados, os responsáveis pela segurança, aguardam-se chamamentos que permitam a entrada ordenada pelo torniquete. No meio desde burburinho tento entrar despercebido, sigo um atalho de corpos, espero a minha vez e sigo atrás de um pequeno grupo. O passeio construído em “I’s” de cimento é ladeado por vários metros de relvado durante os duzentos metros que separam a portaria da rede das fábricas. Não costumo seguir, ordeiro, na corrente que se forma até à segunda entrada, geralmente entretenho-me a fazer gincanas.
Mas os dias estão bonitos, frios mas bonitos e convidam-me a passos lentos. Sigo aquele pequeno grupo, quatro homens, uma mulher, a responsável pela segurança, mulher nova com menos de trinta anos. Um dos homens, moço novo com pouco mais de vinte anos, queixa-se com o frio do quarto, “F…tu tinhas dito que ias comprar a m… dum aquecedor”, o mais velho, moço de trinta e poucos, responde-lhe à letra “Porque que não o compras tu c…? Sais á noite para mamar mas para comprar o c… do aquecedor tá quieto!”. O outro tentou responder qualquer coisa que o vento abafou e o mais velho continuou, “Eu se tivesse guita também andava nos copos, mas f…., se vou para o quarto já não saio! E tu não precisas de aquecedor meu cabrão, tu cagas-te como ò c….!”. Riram-se todos, eu também me ri...por dentro…
Houve troca de acusações até que o mais velho fez valer a experiência “Meu, eu na paragem dois mil só havia um dia que não vinha bêbado e era à sexta feira!”. Virei para o lado direito, pressenti-os e lancei-lhes um último olhar…Cabo Ruivo 1983!....o que a memória vai buscar…
F… os dias estão mesmo bonitos!
2011-12-30
E depois…A Gravata Verde
Na mesa que estava gasta,
O dia ia longo,
De lonjuras gastronómicas,
De garrafas cansadas de vazias,
O dia ia longo neste natal de 2011.
Alguém que coma mais um pouco,
Um pouco do que sobra nestes pratos,
Nesta mesa gasta,
Cansada de um dia longo.
A televisão esgotara-se,
Esvaíra-se,
De programas,
De circos,
De pretensos filmes de natal,
De espectáculos gastos…
…E longos,
Neste dia de natal,
Que ia longo.
E depois…
A gravata apareceu,
Verde,
Elegante,
Preparada.
A gravata estava preparada,
Arranjada,
Estudada,
Hoje vais ser verde,
Verde da esperança que nos falta,
Verde da esperança que te prometem esta noite,
Mas que te roubam de dia,
Todos os dias,
Também neste dia,
Um dia que ia longo.
A gravata não veio sozinha,
Tinha um sujeito agarrado,
De fato imaculado…
Era um facto!
O dia ia longo,
De lonjuras gastronómicas,
De garrafas cansadas de vazias,
O dia ia longo neste natal de 2011.
Alguém que coma mais um pouco,
Um pouco do que sobra nestes pratos,
Nesta mesa gasta,
Cansada de um dia longo.
A televisão esgotara-se,
Esvaíra-se,
De programas,
De circos,
De pretensos filmes de natal,
De espectáculos gastos…
…E longos,
Neste dia de natal,
Que ia longo.
E depois…
A gravata apareceu,
Verde,
Elegante,
Preparada.
A gravata estava preparada,
Arranjada,
Estudada,
Hoje vais ser verde,
Verde da esperança que nos falta,
Verde da esperança que te prometem esta noite,
Mas que te roubam de dia,
Todos os dias,
Também neste dia,
Um dia que ia longo.
A gravata não veio sozinha,
Tinha um sujeito agarrado,
De fato imaculado…
Era um facto!
2011-12-21
Meu fado
O fado como eu o conheço,
É feito de palavras doridas,
Coisas amargas, sofridas,
Dores que vi e não esqueço.
A minha vida não tem preço,
Nunca a vendi a ninguém,
Nem mesmo a quem me quer bem.
Não tem rotulo nem etiqueta,
Não está num frasco ou saqueta,
Só dela estou refém
O fado é destino traçado,
Vida que é vida por ser,
O que se é antes de morrer.
Fado é futuro é passado,
É um amor destroçado,
É o caminho dos dias,
Companheiro das noites frias,
Retrato da minha tristeza,
Dúvida na minha certeza,
O livro que tu não lias.
Fado é o meu esquecimento,
E o que me falta esquecer.
Do que não vi mas vou ver,
Apenas aguardo o momento,
Pois o fado é espera é tormento,
É o choro de alguém sentido,
Soldado sem guerra, perdido.
Fado é sorte é esperança,
Uma memória, lembrança,
A alma de um convertido.
É feito de palavras doridas,
Coisas amargas, sofridas,
Dores que vi e não esqueço.
A minha vida não tem preço,
Nunca a vendi a ninguém,
Nem mesmo a quem me quer bem.
Não tem rotulo nem etiqueta,
Não está num frasco ou saqueta,
Só dela estou refém
O fado é destino traçado,
Vida que é vida por ser,
O que se é antes de morrer.
Fado é futuro é passado,
É um amor destroçado,
É o caminho dos dias,
Companheiro das noites frias,
Retrato da minha tristeza,
Dúvida na minha certeza,
O livro que tu não lias.
Fado é o meu esquecimento,
E o que me falta esquecer.
Do que não vi mas vou ver,
Apenas aguardo o momento,
Pois o fado é espera é tormento,
É o choro de alguém sentido,
Soldado sem guerra, perdido.
Fado é sorte é esperança,
Uma memória, lembrança,
A alma de um convertido.
2011-12-09
Décimas para,
Um fado de (falsas) ilusões
Ou
Fado do mal agradecido
Ou
Fado da geração de “Alex”
Leva-me à boca a garrafa,
Deixa-me bebê-la de um trago,
Sonhar quer já fui jovem,
Sem me sentir estragado.
Ouvir desse novo som,
Sentir novamente a nascer,
A vontade de quem quer “viver”.
Pensar que sou bom,
Que não estou fora de tom.
O escritório que me agrafa,
Afogado num ar que me abafa.
As paredes que me cercam,
As portas que me fecham,
Leva-me à boca a garrafa.
Hoje estou longe de mim,
Estou onde não escolhi estar.
Poderia estar noutro lugar,
Mas como vês estou assim.
Estou à procura de um fim,
De um canto, um lugar vago.
De mergulhar neste lago.
De sentir uma mão.
Traz-me uma nova canção,
Deixa-me bebê-la de um trago.
Ouve-me deus meu, meu senhor,
Ouve o que te quero pedir,
Estou farto de fugir.
Sangra-me a alma, sinto dor,
Perdi o resto de amor.
Olho para o que lá vem,
Olho e sinto desdém.
Esta vida não me agrada,
Vou-me fazer à estrada,
Sonhar que já fui jovem.
Acordei e olhei à volta,
Olhei p’ró fundo, p’ró fim,
Olhei para dentro de mim,
Mesmo junto à minha porta.
Não vou pedir vida morta,
De boi manso, de mau gado
Do que deixei do outro lado.
Olhei p’ró que me falta viver,
Vivo a vida por querer,
Sem me sentir estragado.
Ou
Fado do mal agradecido
Ou
Fado da geração de “Alex”
Leva-me à boca a garrafa,
Deixa-me bebê-la de um trago,
Sonhar quer já fui jovem,
Sem me sentir estragado.
Ouvir desse novo som,
Sentir novamente a nascer,
A vontade de quem quer “viver”.
Pensar que sou bom,
Que não estou fora de tom.
O escritório que me agrafa,
Afogado num ar que me abafa.
As paredes que me cercam,
As portas que me fecham,
Leva-me à boca a garrafa.
Hoje estou longe de mim,
Estou onde não escolhi estar.
Poderia estar noutro lugar,
Mas como vês estou assim.
Estou à procura de um fim,
De um canto, um lugar vago.
De mergulhar neste lago.
De sentir uma mão.
Traz-me uma nova canção,
Deixa-me bebê-la de um trago.
Ouve-me deus meu, meu senhor,
Ouve o que te quero pedir,
Estou farto de fugir.
Sangra-me a alma, sinto dor,
Perdi o resto de amor.
Olho para o que lá vem,
Olho e sinto desdém.
Esta vida não me agrada,
Vou-me fazer à estrada,
Sonhar que já fui jovem.
Acordei e olhei à volta,
Olhei p’ró fundo, p’ró fim,
Olhei para dentro de mim,
Mesmo junto à minha porta.
Não vou pedir vida morta,
De boi manso, de mau gado
Do que deixei do outro lado.
Olhei p’ró que me falta viver,
Vivo a vida por querer,
Sem me sentir estragado.
2011-12-01
Décimas para um fado actual
Moderna morte a fadiga.
Falta-me trabalho e dinheiro,
Mas não me faltam promessas,
Para uma visita ao coveiro.
Destino turvo e curvado,
Tristes estradas e caminhos,
Todos juntos ou sozinhos.
Uns de frente outros de lado,
Um ou outro mais chegado.
Levo a mão que mendiga,
E a boca que mastiga
Por vergonha está cerrada.
Tenho uma vida cansada
Moderna morte a fadiga.
Agora que estou sem lei
Conto-te a história da vida,
Da minha por ser vivida,
Porque das outras não sei.
Por lá perto eu andei,
Tinta do mesmo tinteiro,
Cortiça do mesmo sobreiro.
Conto-te de mim onde estou.
Onde estive, para onde vou,
Falta-me trabalho e dinheiro.
Agora que tudo perdi,
Derrapagem sem sentido,
Sem direito a desmentido,
Olho em silêncio para ti.
Perdoa-me se não reagi,
No passado de onde regressas,
Nas minhas noites sem pressas,
Guardo em mim a tua imagem,
Margem da outra margem,
Mas não me faltam promessas
De todo o meu sentimento,
Estou mais farto do que velho,
Mais despido, mais vermelho,
Vítima deste momento,
Sou sacrilégio, sou tormento,
Sou um homem meio inteiro,
Cortaram-me pelo meio.
É a alma que se agarra,
Tristemente a uma guitarra,
Para uma visita ao coveiro
Falta-me trabalho e dinheiro,
Mas não me faltam promessas,
Para uma visita ao coveiro.
Destino turvo e curvado,
Tristes estradas e caminhos,
Todos juntos ou sozinhos.
Uns de frente outros de lado,
Um ou outro mais chegado.
Levo a mão que mendiga,
E a boca que mastiga
Por vergonha está cerrada.
Tenho uma vida cansada
Moderna morte a fadiga.
Agora que estou sem lei
Conto-te a história da vida,
Da minha por ser vivida,
Porque das outras não sei.
Por lá perto eu andei,
Tinta do mesmo tinteiro,
Cortiça do mesmo sobreiro.
Conto-te de mim onde estou.
Onde estive, para onde vou,
Falta-me trabalho e dinheiro.
Agora que tudo perdi,
Derrapagem sem sentido,
Sem direito a desmentido,
Olho em silêncio para ti.
Perdoa-me se não reagi,
No passado de onde regressas,
Nas minhas noites sem pressas,
Guardo em mim a tua imagem,
Margem da outra margem,
Mas não me faltam promessas
De todo o meu sentimento,
Estou mais farto do que velho,
Mais despido, mais vermelho,
Vítima deste momento,
Sou sacrilégio, sou tormento,
Sou um homem meio inteiro,
Cortaram-me pelo meio.
É a alma que se agarra,
Tristemente a uma guitarra,
Para uma visita ao coveiro
2011-11-23
A CULPA
Louvados sejam os deuses,
Glorificados os seu actos,
Na esperança de sua bênção.
Que incapacidade genética,
Que deficiência maligna,
Nos tornou tão submissos?
Louvados sejam os guias,
Adorados os seus passos,
Porque o caminho é difícil.
Levem-nos pela mão,
Cegos por convicção,
Amanhã o regresso será incerto,
E o futuro desconhecido.
Pensem por nós que somos pecadores.
Nós que escolhemos sem saber
Um destino qualquer.
Lavem-me a roupa das nódoas,
A alma das misérias
E a cabeça de pensamentos.
Doem-me tanto as decisões,
As escolhas incertas,
As ruas desertas
Por onde me fazem andar.
Deixem-me somente o prazer,
Mesmo que não seja eu a escolher.
Quero lá saber da liberdade,
Se não souber a quem louvar.
Quero que me levem pela mão.
Levem-me vocês que inventaram o medo
E a minha solidão.
Levem-me dos receios que não sabia,
Levem-me de tudo o que desconhecia.
Não quero ter opinião,
Que me reste a justificação
De não haver outra saída.
Adormeçam-me com receios,
Cenários escuros e negros,
Abismos e sobressaltos.
Acordem-me para votar,
Façam-me sentir importante
Com escolhas de mão no ar.
Ontem disse que sim,
Hoje penso que não.
E vocês que já lá estão
Estão a rir-se de mim.
Louvados todos os que eu sigo
Porque já não há solução,
Enquanto eu beijar a mão
Que me dá o castigo.
Glorificados os seu actos,
Na esperança de sua bênção.
Que incapacidade genética,
Que deficiência maligna,
Nos tornou tão submissos?
Louvados sejam os guias,
Adorados os seus passos,
Porque o caminho é difícil.
Levem-nos pela mão,
Cegos por convicção,
Amanhã o regresso será incerto,
E o futuro desconhecido.
Pensem por nós que somos pecadores.
Nós que escolhemos sem saber
Um destino qualquer.
Lavem-me a roupa das nódoas,
A alma das misérias
E a cabeça de pensamentos.
Doem-me tanto as decisões,
As escolhas incertas,
As ruas desertas
Por onde me fazem andar.
Deixem-me somente o prazer,
Mesmo que não seja eu a escolher.
Quero lá saber da liberdade,
Se não souber a quem louvar.
Quero que me levem pela mão.
Levem-me vocês que inventaram o medo
E a minha solidão.
Levem-me dos receios que não sabia,
Levem-me de tudo o que desconhecia.
Não quero ter opinião,
Que me reste a justificação
De não haver outra saída.
Adormeçam-me com receios,
Cenários escuros e negros,
Abismos e sobressaltos.
Acordem-me para votar,
Façam-me sentir importante
Com escolhas de mão no ar.
Ontem disse que sim,
Hoje penso que não.
E vocês que já lá estão
Estão a rir-se de mim.
Louvados todos os que eu sigo
Porque já não há solução,
Enquanto eu beijar a mão
Que me dá o castigo.
2011-11-19
Dúvida
Lembro-me de mim,
em cada passo me revejo.
Do centro ao sul
e depois ao centro.
Lembro-me de ti,
ao lado dos passos que dei.
De um lado ao outro,
De tudo o que foi,
e depois voltei.
Voltei porque tinha de voltar,
porque os passos não se esquecem,
porque com os passos que dei,
a algum lado havia de chegar.
Sítio que é porque estou,
relembro quem ficou.
E lembro-me de mim,
com os passos que dei.
Assim foi o que decidi,
horas na estrada do sul,
rumo ao sol que nascia,
rumo ao sul que um dia soube,
para um “Eu” já pequenino.
Numa terra de um largo,
num terraço já antigo,
de uma casa que não existe,
com uma porta e um postigo,
por onde ninguém olha.
Foi destino, foi castigo,
foi a vida, fui eu,
com os passos que dei,
que decidi, amigo,
voltar ao que já não sei.
Sei que não é retorno,
parte de mim ai morreu
e outra parte renasceu,
num lugar mais morno.
Lembro-me de mim
e dos passos que dei,
Só não sei se fui eu que caminhei.
2011-11-14
Quando as palavras nos faltam porque as pessoas se foram

Sentado na minha cadeira,
no conforto do meu quarto,
na sala do meu descanso, manso o desassossego das visitas.
A cadeira de um café,
onde também se bebia café,
porque era no café que tudo começava
e onde tudo também podia acabar.
Falam as bocas de coisas, de pessoas,
das pessoas o mundo,
do mundo as palavras e as pessoas que as dizem.
Foi ontem, mais ou menos à trinta anos,
como podia ser hoje a pensar ontem,
como se tivesse importância o que se diz quando se pensa.
Foram quartos, muitos quartos,
dos quartos de pessoas que se conheciam.
O conforto dos quartos, que era o conforto da amizade,
da cumplicidade, de mais qualquer coisa.
Na sala a música,
omnipresente,
pretexto e finalidade,
desculpa ou lazer,
prazer, discussão, união.
As visitas que se repetiam,
os números que sabiam,
as portas que se conheciam,
e outras coisas mais que atenuavam desassossegos.
Mansos os dias de visita,
calmas peregrinações,
de café em café, sala em sala,
nas escadas, nos jardins, nos passeios
ou simplesmente na rua,
na minha, na tua, na nossa,
que também podia não ser…
tudo isto são palavras que são ditas quando não existem palavras,
porque as palavras escasseiam quando a ausência é definitiva,
no entanto dizem-se!
Até logo!
2011-08-24
Assertivo
ASSERTIVO:
assertivo (Lat. assertivu),adj. que encerra asserto; afirmativo.
asserto (Lat. assertu), s.m. asserção; afirmação.
asserção (Lat. assertione), s.f. proposição que se apresenta como verdadeira; afirmação; asseveração; alegação.
afirmação (Lat. Affirmatione), s.f. acto de afirmar; asseveração, declaração peremptória;
Eu afirmo!
Serei assertivo?
E se afirmar uma mentira, será a minha mentira uma declaração peremptória?
Decisiva será se for terminante, se nela encerrar a convicção de quem engana.
E se mentir convicto de afirmar verdade?
Será a minha afirmação uma asserção?
E a minha atitude?
Terá ela a assertividade que se reconhece nas pessoas honestas?
Será honesta a pessoa que não confirma as suas afirmações?
E se essa pessoa confirmar incorrectamente, se basear as suas afirmações numa mentira bem contada, numa mentira que é geralmente aceite como verdade sem que disso tenha consciência?
Poderei eu respeitar os outros apenas pelo facto de afirmar sem alienar, sem influenciar?
Sempre quis ser assertivo, homem de bem, homem de proposições que se apresentam como verdadeiras, mesmo quando não o são.
Sentado à mesa, uma mesa comprida, rectangular, de frente para um grupo de homens austeros, rígidos, implacáveis, inflexíveis. Sentado à mesa, deste lado, do lado de cá. Comigo estão outros homens, também eles rígidos, tesos, como se diz dos homens que vão à luta, que arriscam o pouco que têm pelo muito que todos possam ganhar.
Sentado à mesa espero a minha vez. Alguns tópicos num papel, a convicção de que tenho razão. Os tópicos que também são as minhas razões, as razões que esperam por se afirmar.
Por cima da mesa ouvem-se afirmações, asserções, declarações, de um lado, do outro, num jogo de esgrima, como se as palavras de uns procurassem a sua verdade nas incertezas dos outros, nos outros termos, nos outros homens que os dizem.
Conseguirei eu ser assertivo, repousar a minha verdade de forma conclusiva, definitiva, como se nada mais houvesse para dizer, ou melhor, afirmar.
Sim, eu proferi afirmações, verdades que sendo minhas estão de acordo com as verdades dos outros, ou não? Eu julgava que sim, assim como eles. Eles que procuram as imperfeições das minhas afirmações, que tentam destruir a minha assertividade, num duelo de verdades, as deles, as minhas, verdades que se cruzam de tempos a tempos, um ligeiro roçar de sílabas, um partilhar de conceitos desgarrados sem que isso se torne compromisso.
Entrei no jogo, entrei para perder, o jogo de assertividades contraditórias, eu sei que não tenho toda a razão, eles também não a têm e sabem-no. Poderemos ficar pelo meio, menor denominador comum, que o maior seria pedir muito, seria?
A meio do jogo o resultado é incerto, mas eu tenho algumas certezas, a certeza de que não vou conseguir tudo o que pretendo, a dúvida de que talvez consiga alguma coisa, uma declaração favorável, algo a que me possa agarrar, uma verdade que seja comum, uma no meio de todas as outras que não o são.
O jogo está a chegar ao fim, a mesa está cheia de garrafas de água, cheia de assertividades inconsequentes, cheia de verdades que de tantas vezes ditas perderam objectividade.
Podemos fazer a acta da reunião, que afirmações podem ficar registadas? O silêncio que ocupa aqueles breves segundos…Será altura de fazer mais afirmações?
Faz-se um esboço, depois cada um lê e lá para o final da semana sairá a versão definitiva que de tão consensual nunca será assertiva. De um lado ficará a nossa verdade do outro a verdade deles, no meio, o que conseguirmos aproveitar…
Amanhã ir-me-ão perguntar, “Então correu bem? Conseguiram o que tínhamos decidido no plenário?”, “ Não!”, seria esta a asserção, mas não posso fazê-lo, não devo fazê-lo, e tanto que eu quero dizer “Não!”. Vou-me deixar levar pela demagogia, fazer uma festa com uma mão cheia de nada.
Vale a pena lutar? Claro que vale! Para saberem que não somos uns” merdas”, podem mandar na gente mas não nos fazem de parvos.
Somos parvos!
Serei eu assertivo quando digo que somos parvos?
Pelo menos é uma afirmação.
Ou será a confissão de um estado de espírito?
Tudo isto afirmei, verdades da minha verdade, a assertividade possível, a que me foi possível. Terá sido suficiente?
Para mim foi.
assertivo (Lat. assertivu),adj. que encerra asserto; afirmativo.
asserto (Lat. assertu), s.m. asserção; afirmação.
asserção (Lat. assertione), s.f. proposição que se apresenta como verdadeira; afirmação; asseveração; alegação.
afirmação (Lat. Affirmatione), s.f. acto de afirmar; asseveração, declaração peremptória;
Eu afirmo!
Serei assertivo?
E se afirmar uma mentira, será a minha mentira uma declaração peremptória?
Decisiva será se for terminante, se nela encerrar a convicção de quem engana.
E se mentir convicto de afirmar verdade?
Será a minha afirmação uma asserção?
E a minha atitude?
Terá ela a assertividade que se reconhece nas pessoas honestas?
Será honesta a pessoa que não confirma as suas afirmações?
E se essa pessoa confirmar incorrectamente, se basear as suas afirmações numa mentira bem contada, numa mentira que é geralmente aceite como verdade sem que disso tenha consciência?
Poderei eu respeitar os outros apenas pelo facto de afirmar sem alienar, sem influenciar?
Sempre quis ser assertivo, homem de bem, homem de proposições que se apresentam como verdadeiras, mesmo quando não o são.
Sentado à mesa, uma mesa comprida, rectangular, de frente para um grupo de homens austeros, rígidos, implacáveis, inflexíveis. Sentado à mesa, deste lado, do lado de cá. Comigo estão outros homens, também eles rígidos, tesos, como se diz dos homens que vão à luta, que arriscam o pouco que têm pelo muito que todos possam ganhar.
Sentado à mesa espero a minha vez. Alguns tópicos num papel, a convicção de que tenho razão. Os tópicos que também são as minhas razões, as razões que esperam por se afirmar.
Por cima da mesa ouvem-se afirmações, asserções, declarações, de um lado, do outro, num jogo de esgrima, como se as palavras de uns procurassem a sua verdade nas incertezas dos outros, nos outros termos, nos outros homens que os dizem.
Conseguirei eu ser assertivo, repousar a minha verdade de forma conclusiva, definitiva, como se nada mais houvesse para dizer, ou melhor, afirmar.
Sim, eu proferi afirmações, verdades que sendo minhas estão de acordo com as verdades dos outros, ou não? Eu julgava que sim, assim como eles. Eles que procuram as imperfeições das minhas afirmações, que tentam destruir a minha assertividade, num duelo de verdades, as deles, as minhas, verdades que se cruzam de tempos a tempos, um ligeiro roçar de sílabas, um partilhar de conceitos desgarrados sem que isso se torne compromisso.
Entrei no jogo, entrei para perder, o jogo de assertividades contraditórias, eu sei que não tenho toda a razão, eles também não a têm e sabem-no. Poderemos ficar pelo meio, menor denominador comum, que o maior seria pedir muito, seria?
A meio do jogo o resultado é incerto, mas eu tenho algumas certezas, a certeza de que não vou conseguir tudo o que pretendo, a dúvida de que talvez consiga alguma coisa, uma declaração favorável, algo a que me possa agarrar, uma verdade que seja comum, uma no meio de todas as outras que não o são.
O jogo está a chegar ao fim, a mesa está cheia de garrafas de água, cheia de assertividades inconsequentes, cheia de verdades que de tantas vezes ditas perderam objectividade.
Podemos fazer a acta da reunião, que afirmações podem ficar registadas? O silêncio que ocupa aqueles breves segundos…Será altura de fazer mais afirmações?
Faz-se um esboço, depois cada um lê e lá para o final da semana sairá a versão definitiva que de tão consensual nunca será assertiva. De um lado ficará a nossa verdade do outro a verdade deles, no meio, o que conseguirmos aproveitar…
Amanhã ir-me-ão perguntar, “Então correu bem? Conseguiram o que tínhamos decidido no plenário?”, “ Não!”, seria esta a asserção, mas não posso fazê-lo, não devo fazê-lo, e tanto que eu quero dizer “Não!”. Vou-me deixar levar pela demagogia, fazer uma festa com uma mão cheia de nada.
Vale a pena lutar? Claro que vale! Para saberem que não somos uns” merdas”, podem mandar na gente mas não nos fazem de parvos.
Somos parvos!
Serei eu assertivo quando digo que somos parvos?
Pelo menos é uma afirmação.
Ou será a confissão de um estado de espírito?
Tudo isto afirmei, verdades da minha verdade, a assertividade possível, a que me foi possível. Terá sido suficiente?
Para mim foi.
2011-08-23
Hoje pressionaram-me imenso! Começaram de manhã. Pressões de vogal, a primeira da lengalenga, o “a”, maiúsculo ou minúsculo, pouco interessa.
Sou um teclado, um teclado comum, de plástico, letras pretas em fundo branco, letras que são símbolos e símbolos que não são letras, emblemas de outras literaturas.
Sou pressionado de manhã e de tarde, tenho um horário fixo. Teoricamente isso corresponderia à verdade. Quem me pressiona tem também um horário fixo. Fixo no contrato assinado em que se assentou a presença quotidiana. A presença que existe independente da pressão contratualizada.
Quando sou bem pressionado a imagem flui no ecrã. Independentemente do tamanho ou qualidade os ecrãs serão sempre o espelho da minha pressão. Não que eu tenha experiência no assunto, ainda hoje sou fiel ao meu primeiro reflexo.
Mas hoje abusaram, palavras cheias de letras massacradas, titubeantes. O contrato que se cumpre. São oito são oito! São sete são sete!
Não há tempo a perder, arrumam-se as letras em sinais eléctricos, que sem electrões nada disto se faz, por enquanto…
Tenho duas teclas gastas e a funcionar mal. Sujidade? Humidade? Ou apenas a erosão do que não é estável. Quantos óxidos escondidos? Quem sabe algum pequeno insecto que se tenha habituado à rotina. Ele entra! Eu saio!
Estou cansado. Não é só a pressão, também é quem a exerce. Não me sinto motivado para fingir letras em impulsos electrónicos, jogos de pressões e contactos, acordos, o eu hoje que amanhã serás tu.
Estou cansado, não são só os dedos que me martelam. É o martelar sem sentido. O provocar de reflexos inconsequentes. Para quê tanto esforço? Hoje é até às cinco! Até às seis! Hoje eu faço horas! Prolongo o meu esforço como consequência da mecânica dos teus dedos, extremidades insaciáveis. Eu sou piano! Ouve o meu silêncio, o gentil ruído da percussão sem corda nem ressonância, o gemido da tua aflição.
Está escuro e a sala está quente. O ar condicionado também tem horário. Tento-me lembrar das palavras que escrevi. Falta-me o pensamento, o raciocínio de quem as juntou. Nunca tive jeito para papagaio.
Eu sou povo! Sou dois digítos de desempregados! Sou o que apanha e que esqueçe!
Sou teclado, povo pressionado, que escreve sem entender, sou aquele que ainda acredita, mas que diz que não acredita, por vergonha, com medo que deixem de escrever.
Assim hoje, como Cecil Taylor, improvisando só para me libertar.
P.S. Perdoe-me o Cecil Taylor que é de longe muito melhor músico que eu escrevinhador. No entanto foi ele que me inspirou.
Sou um teclado, um teclado comum, de plástico, letras pretas em fundo branco, letras que são símbolos e símbolos que não são letras, emblemas de outras literaturas.
Sou pressionado de manhã e de tarde, tenho um horário fixo. Teoricamente isso corresponderia à verdade. Quem me pressiona tem também um horário fixo. Fixo no contrato assinado em que se assentou a presença quotidiana. A presença que existe independente da pressão contratualizada.
Quando sou bem pressionado a imagem flui no ecrã. Independentemente do tamanho ou qualidade os ecrãs serão sempre o espelho da minha pressão. Não que eu tenha experiência no assunto, ainda hoje sou fiel ao meu primeiro reflexo.
Mas hoje abusaram, palavras cheias de letras massacradas, titubeantes. O contrato que se cumpre. São oito são oito! São sete são sete!
Não há tempo a perder, arrumam-se as letras em sinais eléctricos, que sem electrões nada disto se faz, por enquanto…
Tenho duas teclas gastas e a funcionar mal. Sujidade? Humidade? Ou apenas a erosão do que não é estável. Quantos óxidos escondidos? Quem sabe algum pequeno insecto que se tenha habituado à rotina. Ele entra! Eu saio!
Estou cansado. Não é só a pressão, também é quem a exerce. Não me sinto motivado para fingir letras em impulsos electrónicos, jogos de pressões e contactos, acordos, o eu hoje que amanhã serás tu.
Estou cansado, não são só os dedos que me martelam. É o martelar sem sentido. O provocar de reflexos inconsequentes. Para quê tanto esforço? Hoje é até às cinco! Até às seis! Hoje eu faço horas! Prolongo o meu esforço como consequência da mecânica dos teus dedos, extremidades insaciáveis. Eu sou piano! Ouve o meu silêncio, o gentil ruído da percussão sem corda nem ressonância, o gemido da tua aflição.
Está escuro e a sala está quente. O ar condicionado também tem horário. Tento-me lembrar das palavras que escrevi. Falta-me o pensamento, o raciocínio de quem as juntou. Nunca tive jeito para papagaio.
Eu sou povo! Sou dois digítos de desempregados! Sou o que apanha e que esqueçe!
Sou teclado, povo pressionado, que escreve sem entender, sou aquele que ainda acredita, mas que diz que não acredita, por vergonha, com medo que deixem de escrever.
Assim hoje, como Cecil Taylor, improvisando só para me libertar.
P.S. Perdoe-me o Cecil Taylor que é de longe muito melhor músico que eu escrevinhador. No entanto foi ele que me inspirou.
2010-01-13
O velho e o casal
Num banco de jardim está sentado um velho, assim mesmo, velho. Velho de velhice vivida, daquela que se agarra à pele e marca cada pequeno pedaço de carne, a pele ajusta-se e enruga. Eu vejo-o daqui mas não é aqui que eu estou. Estou mais além, à porta daquele café, de frente para aquela mulher que por sinal é a minha mulher, não que a tenha comprado, mas o contrato assim obriga. No fim de contas talvez não tenha sido o contrato, mas que importa isso agora que a vejo daqui. O velho olha para nós, paciente, à espera. A experiência diz-lhe que algo se vai passar e ele que já pensou levantar-se, sim eu bem o vi fazer o gesto que a finta desfez quando a ouviu gritar, deixa-se ficar mais um pouco. E eu daqui olho para ele e ouço-te chamar-me parvo e imagino-me a corar, a encher-me de raiva. Pela expressão do velho sei que vou responder, ele que inclina ligeiramente a cabeça, como se eu não fosse gritar suficientemente alto, Eu não sou parvo! Mas sou, sempre fui e ainda agora que daqui nos vejo o sou. Vejo-me parvo, pateticamente parvo e vejo que o velho me vê tal e qual. E eu grito que não sou, que só sou quando acredito em ti e eu acredito sempre em ti, mesmo quando não acredito, porque os teus olhos verdes me fazem sonhar, porque a tua pele que é branca e aveludada me toca sem me tocar, cola-se a mim e quando tu te vais embora eu choro porque sei que não és só minha. A minha mulher, será que o velho percebe que ela não é só minha, que todo aquele trabalho fora de horas…O velho inclina-se um pouco mais e arregala os olhos. Fui eu que levantei a mão. Porque levantei eu a mão? Não estava com atenção, olhava para ti velho de uma figa, mas adivinho uma das tuas respostas entre dentes, se não acreditas em mim tens bom remédio, mesmo depois de lhe sentir o cheiro na tua roupa, aquele cheiro de aftershave cara que eu não tenho dinheiro para pagar nem nariz para apreciar. Eu preciso trabalhar, o velho retoma uma posição de recosto, a minha mão desceu devagar, cobarde do gesto que nunca teve intenção, e eu preciso de ti, depois de eu ir trabalhar. Sinto que o velho me olha com pena, agora que olho para mim também eu sinto pena…De mim…Porque és tão grande e eu tão pequeno, tão insignificante ao pé de ti? O velho olha-me e vê-me pequeno, de ombros caídos, cansado de mim que te ama desesperadamente. O velho vê-te e partir, depois vira o olhar na minha direcção e estremece. Não sei bem o que foi, talvez um arrepio de frio, com este calor, nunca se sabe, a idade, o velho abre a boca e solta um som, talvez uma palavra, o seu olhar é um misto de incredulidade e terror. Começo a assustar-me, quero olhar para nós e não consigo, os meus olhos estão fixos no velho que grita. Ouvem-se tiros e eu que não tirei os olhos do velho vejo-o encolher-se e escorregar pelo banco do jardim. Ele escorrega lentamente e vai deixando um pequeno rasto vermelho acastanhado, sangue, provavelmente sangue, sangue de velho, gasto, escuro, baço. Agora que o velho se encontra todo no chão, escorrido e mole eu olho para ti e não te vejo, vejo-me a mim de arma na mão tentando apontar não sei a quem. Vejo-me cair e só depois percebo que também tu estás deitada. O polícia, que se aproxima, à confiança faz mais um disparo. Vejo-me imóvel e olho para o velho, também ele imóvel. Ao de leve sinto-me partir. Dos três corpos deitados só um me desperta atenção…Adeus velho!
2009-12-23
Natal
Sem necessidade de ser violento. Falar do Natal como se falasse de paz. Oferecer a ceia e desfrutar da companhia dos familiares. Olhar para as luzes e ver apenas as luzes, as luzes multiplicadas pelas ruas de lojas, todos esses apêndices luminosos que nos confortam o coração, que nos escondem da escuridão, do medo de ficarmos sós quando todos gostam de todos.
Sem necessidade de mentir como se falasse verdade. Deixar que os olhos consumam tudo aquilo que é feito para consumir. Também o sonho porque é do sonho que eu falo. O sonho que se alimenta e que existe nas crianças. Acreditas no Pai Natal? Responder como se respondesse a um teste. Ainda acreditas no Pai Natal? Responder como se estivesse num tribunal. Eu já não escrevo cartas, não sei o que pedir. Portei-me bem Pai?
Sem necessidade de ser grosseiro. Lembrar-me do pinheiro cortado comprado junto às grades da estação de caminho de ferro. O pinheiro que entrava no balde forrado de cores garridas. O balde que se enchia de pedras. Tanto que eu gostava de apanhar as pedras. São suficientes? Do tamanho certo? Obrigado Mãe!
Sem necessidade de jantar e de abrir prendas. Falar do Natal como se falasse de amor, do gosto que tenho em estar com vocês, mesmo que o vinho me faça tropeçar nas palavras e que as palavras falem da vida, da que foi, lembras-te, da que virá, esperemos, da que é e que temos de aproveitar.
Amanhã não será Natal e eu encherei o balde com laços e papéis. Para alguns será uma medida de sucesso. Tenho medo de deixar ir o Natal embrulhado em tantos laços e papéis.
A todos um bom Natal!
Sem necessidade de mentir como se falasse verdade. Deixar que os olhos consumam tudo aquilo que é feito para consumir. Também o sonho porque é do sonho que eu falo. O sonho que se alimenta e que existe nas crianças. Acreditas no Pai Natal? Responder como se respondesse a um teste. Ainda acreditas no Pai Natal? Responder como se estivesse num tribunal. Eu já não escrevo cartas, não sei o que pedir. Portei-me bem Pai?
Sem necessidade de ser grosseiro. Lembrar-me do pinheiro cortado comprado junto às grades da estação de caminho de ferro. O pinheiro que entrava no balde forrado de cores garridas. O balde que se enchia de pedras. Tanto que eu gostava de apanhar as pedras. São suficientes? Do tamanho certo? Obrigado Mãe!
Sem necessidade de jantar e de abrir prendas. Falar do Natal como se falasse de amor, do gosto que tenho em estar com vocês, mesmo que o vinho me faça tropeçar nas palavras e que as palavras falem da vida, da que foi, lembras-te, da que virá, esperemos, da que é e que temos de aproveitar.
Amanhã não será Natal e eu encherei o balde com laços e papéis. Para alguns será uma medida de sucesso. Tenho medo de deixar ir o Natal embrulhado em tantos laços e papéis.
A todos um bom Natal!
2009-12-11
Rotinas
Na porta umas verrugas imensas, a rugosidade dos anos, e eu sem tocar, sem saber se tocamos, eu e as minhas mãos, com medo de ficarmos velhos, velhos como aquela porta.
Distraio-me da porta e fixo-me nas paredes, também elas velhas, sujas, húmidas, verdes, cinzentas, negras, de bolores intemporais. O sangue escorre-me frio, para os pés, e eu penso em água quente, água muito quente, penso no leite da minha mãe, no café da manhã, na manta que tenho na sala, na cama quando tu estás e eu estou.
Agora sim a janela, a janela com vidros, vidros partidos e sujos que deixam passar o frio e tapam a visão. A janela que podia ter sido o que tudo o resto não foi, e eu ali, parado, sem saber, toco, não toco.
Volto-me e encontro o caminho que percorri. Tão complicado voltar atrás quando só a cabeça volta. Arrisco uma simulação, uma finta, uma vénia traiçoeira. Arrisco convencido que estou a arriscar, arrisco sem saber que já tinha aberto a porta.
E no entanto a piscina está lá, toda aquela água que eu devoro três vezes por semana, todo aquele esforço para me cansar, uma, duas, três…Vinte, vinte e uma, vinte e duas…Oitenta…Cem…Para! Eu paro! Não estou convencido mas paro.
O vapor, os azulejos quentes que me escaldam a pele, seis metros quadrados que me lembram a asma, a janela aberta, eu a querer respirar, a querer voar, a querer viver.
Esqueci-me da porta, hoje não vou pensar mais nela. Não vou pensar mais na porta.
Não vou pensar mais na porta nem nas paredes…
Vou esquecer a janela e o caminho que me trouxe mas que não me pode levar para trás.
Só assim faz sentido ter-me cansado.
Distraio-me da porta e fixo-me nas paredes, também elas velhas, sujas, húmidas, verdes, cinzentas, negras, de bolores intemporais. O sangue escorre-me frio, para os pés, e eu penso em água quente, água muito quente, penso no leite da minha mãe, no café da manhã, na manta que tenho na sala, na cama quando tu estás e eu estou.
Agora sim a janela, a janela com vidros, vidros partidos e sujos que deixam passar o frio e tapam a visão. A janela que podia ter sido o que tudo o resto não foi, e eu ali, parado, sem saber, toco, não toco.
Volto-me e encontro o caminho que percorri. Tão complicado voltar atrás quando só a cabeça volta. Arrisco uma simulação, uma finta, uma vénia traiçoeira. Arrisco convencido que estou a arriscar, arrisco sem saber que já tinha aberto a porta.
E no entanto a piscina está lá, toda aquela água que eu devoro três vezes por semana, todo aquele esforço para me cansar, uma, duas, três…Vinte, vinte e uma, vinte e duas…Oitenta…Cem…Para! Eu paro! Não estou convencido mas paro.
O vapor, os azulejos quentes que me escaldam a pele, seis metros quadrados que me lembram a asma, a janela aberta, eu a querer respirar, a querer voar, a querer viver.
Esqueci-me da porta, hoje não vou pensar mais nela. Não vou pensar mais na porta.
Não vou pensar mais na porta nem nas paredes…
Vou esquecer a janela e o caminho que me trouxe mas que não me pode levar para trás.
Só assim faz sentido ter-me cansado.
2008-05-20
Enganos I
Levado por falsas conversas, argumentos enganosos, cavalos de Tróia em palavras de madeira, o logro no seu interior.
Prometem-lhe que sim, que pode vir a ficar. Por enquanto o recibo, as férias sem dinheiro, o Natal sem prendas, as moedas que ganham importância, contam-se primeiro os Euros, depois os cêntimos, depois os passos para casa dos pais, os dela, os dele, as escassas reformas que sustentam a sua actividade mal paga.
Ele espera porque não vê saída, porque se esconde na traição das palavras, veículos blindados, armas mortíferas que se habituou a odiar. Espera a conta ao balcão de um café de centro comercial.
Ela também espera. O seu quarto emprego acabou e espera pelo quinto. O curso de sociologia não ajuda, “Não precisamos de gente com curso.”, atender um telefone, dar recados, tirar fotocópias, distribuir memorandos e ordens de serviço, ser bonita e gentil, arranjada o suficiente para ser agradável ao senhor Doutor. Não será difícil enquanto a beleza dos seus vinte e seis anos permitir. “Vive com alguém? É casada! E filhos? Pensa ter filhos?”, “Não, de maneira nenhuma, nunca antes dos trinta.”, sim claro que pensa, pensa nisso todos os dias. No outro dia pegou no bebé da vizinha, um belo moço com quatro meses. Cresceu-lhe uma vontade do fundo da carne, vontade de ser mãe, vontade de amamentar aquele filho que podia ser seu, “Os miúdos são uma chatice, primeiro quero viver a vida. Mais tarde logo penso nisso”, “E o seu marido, o que pensa ele?”, “Estamos em total sintonia”, sim ela quer e ele não, ainda não. E quando fala nisso o corpo a pedir, a mão que inconscientemente repousa no ventre como que a sentir.
Vai começar amanhã, falaram-lhe num contracto mas os primeiros meses são com recibo, “Sabe como funciona?”, “Sim, sei!”, o meu marido está na mesma situação há três anos, a minha melhor amiga também.
Pagou a conta e saiu. Sente-se cansado, cansado de respirar ar reciclado: Está quase na hora de voltar ao escritório, cinco minutos a pé pelo meio do trânsito. Puxa por um cigarro e antes de o acender olha instintivamente por cima do ombro, “Voçê promete-me que vai deixar de fumar?”, “Claro senhor Gonçalves, já fui ao médico e tudo.”, inspira profundamente aquele fumo nicotínico, sente uma ligeira tontura, uma sensação de agradável relaxamento. Retarda o passo, aprecia o cigarro na mão e retira-lhe a cinza com um sopro enérgico. Ainda ontem andava a estudar, cinco anos na engonha numa Universidade Particular, o curso não acabado, a imposição dos pais, “Não acabas o curso vais trabalhar que a gente não consegue aguentar, o mês passado já nos atrasamos na renda.”, faltava só um ano, o mais difícil, aquele em que a cabeça só queria noite. Foi na noite que a conheçeu. Também a ela faltava um ano. Ela acabou-o, ele foi trabalhar. Foi depois da queima das fitas que marcaram o casamento, os pais de ambos assim decidiram e eles cegos pelo amor assim aceitaram, não seria por causa de um papel que a iria perder. Um “Não” dos pais dela e ela desistiria dele, incapaz de confrontar os seus progenitores.
Passou primeiro pela casa da mãe para dar a novidade, o Ricardo saberia depois quando ela se vestisse para o receber à noite e o convidasse para jantar naquele restaurante mais caro ao fundo da rua. Sentia-se aliviada com a possibilidade de nesse mês não precisarem pedir dinheiro a ninguém. Talvez com esse alívio voltassem a fazer amor como das primeiras vezes.
P.S. Voltei! Uns dias depois...
Prometem-lhe que sim, que pode vir a ficar. Por enquanto o recibo, as férias sem dinheiro, o Natal sem prendas, as moedas que ganham importância, contam-se primeiro os Euros, depois os cêntimos, depois os passos para casa dos pais, os dela, os dele, as escassas reformas que sustentam a sua actividade mal paga.
Ele espera porque não vê saída, porque se esconde na traição das palavras, veículos blindados, armas mortíferas que se habituou a odiar. Espera a conta ao balcão de um café de centro comercial.
Ela também espera. O seu quarto emprego acabou e espera pelo quinto. O curso de sociologia não ajuda, “Não precisamos de gente com curso.”, atender um telefone, dar recados, tirar fotocópias, distribuir memorandos e ordens de serviço, ser bonita e gentil, arranjada o suficiente para ser agradável ao senhor Doutor. Não será difícil enquanto a beleza dos seus vinte e seis anos permitir. “Vive com alguém? É casada! E filhos? Pensa ter filhos?”, “Não, de maneira nenhuma, nunca antes dos trinta.”, sim claro que pensa, pensa nisso todos os dias. No outro dia pegou no bebé da vizinha, um belo moço com quatro meses. Cresceu-lhe uma vontade do fundo da carne, vontade de ser mãe, vontade de amamentar aquele filho que podia ser seu, “Os miúdos são uma chatice, primeiro quero viver a vida. Mais tarde logo penso nisso”, “E o seu marido, o que pensa ele?”, “Estamos em total sintonia”, sim ela quer e ele não, ainda não. E quando fala nisso o corpo a pedir, a mão que inconscientemente repousa no ventre como que a sentir.
Vai começar amanhã, falaram-lhe num contracto mas os primeiros meses são com recibo, “Sabe como funciona?”, “Sim, sei!”, o meu marido está na mesma situação há três anos, a minha melhor amiga também.
Pagou a conta e saiu. Sente-se cansado, cansado de respirar ar reciclado: Está quase na hora de voltar ao escritório, cinco minutos a pé pelo meio do trânsito. Puxa por um cigarro e antes de o acender olha instintivamente por cima do ombro, “Voçê promete-me que vai deixar de fumar?”, “Claro senhor Gonçalves, já fui ao médico e tudo.”, inspira profundamente aquele fumo nicotínico, sente uma ligeira tontura, uma sensação de agradável relaxamento. Retarda o passo, aprecia o cigarro na mão e retira-lhe a cinza com um sopro enérgico. Ainda ontem andava a estudar, cinco anos na engonha numa Universidade Particular, o curso não acabado, a imposição dos pais, “Não acabas o curso vais trabalhar que a gente não consegue aguentar, o mês passado já nos atrasamos na renda.”, faltava só um ano, o mais difícil, aquele em que a cabeça só queria noite. Foi na noite que a conheçeu. Também a ela faltava um ano. Ela acabou-o, ele foi trabalhar. Foi depois da queima das fitas que marcaram o casamento, os pais de ambos assim decidiram e eles cegos pelo amor assim aceitaram, não seria por causa de um papel que a iria perder. Um “Não” dos pais dela e ela desistiria dele, incapaz de confrontar os seus progenitores.
Passou primeiro pela casa da mãe para dar a novidade, o Ricardo saberia depois quando ela se vestisse para o receber à noite e o convidasse para jantar naquele restaurante mais caro ao fundo da rua. Sentia-se aliviada com a possibilidade de nesse mês não precisarem pedir dinheiro a ninguém. Talvez com esse alívio voltassem a fazer amor como das primeiras vezes.
P.S. Voltei! Uns dias depois...
2008-01-11
O Automóvel X (O FIM)
A polícia entrou de repente, “Deitados no chão, já! Mãos atrás da cabeça!”. A Xana empurra-o aos gritos e tenta chegar à porta. Ouvem-se tiros de pistola. Ele tenta protegê-la com o corpo. A cabeça que não seguiu o movimento envolve-se de tonturas, o desmaio, onde estou?
Uma enfermaria, tudo branco e o silêncio, “Onde estou?”. Uma enfermeira que se aproxima enquanto recomenda:
- Deixe-se estar deitado que eu vou já ter consigo!
- Onde estou?
-No Hospital.
- O que me aconteceu?
- Foi uma rapariga que o trouxe. Segundo ela, lançou-se do seu jeep em andamento, bateu com a cabeça no asfalto e desmaiou. Tem a cabeça partida e o corpo todo esfolado, de resto está bem. Só precisa descansar e ficar mais umas horas em observação. Que raio de ideia a sua, lançar-se de um automóvel em andamento. O susto que deve ter pregado à pobre da moça.
A enfermeira tenta ajeitá-lo na cama e impedindo-o de se levantar.
- E a Xana?
- A Xana?
- A rapariga que me trouxe.
- Chama-se Xana? Não a conheço, deve ser nova cá na zona. Sabe, mais cedo ou mais tarde todos por cá passam.
- Foi-se embora?
- O que estava à espera? Muita sorte teve voçê, se fosse outra tinha-o deixado lá estendido e fugido a sete pés.
- A minha carrinha?
- Essa não foge, não se preocupe. O reboque que voçê pediu levou-a para a oficina Central. “Central” é o nome e fica ao pé da paragem das camionetas o que lhe vai dar muito jeito. Tenho comigo um cartão que eles me deram para lhe entregar.
O Zé não conseguiu perguntar pela casa de Xana, pelo quarto de Xana, pelo corpo de Xana. Queria acreditar que tinha salvo Xana das balas assassinas da polícia, queria ser o herói daquela história onde não estava sozinho.
Está sozinho, sentado junto a uma janela, no expresso para Lisboa. Fez-se noite. Foi de táxi para a Damaia. Na mesa da cozinha, entre duas torradas e um chá, faz as contas possíveis. Só o transporte da carrinha é um balúrdio. E ainda foi um favor, teve de convencê-los a trazerem-na no dia a seguir, logo de manhãzinha. Amanhã irá à oficina do André para saber dos estragos.
A noite passou-se. Sem sonhos, visões, ilusões ou qualquer outro tipo de alucinações. Acordou vazio. Sentiu falta de uma mulher que não existia. A mulher que não só o ajudou, mas também lhe ofereceu cama, o corpo e que o fizera sentir-se vivo, era um truque, uma partida do subconsciente. Não teve vontade de tomar o pequeno almoço em casa. Apetecia-lhe o leite quente em casa da Xana, da Xana que inventou.
Hoje irá olhar para a sua carrinha e ouvir o André confessar a sua impossibilidade para efectuar a reparação:
- Teria que correr todas as sucateiras de Lisboa e arredores. Sem contar com o trabalho de bate chapas. Ficava-te uma fortuna Zé. E ficarias sempre com uma carrinha velha, nunca irias recuperar o dinheiro, nem mesmo que a vendesses.
- Eu não queria vendê-la, só queria vê-la inteira novamente. Percebes?
O Zé carregava aquela interrogação de todo o seu sofrimento, a mágoa de perder a última coisa de que realmente gostava.
- Eu percebo Zé, mas ouve o que eu te digo. Por metade do preço do arranjo da carrinha, consigo-te um Ibiza a gasóleo de dois lugares quase novo, impecável, deixas de vir cá tantas vezes.
E Sorriu, o Zé não:
- Diz-me tu um número para eu pensar no assunto.
- Vais ver que não te arrependes!
O Zé saiu da oficina com um número, um número demasiado grande para as suas economias, ainda assim possível de se conseguir com umas horas extraordinárias. Foi o último dia desse ano em que trabalhou oito horas. Todos os outros tiveram doze ou mais horas de rotina vigilante. Começou a apanhar tudo. Chegou a não despir a farda de segurança, adormecendo no sofá agarrado a uma carcaça com manteiga. No princípio o café bastava para o manter acordado. Com o acumular do cansaço precisou de outro tipo de ajudas. Não precisou ir muito longe para conseguir o que pretendia. Mesmo ali, no café da rua, local onde um conhecido vendedor de substâncias ilícitas lhe recomendou anfetaminas:
- Olha que eu não quero ficar maluco e a ver coisas. Eu só quero é aguentar o serviço acordado.
- É por isso que não te estou a vender outras merdas. Mas tens de ter juízo. Toma isto com calma, “meio” antes de ir trabalhar deve chegar.
Olha que eu não te quero ver como os outros que cá vêm, tu não és desses.
- Então sou de quais?
- Não sei, és diferente.
Realmente aquilo ajudou. Principalmente naquele último mês, o mês que faltava para ter o dinheiro suficiente.
O Zé perdeu o apetite e deixou de se cuidar. Não fosse a sua disposição para aceitar tudo tê-lo-iam despedido. Nele, a farda parecia pendurada num cabide. Foi essa imagem que ele apresentou ao André quando lhe estendeu a mão com o cheque.
O Ibiza comercial, de dois lugares, era branco. Esperou duas horas até conseguir um lugar de onde o pudesse vigiar da sua janela.
No dia seguinte pegou no carro e dirigiu-se para a ponte em direcção ao sul. Foi sem razão aparente que se jogou para fora do veículo em andamento. As pessoas que viajavam atrás dele ainda tentaram ajudá-lo. Não o salvaram mas foram a tempo de o ouvir:
- Onde estou? És tu Xana?
(Fim)
P.S. Um grande abraço para a minha irmã TiTá, para o Adriano e para o PB. A voçês as minhas desculpas pelas ausências, silêncios, pela falta de resposta. Por favor não a confundam com falta de respeito. O desejo de um bom ano para todos voçês.
Uma enfermaria, tudo branco e o silêncio, “Onde estou?”. Uma enfermeira que se aproxima enquanto recomenda:
- Deixe-se estar deitado que eu vou já ter consigo!
- Onde estou?
-No Hospital.
- O que me aconteceu?
- Foi uma rapariga que o trouxe. Segundo ela, lançou-se do seu jeep em andamento, bateu com a cabeça no asfalto e desmaiou. Tem a cabeça partida e o corpo todo esfolado, de resto está bem. Só precisa descansar e ficar mais umas horas em observação. Que raio de ideia a sua, lançar-se de um automóvel em andamento. O susto que deve ter pregado à pobre da moça.
A enfermeira tenta ajeitá-lo na cama e impedindo-o de se levantar.
- E a Xana?
- A Xana?
- A rapariga que me trouxe.
- Chama-se Xana? Não a conheço, deve ser nova cá na zona. Sabe, mais cedo ou mais tarde todos por cá passam.
- Foi-se embora?
- O que estava à espera? Muita sorte teve voçê, se fosse outra tinha-o deixado lá estendido e fugido a sete pés.
- A minha carrinha?
- Essa não foge, não se preocupe. O reboque que voçê pediu levou-a para a oficina Central. “Central” é o nome e fica ao pé da paragem das camionetas o que lhe vai dar muito jeito. Tenho comigo um cartão que eles me deram para lhe entregar.
O Zé não conseguiu perguntar pela casa de Xana, pelo quarto de Xana, pelo corpo de Xana. Queria acreditar que tinha salvo Xana das balas assassinas da polícia, queria ser o herói daquela história onde não estava sozinho.
Está sozinho, sentado junto a uma janela, no expresso para Lisboa. Fez-se noite. Foi de táxi para a Damaia. Na mesa da cozinha, entre duas torradas e um chá, faz as contas possíveis. Só o transporte da carrinha é um balúrdio. E ainda foi um favor, teve de convencê-los a trazerem-na no dia a seguir, logo de manhãzinha. Amanhã irá à oficina do André para saber dos estragos.
A noite passou-se. Sem sonhos, visões, ilusões ou qualquer outro tipo de alucinações. Acordou vazio. Sentiu falta de uma mulher que não existia. A mulher que não só o ajudou, mas também lhe ofereceu cama, o corpo e que o fizera sentir-se vivo, era um truque, uma partida do subconsciente. Não teve vontade de tomar o pequeno almoço em casa. Apetecia-lhe o leite quente em casa da Xana, da Xana que inventou.
Hoje irá olhar para a sua carrinha e ouvir o André confessar a sua impossibilidade para efectuar a reparação:
- Teria que correr todas as sucateiras de Lisboa e arredores. Sem contar com o trabalho de bate chapas. Ficava-te uma fortuna Zé. E ficarias sempre com uma carrinha velha, nunca irias recuperar o dinheiro, nem mesmo que a vendesses.
- Eu não queria vendê-la, só queria vê-la inteira novamente. Percebes?
O Zé carregava aquela interrogação de todo o seu sofrimento, a mágoa de perder a última coisa de que realmente gostava.
- Eu percebo Zé, mas ouve o que eu te digo. Por metade do preço do arranjo da carrinha, consigo-te um Ibiza a gasóleo de dois lugares quase novo, impecável, deixas de vir cá tantas vezes.
E Sorriu, o Zé não:
- Diz-me tu um número para eu pensar no assunto.
- Vais ver que não te arrependes!
O Zé saiu da oficina com um número, um número demasiado grande para as suas economias, ainda assim possível de se conseguir com umas horas extraordinárias. Foi o último dia desse ano em que trabalhou oito horas. Todos os outros tiveram doze ou mais horas de rotina vigilante. Começou a apanhar tudo. Chegou a não despir a farda de segurança, adormecendo no sofá agarrado a uma carcaça com manteiga. No princípio o café bastava para o manter acordado. Com o acumular do cansaço precisou de outro tipo de ajudas. Não precisou ir muito longe para conseguir o que pretendia. Mesmo ali, no café da rua, local onde um conhecido vendedor de substâncias ilícitas lhe recomendou anfetaminas:
- Olha que eu não quero ficar maluco e a ver coisas. Eu só quero é aguentar o serviço acordado.
- É por isso que não te estou a vender outras merdas. Mas tens de ter juízo. Toma isto com calma, “meio” antes de ir trabalhar deve chegar.
Olha que eu não te quero ver como os outros que cá vêm, tu não és desses.
- Então sou de quais?
- Não sei, és diferente.
Realmente aquilo ajudou. Principalmente naquele último mês, o mês que faltava para ter o dinheiro suficiente.
O Zé perdeu o apetite e deixou de se cuidar. Não fosse a sua disposição para aceitar tudo tê-lo-iam despedido. Nele, a farda parecia pendurada num cabide. Foi essa imagem que ele apresentou ao André quando lhe estendeu a mão com o cheque.
O Ibiza comercial, de dois lugares, era branco. Esperou duas horas até conseguir um lugar de onde o pudesse vigiar da sua janela.
No dia seguinte pegou no carro e dirigiu-se para a ponte em direcção ao sul. Foi sem razão aparente que se jogou para fora do veículo em andamento. As pessoas que viajavam atrás dele ainda tentaram ajudá-lo. Não o salvaram mas foram a tempo de o ouvir:
- Onde estou? És tu Xana?
(Fim)
P.S. Um grande abraço para a minha irmã TiTá, para o Adriano e para o PB. A voçês as minhas desculpas pelas ausências, silêncios, pela falta de resposta. Por favor não a confundam com falta de respeito. O desejo de um bom ano para todos voçês.
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