2026-09-18

Enquanto houver estrada para andar… eu hei de continuar

Enquanto houver estrada para andar… eu hei de continuar

 

Hoje, a caminho do trabalho, ouvi uma música de um velho companheiro. O original refere o plural dessa caminhada. Nunca uma música definiu tão bem a minha jornada. Escrevo enquanto penso, mas podia inverter os termos da preposição que não lhe retirava o significado. Triste desculpa para ter esquecido que o caminho que percorro não é solitário. Ao meu lado, conduzindo o automóvel que navega pela via rápida, vai a timoneira da minha vida. “Enquanto houver estrada para andar, havemos de continuar”, a frase, agora sim, justa e, por esse motivo, verdadeira, é uma odisseia colectiva. “Enquanto houver ventos e mares, havemos de continuar “. Enquanto houver forças para andar, esta é, verdadeiramente, a condição necessária. Os ventos, são as pequenas alegrias que inventamos. São elas que dão sentido à viagem, a força motriz que faz deslocar a barca para o seu destino final. A última travessia terá outro barqueiro, outro impulso que será independente das vontades biológicas.

Continuo a escrever e a pensar, a pensar e a escrever. Quero-me lusitano e tento Camões, mas o que ele cantou não é a minha viagem. Ele canta uma viagem de ida, e eu venho de regresso. Eu sou um Ulisses genérico, sem nada que identifique os meus feitos. Herói de mim mesmo, sou um herói particular. Sei que fui amado, e que haverá quem me cante, sempre em voz baixa, e em reuniões condicionadas. Eu sou um cúmulo de banalidade amparado ao braço de uma Deusa Portuguesa. O nosso fruto é sagrado, e dele depende a nossa força. Enquanto houver estrada para andar, é um hino a outro tipo de gente. “Enquanto houver gente para amar, eu hei de continuar”, este devia ser o título desta publicação

2026-09-15

Crime de ódio: A morte, assim como que contada

Crime de ódio: A morte, assim como que contada

 

Um crime é um crime: acção ignóbil, momento transitório que nos transporta para regiões desconhecidas do que pensamos ser a nossa existência. Quando ocorre na vizinhança do nosso quotidiano, sentimo-nos violentados. Se esse crime pressupõe que uma vida se perde, que a morte era o seu objectivo, então a narrativa muda de rumo, e permitimo-nos a assunção de uma culpa que nos transporta para outra dimensão, possivelmente uma dimensão abstracta, onde existimos como actores principais, paladinos da moral e da justiça.

Assim procedeu Justiniano Rebelo. Homem já entrado nos oitenta, matou na guerra, mas nunca lhe viu a cor dos olhos. Os mortos e os estropiados, no corpo e na alma, são a natural consequência da guerra. É com este convencimento que Justiniano aceitou os efeitos de cinco anos na guerra do ultramar. Nunca mais conseguiu dormir uma noite completa, e não tolera barulhos excessivos nem silêncios absolutos. Ambas as situações despoletam nele reacções inesperadas e intempestivas, o que lhe impede uma vida social. Justiniano viveu nos subúrbios da Capital desde 73. Quando se deu a revolução e, poucos anos depois, começaram a chegar os “Retornados”, nasceu dentro de si uma frustração que não conseguia esconder: − Foi para ver esta merda que me foderam a puta da vida? – gritava, quando, sentado à frente do televisor, via os noticiários nacionais. Justiniano não aceitava que, de permeio com os brancos, também viessem negros e mestiços. – Este país vai ficar cheio de “pretos”! – vaticinava, possesso e com as faces ruborizadas. Profundamente indignado, imigrou para a Alemanha até se reformar e voltar a Portugal. Os anos de emigração não acalmaram a sua raiva; antes pelo contrário. Depois de tanto tempo a viver subjugado a uma cultura que considerava superior em todos os aspectos, não compreendia a passividade do poder político perante as diferenças culturais dos imigrantes que viviam em Portugal. – Se fosse lá, eram recambiados para os países deles! – Era assim que sentenciava quando ouvia falar do aumento de criminalidade. Para ele, todas as desgraças que apareciam nas notícias tinham origem na imigração.

Foi este Justiniano, aquele que recebeu a notícia da morte do Sr. António. António era seu vizinho e morreu em consequência de um assalto à mão armada. O assalto aconteceu durante a madrugada. Alguém entrou em sua casa e tirou-lhe a vida enquanto dormia. Ninguém viu nem ouviu nada. Se algum cão ladrou, foi um ladrar envergonhado, digno da irrelevância canina que os faz ladrar por tudo e por nada: alguma zorra matreira, um gato vadio atiçado pelo cio, ou um bêbado, ao fundo da estrada, regressando a casa. Para Justiniano, os culpados eram fáceis de encontrar: bastava ir à vila para os ver em grupos junto dos supermercados. Havia-os em todas as tonalidades, desde o castanho-claro ao preto retinto. − Uma cambada de animais, que não respeitam nada nem ninguém! – Aí estava, renascido das cinzas, o primeiro Cabo Rebelo, novamente pronto para combater. Desta vez, não era preciso abalar de barco para terras africanas. Não defendia as fazendas dos ricos nem as casas dos colonos burgueses; defendia o que era seu: a terra sagrada onde os seus pobres avós tinham derramado sangue, suor e lágrimas. Agora, sim, poderia assumir a culpa pela morte provocada. Vivera durante muitos anos com a culpa e com a vergonha alheia. Hoje iria regressar como um herói.

 

No dia seguinte era notícia a morte de um octogenário. Fora abatido pelas forças de segurança durante uma operação de rotina. Segundo fontes oficiais, tinha disparado contra os militares da GNR chamando-lhes “Lacaios do Capitalismo”. Em rodapé, noticiava-se que havia sido apanhado o responsável pela morte de um idoso em sua própria casa. O jovem, neto da vítima, entregara-se e confessara o crime.

 

2026-09-11

Abstracções: Primeira experiência

 

Abstracções

 

Primeira experiência

Sentado no meu quintal, absorvo os aromas de um final de Verão. As temperaturas altas não me molestam. De corpo nu ao sol, desafio o seu poder místico. Tenho numa mão um pequeno cálice de vida. Na outra, um cigarro fumegante asperge os meus sentimentos ocultos. Eu sou essas duas mãos e os pés desnudos no chão; o resto é conhecimento recordado. Quando me lembrar de mim, quase completo, voltarei, novamente, a esquecer.

    Caminho sobre a areia da praia. No rosto, trago o sal das jornadas atlânticas. Vim de longe, mas quase não me movi. Parti à procura do que já possuía e vim com a alma limpa. Adquiri experiências mundanas que, ao fim de algum tempo, se revelaram repetitivas e inconsequentes. Adornei e afoguei-me nas terras secas das planícies meridionais com as mesmas perguntas sem resposta. Sou um homem repleto de saberes empíricos certificados por carimbos de geografias longínquas. Sou um homem venerado, mas só eu sei que não me sinto absoluto.

    Escrevo nas margens das folhas. Os meus livros são também o diário dos meus pensamentos. Escrevi, por exemplo, nas páginas de “A Morte de Ivan Ilitch”, que os opiáceos são muito úteis para as dores, mas não resolvem o verdadeiro problema. Escrevi também que, no processo de reagrupamento emocional, só precisamos de silêncio. Esse silêncio é completo quando, no funeral, a nossa morte exorciza finais alheios. Essa última dádiva é um verdadeiro acto de amor. Em “A Casa dos Mortos”, escrevi: como aprender a eternidade sem sair do mesmo lugar. Eu sou um escritor de margens vazias. Há quem escreva livros, mas eu não quero ofender ninguém.

    Imaginei-me, um dia, parido por uma mulher: um nascimento lembrado desde o primeiro momento. Porque somos privados da recordação sublime do nosso próprio nascimento? Por onde andavam os nossos sentidos, para não terem registado a maior experiência das nossas vidas? Terá sido culpa do cérebro, que estava distraído no meio de tantos fluidos? Estamos condenados a confiar na história que nos contam. Será assim o resto das nossas vidas, mas nunca iremos admiti-lo.

 

   

2026-09-10

O novo quotidiano

 

 

Por detrás de todas as guerras está o capitalismo transnacional que domina os três grandes Impérios mundiais. Qual será a moeda vencedora?

 

Jorge Saboga

 

O dia à dia da guerra

O quotidiano de um mundo que procura novos equilíbrios  

Se o início do século XX acabou com a hegemonia dos impérios europeus , o início do século XXI veio confirmar a decadência das suas democracias. Ao fim de duas décadas , o mundo reparte-se entre três poderes militares e uma máquina capitalista, transversal a todos eles. Esse novo poder é transnacional e, por esse motivo, dificilmente escrutinável como um todo. O advento da rede e da IA, só veio ajudar a tornar mais encoberto o que já era de difícil percepção. É neste contexto que se desencadeiam uma série de eventos militares, ambos com raízes no século passado.

A operação militar russa, com o argumento, sempre legítimo, de protecção das suas fronteiras, levou à ocupação de território ucraniano, com vista a uma futura anexação. Após quatro anos a operação militar continua e, embora muitos acreditem na vitória da Rússia, ninguém sabe quais os termos de uma futura paz. A Europa, que já se encontrava em trajectória descendente, teve, com este conflito, um banho de realidade. Afinal, os EUA tinham uma agenda própria, e a Alemanha, o baluarte econômico do velho

Continente, estava presa a pacerias energéticas com o presidente Putin. Hoje, é evidente que a decisão do conflito europeu passa por decisores de outros Impérios. Olhamos com impotente tristeza, para as imagens da “nossa” guerra, uma guerra que incentivámos em nome da liberdade e da independência do povo ucraniano. Mas, no mundo em que vivemos, as  palavras são retórica de eleitos. Sem a força das armas e o peso dos capitais transnacionais, as palavras, restos de um humanismo ultrapassado, ficaram órfãs da força necessária para se fazerem ouvir.

A outra guerra é uma velha companheira, mas também ela é uma gigantesca operação militar. Gaza é terra queimada e a Palestina é uma palavra maldita. O Médio Oriente tem nomes de países que cheiram a guerra. Hoje falamos de Israel, do Líbano e do Irão, mas eles não estão sozinhos neste conflito. Do outro lado do Atlântico ecoa o nome do Império Americano.

As notícias são de morte e de guerra. É  o que há.

 

2026-09-09

O dia e a noite (exerto do diário O Mundo Hoje!)

 

O dia da noite

O que os distingue  

 

O dia e a noite são dinâmicas fundamentais na vida de qualquer animal. Podíamos falar do preto e do branco, da presença e da ausência, da existência e da não-existência, da dualidade entre a vida e a morte, mas, neste caso, não é disso que tratamos. Como qualquer trabalhador, que exerça as suas funções em turnos contínuos, e sem folga fixa, sabe, o dia e a noite referem-se a estados de luminosidade cujo significado pode ser facilmente subvertido em nome dos variados interesses, nomeadamente os económicos. Mas também a doença tem particularidades que levam os seus possuidores as vigílias contrarias aos normais hábitos biológicos de um ser humano saudavel. Neles, a noite funde-se no dia e não permite uma fronteira definida. O cansaço dita as regras e o sono é intermitente durante as vinte e quatro horas que o planeta demora a rodar sobre si mesmo. O dia se faz noite, e a noite sucumbe ao dia. A luminosidade, que os devia distinguir, é tormento e tortura que perdura numa interminável sucessão de ciclos disformes e imperceptíveis. Com o permanente estado de exaustão chegam as alucinações credíveis, e as ilusões de sobrevivência. No final, tudo perde importância e o tempo celebra uma monotonia continua, onde o dia e a noite deixam de ser necessários, e onde será impossível distingui-los.




2026-09-05

A máquina de escrever e o cesto dos papéis

 A máquina de escrever e o cesto dos papéis

 Fui buscar a minha máquina de escrever ao baú das recordações. Tinha algum receio de não poder estar à altura do seu contacto. As suas características técnicas são muito semelhantes às de um objecto musical. Ambos estão disponíveis para as perguntas que lhe forem colocadas. Começo por lhe agradecer a sua presença na sala e, logo de seguida, passo os meus dedos por o seu teclado. Esse contacto permite que a navegação seja efectuada através de uma aceitação prévia do utilizador. A sua eficácia é muito elevada, especialmente quando se trata de uma escrita saudável e escorreita. Procuro evitar acidentes pessoais que não sejam estritamente necessários. Escrevo cumprindo as regras do jogo que estão no anúncio do dia. Afixei-as na parede da sala de estar com medo de não me lembrar dos procedimentos correctos. As folhas brancas são dactilografadas com mestria e requinte. Conforme ficam devidamente preenchidas, com símbolos de natureza duvidosa, são cuidadosamente retiradas e amarrotadas segundo as velhas tradições dos poetas boémios. Ao meu lado, o velho cesto de plástico vai guardando as minhas prosas literárias. Detenho-me, por breves instantes, a observar o afinco do seu labor. Se tiver tempo, um dia destes levo-o a passear ao parque central. Nos últimos tempos tenho reparado que ele não anda com bom aspecto. Ouvi dizer que, quando começam a apresentar um aspecto macilento, é sinal de intoxicação por prolongada indigestão de narrativas mal confeccionadas. Meu pobre amigo, eu sei que te obriguei a jejuns de elevada duração e a uma alimentação de péssima qualidade, mas podes estar certo de que o lixo despejado no teu interior foi lixo humano. Nunca em ti verti dejectos que não fossem produto do meu raciocínio, da imperfeita inteligência que molda o homem que julgo ser. Eu sei que me perdoas. Quem melhor que tu para me conheceres os podres que ocultei. Tu foste o meu leal confessor. Nunca me recusaste nenhum rascunho, por mais perverso que ele fosse, nem vomitaste no soalho as poesias desmembradas que escrevi sem finalidade. Sem dar por isso preencho folhas com desculpas. Continuo a teclar freneticamente e as folhas acumulam-se apenas para serem jogadas fora.

Isto é uma recordação doutros tempos. Hoje o meu caixote do lixo é virtual e as folhas jogadas fora não ocupam tanto espaço.

 

2026-09-03

Santa Maria Fentanil

 Santa Maria Fentanil

 

É dia de consulta. Está marcada para as onze e quarenta e, para não variar, está a chover. É uma chuva de Verão que arrefece o ar com sabores tropicais desajustados. Não vamos sozinhos, uma amizade comum acompanha a nossa jornada e alegra as conversas da viagem. Tudo corre como estava previsto; choveu o que tinha de chover, não havia lugar disponível nos locais reservados aos utentes com mobilidade reduzida, fomos recebidos por um penteado pintado de louro envelhecido e eternamente antipático e, por último, entrei no gabinete onde me penitencio das agruras da vida. O Dr. Eduardo entra no gabinete acompanhado de um médico mais novo e a consulta tem início. Aqui, ao contrário do que aconteceu com Ivan Ilitch, não há espaço para mentiras. Todos sabemos ao que viemos e o enredo decorre com a vulgar normalidade de uma rotina conhecida. Longe vai o tempo das apalpações e dos exames minuciosos. Sentado à minha frente, de perna cruzada, o Dr. Eduardo inicia o questionário que, de forma desajeitada, repete velhas questões: Tem cama articulada, e cadeira sanitária? Tem grua para as transferências? E assistente para a tosse, tem? Usa o assistente de respiração? Tem dores?

Eis a pergunta que eu queria ouvir. Hoje venho disposto a hastear a bandeira branca, “No more heroes anymore”, assumo a subida de escalão e aceito a passagem para um outro nível. Sim, tenho muitas dores, não durmo, nem deixo a minha mulher dormir. Por favor, ajude-me! O Fentanil surgiu em forma de resposta. Finalmente completei um círculo que comecei a desenhar quando tinha dezasseis anos.

2026-08-31

Da Banalidade

 Da Banalidade

Com banalidade termino. Quantifiquei o que sabia, num momento de esquecimentos. Não desliguei o telemóvel, nem me coloquei em silêncio. O que verti, derramou-se imperfeito perante a urgência de um tempo que escasseia. São arestas de banalidade cortante, que contrastam com o rendilhado artístico das grandes obras literárias. Será que também tenho de pedir desculpa por isso? Não, punheta mundo! Isso era só o que faltava, para que a tragédia fosse perfeita. Já lhe basta a banal imperfeição de quem assim se confessa.

  A Quantificação acabou. Foi aguaceiro e granizo quando nada era preciso, vento forte e trovoada numa terra já molhada, mas foi o que tinha de ser. O que deixo é um eco, uma voz que se deixou de ouvir e ninguém sabe se realmente existiu.

O meu nome é Paulo Saboga Guerreiro, tenho 61 anos e já não estou por inteiro.

2026-08-30

Borboleta Bailarina

 

Borboleta Bailarina

 

Baila, borboleta bailarina,

Brindo-te, brinquedo breve,

Bebendo bebidas banais.

Baptizado boémio,

Benzi bares, botequins e balcões.

Buscava o brilho e a beleza,

Banalidades belicosas e bardos banidos:

Black Bowie, Bob Burlesque, Bad Blues Banjo, Born Bruce Black e Blue Bible.

Bebia Beladona,

Buscando breu, brisa e balanço.

Buscava-te, bela borboleta bailarina.

Batuquei batuques e baquetas,

Berrando barulhos bizarros,

Berros de bairros burlados e borgas de baile.

Banido, busquei bustos em bordéis, e briguei.

Batalhei batalhas briosas, brandindo bandeiras bordadas.

Belos buracos busquei.

 

Bagaso, Bagosa, Bogasa,

Basago, Basoga, Bosaga,

Balbina Biana Saboga.

Balde Borges Barbosa,

Bosta em barraca de baldio,

Bocejo bafios.

Bafejo brumas boémias e busco-te bailarina,

Baila, borboleta baila.

Baila um bailado que me baste . . .

Baila, bailarina baila…

2026-08-28

Sem motivo aparente

Sem motivo aparente

 

Numa nevoenta manhã

Surgiu assim de repente

Manifestação evidente

Que na terra uma maçã

Cai no chão a Ocidente

Tal e qual no Oriente

Com perfume de cortesã.

 

Sem motivo aparente

Veio dum sonho dormido

Sonhado todo despido

Em almofada decente

Por ter só um sentido

Mesmo sem tomar partido

Jurou ser meu parente

 

Mas se um malmequer

Pode ser desfolhado

Com requinte malvado

De quem despe uma mulher

Também um corpo cansado

Mesmo que descartado

Pode comer-se à colher

 

A culpa do que foi dito

Sem motivo aparente

E com lógica de maçã

Por cair de manhã

Será de mim no presente

O meu futuro predito

Poema de homem doente

Mas de mente pura e sã.

 

Tenho dito! 

2026-08-27

Da Vida Como Nasci

 

Da Vida Como Nasci

 

Da vida, como nasci,

saio despido de tudo,

num abraço desnudo,

que depressa esqueci.

 

Do tamanho que vivi,

duração de Entrudo,

fica cinza de tudo

do que vi e não vi.

 

Levo de mim a sombra

do que julguei parecer

quando por cá passei.

 

Então, do céu, uma pomba

das nuvens irá descer,

criação porque a sonhei.

2026-08-26

Poesia, para que te quero?

 

Poesia, para que te quero?

 

Regaço de coisas escritas,

aconchego de emoções.

Palavras que por não serem ditas,

versam noutras dimensões.

És Pacto de tinta e papel,

entre o que é doce e o fel,

manifesto de ilusões.

Estrofe que por ser da mão, és minha.

Verso que por ser meu, és pão.

No meu prato és sardinha,

em português és certidão.

És prosa, fado e lamento,

riso, pranto ou excremento,

sala cheia ou solidão.

Leio em ti o mundo inteiro,

o que na minha alma couber.

Do que sobrar vou inteiro,

enquanto não recolher.

Declamada és sangue que corre,

quem te escreveu nunca morre

se na palavra viver.

Faço em ti tudo o que sou,

o que não sou nem serei.

Por te ter feito onde estou

mostrarás por onde andei.

Serás vida por viver

E, da vida, o que houver.

Serás tudo o que encontrei.

Serás tudo o que eu quiser.

2026-08-25

O Livro

 

O livro

 

Debruçado numa estante

Esquecido na cadeira

Derramando as suas folhas

Junto de uma ribanceira

Joga as letras ao ar

Procurando numa frase

Uma razão para ficar

Repousando numa mesa

Seja próxima ou distante

Despojada de riqueza

Ou inchada de importante

Pode traçar o destino

E desbravar o caminho

A quem se encontra distante

A palavra que nele foi escrita

Para ser equilibrada

Será fiel de balança

Ou boca amordaçada

Depende da mão que o segura

Se no corpo a amargura

É sangue escorrendo na espada

Tenho na tua lombada

Um sonho porque te vi

Por teres nome te lembrei

Por seres livro te despi

E em cada folha passada

Prosa que foi desfolhada

Em poesia escrevi.

Hoje a mão que te segura

É uma mão virtual

Fez do corpo uma armadura

Transparente e de cristal

Nela Verti o meu vinho

Que bebendo devagarinho

Mistura o bem com o mal

Hoje o livro é destroço

Espalhado pela casa

É cicatriz com remorso

Carvão ainda em brasa

Que queima a mão que o procura

Que não a deixa segura

Que corta à alma uma asa

2026-08-22

Roupeiro

 

Roupeiro

 

Hoje

enquanto tomava o pequeno-almoço

tive uma ideia

mandar fazer um roupeiro

armário trôpego e brejeiro

que guardasse a minha roupa

quando

numa trouxa

não a quisesse usar

 

procurei um carpinteiro

mestre para tal ofício

qual o tamanho propício

para um tal roupeiro

ele olhou para mim

medio-me do princípio ao fim

e calculando a olho

tirando a parte ruim

declarou

cinco tábuas a preceito

outra em cima a fechar

e a resguardar o peito

ficará daqui ali

e dali até aqui

caberá em qualquer lugar

no quarto

ou na salinha de estar

terá sempre o mesmo efeito

será móvel delicado

onde poderá guardar

roupa velha ou o destino

roupa nova

o que sobrar

 

Deixei marcado o assunto

e sinal a condizer

esperarei pelo trabalho

como esperei por nascer

2026-08-21

O meu céu não tem as cores do arco-íris

 

O meu céu não tem as cores do arco-íris

 

O meu céu

não tem as cores do arco-íris

tem uma cor pálida

quando a força que dispensa se esgota

O vermelho da rosa

Quando tento trepar às nuvens

e cor de coisa nenhuma

quando

por cima sonho

a visão se sobrepõe

para lá do pensamento.

2026-08-20

Um poema e um bagaço para a mesa do fundo

 

Um poema e um bagaço para a mesa do fundo

 

Sento-me sempre na mesa do fundo

ouvi dizer

que é lá que os poetas se sentam

que nesse lugar escondido

as palavras sedimentam

sem lugar para fugir

levei um balde e uma pá

E pedi uma chávena de chá

Quando acabei de beber

comecei a escavar

 

Há dois dias que bebo chá

No balde a pá que o enche

não me traz nada de novo

Talvez o Rio que aqui passa

não desague neste povo

Talvez a água que eu bebo

Infusão displicente

não tenha a erva Correta

que me torne consciente

 

Hoje sentei-me de frente

lá no fundo como sempre

sei que o hei-de encontrar

Que não mudou de lugar

O que corre dolente

vem do lado da nascente

E eu estando presente

serei como a Foz

da palavra serei voz

Da frase um paladino

Só preciso de um copinho

para me ambientar

faço sinal para o balcão

gesto discreto com a mão

Para Não perturbar

De Longe o homem responde

que para a mesa do Fundo

vai um bagaço profundo

com poema a acompanhar

 

 

2026-08-19

Uma Canja

 Uma Canja

 

Sentado à mesa da cozinha,

com um copo na mão,

dou início à refeição.

No prato uma canja de galinha,

temperada com limão,

aquece-me o coração.

 

Bebo o caldo com cuidado,

com a colher meia de lado,

cheia de recordações.

Do calor que de lá vem,

o aroma que me detém,

é regaço acolhedor.

 

Lembra viagens antigas

a uma casa perdida,

onde deixei a infância.

Coisa sem importância,

assim vista à distância,

pelo tempo que passou.

 

Sabe a leite materno,

seio perene e eterno,

que fez de mim decoroso.

Sabe a febre e a espanto,

a conforto e a encanto,  

de um passado saudoso.

 

 

Sabe a história presente,

de uma mão que me sente,

e não me deixa cair.

Sabe ao lar que abriga,

à voz que me alimenta,

e à esperança que sustenta.

 

A canja é feminina;

é cuidado e amor,

uma carícia na dor.

Ela é paixão e sustento,

é alguém que te quer,

e tem corpo de mulher.

2026-08-17

Sem Limites

 

Sem Limites

 

Um risco e a razão para o limite.

Deste lado o sol brilha,

Ilumina o olhar de quem espera.

Por dentro, tudo o que fica oculto espera a sua vez.

De dia nada se vê,

E de noite é infinito.


A janela é a fronteira onde derramo o olhar.

Sou imigrante sem causa nem origem,

E procuro na vertigem uma razão para viver.

Queira lá quem houver,

Donos do mundo ao redor,

Um pedaço onde ficar.

 

Dobram-me a vida em traços,

Perpendiculares clandestinas e ilegais,

Que me devolvem retornos, insondáveis negações.

De tudo eu fujo:

De geometrias paralelas,

De outras formas diversas, com princípio e fim,

Da máquina que rosna e tortura sem conhecer o meu nome,

Dos inventores de padrões, que medem as liberdades e lhes definem limites,

Do sossego das estrelas, que já não existem, mas teimam no seu brilho,

Dos caminhos reservados e da reserva dos seus donos,

Do fastio das ideologias que se consomem em ambições,

Das chagas mal repartidas,

Dos estilhaços que marcam o território das emoções,

De tudo eu tenho fastio,

De tudo eu fujo.

2026-08-16

Quantificação da Banalidade

 Eis uma quantificação fácil de fazer. Se à existência subtrairmos a revolta e o amor, restam apenas banalidades. A banalidade não necessita de explicação, pois é o meio onde tudo existe. Podemos evitá-la, escondê-la, renegá-la com paixão, mas ela estará sempre lá para nos recordar as nossas origens. Quanto mais depressa a aceitarmos, melhor será a nossa relação com a realidade, seja ela transcendente, ou não.

Este conjunto apresentou-me as dificuldades inerentes à simplicidade. O que poderia fazer de diferente mantendo a banalidade indispensável à sua quantificação? A resposta só podia ser uma: manter-me banal.

2026-08-15

O Que Fica do Amor

 

O que fica do amor

 

De Vénus, o amor idolatria, uma herança de heresia que ainda nos faz sonhar. Dela renasce a poesia para cantar um sentimento que se quer nobre. Venham as Ninfas de tragédia grega, entidades de sagradas vaginas, que emanam odores de suor pós coito. Declamem-se insinuações de língua desnuda numa orgia de sexo oral, e cantem-se paixões de tesão mal resolvida que vomita louvores a um mecanismo biológico. Venerem-se amores de clássica dignidade, e derramem-se as suas estórias em romances repetidos.

O amor é de posse exclusiva, assim o choram os poetas. Não existe espaço para o amor do cuidado, um amor de granito sem compensações óbvias. Mas é neste amor que se encontram os diamantes mais puros, quase impossíveis de lapidar. Eles não estão guardados nos cofres de Amesterdão. Não são de sangue, nem sujam o coração. Um amor assim é despido de ciúmes e de inseguranças egoístas. O choro deste amor é um lamento silencioso, é um carpir recatado que ninguém quer escrever. Ele existe em clausura e alimenta-se dessa solidão. Há quem pense que é drama, mas não passa de puro amor.

Eu louvo o amor sublime, semeado nos socalcos da vida onde o jardim não existe. É um amor de mãos sujas de terra, calejadas por agruras constantes. É o amor do jardineiro, que cuida do jardim, mesmo quando ele está a morrer. É amor para sofrer, não é amor para mostrar. Tem outro degustar, e bebe-se em copos descartáveis, pois não se pretende acessório. Não é amor de cristal, nem se veste de eternidade só para demonstrar grandeza. Dispensa Sagradas Escrituras, mas não resiste à saudade.

Eu não podia passar sem um amor assim sublime. Repleto de subtilezas, revela-se constantemente em pequenos gestos. É a mão que me alimenta, que me veste, que me aconchega durante a noite e ainda é capaz de um sorriso quando tudo à volta desaba. Amor com tal dimensão, se não houver quem o cante, terá em mim a sua voz.