2007-09-24
O Automóvel IV
Alegrou-se ao ver a longa casa rasteira caiada de branco, debruada a azul, pequeno toldo na porta de entrada, letreiro discreto avisando do nome e do que ali se fazia. Sentia-se fatigado, mais da cabeça do que do corpo, por esse motivo deixou-se ficar um pouco cá fora antes de entrar. Organizou as ideias, primeiro iria comer, de nada serviria esperar de barriga vazia, contrariar o pessimismo, relaxar, depois o telefone, um qualquer mecânico que o tentaria intrujar, com sorte ficaria com o problema mecânico resolvido e com menos uns Euros na conta mensal, pelo menos assim o esperava. Foi com o espírito renovado que entrou no restaurante e escolheu uma mesa para se sentar. Ainda hoje está para saber se foi ele que escolheu a mesa ou se esta lhe atravessou o destino insinuando-se tentadora, junto à janela, cheia de luz, para duas pessoas, um pouco afastada das longas mesas de seis e quatro pessoas, beneficiando do facto de uma coluna interior a isolar do resto espaço. Sentou-se e apreciou o aconchego daquela luz, local ideal para observar todo o campo em volta. Ao longe as vacas procuravam abrigo junto das arvores isoladas, mancha castanha e verde marcando a paisagem. Sentiu as palavras da empregada. Sentiu-as sem as ouvir, como se sente a presença de algo que está onde deveria estar, sabe que a intenção das palavras vem acompanhada de uma lista, bastará sorrir e agradecer, obrigado, se calhar nem tanto. Esta era a única mesa de onde se podia ver distintamente o balcão. Estava situada no ponto exacto onde este, fazendo um ângulo de 45º, escondia da sala quem nele se quisesse apoiar. Foi por este motivo que enquanto bebia o café deixou o seu olhar orgânico repousar numa mulher ao balcão. Já tinha telefonado a um mecânico, “amigo” do dono do restaurante que lhe garantiu ajuda dali a uma hora. Ficava portanto com uma boa meia hora sem nada para fazer. De tanto a olhar ela correspondeu e ele receoso baixou a cabeça sem reparar que ela sorriu.
Decidiu pagar ao balcão e o dono do restaurante, dirigindo-se à mulher, arranjou-lhe boleia até à carrinha. Embora envergonhado não teve coragem para recusar. Quase sem palavras e apenas sabendo que lhe chamavam Xana deixou-se arrastar até um velho Landrover. O caminho até à sua Toyota seria rápido. Decidiu aproveitar e olhar para a mulher, que descobria agora, muito bonita. Começava a sentir-se mais à vontade quando ela lhe perguntou pela carrinha, efectivamente já deviam ter chegado ao local onde a tinha deixado. Ao olhar para trás apercebeu-se da árvore que escolhera para a estacionar. Debaixo dela nada se via. Ainda em andamento abriu a porta do jeep e saltou.
(cont.)
2007-09-06
O Automóvel III
A Toyota encontra-se imóvel, meio asfalto, meio terra, areia. O ar está salgado, sabe a mar. Estranha névoa que percorre a linha da praia sem nunca passar as dunas, sem nunca ofuscar o sol, traço de vertigem na paisagem costeira. O Zé está de olhos fechados no lugar do condutor. Tem no seu colo um livro aberto. As mãos sobre o livro tremem ligeiramente. A respiração é pausada, por enquanto.
Agora que já é mais tarde, pela cara do Zé escorrem gotas de suor, acelera o ritmo cardíaco, o ar entra e sai mais rápido, mexe as pernas, cai o livro. Acorda assustado, incomodado com a falta de espaço, com o calor, Que brasa!
Ao sair da carrinha reparou no livro aberto, Herberto Hélder, do mundo, “Esta coluna de água, bastam-lhe o peso próprio, o ar à roda,”, a garrafa, com esse precioso líquido, em cima da mesa do restaurante no dia anterior. A decisão de abalar para sul, por dois dias, para ler sob um céu aberto, horizonte sem arestas. Hoje fecha com cuidado o livro de poemas e arruma-o, guarda-o na mochila, esconde-o, hoje é ele o poeta. Antes fosse. As palavras nunca lhe fluíram. Oralmente desaparecem por entre grunhidos e trejeitos faciais. Na escrita emperram no branco da folha. Tantas as vezes que ideias brilhantes se dissiparam na aridez da caneta e do papel. Desistiu de o fazer. Deixou que o olhar fosse a sua poesia.
Percorre a passadeira de madeira que o leva para o primeiro desnível, onde a vegetação é verde seco e as flores arranham. A areia é grossa, talvez nova, ainda pouco rolada nos ciclos marítimos. Sente-a nos pés à mistura com conchas, umas inteiras, outras partidas, todas juntas no limite da maré anterior, perto está a rebentação, escondida no segundo desnível. As ondas desfazem-se na areia numa raiva trepadora que morre na forte inclinação da praia. Difícil entrar e sair, lá dentro tudo é mais calmo, mais amplo, mais bruto, dois metros e deixa-se de ter pé, que magnifico lugar para relaxar, deixar os olhos fazerem magia, soltar a poesia dos azuis do mar, dos azuis do céu. Olhá-los demoradamente, as palavras que não ditas, não escritas, as palavras olhadas, os azuis que o fazem sentir bem, que não é um estranho no mundo, que é normal querer isolar-se, não querer companhia, que transformam tudo isso num belo e efémero poema, como se a palavra efémero lhe pudesse aumentar a beleza. Não fosse o estômago e o Zé teria torrado ao sol. Quase nunca a fome o convence, não é escravo da comida nem das horas para comer, para se sentar à mesa, quase sempre sozinho. Dias não são dias, está com fome, porque não aproveitar? Sentiu-se satisfeito com a sua decisão. Enquanto palmilha o caminho em sentido contrário vai inventando menus, cardápios com nomes a cheirar a Verão, nomes de peixes, peixes abertos no prato, o azeite, o vinagre, só uma gota, para tirar o doce. Apetece-lhe vinho, vinho branco muito fresco, está de apetites, ele que raramente bebe bebidas alcoólicas, muito menos quando conduz. Se vai aproveitar a fome, também vai aproveitar a sede. A carrinha está perto, apercebeu-se que acelerou o passo e sorriu, Que gesto mais impróprio, nem pareço eu! Lançou um último olhar às dunas antes de engrenar a primeira. Fez a inversão de marcha com cuidado e iniciou a subida em segunda. Já no alto, e quando a estrada inicia um serpentear pelo pinhal, o motor falhou. Aproveitando a descida procurou uma sombra, uma daquelas enormes árvores seria sua amiga. De falha passou a silêncio. O arranque eléctrico não fazia mover a mecânica. Merda!
(cont.)
2007-08-23
O Automóvel II
No stand tudo era novo e limpo. Cheirava a materiais acabados de transformar, aromas acabados de moldar, “Cheira bem.”, disse para si e revelou-o na expressão exibindo um sorriso largo. De olhos bem abertos assimilou o fascínio, o brilho do objecto, o apelo dos panfletos publicitários que haviam convencido os seus pais, que também o tinham convencido. Estacionada no meio, entre dois parentes, quatro portas, duas portas, a station que superava todas as expectativas, mais brilhante, mais cromada, mais negra nos seus estofos, apelativa nos extras, o volante com o símbolo, o conta quilómetros indicando cento e sessenta, quatro velocidades, excelente a subir.
Logo que entraram um homem de meia-idade veio ter com eles, também ele de sorriso aberto. Não se lembra muito bem do homem. Sentou-se na carrinha, no banco de trás, os pais, à frente, simulavam a viagem, o homem incentivava-os, “Veja o cinzeiro, as mudanças, o espaço, o conforto, e ainda não viu o motor!”. Foi a sua primeira viagem na carrinha. Nos olhos cerrados a imagem de uma estrada num espaço aberto, o poster na parede do stand, o carro vermelho, ele ia a conduzir.
O negócio foi demorado, discutiram-se números, dinheiro que faltava, preencheram-se papeis, intermináveis papeis, “Pai, quando é que vamos embora?”, “Vamos já.”, o olhar da mãe, comprovação serena do poder paternal. Nesse dia a carrinha ficou no stand, nesse dia e nos nove dias que o seguiram. Nove noites, nove sonhos, em Janeiro, dias cinzentos, dias que o Zé pintou de amarelo Verão e azul calor. António José viajou por todas as fotografias, todas as imagens, jornais, revistas, televisão.
A televisão a preto e branco, a carrinha cor de vinho atravessando paisagens no telejornal, a carrinha nas imagens do sul de França, na revista da sala de espera do médico da mãe, do médico que disse que a mãe iria morrer alguns anos mais tarde.
Foram buscar a carrinha numa quinta-feira. O tecto que desaparece e dá lugar ao céu, a cara esborrachada no vidro, a respiração presa no movimento da máquina. Percorreram as ruas de Lisboa num estranho momento de sol. A Damaia chegou e havia lugar para arrumar, muitos lugares. Da janela do primeiro andar, depois do jantar, ficaram olhando a carrinha, indiferentes à intensa chuva que caía. Nesse dia não sonhou.
Sexta à noite partiram para a terra, foi a primeira grande viagem da Toyota.
(cont.)
2007-08-14
O Automóvel
O Zé é António, podia ser Tó-Zé mas não é. É António José Maria Cardoso, António porque o avó paterno era António, José Maria porque sua mãe era devota a Cristo, o Cardoso também é do avó paterno, que assim sendo tem a primazia do baptismo. Quis o destino que António Manuel Cardoso nunca tenha conhecido o neto. Foi Miguel Cardoso, pai do Zé, que assim prestou homenagem à memória do progenitor. Mas que interessa o nome, interessa o suficiente para dele contar-mos toda uma história se for essa a intenção. Não é este o caso.
O Zé tem uma paixão, a sua carrinha Toyota Corolla. Aos fins-de-semana, faça sol ou faça chuva, planta-se com a sua carrinha num local perto do mar e desfruta do prazer da leitura durante horas. Baixou os bancos de trás de modo a só poder transportar mais um passageiro. No banco do passageiro encontra-se um amontoado de livros. O motor da carrinha está afinado, a carroçaria não apresenta mazelas, a pintura está em bom estado, os interiores estão cuidados, gastos mas cuidados. Desde os seus oito anos que aquela carrinha é o seu meio de transporte, o seu automóvel.
(Cont.)
P.S. A história que agora começei pode ou não ser original, tantas são as palavras que já foram escritas, uma coisa eu prometo, não a copiei de ninguém embora me tenha inspirado num pequeno conto de nome “O Capote” escrito por Nikolai Gogol no século XIX que situou a acção na cidade de São Petersburgo
2007-08-04
Ressacando das férias (a culpa de quem não quer produzir)
De espada na mão decapitei uns quantos. Estava deitado numa toalha, numa praia…E o mar, sempre o mar e o som do mesmo agora nos meus ouvidos e eu deitado numa toalha.
O Sol, também o Sol. O Sol nos meus olhos cerrados e as figuras por ele criadas…e eu divirto-me e deixo-me levar.
Que bom o descanso…O descanso?! Sim o descanso, o mar manso, a toalha, a areia, o silêncio no grito da minha filha, “Pai já posso tomar banho?”, “Espera mais um bocadinho…”, “Vá lá Pai!...”.
Eu e a minha mulher tocando-nos por amor ao toque, o leve eriçar da penugem corporal, a sensação de que o tempo pode mesmo ser parado.
O carro sobe junto à falésia e de repente fura a rocha, uma vez e outra e outra ainda, desemboca num vale, numa rotunda, na escolha que sempre se faz quando se viaja sem destino, “Paulo, temos gasolina?”, “É melhor parar aqui.”.
De espada na mão decapitei uns quantos…Que nobre o sentido das coisas, são cortes temporários, cabeças que hão-de voltar ao lugar.
No dia seguinte o sol e eu, e a toalha, o agrado da irresponsabilidade, tenho tempo para vocês, consigo ouvir-vos melhor…Estamos numa ilha, isolados do mundo…
O que eu gosto mais das férias é a minha filha, a minha mulher…O cenário pode mudar, escolha-se o cenário!
A minha filha, a minha mulher, os meus amigos, o meu mundo!
Que pena as férias terem acabado…
2007-07-07
O que me ficou depois de ter escrito IV
Raul não sente o alcool.
“Onde estás Joana?!”
“Joana…Joana…Joana…Joana!...?
Adormeci nos teus braços, entreguei-me no teu corpo, aconchego de mãe…”,
“Joana…Joana…Joana…Joana!...
Que vou eu fazer das folhas escritas?”.
A garrafa está vazia e ele tão cheio.
Poucas as palavras para tão cheio conteúdo.
“Tenho cem palavras escritas em Português escorreito, em verso, do verso filosofo, do professor frustrado.”,
“Preciso de ti Joana, dos teus braços, do teu corpo, aconchego de mãe…Não Joana! Estou a mentir-te…Não sei do teu corpo…Agora que não estás aqui!”,
“Joana…Joana…Joana…Joana…
…Lembra-me um sonho lindo…Fausto? Sim! O músico, o Português!”.
“Vou tomar banho, lavar-me de suores residuais, sínteses químicas, produtos das reacções, das minhas reacções…Joana…Joana…Joana…Espera por mim…Joana!...”
Guarda o saquinho de pó branco junto do arroz, na cozinha, cinco gramas mal pesadas.
“Vou desistir, pedir a demissão, a rescisão gentil do contrato…Amigável…Retirem-me da trincheira, da fronteira, da loucura…”,
“Que vou eu fazer dos meus ensinamentos, do meu entendimento, das horas que passei lendo tudo o que os outros pensaram, tudo tão depressa, demasiado depressa…Hoje, depois dos quarenta…Que irei eu fazer depois dos cinquenta?...Talvez F… , Pedro? Sim! O Português, o cantor!”
Abre mais uma garrafa, a última, a que provoca pânico de ausência, demência. Limpou-se delicadamente, vestiu-se de novo, como se novo fosse, como se não se sentisse velho. Ao fim de todos estes anos, tantas as páginas que faltaram.
“Joana…Joana…Joana…”
A demência, o pânico, a ausência…
“…Joana…”
Agora de novo, como se novo fosse. Novo de gestos lentos.
“Onde estás Raul, Dr. Raul, Sr. Raul, Professor Raul, Raul?...Onde estás Joana? Simplesmente Joana…No passado, na rádio novela, simplesmente Maria, simplesmente um nome…”
O saco com o pó branco voltou-lhe à mão. Entretanto Joana discute com o patrão. O patrão sente um enorme desanimo por ainda não a ter levado para a cama.
Raul pega no telefone…
“Atende Joana!...Janta comigo…Não me deixes só…”
A Joana vai sair mais cedo do escritório. Não sabe se vai voltar. O patrão, o Dr. João está a sangrar do nariz, em silêncio, encharcando um lenço de pano fino. A Joana atendeu o telefone.
“Sim, eu vou jantar contigo. Não faças asneiras…Promete-me…”, “Tu sabes que não posso prome…”, “Eu preciso falar contigo.”, “Eu também preciso de ti…”.
A Joana vai chegar a tempo de chamar uma ambulância. O Dr. Raul não irá voltar ao ensino. Seis meses isolado na serra da estrela fizeram dele um homem novo. Joana vai ficar com ele, ama-o. Foi ela que o levou para casa dos avós e lá ficou nos tempos mais díficeis. Depois arranjou emprego em Coimbra…Do resto não sei…Um conto é mesmo assim, é uma fracção de tempo, um pouco de vida, da vida…
FIM
P.S. Vou de férias. À Titá, ao PB, ao AD, à Isabel, ao Rocha de Sousa, à Elsa, ao Talk, enfim, a todos os que me visitam e comentam um abraço.
Até sempre!
(Sim, são estes os Blogues que eu mais visito)
2007-07-02
O que me ficou depois de ter escrito III
Joana foi de carro para a cidade, ficou presa no transito e chorou enquanto ouvia as notícias das nove. Apeteceu-lhe telefonar mas não foi capaz. Agarrou o telemóvel com força até o sentir queimar…Largou-o bruscamente. Procurou o lenço na mala e deixou o motor do carro ir abaixo. Atrás de sim as buzinas começaram a tocar, uma mistura desagradável de sons estridentes que lhe agravou a tensão. Fechou os olhos e sentiu correrem-lhe lágrimas pela cara, percebeu que chorava novamente…Por momentos tudo despareceu…O motor do carro está a funcionar. Olhou-se no espelho retrovisor. Dois grandes riscos negros nas faces, um em cada uma, emprestavam-lhe um ar sinistro de palhaço assassino. Simétricos os riscos, o olhar que endureçera, “Reage Joana!”, “Que suplício!”, “Com sorte daqui a meia hora largo o carro.”.
Deixou a moeda habitual a um dos arrumadores habituais. Este revezava-se com mais dois que protegiam o local contra possíveis intrusos. Era sem dúvida o mais forte. Dizia-se Romeno, confessava a fome, os vícios, os crimes e mostrava uma garra fora do normal para quem anda naquela vida. Joana nunca se sentira incomodada com ele, antes pelo contrário, preferia a sua presença à dos outros dois “sócios”. Foi gentil o suficiente para reparar no desarranjo de Joana, suficiente para lhe perguntar se ela precisava de alguma coisa, para lhe garantir que não precisava de se preocupar com o carro e que o dia ia estar muito bonito. Sim, a Joana não tinha dúvidas quanto a isso. Precisava limpar a cara, tentar-se apresentável. Entrou no café que ficava mesmo junto à entrada do escritório de advogados onde trabalhava. Cumprimentou a empregada mais velha e fez-lhe sinal que precisava de ir à casa de banho. Esta desimpediu a ponta do balcão e preparou-lhe um chá bem quente com uma torrada.
Joana deixou-se ficar, de mãos no lavatório, olhando-se no espelho, “Gosto tanto de ti Raul, deixa-me pelo menos provar o mel… antes do fel…”, riu-se de si, da rima feita ao acaso. O que a juventude não faz, não há nada que pague a juventude, um sorriso, uma expressão que muda, os vinte cinco anos de Joana a mostrar frescura, sangue que é quente, contracenso, a frescura do semblante, o sangue quente…
Bebeu o chá em silêncio, perdeu-se na conversa de dois homens que discutiam uma contratação do Benfica. Enquanto mastigava a torrada reflectiu sobre a facilidade que os homens tinham em descarregar as suas frustrações no futebol. Nem todos eram assim, mas para o caso isso também não interessava, também as mulheres tinham os seus truques. No seu caso não eram as novelas ou as revistas, mas honestamente não poderia dizer-se imune a esse tipo de descompressão. Gostava de fazer compras, gostava de comprar, isso fazia-a sentir-se bem…Quando não estava a ler, a estudar, a escrever, a amar…Comprar e vestir-se…Joana era uma mulher bem feita, talvez um pouco magra, mas a roupa assentava-lhe bem e ela gostava da sensação.
Libertou-se do balcão com um beijo para a dona Marta que apontou a despesa num bloco.
Agora o trabalho, o escritório. Primeiro a entrada do edíficio, é preciso dar ordem às coisas…O edificio, que tinha beneficiado de melhoramentos recentes, era ostensivamente fruto dos anos sessenta, habitações plurifamiliares que se foram desabitando, pilar, viga. Não gostava dele nem o sentia confortável. Hoje, em particular, ser-lhe-ia ainda mais desagradável…
(Cont.)
P.S. Perdoem-me o espaçamento. Este conto vai ter de acabar até ao fim da semana...Depois...Férias...Descanso...Um abraço a todos os visitantes.
2007-06-23
O Trabalho (Pequena reflexão nocturna)
“Maldita seja a terra por tua causa, e dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, todos os dia da tua vida. Produzir-te-á espinhos e abrolhos, e comerás a erva dos campos. Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado. Porque tu és pó e ao pó hás-de voltar.” (Génesis, 3, 17-19)
O penoso trabalho, o castigo diário cravado nas nossas mais remotas origens religiosas. Será que nos apercebemos da maldição, da cruz herdada de Adão, o primeiro a arrancar alimento através da canseira, do suor, até à morte…
Mas que dizer do trabalho? O trabalho é o que é, vale o que vale, o dos outros vale sempre menos…
Pesada herança a de Moisés que teve de convencer os Judeus, pastores nómadas, a praticarem a agricultura. Qual o argumento? Na verdade consegui-o convencendo-os da irreversibilidade do castigo divino. Distribuiu as terras e criou leis que impediam a sua venda definitiva. De cinquenta em cinquenta anos o Jubileu saldava todas as dívidas, a ninguém seria espoliado o direito à terra, ao ganha pão, ao trabalho!
Como poderão os ricos comer o pão com o suor no rosto, como poderão os pobres suar menos para comer um pouco mais de pão, como poderão os desempregados comer algum pão, pobres da pobreza , da miséria e da exclusão…E do trabalho.
Enquanto o trabalho for pago será sempre deficitário no número de vagas. Na escravatura não existe limite para a necessidade de fazer, construir, ampliar, angariar. A remuneração é um sério problema, travão do progresso.
Que novos reinos existem? Serão os países pobres os verdadeiros herdeiros da palavra de Javé?
Aqui fica a minha dúvida, a minha vertigem nocturna…
Um bom fim de semana a todos!...
2007-06-14
O que me ficou depois de ter escrito II
O coração acelera, tem palpitações de esforço. O embolo desce e sobe uma vez, duas vezes, três vezes…E pára! Por momentos as forças vão-se, impossível o gesto, o movimento, perdido no orgasmo que é todo aquele sentir, aquele calor e logo a seguir o arrepio de frio e as forças novamente a voltarem…”Um dia não volto…”. Agora sim, está pronto para enfrentar o carrasco branco. “Onde é que eu ia?...”, estranhou a arrumação, as folhas alinhadas, o repouso da máquina sobre a mesa. Pegou nas folhas como se não fossem suas, como se aquelas palavras não tivessem nascido do contacto dos seus dedos com as teclas, e passou-as uma a uma, uma a uma olhou-as sem as ler, admirando-se da escrita, do contorno preto das estrofes…Nem bem preto…Mais cinzento…”Que bela silhueta…Terá igualmente belas palavras…”…
“Que fazer com o saber que me incomoda
Filosofo do pecado
Irmão gemeo que me ocupas…
Bebe um golo e cerra os olhos com força
Marca a vida antes que ela te fuja
Dá-lhe metade de ti
De mim
Não a deixes ir sózinha…Matéria…”
Não se reconheçe nas palavras, no desabafo feito poema, “Que merda é esta?...”, “Onde está a prosa segura que me caracteriza, onde estão os mestres que deveria evocar?”…”O intelecto actua sempre como se o fascinasse a contemplação da matéria inerte. É a vida a olhar para fora, saindo de si mesma, tomando como principio os caminhos da matéria inorgânica, para dirigi-los de facto.”, “Bergson tem razão…Que fascinio…O intelecto com o poder de ver as coisas separadas e a matéria para as destinguir como diferentes…Será que alguma vez o compreendi? Que me interessa isso agora? Se está certo ou errado…Só me interessa o belo…”, “Porque não me sai bela a poesia? Porquê a amargura…Falso filosofo, falso poeta…”.
Enrola mais um cigarro, acaba de beber o que resta no copo e enche-o novamente, está calor. Decidiu abrir os estores e o sol quase que o cega, “Que bonito dia, que boa essa energia solar, fonte de vida…E de morte…”. No prédio em frente, duas adolescentes numa janela fazem-lhe caretas de nojo. Apercebe-se do seu triste estado, “Aonde queres chegar Raul…Dr. Raul…Professor Raul…Raul?”, afasta-se da janela e apaga o candeiro, refugia-se no fundo de um sofá velho, em pele, de um avó famoso, também ele Doutor, Professor, homem de grande saber, de grande capacidade de trabalho, com extensa obra públicada…”…Ouve bem Raul, sem trabalho nada se consegue. Os sonhos são bonitos mas precisamos conquistá-los.”, “Sim avó.”, ou só o dizer que sim com a cabeça, que idade teria?
O pensamento cortado pela presença de um pedaço de papel, porque não reparou nele? Estava junto da garrafa, agora definitivamente meio vazia. Um pedaço de papel pequeno, bem dobrado, bem cheiroso. Desdobrou-o adivinhando-lhe letras, palavras, frases, sentidos.
“Amo-o Dr. Raul
Amo-te Raul
Não te destruas por favor
Joana”
“Joana…Afinal foste tu…Querida Joana…”
(Continua...Com um abraço para todos os que se dão ao trabalho de por cá passar)
2007-06-05
Para lá dos recantos, dos segredos da alma.
Das crenças e superstições.
Distante fica o corpo, observando-nos em fuga…
Retenho o cheiro da seara ceifada,
Os fardos de formas geométricas,
O aroma do caule cortado, multiplicado…
Tenho o segredo de mim,
Sei-me fazer feliz,
Egoísta do que não sei nem quero saber…
Olho para cima e invento deuses,
Faço do que me ensinaram,
Sei que não tenho a chave…
Tenho a porta aberta,
Numa amplitude incerta,
O suficiente para passar…
…A areia que desliza na ampulheta…
O mecanismo gravítico, movimento manual que prolonga o tempo,
Não me posso esquecer de a virar…
Escorre e dá-me a medida do que existi, do que existo, do que tenho para dar.
Sou eu que te peço, agora que te virei.
Vejo o amontoado de tempo, acumulando-se no fundo,
O fio de areia que o aumenta…Escorre e responde-me granulado temporal…
Obrigado!
Pelo teu silêncio de frequências, rumor de partículas roçando-se.
Obrigado por me fazeres olhar…
Para lá dos recantos, dos segredos da alma.
2007-06-02
O que me ficou depois de ter escrito
O sol está a pique, como deve estar o sol que quer queimar. Algumas gota de suor escorrem-lhe da testa, destilam o veneno que o consumiu, doce veneno…Hummm, doce veneno…Quando acordar logo sentirá a carência. Arrumada, a sala mostrava-se indiscreta aos vícios, uma caixa metálica com algodão, uma seringa de vidro e respectiva agulha, um vidro de relógio, uma garrafa de água, um saquinho de pó branco…Uma garrafa de Grants meio cheia…Meio vazia…Sempre a mesma merda de dilema…Desde que não seja a última…Não consegue dormir sem saber que pelo menos existem duas garrafas por abrir…Ao acordar a mão pede o copo, o copo pede a garrafa e ela tem de estar lá…Como poderia ele escrever, como poderia ele ensinar…Ainda se dão ao trabalho de o ouvir na faculdade onde dá aulas de filosofia…Esqueçeu os filosofos sem esqueçer a filosofia, algumas más linguas acusam-no de inventar…Tudo mentira…
Está de baixa vai para três semanas, para escrever o livro que o vai tirar da miséria, que o vai libertar de patrões…Desculpas, mais de vinte dias a consumir de modo intensivo…Escorre-lhe suor do corpo magro, branco, magro sem fragilidades, branco sujo da vida.
Acordou, os olhos mantêm-se fechados, primeiro só os ouvidos, o emaranhado sonoro, o fio por onde lhe pega, na agulha, na cabeça, a ambulância ao longe, os miúdos na rua, o autocarro que arranca, o trinco da porta da escada…Também ladram, os cães da vizinha…
Já tem todos os sons, agora sim pode abrir os olhos, um de cada vez, devagar…O corpo ainda não se mexeu…Quando o fizer vai pegar no copo e vai reparar que está vazio, vai enche-lo com a garrafa meio cheia, meio vazia, verificar do stock…Só depois a casa de banho, o cigarro sem filtro que vai enrolar à mão, o saquinho de pó branco…Está a ficar vazio…Como a conta bancária…Está quase o fim do mês…
Ainda usa máquina de escrever, como o Paul Auster, só que não houve nenhum artista a querer pintá-la, nem ele que também se julga pintor. Também a máquina está arrumada, alinhada com a mesa, alinhada com uma resma de folhas escritas.
(I Parte, tem continuação)
2007-05-30
Foi hoje! Podia ter sido outro dia...
Eu prometo não inventar mais do que posso.
Prometo também escrever…escrever sobre tudo…sobretudo o que não conseguir esconder.
Não tenho pretensões moralistas, nem acredito que alguém precise delas.
Sou novo da idade, de que me quero, sou velho da idade que já tive…E acrescento…
Regulo os dias por horários.
Regulo os dias pela pausas…Entre cada pausa um anseio…
Não durmo enquanto falo.
Nas escadas, se as desço, olho para os pés…Não é visível…
Entristece-me o adeus definitivo, o abalar sem perspectivas.
Não evito confrontos, mas preciso de razões.
Por elas vou lutar todos os dias.
Na indignação, no desencanto vou encontrar motivos para viver.
Prometo não me esquecer.
Vou-me lembrar de ti e de todos os que estiveram comigo.
Greve Geral
Escrevo estas linhas sem ter ouvido a comunicação social. Levantei-me cedo e fui andar de bicicleta, estou de folga. Havia tempo que eu não me sentia tão bem. Benditas sejam, a cremalheira, a corrente, todo aquele conjunto de engenhocas que me permite galgar distâncias, encontrar-me só com as minhas decisões…Parece fácil mas não é...Quando se pedala os caminhos que se escolhem pegam-se ao corpo, pagam-se com o corpo…É preciso saber quanto o corpo vale, fazer a gestão do seu valor…Também para a vida…Durasse a vida cento e oitenta minutos, o tempo de uma volta no campo…
Não estou em greve, estou de folga. Chateia-me não ter sido posto à prova, aferir do meu inconformismo. Nada a fazer, se tenho dúvidas com elas vou ter de ficar. De qualquer maneira é a primeira vez que, enquanto trabalhador sindicalizado, não faço greve.
Não sei se foi um êxito ou um fracasso, da minha experiência estas coisas não se medem como no futebol…”Quem ganhou?”, “O Governo, três zero!”, ou, “O Sindicato, dois a um!”, ou ainda, “Empataram a zero!”, são outras as questões. Estamos ou não treinados para ver esta coisa das greves como coisas de comunistas? O que é ser comunista? Quantos de nós leram Marx ou Lenine? Confesso que li pouco.
Percebo no entanto o sonho dos incógnitos, a necessidade de justiça de quem não se evidenciou, obviamente e por definição, a grande maioria.
Entendo a greve como uma medida de protesto, um medir forças com o poder, com todas as consequências que possam devir desse facto. Assusta-me a represália, o despedimento, a exclusão social dos desempregados, a culpa do insucesso, a culpa é nossa! De quem mais haveria de ser?
Hoje, dia trinta de Maio de dois mil e sete, houve com certeza gente corajosa, gente que fez por nós o que gostaríamos de ter feito…Mas não fizemos…Quando nos falta a coragem tão fáceis são as desculpas…Não interessa se são comunistas, istas…Interessa saber se acreditamos no caminho ou se estamos lá apenas por que nos falta a garra, medo de acreditar que haja outras soluções.
Amanhã tudo voltará à normalidade. De alguma forma vamos esquecer isto tudo e trabalhar para os novos impostos…”Sim! A electricidade é mais barata em Espanha.”, “Os professores na Escócia ganham três mil e seiscentos euros.”, “Sim, fomos mal governados e por esse motivo estamos a pagar mais que os outros…Isto não era preciso sermos Espanhóis, bastava-nos um Rei, ou talvez Salazar…Quem sabe…”.
Perdeu-se a culpa, na curta memória do último fim de semana já não se sabe quem lixou isto tudo. Foi Salazar, foi a democracia, os anos comunistas do PREC, os anos socialistas, a AD, o PSD, o PS, novamente o PSD agora com o CDS, novamente o PS…Talvez os Portugueses…Em última análise esses serão os culpados…Sim! A maioria de nós vai pagar por isso.
2007-05-26
Para além do Tejo
Eu nasci para ser cão, não um burro! Cabrão de espelho…Que teimosia em duplicar-me com orelhas grandes, espetadas, olhos grandes, negros, estúpidos.
Costumo ladrar desencontrado com os outros, para me ouvir, para afinar o meu gemer canino, fazer-me de cão. São cascos senhora, são cascos, as extremidades que me unem ao chão e embora eu esteja convencido de que estou a uivar, será a voz de um burro o que de mim sairá…Eu até já estou habituado à ideia, desiludido mas habituado, acomodado.
Hoje é o deserto, alguém que me alerta, “Vives num deserto, não tens hospitais, não tens escolas, universidades, comércio, pessoas…Não existes e assim vais continuar, nómada da minha indiferença”. Obrigado Sr. Ministro, agradeço-lhe pelo que tenho de mais sagrado, a sua falta de atenção, a sua insensibilidade, a sua falta de educação. O que somos nós a Sul do Tejo, aquele terço de Portugal que se estende até ás praias do Algarve onde tudo muda?
O Sr. Doutor Almeida Santos é peremptório, venham os terroristas, destroem-se as pontes e pimba, toda a segurança nacional fica ameaçada…Ou Ota ou morte!
Espelho, espelho meu existe alguém mais camelo que eu?
Não tenho particular apreço por aeroportos e aprecio o esforço dos responsáveis governativos por me confundirem com a paisagem, sou apenas aquela coisa à beira da auto-estrada ou por detrás da colina…Lá mais dentro no planalto ou do outro lado, para junto do Oceano Atlântico.
O engano, a inconveniência, o deslize, o fugir a boca para a verdade. Desta vez não me posso queixar, são eles próprios que o dizem, país pobre, de baixos salários, que precisa de flexibilizar-se…E tanto que nós temos sido flexíveis…
Há quem diga que estes momentos de reflexão, em que são apanhados os nossos ministros, são perfeitamente normais. Pela minha parte considero-os úteis, quase as anotações de Napoleão no “O Príncipe” de Maquiavel. Aprende-se muito nas entrelinhas.
Eu que nasci para ser cão acabar assim, burro de burrice inteira, asno assumido, instrumento de carga de mercadoria desconhecida.
Também já me explicaram que não é obrigatório o crescimento económico ter reflexos na vida da maioria dos cidadãos, que o serviço nacional de saúde foi sabotado por terroristas internacionais, os mesmos das pontes sobre o Tejo (eles andam ai!...) e que a sua reconstrução vai ter a minha contribuição, se entretanto não me despedirem, ou dispensarem, ou desligarem…Parvoíce…Eu sou um burro e os burros não se desligam…Abatem-se!
É isso mesmo! Sinto-me como um burro…A presidência europeia, a presidência da rosa, as pétalas simbolizando os países da união sobre o azul do mar…
E eu burro com pretensões a cão, ladrando, zurrando…Acudi ao paço Real que matam o burro!
Foi o comentário da semana pelo inventado repórter Paulo Guerreiro, enviado especial no deserto para além do Tejo.
2007-05-16
E se tudo não passasse de um sonho?

Na Paróquia tudo está calmo. O Padre Miguel parou o carro no parque. O parque está vazio como sempre se encontra à hora da sesta. Deixou-se ficar sentado, de mãos agarradas ao volante, o motor ainda a trabalhar. Na rádio as notícias das duas terminaram. O locutor anunciava agora que o programa iria continuar com música. Tirou a chave da ignição com o intuito de eliminar ruídos. Os sinais luminosos no painel de instrumentos desapareceram, desapareceu também a indicação que o avisava da necessidade de encher o depósito. Levou a mão ao bolso à procura da carteira, quarenta euros em notas de dez e um papel de Multibanco evidenciando um saldo diminuto, maldito ordenado que mal chega…Dinheiro divino mas curto. Saiu do carro e fechou a porta com cuidado, procurou no comando o botão do fecho centralizado e activou-o. Ouviu o ruído automático das trancas. Deixou que o olhar acariciasse a viatura comprada em segunda mão, um Seat Leon em muito bom estado, um favor ao Sr. Padre. Nunca um objecto lhe tinha dado tanto prazer…
Junto ao passeio que cercava o parque, encontravam-se flores cuidadosamente plantadas pelos jardineiros da autarquia. Agora, na primavera, e depois da poda que as fez rejuvenescerem, perfumavam o ar e coloriam a atmosfera. Sentiu-se tentado a colher uma, que diria a dona Rosa se o visse de flor na mão, será que perceberia a nostalgia do gesto, a alegria infantil, a libertação da mente em relação aos dogmas, a atitude simples de um homem que também foi criança, ou antes acharia o acto despropositado, estragar assim o jardim da igreja, logo o Sr. Padre, “Olhe lá Padre Miguel, o senhor sente-se bem?”.
Se a dona Rosa estivesse lá para o questionar e se ele tivesse colhido a flor poderia responder-lhe que sim, que o cheiro daquela flor na sua mão lhe tinha trazido um enorme conforto. Não a colheu e entrou triste no pequeno átrio que antecipava o local de oração. Benzeu-se num gesto automático que hoje não tinha significado de motivação, apenas respeito ensinado. Sentiu vontade de chorar, sentiu o peso dos seus cinquenta e dois anos de idade, trinta anos de paróquias, de jovens raparigas que o tentaram, de velhas que o enjoaram, benzeu-se novamente perante o pecado do pensamento, o lamento, já não tinha idade para dúvidas…
…”-Faz-me o favor de um retorno certo. Eu espero, tu sabes que eu espero, sempre esperei…Amanhã? Porque não?!
-Serás capaz de aguentar as minhas demoras? As indecisões próprias de quem não tem certezas?! Será o teu amor tão grande que roce a imbecilidade?
-Dúvidas tu da minha capacidade para me anular, para te amar, incondicionalmente?....
-Duvido que te dures eternamente escravo, escravo de mim que não quero ser tua dona.
-Que provas te posso eu dar? De tudo eu desisto…Desisti…Resta-me a tua presença, as tuas palavras, o som delas materializando-te, o ter cheiro, tu…
-Doentio esse amor que construíste. Não posso continuar a ser personagem nessa história, nunca poderei garantir um final feliz para a tua vida.
-E quem pode?...
-…Nem tão pouco a esperança que tal pudesse suceder.
-Nunca te pedi isso, apenas que me deixes sonhar, sonhar este amor que não existe, se necessário morrer por ele…
-Não sejas trágico, patético.
-Não é necessária a ofensa.
-Tu obrigas-me a ser assim. Eu não gosto de ser pressionada…Gostava de poder ser tua amiga…
-Tu és minha amiga, a minha maior amiga…Terei culpa de amar a minha maior amiga.
-Não terás culpa do amor mas por ele a amizade pode ser destruída…Se não o foi já…”
Sim…Nessa altura teve dúvidas…Não tivesse havido a recusa e a vida teria sido diferente…Qual o problema da idade, o que são quinze anos quando se ama…Ele dezassete, ela trinta e dois, madura de dois filhos e três relações frustradas…
A quem se confessa um Padre?
O Padre Miguel não vai ouvir confissões, hoje não é dia para essa tarefa, penosa tarefa de ouvir os outros pecarem por ele, pecados pequenos, outros maiores, mas nunca de mortes ouviu testemunho.
Miguel hoje não se sente Padre…Sente-se criança, com saudades da terra, o cheiro lembrado que faz chorar, o cheiro que nos guia quando a vista nos engana…
Sentou-se na primeira fila, defronte ao altar, à Cruz, Cristo que não está lá mas se pressupõe…Que interessa se existiu…A história existe e é Linda, Bela, Pura, o limar dos Evangelhos na unificação factual, o clímax da virtude e do sacrifício, a declaração carnal da existência do Supremo, do Divino…
Quantas vezes falou em seu nome?...
“De que falei eu?...E se tudo não passasse de um sonho?...De quem este corpo que eu comi, este sangue que eu bebi, esta memória que não me deixa fugir?....”
Na pia santa a água benta convida-o à penitência…Penitência…
…Ainda tem o número da irmã…Penitência…
O Miguel não vai ser Padre esta noite…
2007-05-07
Declaração
Por detrás o sol nasce cinzento
Reflexo polido
Esfera afagada.
Por fora o brilho que ofusca
A luz que não mostra
Contorno apagado.
Tenho o contorno na mão
No papel que o lápis suja
No meu dedo na areia
Na projecção da minha sombra
Na assinatura do poema.
Cresce
Criança velha
Da vida
Cresce
No sentido decrescente
No lugar poente
Para onde tudo cresce.
Cresce e perdoa-te
Porque crescer é pecado para ser perdoado.
O sol que nasce mudou de cor
Cinzento sou eu se não a souber
Olhando para ti
Minha flor
Meu amor.
Toca-me ao de leve
Leva de mim um bocado
Deixa de ti o que puderes
Para eu poder tocar-te.
Hoje vi a cabeça de um passarinho
Morto
Na primavera da minha rua
Na distância da árvore.
Hoje foi ele
Não fui eu
E eu estou feliz por mim.
Vou poder chegar a casa
E dizer que te amo.
2007-05-03
2007-04-30
Feriado vivo
Dias atrás tentei escrever qualquer coisa sobre o assunto mas não fui capaz, faltaram-me as palavras para explicar. Indignação, talvez… Por feliz coincidência comprei o jornal “Público”, edição de vinte e oito de Abril de dois mil e sete, ano XVIII, nº 6238, e na página 45 deparei com o seguinte artigo, “Feriados vivos e mortos” escrito pelo José Pacheco Pereira. Este ano gostaria de ter escrito esse texto…”O vinte cinco de Abril é um dos poucos feriados vivos que ainda existem”, palavras que antecedem o título…”A manifestação popular do vinte cinco de Abril é uma não-entidade, um caso curioso de como uma coisa que existe não existe nem para os media, nem para a mecânica da opinião pública e publicada”…Palavras chocantes sem dúvida…Mas que dizer das comemorações do dia da Restauração, que dirão aqueles que desejam ser espanhóis nesse dia feriado, e que dirão os monárquicos no dia da implantação da Republica, mas quem se lembra?...Serão esses feriados vivos? Soubéssemos nós da nossa história e lembraríamos com menos asfalto e frenesim consumista esses dias.
Termina José Pacheco Pereira o artigo com as seguintes palavras, “Resta pois o único feriado vivo de carácter histórico e cívico, o 25 de Abril, porque continua controverso e divisor, politicamente pouco neutro e mexendo com a paixão ou repulsa das pessoas que o viveram e que ainda são muitas. Mas como em tudo, é só esperar que o tempo o mate. A entropia fará o serviço de reduzir o 25 de Abril ao 5 de Outubro, como reduziu o 5 de Outubro ao 10 De Junho e o 1º de Dezembro a nada. Ficou alguma coisa?...”. A esta pergunta o autor do texto responde, “Ficou e muita, mas perderá a data como referência e ainda bem, porque significa que teve sucesso depois de estarmos todos mortos.”. Pensei muito nisto… não seria desta maneira que finalizaria o artigo…Que ficou alguma coisa ficou! Se vai ficar depende do que ensinarmos aos mais novos…Mesmos depois de mortos…
Como também diz Pacheco Pereira “…A liberdade, algo tão abstracto porque felizmente ainda existe como o ar que se respira, ou seja, não se dá por ela a não ser quando não se tem.”.
Não sou do Partido Popular Democrático, que perdeu o Partido Popular para o Centro Democrático social e se tornou Social Democrata, ou do Partido socialista que substituiu o punho em fundo vermelho pela rosa, ou do Partido Comunista tornado CDU, talvez não seja de nada, talvez seja parvo…O que sei é que enquanto viver vou agradecer todos os dias aos capitães de Abril.
Nota: O Texto do Pacheco merece ser lido…O Social-democrata mais comunista que eu conheço.
VINTE CINCO DE ABRIL SEMPRE
2007-04-20
A Lagoa X (Finalmente o fim)
Para fazer cumprir a interdição do acesso a esses locais foi deslocada a polícia de intervenção, agora que a situação no hospital estava sanada. Com os efectivos todos na rua, a GNR sentia-se impotente perante a onda de violência que se deslocou para a cidade. Dizia-se que havia mais mortos no pinhal e que as autoridades queriam ocultar a questão. Na verdade, por entre o mato, haviam mais dois cadáveres, mas as autoridades não tinham disso conhecimento, são um aproveitamento da situação. Quem provocou estas mortes quis misturar intenções, dispersar culpas, livrar-se de alguém incómodo.
Desconhecem-se as causas que levaram as águas da lagoa a mudar de cor. Sabe-se que os peixes morreram e as plantas apodreceram deixando por cima da água um cheiro azedo de decomposição.
Também o pinhal mudou de cor. Com o avançar da tarde levantou-se vento forte e aumentou o calor. Passavam trinta minutos das três horas. O fogo apareceu do lado do mar, do lado menos guardado, rapidamente consumiu os pinheiros.
Foram estas cores, estes tons de vermelho, que fizeram parar a violência humana. De todos os lados convergia gente e uma enorme multidão se juntou em silêncio à beira da via rápida. Do outro lado o fogo, entre eles a polícia de intervenção que lá ficara com a incumbência de vedar acessos. Acessos que pelos vistos não vedou. Embora habituados a estas andanças, alguns dos rostos destes homens, geralmente duros e insensíveis, mostravam uma perturbação anormal.
Pedro e Alice tinham ficado na cidade e procuravam acalmar dois grupos que se tinham envolvido em confrontos na paragem dos Expressos. A coisa não estava fácil, as pessoas facilmente se dispersavam recomeçando as escaramuças algumas dezenas de metros depois. As ruas largas e o terreno aberto não ajudavam a conter tanta gente e eles eram só dez. Fez mais o cheiro a queimado do que os seus esforços, na luta desigual que travavam. Os confrontos acabaram subitamente e as pessoas, como autómatos, dirigiram-se para o pinhal e para a lagoa. Pedro e Alice pediram novas instruções perante esta nova situação. Não tinham efectuado detenções e os feridos, se os havia, tinham desaparecido arrastados pelos desertores, pela forte ventania sem direcção definida.
Pedro vai saber da mulher, do filho mais novo, Alice vai com ele. Os outros guardas seguem em direcção ao inferno.
Ouvem-se as sirenes dos bombeiros. Momentaneamente cercado pela lagoa e pelo mar, o fogo investe violentamente contra a via rápida e desagua pelo lado sul por onde o pinhal se prolonga até aos viveiros, até ao tratamento de águas, até à rotunda.
Dos dois corpos que lá se encontram só o carvão é testemunha da sua presença, talvez os especialistas consigam descobrir identidades.
Na lagoa o peixe que veio à superfície para morrer, jaz boiando junto às margens. Também as enguias e os lagostins lhe fazem companhia, fauna morta, feita fronteira entre a terra e a água. Vermelha, a água reflecte o vermelho do fogo. Do pinhal, nuvens negras de fumo, rodopiam em pequenos tornados. O calor é insuportável e o vento decide empurrar as chamas de encontro ao asfalto. São as faúlhas que o atravessam pegando fogo ao mato rasteiro do outro lado, do lado da cidade, na periferia sul.
Acossados pelo fogo os polícias de intervenção empurraram a multidão. A princípio estupefacta, a mole humana dispersou em direcção à cidade. Pequenos grupos de corajosos cidadãos organizaram-se junto às primeiras habitações decididos a defendê-las.
Mas depois de atravessada a via rápida as primeiras casas tornaram-se cordeiros dispostos ao sacrifício. Vê-se gente acorrer num atropelo de urgência, na defesa dos seus lares.
Sem razão para estarem presentes, os elementos da polícia de intervenção foram desmobilizados. Corporações de bombeiros das povoações vizinhas apareciam de todos os lados. A coordenação era difícil e ainda se encontrava muita gente nas ruas.
Travado no lado sul pela rotunda e pela colaboração dos trabalhadores de duas fábricas perto do local, o fogo ocupava-se agora a queimar as casas na orla da cidade. Mesmo com os meios dispersos os soldados da paz tentaram salvar as habitações que ainda não tinham ardido. Entretanto, no lado norte, mesmo junto à lagoa, o lume encontrara uma pequena passagem de mato entre as águas e a estrada ameaçando várias pequenas quintas ao longo da costa. Libertara-se o inferno e este tudo consumia.
Desesperados, antigos rivais, lutavam lado a lado na tentativa de travar a destruição. Tivesse esta união vindo mais cedo…..
De como tudo recomeçou passados tantos anos há-de ficar um mistério para as autoridades e para a população. Eu, no entanto, sou o narrador e tenho por obrigação saber mais, e do que sei vou-vos contar. Sei que as duas crianças foram mortas por vingança, vingança do Rafael. O Rafael que não resistiu às insinuações do caseiro, pai das meninas, e que frequentava a sua filha lá para os lados da rotunda. Ele sabia o que custava ter perdido uma filha…O outro havia de perder as duas…Não abusou delas, não era essa a intenção, destruiu-as por dentro apenas para camuflar o crime. Nessa mesma noite, no café do Aníbal, encontraram-se os dois e numa troca de olhares o caseiro percebeu quem o tinha feito. A espera foi feita nessa mesma noite, a asfixia foi rápida, também ai a destruição interna do cadáver foi pormenor de encobrimento, pormenor que não teve com Dona Inês que sabia o que Rafael tinha feito e foi à casa do caseiro para lhe contar. Este matou-a com uma faca e com a ajuda da mulher deixou-a junto à lagoa.
A verdade destas mortes ficou selada quando o casal sucumbiu perante o fogo. Na tentativa de salvarem a sua pequena quinta deixaram-se cercar e morreram carbonizados….
As outras mortes foram fruto da situação, assim como os conflitos e ódios que germinaram entre a população.
Ficam duas perguntas…E o fogo no pinhal? E a água envenenada? Terá sido castigo divino?
Talvez as respostas estejam no empreendimento turístico que vai ser construído no local onde existia o pinhal…Junto à lagoa…
Fim
2007-04-12
Três pequenos textos sobre a vida… Sem nexo…

Inventei margens junto ao rio, só para ir de uma à outra. Não construí pontes nem jangadas, mergulhei nas águas, ontem revoltas, hoje paradas. Nadei até me cansar e quando me cansei nadei mais…Tenho lama e lodo nas mãos, marcas de quem esgravatou para subir. Nas unhas sujas bocados das margens que alcancei. Percorri terrenos alagados onde enterrei os meus pés, fossem eles de barro e teria lá ficado. Tenho sede dos pântanos, dos mosquitos e suas bombas de sucção, motores insaciáveis na imensidão do meu sangue. Cortei canas por apelo, por amor à vara verde. Soubesse eu tocar e teria feito uma flauta. Das varas fiz bordões que levaram os meus passos, passos que me levaram…

Hoje jantei junto à televisão. Ligada que estava informou-me das coisas, coisas importantes. Disse-me de cursos de ministros, de professores de ministros, executores de politicas, da existência de um título que os defina, lhes dê importância. Falou-me de outros que não são ministros mas desejam ser ministros, da sua indignação perante a falta de confirmação das valências do que entre todos é o primeiro. Explicou-me que no ecrã as pessoas tornam-se mais pessoas, que entre filhos abandonados existem uns mais abandonados que outros, com pais mas sem pais adoptivos presos, sem o apoio da nossa opinião. Fez-me acreditar que precisamos de mais um aeroporto, porque três é a conta que Deus fez, porque sim, porque mesmo sem dinheiro podemos fazer romarias nesses locais de culto, olhar o progresso e sentirmo-nos nele. Convenceu-me que na agricultura os problemas são os agricultores, que não souberam semear o dinheiro que receberam, fadado que estava ao crescimento, desperdício de boa vontade. Explicou-me que lá fora acreditam no caminho que seguimos mesmo que nós não saibamos qual é, tudo uma questão de fé. Mostrou-me que na assembleia também existem seres humanos com virtudes humanas e defeitos humanos (Um abraço à Odete pela sua maneira honesta de ser, mesmo quando é inconveniente…Vou sentir falta), que também se vão embora com mais de vinte cinco anos de trabalho e possivelmente sem entrada directa numa das grandes empresas sedentas de assessores, paciência…Contou-me a história de um parto numa ambulância, no Alentejo, a mim que não sei de ambulâncias mas sei o que é levar uma mulher a parir, a cem quilómetros de distância do local de residência, noite passada numa pensão, “Ainda não é hoje, o melhor é ir-se embora e vir amanhã.”, eu que não fui, que a deixei lá para ir dormir num quarto de aluguer, “Pode vir que vai nascer.”, sete horas da manhã, “Tenho tempo para pagar?...”, passaram-se mais de seis anos e esta já era a realidade, mesmo quando fizemos um cordão humano e a ministra da saúde, Maria? De Belém? Que nome mais apropriado, nos disse que tínhamos de foder mais, não nascíamos em número suficiente….Poderemos nós morrer em número suficiente para garantir as reformas?
Passaram sete horas desde que abandonei o ecrã amigo. Depois disso fiz o resto do serviço, desliguei equipamentos e luzes, fechei portas, entreguei chaves vim para casa e estou a escrever (Decididamente a hora não ajuda). Apeteceu-me desabafar…Os textos ainda não estão publicados mas é esse o seu destino…Hoje, ao fim de uma semana sem me ligar ao mundo deixo aqui o meu testemunho.
2007-04-04
A Morte é...
Uma alma desnivelada,
A luz invisível de uma vela,
O choro de alguém a uma janela,
Um lenço preto estendido numa corda,
O sono de alguém que não acorda,
Um monte de terra e uma cruz,
O brilho de ouro que não reluz,
Uma ajuda que nunca vem,
Um lamento vindo do além,
Um charco de água gelada,
Uma conversa cortada,
Uma vida que desaparece,
O meu olhar que não te esquece,
O teu seio, o teu calor,
A recordação de te perder, a dor.
Vinte anos se passaram, foi em Março de 1987 que me deixaste.
Para ti esta adaptação (o original era bem mais duro...O tempo suavizou a tua falta mas não a anulou)…Um beijo do teu filho Paulo.
(À memória da minha MÃE)
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