2019-11-22
Verbalização Pictórica
Abro a janela do meu quarto e respiro fundo. A tela está em branco e a paleta repleta de palavras. Começo pelo céu. Um céu nublado de nuvens gordas em camadas sucessivas, cinzentos que do claro ao escuro lhe conferem dimensão. É um céu que não oprime, antes liberta e seduz. O céu terá um ponto de referência, local onde os olhos procuram sem que tenham sido convocados. O sol nasce mas não se vê. Apercebemo-nos do seu parto. Captamos tonalidades sépias em gradientes radiais enquanto aguardamos o seu corpo, o seu calor, a sua indefinição luminosa que nos induz a noção de esfera apenas porque o desenhamos em círculo. Na contraluz matinal as formas surgem e eu coloco pequenas casas brancas, isoladas, térreas, pequenos sinais de vida adormecidos. Os últimos galos pigarreiam ladainhas de arrogância para galinhas ensonadas. Alguns animais invisíveis deixam nervosos os cães de guarda. Quem sabe se uma raposa atrasada ou uma família de javalis que ainda revolve a terra. Nada disto ficará registado, a invisibilidade e o som apenas poderão ser adivinhados. Depois das casas surge uma fileira de canas. Exército de lanças ao alto, perfilado ao longo de um curso de água. Logo depois um campo lavrado de castanhos escuros e sombras negras. Envolve-o um fino véu de pequenas gotas de água. Irei chamar-lhe névoa para que fique perceptível embora a mim me pareça a transpiração vaporosa de um corpo quente e húmido. Jogo as palavras na tela e de repente surge-me a transparência de uma camisa de dormir. Será aquela terra toda uma mulher adormecida. Sendo assim irei cobri-la com outra fileira de lanças, estas mais perto e porque mais perto, ondulantes. a seu pés percebe-se o correr da água. Tudo isto se passa num plano primeiro onde irei colocar um pássaro negro. Para lhe retirar a pose agressiva verbalizo-o no cimo de uma das lançascanas...oscilante. O pássaro negro, de asas abertas, procura o equilíbrio e com esse gesto perde a inquietante negatividade transformando-se num elemento ao mesmo tempo frágil e cómico. Dou as últimas pinceladas. Procuro corrigir algum erro de gramática, disfarçar alguma tonalidade verbal dissonante, dar coerência ao aleatório da tela. Não sei se consegui...
2017-11-27
Carta para o meu irmão desconhecido
O abraço é grande e
o tempo que me sobra é incerto. De Novembro a Novembro passou um ano e eu não
quero deixar passar outro sem te escrever estas palavras. São o que são e valem
o que valem mas acima de tudo são sinceras. Pesam-me incertezas e o medo de ter
falhado. Imagino um homem venerável e idoso. De olhar crítico e ao mesmo
tempo indiferente. Traz numa mão o somatório do que fui e na outra um rol de dívidas
por cobrar. Hoje alguém pagou as suas. Duas semanas de hospital não resolveram
um coração cansado. Tanto trabalho para tão pouco descanso.
Tenho dormido
melhor, acordo menos vezes durante a noite e já não fumo para adormecer. Não
sei porque te conto estas coisas, mas o tempo voa e um dia pode ser tarde demais.
Assim ficas a saber que a cama se tornou minha amiga e já não me tortura com
aconchegos.
Ontem saí à
meia-noite e perguntei-me porque estava a rega automática ligada. Pareceu-me
estranho que na cidade deserta apenas nos repuxos aquíferos houvesse vida. A
relva está viçosa e agradece este mimo autárquico. Ainda se pode pisar a relva, mas depois de ver gastar tanta água o gosto já não é o mesmo.
Lembro-me de um familiar da ex-mulher do meu pai, aqui há uns anos, criticar
esta “malta nova” por estar sempre a tomar banho. Segundo ele um banho por
semana bastava. Na altura achei ridícula a observação, hoje acho ridículo o que
eu achei.
Os dias estão cada
vez mais pequenos mas eu tenho cá para mim que não é o Inverno que os anda a
encolher. De ano para ano os dias vão ficando menores e o tempo escasseia para
tudo. Sempre pensei que a lista de coisas para fazer fosse diminuindo. Pura
mentira. A lista aumenta de dia para dia e coisas tão improváveis como a
leitura de um livro deixam-me angustiado. Tanto que me falta ler, eu que
continuo a comprar mais livros do que aqueles que consigo consumir. Hoje
demorei uma hora a decidir-me por um. Cheguei à conclusão que perdi uma hora de
leitura. Depois cheguei a outra conclusão, perco demasiado tempo a decidir-me.
Deixo-te esta
confissão com a certeza de que te rirás de mim.
Faço votos para que
esse sorriso te traga alguma alegria.
Abraço grande meu
irmão desconhecido.
26 de Novembro de
2017
P. Guerreiro
2017-11-25
Carta para ninguèm
Escrevo-te como se
de uma carta se tratasse. Posso tratar-te por tu porque não te conheço, posso
revelar-me porque nunca me dirás que me compreendes.
Lembras-te da
última vez que cruzamos textos; eu escrevia e tu lias, tal como hoje o teu
silêncio era meu companheiro e ajudava-me a passar o tempo. Passaram alguns
anos e o sabor que trago nos dedos já não deixa impressões. Confesso que tenho
saudades tuas, confesso que tenho saudades minhas. Na verdade já há algum tempo
que não me vejo. Os anos passam e tudo o que eu deixei por fazer continua exatamente
por fazer. Partiram mais alguns e o meu pai entrou num lar. Confessou-me a sua
impotência e chorou e eu abracei-o sem o olhar, com medo que as suas lagrimas
se juntassem às minhas e se transformassem num mar impossível de navegar. Já
passaram quase dois anos e eu sei que não voltei a ser o mesmo. Nunca se volta
ser o mesmo. Fiz cinquenta anos e não te disse nada, também não comemorei.
Nesse dia chorava-se a morte de um primo, 36 anos de álcool e 48horas de
hospital bastaram-lhe para a despedida. No dia que fiz cinquenta anos fui a
dois funerais. Na altura não te disse porque não havia nada para dizer. As
parcas palavras transformaram-se em gestos para consolar quem me era próximo.
Continuo destemido
de garrafa na mão e troquei o álcool escocês pelo medronho caseiro e pelo tinto
de 14 e meio. Enquanto o fígado resistir e não inventarem uma hepatite d por cá
ficarei mais alguns anos. Espero que te encontres de boa saúde quando leres
estas linhas. Dá cumprimentos meus a quem tu muito bem entenderes e se
porventura, ou outra qualquer razão, te ajoelhares para rezar não te esqueças
de interceder por mim que eu farei o mesmo por ti.
Não te quero
incomodar mais.
Abraço grande e até
qualquer linha.
24 de Novembro de 2017
P. Guerreiro
2015-06-09
A felicidade
Procura-se, constrói-se, adquire-se por procuração ou numa
loja perto de nós? Qual o estado de ser feliz, quais os fluidos orgânicos que
nos levam a esse êxtase? Posso eu acordar e bastar-me vivo para ser bafejado
pelo seu toque, serei considerado minimalista ou pouco exigente? Conseguirei eu
vinte e quatro horas ininterruptas de superior comiseração egoísta, de consolo
permanente? Dependerá a minha felicidade de mim, apenas e só de mim, ou terão
os outros uma palavra a dizer? E o tempo, consideração meteorológica, o sol, a
chuva, o céu nebulado, o céu azul, serão eles apenas adereços prontos a ser
desfrutados, lápis de cores, serão eles capazes de provocar felicidade,
facilitar-lhe a vida? E o tempo, o outro tempo, que juntamente com o espaço nos
confere dimensão, referência, ancora, nos situa e nos faz situar, foi antes, é
agora, será depois ou nunca será, será esse tempo regenerador ou fator de erosão?
Conseguirá a felicidade resistir a tantas questões, será ela racional,
emocional, uma mistura em partes iguais ou uma formula secreta que se adapta e
multiplica?
Porque não deixá-la aparecer e desaparecer, chegar e partir
ao sabor de marés, limitarmo-nos marinheiros, aprender a navegá-la,
saborear-lhe as nuances, os bons e os
maus humores que lhe advêm da inconstância, do seu estado de constante
volatilidade, permanência intermitente, que salpica as nossas vidas de sal doce.
Já assisti à sua procura, homens e mulheres dispostos a tudo
nessa viagem alucinada. Vi homens e mulheres passarem-lhe ao lado por centímetros,
outros chocarem com ela e nem a verem. Vi homens e mulheres que se decidiram
pela sua construção e trabalharam todos os dias com ela ali ao lado,
ajudando-os, fazendo-lhes a massa com que se unem os seus tijolos, vi esses
homens e mulheres desesperarem por nunca ter a construção acabada, vi homens e
mulheres chorarem, porque depois de acabada a construção, sentiram medo, o medo
de a perder, o medo de ver a erosão destruir a sua obra. Vi homens e mulheres
sonhá-la, desenhá-la, pintá-la, esculpi-la com mil cuidados, todos eles com
medo de acordar. Vi homens e mulheres tentarem comprá-la, conquistá-la á força,
sem nunca saber quando parar, sem nunca saber se realmente a tinham atingido,
consumidos pela dúvida, esquecidos do que realmente queriam.
A felicidade é um conceito, comporta satisfação, êxito, contentamento,
gosto, prazer, alegria, exultação, júbilo, regozijo, consolação, contento,
bem-estar, deleite e muitos outros adjetivos.
Porque não aproveitar uma satisfação inesperada, um êxito ocasional,
um contentamento genuíno, um gosto aprendido, um prazer antecipado, uma alegria
ocasional, uma exultação esperada, um júbilo de conquista, um regozijo
merecido, uma consolação pelo esforço, um contento pela vida, um bem-estar
físico e natural, enfim, deleitarmo-nos com a vida, deixar sempre as portas
abertas para que a felicidade possa entrar, para que a tristeza possa sair.
Ontem, na televisão, ouvi filósofos, escritores, advogados e
outros pensadores. Ontem fiquei com uma certeza.
A felicidade não se escreve, não se diz, sente-se!
2015-05-09
Os segredos do Jorge
A noite tem segredos que não são dela, são nossos. Por vezes
assusta-nos revelando-os. Será talvez a escuridão que transforma a sua
pálida luz em brilho ofuscante, quase insuportável. Nessas ocasiões sentimo-nos
expostos, nus. Uma nudeza crua que nos revela o interior ensanguentado. Podemos
então chorar mas não é um choro de ocasião, é um carpir de fingimentos
acumulados, fragmentos de histórias passadas, histórias às quais não conseguimos
escrever um fim. São essas histórias que fazem a noite tão interessante, o sal
que tempera a sua voluptuosidade. Quem não se descobriu na noite? A manhã, pelo
contrário, é uma esponja de efeito anticéptico, absorve a nossa sujidade
interior e elimina-a deixando apenas restos de nós. A cara cheia de rugas, os
olhos inchados, a pele pálida e gordurosa, os músculos flácidos, os pulmões
ressequidos, a vergonha do que mostrámos sem querer.
O Jorge foi deixando de sair à noite. Já não suportava o
fingimento matinal, o voltar a ser o que não era, o que não queria ser. O Jorge
desistiu de todos os sonhos. A escrita morreu no casamento, a pintura no
primeiro filho, a música no segundo, quando todo o tempo de criar se acabou,
finado entre o trabalho na fábrica e o cansaço da alma. A noite assusta-o. Por
vezes, confrontado com convites irrecusáveis, cede a contragosto com a certeza
do arrependimento, também ele certo. O susto persegue-o sem que ninguém se
aperceba. Longe vão os tempos da recriminação. Não sabes beber, bateste outra
vez com o carro, não te lembras do que fizeste, a vergonha do desconhecimento,
versões múltiplas do seu medo.
Começava sempre da mesma maneira. A promessa de ser
diferente estava condenada ao fracasso. Eterno fracasso, antecipado, anunciado,
desde logo aceite como inevitável. O primeiro embate junto da mesa onde se
acumulavam os pratos e os copos. Os copos que voltariam a encontra-lo, noutras
mesas, balcões, superfícies planas que lhes permitissem a verticalidade. Os copos
que se encheriam de diversas bebidas, de diversas percentagens, 5%, 14%, 30%,
50%, percentagens que subiriam e desceriam ao sabor da oportunidade, da
companhia, da conversa, do desafio. No fim o mesmo medo, o vazio, a sensação
vertiginosa do abandono, sozinho ou acompanhado sempre o mesmo abandono, o seu abandono.
Hoje o Jorge saiu á noite. Não fez promessas. O Jorge que
desistiu dos sonhos escreve para si, toca para si, pinta para si e sente-se bem
consigo. Não lhe apetece sair mas a noite é especial. Alguém que parte, que se
despede, um companheiro de lutas, de desilusões. Perante estes termos seria de
esperar um receio incontido, um desnorte descontrolado. Mas o Jorge já não tem
ilusões. O Jorge morreu por dentro. No interior do seu corpo o sangue já não tem
a mesma cor. As histórias inacabadas tiveram o seu fim. Por esse motivo o Jorge
saiu descontraído, bebeu descontraído, despediu-se controladamente e foi-se
deitar sóbrio.
A noite deixou de ter segredos para o Jorge e as manhãs passaram a ser todas iguais.
Deus queira que o Jorge não se canse de si...
2015-04-29
A lareira permanece acesa...
Dez de Novembro de dois mil e catorze, dezassete horas e
dezanove minutos. Cheguei do trabalho. Entro em casa. A sala, fria e escura,
recebe-me de braços abertos, num aconchego gelado de coisa morta. Um ligeiro
cheiro a humidade paira no ar, lugar-comum para algo que se insinua, estado de
presença, existência, não se impondo, fazendo-se notar. Um grito de alerta para
o espaço imediato e para aquele logo a seguir, e isto significa ouvir-se em
toda a casa. MARIANAA! E enquanto o nome ecoa aprumo o ouvido e sintonizo-me
com os ruídos do silêncio, uma fração de segundos, uma fração que durou
segundos, que me desesperou o tempo suficiente para nem chegar a ser tempo, tão
ao de leve como a resposta, sim pai!
Já estás na cama? Estava com frio, uma pausa enquanto ajeita
os lençóis, acomoda o corpo para se debruçar num caderno manuscrito, estavas a
estudar? Vais ter algum teste? Sim, o último antes do Natal, de físico-química,
o último, o primeiro de muitos, vou lá abaixo acender o aquecedor, porque é que
não acendes antes a lareira.
Fui à casa de banho, depois fui à garagem e fumei um
cigarro, quanto tempo demorei? Não sei, uns míseros cinco minutos. Peguei em
três pequenos toros e numa caixa de acendalhas.
A lareira já está acesa, ouve-se uma guitarra e um baixo,
aplausos, obrigado! Dead Combo, Live at Teatro São Luiz, começando com sopa de
cavalo cansado, passando por quando a alma não é pequena, acabando num desabafo
ai que vida, e o ecrã à minha frente, o ícone do Word insinuando-se,
lembrando-me do atalho que criei vai para meses, numa tentativa frustrada de
criar hábitos de escrita, um teclar constante e consciente, produtivo e
independente de estados de humor, um exercício de construção com objetivo, um
projeto acabado.
A lareira permanece acesa, eu entretanto adormeci…
2015-04-25
EU SOU!
EU SOU!
Eu sou a raiva que não posso,
A tristeza que me permito,
O desencanto que me venderam,
Um carrossel sem fim.
Eu sou o combatente sem arma,
O soldado de trincheira,
A latrina mal lavada,
Uma espada de madeira.
Sou a pedra que não fere,
A palavra que não diz,
A história que não se escreve
Os restos deste País.
Eu sou a morte renegada,
Uma flor sem cheiro,
Sou um todo que não é nada,
Quando não tem companheiro.
Sou a tristeza fingida,
Sou a alma inventada,
Sou a grandeza despida,
De liberdade comprada.
Sou um filho de más noites,
E a cova dos futuros.
Em mim morre tudo o que é sonho
Por detrás de imensos muros.
Grito sempre a horas certas,
E luto a horas marcadas.
Eu sou a espera dos outros,
Reflexo de manadas.
Eu sou os primeiros minutos do
dia,
A confissão sem perdão.
Sou a vitória que adia
O destino da Nação.
Eu sou o que penso,
Quando me obrigam a pensar.
E de tudo o que me resta,
O que me falta chorar.
AH meu Vinte Cinco,
Meu cravo de florista,
Minha lembrança de livro,
Minha página de História!
O que serei eu amanhã,
Quando este dia passar?
(Após concerto de Sérgio Godinho em Vila Nova de Santo André 24 de Abril de 2015, que me sirva de lembrança...)
2014-05-31
Num dia de despedida o choro convulsivo é desnecessário
Num dia de despedida o choro convulsivo é desnecessário.
Pretende-se alguma espécie de sentimento, algo que revele emoções, o trejeito
facial, a tremura nas mãos, o incomodo na tensão femoral, uma ligeira gota de
suor que teime em formar-se a partir do interior, o rubor que nos aquece e nos deixa
incomodados. Sim, espera-se alguma coisa, mas o choro convulsivo é
desnecessário. Arruma-se a secretária, o armário, entrega-se a roupa usada,
faz-se o espólio de uma parte da vida, enchem-se sacos de memórias, de guerras
e de amores, amizades e desavenças, vitórias e derrotas e deixa-se aos outros a
obrigação da lembrança para nos manter vivos.
Não consigo chorar numa despedida. O líder que se despede, e
em pranto eu esqueço-me, alzheimer de duas décadas, como se ajudasse eu não
saber ler nem escrever, como se ajudasse ser uma pessoa melhor, não fazer aos
outros o que não gostava para mim, esses princípios morais, essas vitórias
morais que nos fazem de bem com os outros e de mal comigo. Sim Sérgio, que
força é essa?
Não nasci Cristo, só o álcool me faz chorar numa despedida,
só a ressaca me fará chorar porque chorei, a ressaca e a vergonha e o silêncio
calado porque nem silêncio pode ser, porque se for só silêncio incomoda. Nada como
um silêncio ruidoso, um silêncio de ruídos e de sorrisos embevecidos, de
lágrimas complacentes e autoflagelação gratuita. Que não me doam mais as chagas
que acumulei, hoje curei-as com o sal das minhas lágrimas. As minhas lágrimas
não têm cloreto de sódio, as minhas lágrimas são feitas de hidrogénio e de
oxigénio na devida proporção, dois para um, apenas e só dois para um, água pura,
desmineralizada, lavada de iões por resinas fantásticas. As minhas lágrimas são
vertidas de um esguicho, material de laboratório que eu muito prezo, um
esguicho de ponta fina, desses que faz as lágrimas bonitas, arredondadas à frente
e afuniladas na cauda e que deixam um bonito lastro aquoso.
São os bolos ou apenas a impressão que são bolos, o chamariz
para a mesa, a garrafa de Porto e os sumos, a Fanta e a Coca-Cola, o resistente
Sumol de ananás e gente, muita gente, todos numa oval evangélica. O ritual
repete-se conforme os anos passam, uns passam à disponibilidade, outros apenas
mudam de sítio. A rotina que se quebra porque falta um e porque só falta um a
rotina mantém-se e por isso é rotina. Mas quando falta um líder seriam
expectáveis rotinas novas, novos desafios, esperanças renovadas ou medos incontornáveis.
Deixo a rotina seguir os seus passos, a rotina que como um rio procura os novos
caminhos para desaguar num mar de rotinas e voltar à rotina. Não tenho boas
lembranças e faltam-me alguns anos para deixar de me lembrar. Ave-Líder, aqueles
que tu mataste te saúdam. No logro, na mentira e no despeito, em todas essas
virtudes profícuas, se revela a tua grandeza!
Sim, num dia de despedida o choro convulsivo é
desnecessário, e a raiva também. O que não é desnecessário é a reflexão. Passarão
dias até que volte a ler (se alguma vez o fizer) este texto magoado, passarão dias e
anos e talvez venha a chorar, porventura lágrimas legítimas, lágrimas de
sentimento sentido, sentido de sentir, de quem não receie o arrepio de gostar,
de relembrar com alegria tempos passados, os camaradas, os companheiros do dia-a-dia.
Um dia também esse poderá ser o meu dia, o dia do espólio, de arrumar bagagens
e viver outras rotinas.
No entanto hoje não é dia de chorar. Se lutar, talvez as
lágrimas se transformem em sangue, e da cor do sangue se pinte a paisagem do
nosso futuro.
Adeus companheiros de luta, companheiros da minha
trincheira, o meu choro é a luta diária, a assunção sincera da nossa fraternidade.
O meu adeus é seletivo, arbitrário, consonante comigo que sou imperfeito. Não
finjo mais do que posso e o que posso é muito pouco…
2014-05-27
Depois de Abril...Maio...E nada de novo!
Depois de Abril...Maio...Nada de novo...
Descartada a hipótese da participação no sufrágio resta-nos...O que nos resta?
Enfim, acredita-se que a "Troika" nos vai deixar em paz, menino bonito, lavou a cara, as mãos, os dentes, mais alguma coisa que aqui não vou mencionar, lavou-se de pecados impingidos...Agora que o menino está limpo pode-se falar de uma saída limpa.
Contam-se espingardas, no velho costume militar, procuram-se ânimos e desavenças, procuram-se vitórias nos escombros da democracia.
Sim, estou telegráfico, de memória telegráfica, todo eu telegrafia, palavras curtas e frases parcas, porque tudo é perca.
Falar assim para quem nos conhece é desnecessário, mas o silêncio também é desnecessário.
Dois meses que se revelaram fúteis...
Quarenta anos de democracia sem manual de instruções...
Lembram-se! O voto é uma arma!
Talvez ninguém se tenha lembrado de a carregar...
Possivelmente faltou imaginação...Ou munição...
Enfim, alguma coisa faltou!
Do que falta toda a gente sabe, a grande maioria sabe, todos os dias são dias de aprendizagem, o pai de reforma reduzida, a empresa que aproveita as novas leis, formula mágica para incentivar o capital estrangeiro, seja lá ele qual for...
Mas não faltam os aumentos, sim, tudo aumenta na mesma proporção em que diminui o teu fundo de maneio mensal...
Possivelmente nem pensas mensalmente, talvez o dia à dia te chegue...E sobre...
Poderíamos falar do que sobra...Mas está tudo tão...Limpo!
Ainda pensei que seria desmotivação, castigo, preguiça, tenho mais que fazer, não gosto de vocês, querem mais? Desemerdem-se!, revolta...
Pensei, e por tanto pensar fiquei na dúvida...
Se lá tivessem ido talvez a dúvida não fosse tão grande, "Branco" não é "Absentismo"!
O "Absentismo" é uma vitória?
Chamar-lhe-ia uma "Vitória preguiçosa", não custa mesmo nada!
E com isto explico a diferença...
Para me absentar só preciso estar registado, desde que não absente ao nascimento...Para votar preciso de mais qualquer coisa...O raio da caneta não escreve sozinha...ou escreve?
O cabrão do papel tem de entrar pela ranhura!!!!
Sim, William Turner, e o corpo subjugado à mão que nos atormenta, e Camões do monstro marítimo, e...
Telegráfico porque assim me sinto, sem necessidade de grandes explicações, no fim de contas toda a gente sabe do que falo...
O mar, a tempestade, a espera de uma bonança prometida, mesmo que comprometida, mesmo que...
Hoje, não sei quantos dias depois, os resultados são explicados, nos jornais, nas televisões, nas rádios, nos fóruns abstractos de tele-radio-comunicação rafeira...
Eu só telefonei para dizer...
Quero cumprimentar o vosso ilustre convidado...
Vinha agora a fazer a saída da marateca e...
Estou em casa...Talvez desempregado, mal empregado, reformado, estudante com dificuldades, com uma ressaca enorme e....
No meu dia de folga e...
E...
Tanto que eu preciso de dar opinião!!!!
Ouçam-me CARALHO!!!!!!
desculpem...Carago!
Do Norte, Sul e Centro, só se aproveita um terço!!???
Estou convicto que os outros dois terços estão a prepara-se para a batalha, a revolução que se aproxima, o acto que nos vai fazer "Nação Valente e Imortal"....
Não! É mentira! Não estou nada convicto!
Estou....
Embriagado....
Quem me dera que a minha embriaguez me fizesse falar assim...
Quem me dera que do meu sonho etílico saíssem tão viscerais reflexões..
O meu álcool de maus fígados queda-me pela valeta...O intelecto derrapa de forma vertiginosa pela raiva incontrolável do destino incerto....
Retiro o 25, o Abril, o Maio e todos os outros meses, volto à minha forma normal...Um pouco disto, um pouco daquilo, pouco mais que nada...E talvez vocês para ouvirem do meu desalento...
Prometo que amanhã nada se passará, tudo como dantes, música quanto basta, duas ou três larachas para entreter...
Eu até podia falar da Eurovisão, e do Ronaldo, e do Benfica...E do gajo que andou fugido, o "Palito"...Mas esse já foi apanhado...
Eu podia dizer que tenho quarenta e nove Anos feitos a onze de Março...E mesmo assim continuaria a não dizer nada...
Afinal quem sou eu?
Depois de Abril...Maio...E nada de novo!
Descartada a hipótese da participação no sufrágio resta-nos...O que nos resta?
Enfim, acredita-se que a "Troika" nos vai deixar em paz, menino bonito, lavou a cara, as mãos, os dentes, mais alguma coisa que aqui não vou mencionar, lavou-se de pecados impingidos...Agora que o menino está limpo pode-se falar de uma saída limpa.
Contam-se espingardas, no velho costume militar, procuram-se ânimos e desavenças, procuram-se vitórias nos escombros da democracia.
Sim, estou telegráfico, de memória telegráfica, todo eu telegrafia, palavras curtas e frases parcas, porque tudo é perca.
Falar assim para quem nos conhece é desnecessário, mas o silêncio também é desnecessário.
Dois meses que se revelaram fúteis...
Quarenta anos de democracia sem manual de instruções...
Lembram-se! O voto é uma arma!
Talvez ninguém se tenha lembrado de a carregar...
Possivelmente faltou imaginação...Ou munição...
Enfim, alguma coisa faltou!
Do que falta toda a gente sabe, a grande maioria sabe, todos os dias são dias de aprendizagem, o pai de reforma reduzida, a empresa que aproveita as novas leis, formula mágica para incentivar o capital estrangeiro, seja lá ele qual for...
Mas não faltam os aumentos, sim, tudo aumenta na mesma proporção em que diminui o teu fundo de maneio mensal...
Possivelmente nem pensas mensalmente, talvez o dia à dia te chegue...E sobre...
Poderíamos falar do que sobra...Mas está tudo tão...Limpo!
Ainda pensei que seria desmotivação, castigo, preguiça, tenho mais que fazer, não gosto de vocês, querem mais? Desemerdem-se!, revolta...
Pensei, e por tanto pensar fiquei na dúvida...
Se lá tivessem ido talvez a dúvida não fosse tão grande, "Branco" não é "Absentismo"!
O "Absentismo" é uma vitória?
Chamar-lhe-ia uma "Vitória preguiçosa", não custa mesmo nada!
E com isto explico a diferença...
Para me absentar só preciso estar registado, desde que não absente ao nascimento...Para votar preciso de mais qualquer coisa...O raio da caneta não escreve sozinha...ou escreve?
O cabrão do papel tem de entrar pela ranhura!!!!
Sim, William Turner, e o corpo subjugado à mão que nos atormenta, e Camões do monstro marítimo, e...
Telegráfico porque assim me sinto, sem necessidade de grandes explicações, no fim de contas toda a gente sabe do que falo...
O mar, a tempestade, a espera de uma bonança prometida, mesmo que comprometida, mesmo que...
Hoje, não sei quantos dias depois, os resultados são explicados, nos jornais, nas televisões, nas rádios, nos fóruns abstractos de tele-radio-comunicação rafeira...
Eu só telefonei para dizer...
Quero cumprimentar o vosso ilustre convidado...
Vinha agora a fazer a saída da marateca e...
Estou em casa...Talvez desempregado, mal empregado, reformado, estudante com dificuldades, com uma ressaca enorme e....
No meu dia de folga e...
E...
Tanto que eu preciso de dar opinião!!!!
Ouçam-me CARALHO!!!!!!
desculpem...Carago!
Do Norte, Sul e Centro, só se aproveita um terço!!???
Estou convicto que os outros dois terços estão a prepara-se para a batalha, a revolução que se aproxima, o acto que nos vai fazer "Nação Valente e Imortal"....
Não! É mentira! Não estou nada convicto!
Estou....
Embriagado....
Quem me dera que a minha embriaguez me fizesse falar assim...
Quem me dera que do meu sonho etílico saíssem tão viscerais reflexões..
O meu álcool de maus fígados queda-me pela valeta...O intelecto derrapa de forma vertiginosa pela raiva incontrolável do destino incerto....
Retiro o 25, o Abril, o Maio e todos os outros meses, volto à minha forma normal...Um pouco disto, um pouco daquilo, pouco mais que nada...E talvez vocês para ouvirem do meu desalento...
Prometo que amanhã nada se passará, tudo como dantes, música quanto basta, duas ou três larachas para entreter...
Eu até podia falar da Eurovisão, e do Ronaldo, e do Benfica...E do gajo que andou fugido, o "Palito"...Mas esse já foi apanhado...
Eu podia dizer que tenho quarenta e nove Anos feitos a onze de Março...E mesmo assim continuaria a não dizer nada...
Afinal quem sou eu?
Depois de Abril...Maio...E nada de novo!
2014-04-26
Abril #6 Assim comecei o texto que queria publicar, assim me detive para continuar um dia depois…
“Saltei da cama, literalmente,
impulso biomecânico, repleto de idealismos, sonhos revolucionários, abstrações
ouvidas em surdina nos cafés, os meus colegas estudantes, os meus companheiros
de labuta, lá na fábrica perto do rio. Vesti-me à pressa, com a urgência de um
acidente, com a urgência de uma doença grave, se lavei a cara, não me lembro,
assim como não me lembro do pequeno-almoço, ele que já de si sempre foi
pequeno, muito mais pequeno do que o dos donos da fábrica. Os militares estavam
na rua…”
(relato hipotético de um
trabalhador no dia 25 de Abril de 1974)
“Hoje tive a noção exata do que significa o dia da
liberdade, o dia 25 de Abril. Fui trabalhar cedo, entrada às oito, assim manda
o meu horário que não segue as lógicas das rotinas de calendário. Durante o
trajeto ouvi canções não censuradas, sim, ouvi o que bem me apeteceu, não
precisei preocupar-me com tendências políticas, conceções ideológicas ou castrações
moralistas….”
Assim comecei o texto que queria
publicar, assim me detive para continuar um dia depois…
…Um dia depois porque um dia
depois tudo adquire mais significado, limpo que fica de ruídos de fundo, de
histerias convulsivas dependentes de correntes de opinião, de paixões reais,
abstratas ou simplesmente fingidas. Ontem que foi 25 penso nele hoje dia 26,
hoje porque já não há festas nem programas rebuscados e de gosto duvidoso que
me apoquentem a alma. As reflexões sérias nunca se fazem no deslumbramento dos
sentidos, dos que querem chorar, celebrar, renegar, ou pura e simplesmente
desacreditar tudo aquilo que lhe devemos, ao 25 de Abril, evidentemente. Neste
dia depois posso pensar calmamente, posso lembrar-me de mim, de que a minha mãe
se fosse viva teria comemorado as bodas de ouro do casamento com o meu pai, sim
o 25 de Abril também é a minha vida pessoal, já existia antes da revolução, dai
que a data é apenas uma data e o que dela fica são sentimentos, a revolução que
começou nunca acabou, a revolução é uma constante. O que nos aconteceu com o
ano de 2008, o ano em que rebentou a bolha também foi uma revolução,
apercebemo-nos então que tínhamos estragado tudo. Destas e de outras revoluções
é feita uma nação e no seu conjunto a sociedade que se diz Ocidental. Por mais
que a renegue, a ela pertenço, feito que, toda a minha vida, a maneira do meu
viver, foram moldados na sua forma. Hoje, que penso no 25 de Abril, penso no
essencial, no que a revolução me deu, leio o que posso sem restrições, digo do
que sinto sem medo, não tenho medo de ir morrer em continentes distantes, em
guerras condenadas (e se o fizer é através de um ato voluntário, portanto livre),
falo livremente, sentado à mesa dos cafés ou noutro lado qualquer, sem olhar
para o lado, sem sentir o frio da denúncia, durmo em casa, num convencimento
profundo de que ninguém me irá arrancar da cama para me levar para um qualquer lúgubre
edifício em nome da defesa do estado, vergando a minha liberdade a um silêncio
profundo, se tiver de sair do país para trabalhar não o faço às escondidas,
posso voltar quando quiser e posso condenar por esse fato quem me apetecer,
posso votar em quem quero, posso afirmá-lo sem medo, posso carregar comigo
convicções políticas e dúvidas existenciais, posso ter medo por convicção e
refugiar-me nele como justificação para tantas incertezas, enfim, tenho
liberdade, no que escrevi e tenho por escrever está a essência do 25 de Abril.
No 25 de Abril também estão outras conceções, essencialmente ideológicas, de
natureza social como o são a justiça, a saúde e a educação. E do 25 de Abril a
justiça alargou-se ao povo, e eu posso invocar a justiça dos tribunais, e do 25
de Abril a saúde bafejou os desprotegidos, e o serviço nacional de saúde tratou
por igual ricos e pobres, e do 25 de Abril todas as crianças tiveram direito a
educação e chegaram a cursos superiores homens e mulheres que nunca o poderiam
ter sonhado. O que o 25 de Abril não nos deu foi, maus juízes e maus tribunais,
médicos e farmacêuticos corruptos, universidades fictícias de cursos suspeitos
e outros desmandes, isso foi uma dádiva nossa através das escolhas que
fizemos. Quem transformou os partidos do chamado arco da governação em casas de
prostituição moral fomos nós, que com a nossa arma, o nosso voto, lhes dissemos
que podiam continuar, cansados ou com medo da liberdade reduzimo-la a duas
escolhas e hoje queixamo-nos de não as ter. Eu hoje, um dia depois do 25 de
Abril não me queixo do 25 de Abril não me queixo das instituições democráticas,
nem dos partidos, eles são o mecanismo democrático, quem o faz funcionar são as
pessoas, o povo que elege e os eleitos, a esses sim, temos de pedir
responsabilidades ou pelo menos confrontá-los com elas. Dizia eu que a
revolução continua, agora num sentido inverso, agora que mal gerida a entregámos
a outros, queixemo-nos dessa gestão, aprendamos com os erros e façamos nós a
nossa revolução. O 25 de Abril deu-nos liberdade mas não nos tirou o medo e a
apatia, esses são nossos, adquirimo-los com o conforto do dia-a-dia, com o
sonho europeu vendido “á la carte” pelos seus fundadores, com as inovações
tecnológicas, com os maravilhosos gadgets que nos fazem tão iguais…
A revolução não se esgotou no 25
de Abril, tal como uma flor preciosa, é carente de cuidados, tem que ser
alimentada, com alma, com amor, com solidariedade, depende de nós não a
deixarmos morrer!
Hoje, um dia depois do 25 de
Abril, eu agradeço do fundo do meu coração a todos os que o tornaram possível,
a esses o meu respeito é eterno e profundo!!!!!!!!
2014-04-21
Abril #5 PRIMAVERA DE 2014 Sonetos de sangue, suor e lágrimas (mesmo que só a alma escorra estes fluídos)
I
Lágrimas suaves na chuva de abril
Nos rostos cinzentos o céu cinzento
Esperança lavrada no meu lamento
No mês dos cravos, das chuvas mil
O choro contido de Pátria ferida
Quarenta anos que cheiram a geração
Um povo perdido na fome e no perdão
Cantando entre dentes o resto da vida
De leve, o leve sabor das mensagens
Alguém que nos sabe e nos leva ao céu
Com o pouco que temos de outras paragens
O vermelho dos cravos que alguém nos deu
Dos capitães negados em listagens
Porque o rubor dos cravos faleceu
II
Não faz mal se gritei que não quero
Não faz mal se fugi arrependido,
Não faz mal se o que quis está perdido
Não faz mal se me encovei com esmero
Não faz mal o ensejo esbanjado
Não faz mal a babugem na boca
Não faz mal um povo na toca
Não faz mal o contracto quebrado
Mal faz, a cegueira consentida
Não ver, nem compor o erro
Não desejar outra saída
Mal faz, encarnar o desterro
Falar a verdade desmentida
Aprovar e consentir o enterro
III
Que de morta seja a linguagem
Eterna e anafada desventura
Maleita, porque perdura
Em quarto de enfermagem
Palavra torta e sem cor
Da morte só o que restar
Não preciso celebrar
Se não quero lembrar a dor
Que não me reste só este dia
Porque a contenda sucede
Mesmo sem a minha revelia
De cada dia o que procede
Na vergonha e na porfiria
A força de quem não cede
Paulo Guerreiro 2014/04/21
2014-04-05
Abril #4
Revolta
Revolta-me a sede não satisfeita
Revolta-me os vícios não cumpridos
Revolta-me a fome vista mas não
compreendida
Revolta-me…
A revolta tem dois sentidos
Um volta…outro revolta
A revolta tem dois amigos
Um volta…o outro não volta
A revolta apaixona quem se quer
apaixonar
A revolta tira e dá
Tira o que não pode
Dá o que não tem
A revolta sente-se por dentro
A revolta sente-se no centro
A revolta não é um processo lento
A revolta actua
É isso a revolta
(1995, em estado de…)
Abril #3
Tendo em conta
que a política colonial portuguesa não era do agrado da NATO e dos seus membros,
e que a Censura (Comissão de Exame Prévio) tinha como atividade o corte
(recorte) dos telegramas onde as agências estrangeiras davam notícias que
contrariavam a versão oficial sobre a situação nas ditas “províncias ultramarinas”,
talvez não se estranhe o artigo publicado em princípios de maio de 1974 na
revista espanhola “Gaceta Ilustrada”.
“Discretamente, ao amanhecer do dia 25 de
Abril, as unidades militares da NATO, chegadas no dia anterior ao porto de
Lisboa, deixam o Tejo com rumo ao Atlântico e regressam às suas bases. Trata-se
de navios, incluindo submarinos, de alguns dos onze países atlânticos que
deveriam tomar parte no grande exercício aeronaval “Dawn Patrol 74”, programado
para o dia 26, no Mediterrâneo e na costa atlântica, com operações submarinas,
de defesa aérea e de assalto de forças inimigas. Aviões ingleses e
norte-americanos, destacados para as manobras, encontram-se estacionados na
base do Montijo, a trinta quilómetros de Lisboa. Mas um pouco antes da Junta
derivada do golpe anunciar a mudança de regime, através da televisão, as
manobras atlânticas foram anuladas: os navios portugueses que estavam no alto
mar puderam assim voltar ao Tejo e ancorar pacificamente em frente a Lisboa.
Às quatro horas da tarde, o comando da Marinha estava em condições de proclamar
a sua adesão à Junta de Salvação Nacional.
Esta foi uma das muitas manobras secretas,
ocorridas nos bastidores, que acompanharam a queda do regime de Caetano. Nos
dez dias que precederam o golpe ocorreram outros factos determinantes que agora
estamos em condições de revelar. Estes factos provam que o Golpe de Estado
conseguira o seu objetivo antes da noite do 25 de Abril; do mesmo modo mostram
quais eram os apoios internacionais de que gozava o general Spínola.”
Este artigo
coloca em evidência o controle exercido pelas potências da NATO sobre a
situação nacional. De maneira nenhuma a revolução poderia resvalar num extremar
de posições, fossem elas de ultra direita ou de extrema-esquerda. De qualquer maneira
a revolução era bem-vinda pela ONU porque antevia a independência das
ex-colónias portuguesas, objetivo há muito ambicionado por esta organização.
Mas a revista espanhola continua:
“No plano internacional, o general Spínola volta
a reativar os contactos internacionais que já tinha solicitado, quando
conjuntamente com Caetano pensava em reformas.”
“Nos primeiros dias de Abril, os seus pontos
de contato nas capitais mais importantes do Ocidente obtêm as mesmas respostas.
Os financeiros: “Sim, seria bem-vinda uma solução política do problema colonial
português”; os políticos: “Sim, uma liberalização controlada do regime português
facilitaria a sua integração na Europa.”
“Em Roma, monsenhor Pereira Gomes, chefe da
ala liberal da igreja portuguesa, defende o plano de Spínola, perante o cardeal
Villot. Pereira recebe estímulo do Santo Padre, muito preocupado quanto à paz e bem-estar dos seus filhos africanos.
A tensão entre o Vaticano e Lisboa por causa das atrocidades de guerra em
Moçambique e da expulsão dos missionários deu os seus frutos.”
“Só resta o
problema da NATO. Spínola providencia para que entre em contacto com o próprio
secretário, Joseph Luns, um dos seus amigos das finanças, o diretor dos
estaleiros navais portugueses (LISNAVE), Thorsten Anderson, que em Megéve, na
frança, participa (de 19 a 21 de Abril), numa misteriosa reunião de homens
importantes da política, da diplomacia e do mundo de negócios internacionais,
verificada num igualmente misterioso clube: O Clube de Bildeberg.”
“De 19 a 21 de Abril, Mégeve é protegido pela
polícia francesa como se o visitante fosse um chefe de Estado. Com efeito, no
hotel Mont d’Arbois, propriedade de Edmundo Rothschild, reúnem-se a flor e a
nata da política e das finanças ocidentais. A reunião é discreta, à porta
fechada; os jornalistas não falarão dela; mas é ali que se decide a sorte do
mundo ocidental. Desde 1954, ia da primeira reunião no hotel Bildeberg, na
cidade holandesa de Oosterbeek, sob a presidência do príncipe Bernardo da
Holanda, os homens mais influentes do Ocidente reúnem-se uma vez por ano para
avaliar a situação política e estudar ou aprovar programas para o futuro.”
“Basta o número de participantes deste ano,
na reunião do clube, para se dar conta da sua importância. São os seguintes:
Nelson Rockefeller, governador do Estado de Nova York; Frederick Dant,
secretário norte-americano do comércio; o general Andrew Goodpaster, comandante
das forças aliadas na Europa; Denis Healey, ministro das Finanças britânico;
Joseph Luns, secretário-geral da NATO; Richard Foren, presidente na Europa da
General Electric; Helmut schimdt, ministro das finanças Oeste-alemão, hoje
chanceler, após a demissão de Willy Brandt; Franz Joseph Strauss, definido como
homem de negócios alemão; Joseph Abs, presidente do Deutsche Bank; Guido Carli,
governador do Banco de Itália; Giovanni Agnelli, presidente da Fiat; Eugenio
Cefis, presidente da Montedison. E, ainda, Thorsten Anderson, homem de negócios
português, que sondou Joseph Luns sobre as possíveis reacções da NATO face à
possível mudança de regime em Lisboa.”
“A resposta da NATO, certamente positiva, foi
confirmada pelo comportamento, já citado no início, dos navios da organização
ancorados em frente da capital portuguesa, nas primeiras horas do golpe de
Estado. A sua presença era um silencioso dissuasivo contra quaisquer, entre os
generais ultras, que intentassem opor resistência a Spínola. Os generais sabem
da presença daqueles navios e sabem interpretar bem a sua saída de lisboa ao
amanhecer do dia 25 de Abril. É claro que a NATO sabe quem são os autores do
golpe, que conhece o seu programa e que o aprova. A reunião do Clube de
Bildberg cumpriu o seu fim e Spínola, neste momento, tem a via livre.”
Não irei tão
longe quanto à importância da dita reunião, mas não duvido do incómodo que a
política externa portuguesa causava aos parceiros da NATO. A queda do regime
terá sido uma bênção, o perigo do regime ter resvalado para extremismos também
me pareceu um risco calculado (estivemos sempre vigiados), sujeito a
falhas, que acabou por ser bem sucedido, principalmente após o 25 de Novembro.
A revolução acabava e Portugal estava pronto para ser servido à mesa dos
grandes da Europa pelas mãos dos partidos democraticamente eleitos.
(Fontes: “Capitães
de Abril” Vol II, Alexandre Pais e Ribeiro da Silva)
2014-04-02
Abril #2
Levantava-me cedo ao domingo. Não era um domingo qualquer, aquele que merecia tal deferência. Nesse domingo a família estava junta e perspetivava-se
uma saída, uma saída de automóvel, o Ford Anglia lavado no sábado, ensaboado
com a minha ajuda, encerado com um produto especial, reluzia nas traseiras do rés-do-chão,
alinhado de frente para a janela da sala, sorria com a sua grelha cromada e
olhava-me nos olhos com faróis convidativos. O domingo de folga era um dia
especial, a folga de domingo só acontecia uma vez por mês, os turnos do meu pai
faziam-no ausente e aproximavam-me da minha mãe, mas não impediam a sede paternal
que me secava e me fazia contar os dias, religiosamente, assim como contava os
dias até ás férias, não as minhas, que eram grandes, as dele que me levavam
para terras do sul, para a casa da minha avó, para a praia deserta de São
Torpes, a minha praia de eleição.
Levantava-me cedo no domingo e seguia rápido para o quarto
dos meus pais, contendo a bexiga, ela que esperasse, tinha outras urgências,
era preciso acordar a casa, levá-los para a mesa da cozinha, exigir, num
choramingar fingido, o leite com chocolate, tenho tanta fome mãe, pai cortas-me
uma fatia de pão, falta a manteiga, hoje vamos aonde. Eu sabia o que queria
nesses domingos de 1973, os meus oito anos exigiam a volta do costume, a saída pelo
bairro do bosque em direção às portas de Benfica, aquelas torres que marcavam
território que diziam, a Amadora acaba aqui, agora estás em Lisboa, no dia
seguinte poderia dizer na escola, fui a Lisboa, e onde fostes, fui ao café dos
frangos, para os lados da igreja, os frangos que rodavam suculentos, lentos e
brilhantes de gordura na máquina junto à porta, três filas de animais mortos
que despertavam a minha gula, o cheiro que eu guardava na minha memória com
medo que se finasse.
Nesse ano de 73 comecei a reparar nas paredes dos prédios
mais escondidos que ficavam para os lados da Venda Nova. Deixavam de estar
imaculados de bolores e ostentavam palavras de alerta, pediam o fim da guerra
colonial, queriam que as nossas tropas regressassem, assinavam com foices e
martelos, falavam de liberdade, da falta dela e eu perguntava porquê, que
guerra era essa nas colónias, que eu só conhecia com o nome de províncias ultramarinas.
Nunca obtive uma reposta satisfatória, sabia que o meu tio por lá andava e que
também lá tinha casado, sabia que antes do Natal apareciam uns rostos na
televisão de corpo camuflado e sotaques portugueses, um feliz Natal e um
próspero Ano Novo, para a minha mãe, para o meu pai, para a minha namorada,
para a minha mulher e para os meus filhos, para a minha família, sou o soldado
António Ribeiro, o 1ºcabo Rafael Morais, o alferes João d’Almeida, os nomes
repetiam-se num cenário composto, com mata por detrás, um jeep, um helicóptero,
um carro blindado, os rostos à espera de vez, da sua vez.
Não sei bem aonde, a memória trai-me tantas vezes, mas
nesses trajetos para Benfica, ou por lá perto, havia um terreno vedado onde se
acumulavam viaturas destruídas, unimogues, jeeps, panhardes, eram estes os
nomes com que o meu pai os identificava, e eu fazia-me espécie o mau estado em
que eles se encontravam e queria saber porquê, porque estavam assim, destruídos
e abandonados, a resposta era vaga, a guerra, com quem, com os movimentos de
libertação, aonde, em africa, porquê, e a resposta tardava e eu já questionava,
e as pessoas que iam a conduzir eram soldados portugueses, sim, e morreram,
talvez, ficaram feridos, não sei, são aqueles homens que vemos no Natal, não
sei…talvez…
Nesse Natal de 1973, quando vieram as mensagens de Natal e
Ano Novo das tropas portuguesas, eu não as consegui ver…
2014-03-31
Abril #1 (Quarenta anos de ilusões)
“A presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, avançou com a
hipótese de mecenato como solução para custear algumas das iniciativas das
comemorações dos 40 anos do 25 de Abril. A notícia é avançada pela edição desta
quinta-feira (13 de Fevereiro) do jornal «Público», que cita fonte do gabinete
da própria Assunção Esteves.
Entre as iniciativas avançadas por Assunção Esteves para as comemorações do 25 de Abril, está uma exposição de chaimites junto à Assembleia da República, ornamentadas com cravos criados pela artista plástica Joana Vasconcelos. Seria, aliás, para esta iniciativa que se destinaria o mecenato. A exposição de chaimites é já uma segunda hipótese. A primeira seria uma cobertura para a fachada do edifício da Assembleia da República. Assunção Esteves recuou nesta hipótese, por concordar que teria custos muito elevados.
A escolha da artista já está a originar celeuma. Há quem a questione, por temer ser alvo de críticas por parte de outros criadores.
Assunção Esteves quer chegar a um consenso entre as bancadas sobre a forma de assinalar o 25 de Abril e foi entretanto criado um grupo de trabalho com deputados de todas as bancadas. Nuno Encarnação (PSD), João Rebelo (CDS), António Braga (PS), Miguel Tiago (PCP) e Pedro Filipe Soares (BE) reúnem esta quinta-feira com a presidente para discutir o assunto.”
Entre as iniciativas avançadas por Assunção Esteves para as comemorações do 25 de Abril, está uma exposição de chaimites junto à Assembleia da República, ornamentadas com cravos criados pela artista plástica Joana Vasconcelos. Seria, aliás, para esta iniciativa que se destinaria o mecenato. A exposição de chaimites é já uma segunda hipótese. A primeira seria uma cobertura para a fachada do edifício da Assembleia da República. Assunção Esteves recuou nesta hipótese, por concordar que teria custos muito elevados.
A escolha da artista já está a originar celeuma. Há quem a questione, por temer ser alvo de críticas por parte de outros criadores.
Assunção Esteves quer chegar a um consenso entre as bancadas sobre a forma de assinalar o 25 de Abril e foi entretanto criado um grupo de trabalho com deputados de todas as bancadas. Nuno Encarnação (PSD), João Rebelo (CDS), António Braga (PS), Miguel Tiago (PCP) e Pedro Filipe Soares (BE) reúnem esta quinta-feira com a presidente para discutir o assunto.”
http://www.tvi24.iol.pt/503/politica/25-de-abril-assuncao-esteves-comemoracoes-patrocinios-parlamento-tvi24/1537042-4072.html
Foi esta a
notícia que me levou a este projeto; “Financie você mesmo o seu 25 de Abril”,
“Seja o mecenas da sua revolução, o 25 de Abril é seu”, “Acorde para a vida e
mexa-se, se não for você a comemorar ninguém o vai fazer por si”, numa versão
hard core “Porra, se estás fodido junta-te á maralha e manda-os para o caralho!
Tens o abril todo por tua conta!”.
Como se percebe
o título é o que menos interessa, o importante é mesmo a intenção e esta
resume-se melhor quando se explica, embora pareça um contra censo. Por esta
altura estamos perto de recuperar a nossa liberdade, a “troika”, qual exercito
invasor (lembremos a convenção de Haia que obriga os ocupantes de um país a
alimentar a respetiva população), cansou-se de nós, pouco mais temos para dar
(os juros que iremos pagar e os que já pagámos tornaram-nos uma colónia, um
território dependente) e os frutos que ela (e os famosos mercados, e porque não
falar da ganância, afinal o que são os juros?) semeou, durarão vinte anos, na
melhor das hipóteses (hipóteses baseadas em premissas irrealistas, crescimentos
alucinados e défices que só se cumprirão sem saúde e sem educação, na prática,
sem estado social). Pelo caminho vamos a votos para o parlamento europeu,
aquela coisa lá longe de que toda a gente fala mas da qual ninguém sabe nada,
ou quase, de vez em quando lá nos apercebemos que são eles que fazem as regras.
Bom, com todas estas dificuldades nada mais natural do que comemorar de uma
forma económica, vulgo barata, o dia que nos trouxe a liberdade. Se a liberdade
custa dinheiro e esse nos falta, comemoremos então a liberdade perdida sem o
dito cujo. Comemoremos com imaginação, com protesto, com demagogia, com ironia,
com tudo o que nos vier à cabeça, desde que não custe dinheiro. A senhora
Assunção, presidente da Assembleia da República, numa boa vontade desmedida e
manifestamente preocupada com uma comemoração que lhe é cara e à qual ela deve
a reforma com pouco mais de quarenta anos, levando o seu lugar de presidente
como dever cívico, ainda quis arranjar financiamento, do género, “há para ai
algum saudoso do sonho revolucionário disposto a gastar uns trocos? É que até
fazia jeito!”, mas parece-me que essa não é a solução. A solução terá de ser
individual e das vontades individuais se chegará à vontade coletiva, com ou sem
dinheiro, porque ainda há vontades que não se pagam!
A minha
comemoração vai durar o mês de Abril. Vou comemorar o mês de Abril lendo o
antes, o durante e o depois de Abril, dessa leitura vou deixar marcas nesta
página social e no blogue onde escrevinho algumas palavras. Reflexões, textos
perdidos, poesia, tudo o que eu considerar interessante e comemorativo vai ser
ai vertido com a satisfação de quem cumpre uma promessa, uma missão, missão de
pouco impacto, eu sei, mas uma missão higiénica, que durante este mês, de vãs
promessas governativas, me vai levar numa viagem de memórias. Dizia um filósofo
de que eu não me lembro o nome (nem sequer se era filósofo), que a história é a
procura de padrões que nos ajudam a prever o futuro e porque não, a aceitá-lo
de uma forma mais ativa. Pessoalmente espero que este projeto me coloque em
perspetiva, que esta reflexão me faça ver outros rumos e uma esperança que
todos os dias é corrompida pela incoerência das perspetivas, estamos tão bem e
tão mal ao sabor das marés, das eleições, da conveniência para os mercados, da
hipocrisia (do Grego hypocrisia forma
poética de hypócrisis, desempenho de
um papel no teatro, dissimulação) de quem nos governa e de quem nos quer
governar.
Nota: este texto
foi escrito segundo o novo acordo ortográfico… por preguiça, porque estou farto
de lutar com o corretor ortográfico e porque se Almeida Garrett escreveu
“abhorreciam”, “systema” ou “desharmonia”, palavras que não aprendi, admito que
quem ler este texto daqui a cem anos também se irá espantar com a ortografia
aqui plasmada.
2014-03-09
XI (De o livro dos medos por Paulo Guerreiro)
XI
Cinza.
Ao longo da linha,
Cinza.
O trajecto cinzento,
O corpo pequeno
E a alma um pouco mais escura.
As ruas que deixam de ser,
Ruas,
E o passeio que nos abriga,
Cada pedra um amigo,
Cada amigo um desejo.
A idade da loucura foi-se,
Foi-se.
Eu fiquei mais velho,
Mais velho em tudo o que toco,
Mais velho tudo o que me toca.
Procuro o isqueiro e acendo,
A vela,
A luz que não é um interruptor,
Uma luz sem dor,
Sem electricidade.
A música também pode ser,
Isso,
Algo sem dor,
Não postiço.
Despi-me, da roupa,
De tudo.
Mesmo assim não estou nu,
Apenas cru,
Carne viva, ainda em sangue,
O resto que sobra,
Quando a vela se apaga.
Cinzentas as imagens,
Como se a cor só fosse isso,
Uma linha entre o preto e o,
Branco,
Como que o branco só,
Fosse cor,
E tudo o resto,
Amor!
Já não me deslumbro.
Tenho medo.
Tanto que eu queria,
Que tudo fosse mais cedo,
E amanhã outro,
Dia.
Cinza
Caiem-me nas mãos,
Os restos,
Da fogueira,
Do fogo quando nasci.
Alguém que me agarra,
Enfermeira,
Outras mãos de onde bebi.
Meu Deus!
Tudo tão cinza,
O rectângulo que também,
É
Prisão,
Portugal,
Nação.
Valha-me Deus!
O sonho cinza da cruz,
E Jesus,
E Eu.
E o Cristão,
E o Judeu,
E o Muçulmano,
Que Deus me deu,
Ou vendeu.
A Ásia de Budas distantes,
Confúcios vermelhos,
Bordados,
Toda uma seita que me justifica.
O mar ali tão perto,
E eu longe a afogar-me,
Numa terra escura e espessa,
Lama de lama,
Terna,
Mistura,
E eu à procura.
Cinza,
As minhas mãos estão cheias,
De cinza,
E eu cheio das minhas mãos,
Uma de cada lado,
Numa cadeira e eu sentado.
Sobre mim tudo cai,
O pano que não tem cor,
O céu despido,
O corpo velho com dor.
Cinza,
Porque tudo o resto é
Cinza.
2014-02-23
Tão Azul
O carro solavanca nos socalcos que o levam para junto do
mar, pequeno carro porque pequenas são as pessoas, dois homens, um com quarenta
e nove anos e outro com oitenta e quatro. Nada os fez grandes, pessoas que merecessem
menção, vivos porque vivos, vivem da vida o que ela dá e deixam dela com
acrescento, o pequeno resíduo que permite que ela se torne…maior…maior porque
sempre assim é quando passamos por ela, mesmo quando não temos consciência do
facto, e de factos está o mundo cheio. Com isto quero eu dizer que são duas pessoas
normais, nada de extraordinário os revela, a pequena viatura passa despercebida
junto à várzea, talvez não tanto pela pressa que dois automóveis de potência assumida,
que como tal também assume poder de compra, para tais utilizadores somos apenas
estorvilhos sem valor, objetos que facilmente deveriam ser recolhidos do
caminho, mas não fomos e por lá ficámos, obrigando os potentes automóveis a
demonstrar na prática o porquê de tão grande cilindrada, um pouco exagerada, é
certo, mas isso também faz parte dos acessórios.
O carro que solavanca a estrada velha para a lagoa,
solavanca-a de forma pachorrenta, quase que suave, dir-se-ia que comoda e
lenta. A conversa que os alegra também os separa, um jogo de palavras à muito
estabelecido, por muito que aconteça, pai e filho como dantes, como se pudesse
ser de outro modo. Eu não me lembro disso assim, estás enganado, pensa lá bem,
eu até falei disso depois e tu deste-me razão, razão é aquilo que não existe na
pequena viatura, o que a torna tão alegre, tão displicentemente alegre. E o
carro que solavanca rumo ao mar leva aqueles dois seres como se mais nada
existisse no mundo, o almoço já tomado o pequeno copo de vinho que também se
torna questão, não, aquilo não é só uva, claro que não é só uva, nada é só uva,
também é o químico, o anti oxidante que lhe permite o envelhecimento, e os
açucares não são da uva e a água e a fermentação de outras coisas e…e a
conversa passa para os pinheiros e para a doença que os ataca, que os está a
fazer desaparecer da nossa costa, o que irá segurar agora as areias, deviam ter
tomado medidas mais cedo, há mais de dez anos que sabiam do problema e nunca
fizeram nada, eles nunca fazem nada, fazem sim, o quê, sim, desta vez tens
razão, concordamos, sim mas…mas o quê, mas os pinheiros não deviam ser cortados
assim, assim como, assim, sem regras que nos fizesse perceber a lógica, como é
que sabemos que não estão cortando também pinheiros sãos, não sabemos, temos de
acreditar, estás a ver…estou…
O carro para suave junto à praia, ouvem-se os grãos de areia
pressionados pela borracha dos pneus, pneus sem marca que os ateste, nada que
um verdadeiro alemão aprovasse, quem sabe se feitos na Turquia por entre as
montanhas do Curdistão, trabalhassem eles na Alemanha e isso deixaria de ser
importante. Sabes que os verbos na língua alemã são fáceis de fixar, para mim
nada é fácil de fixar na língua alemã, o problema são as palavras compostas, os
conceitos que eles juntam numa só palavra, sim, não me estás a ouvir, estou e
também ao mar que hoje está tão bonito, tão azul, sim, tão azul…
2014-02-06
Do adeus e o adeus
“Do adeus e o adeus, não a ele, que sendo deus tudo percebe,
criador primário e inato e cuja existência omnipresente não permite tais
estados de alma, falo do adeus humano, defeituoso, repleto de cambiantes cromáticas,
texturais, sabores distintos entre o abandono e a aventura. Eu que já exerci o
acto, o gesto mudo, porque no meu caso foi mudo, percebi a separação, o
afastamento físico que não permite abraços dependentes, inconscientes da sua
dependência, tão certos de estarem sempre lá, até um dia, eu disse-o sem o
dizer. Não precisei de moradas nem de códigos postais, números que permitissem
contactos, contactos que permitissem uma presença que na realidade não existia.
O adeus foi silencioso, assim como foi silenciosa a decisão. Se foi pensada, foi,
foi pensada, maturada em noites cinzentas de invernosa insatisfação
intelectual, não a erudita, simplesmente aquela que nos faz pensar em caminhos
tortuosos, que coloca em funcionamento o intelecto ao serviço da sobrevivência,
que não sendo independente do saber não depende da sua quantidade para existir,
apenas porque tudo o resto é mais importante, e o resto não é o que resta mas
muitas vezes o que basta.
Do adeus e o adeus, a decisão que depois de o ser, de se
concretizar intelectualmente, necessitou da aplicação prática, obviamente o objetivo
final. Os dias aparentemente normais, porque normais de rotinas, indícios
externos que levantassem suspeitas, apresentaram-se como testes às certezas
teorizadas. O levantar cedo, porque o corpo se encontrava deitado, o levantar
de um corpo que tinha deixado de dormir, ou dormia porque isso o descansava, o
corpo que julgando dormir nunca o fazia, era um acto de constrição, apenas
tolerado porque havia a convicção de nele existir alguma utilidade. Falava eu
do levantar cedo, do corpo que se levantava sem se lembrar da alma que
transportava, uma espécie de doença degenerativa, sectarista o suficiente para permitir
apenas uma existência, uma realidade aparente, uma imagem que se mostra.
Do adeus e o adeus, o preparo sem restrições, mala feita sem
ser mala porque não havia mala, apenas o dia, a hora em que se parte e o adeus
se concretiza em acção física, que o verbo o seja depois é problema de somenos
importância, irrelevante perante a força do que acontece, o dia que se faz dia
porque a luz assim o permitiu, na sua incidência cíclica de outras dependências
físicas entre astros. O carro arranca, mas podia não ser um carro, mas foi um
carro, um carro experiente muito embora inexperiente neste tipo de viagens em
que se vai e não se volta. O adeus não foi dito, nem tão pouco gritado, não
houve abraços nem lágrimas nem jantares de despedida nem uma palavra que
prometesse porto seguro se algo corresse mal. Foi simplesmente um adeus.
Do adeus e o adeus fiquei com a convicção da sua
fragilidade, demasiado perto para ser uma separação, demorou a sê-lo
efectivamente, um ano mais precisamente, um ano de retrocessos semanais, de
dúvidas sobre a sua verdadeira finalidade, de laços que julgava frágeis mas que
eram a minha vida. Percebi então, numa noite alcoólica mas de uma lucidez
extraordinária, o que precisava fazer. A conversa saturava o ar de vapores
etílicos e a confissão saiu mórbida, quase chorosa. A resposta foi seca, se
tomaste a decisão vai! Olhei-o e percebi enfim o que tinha de fazer. Nunca lho
disse, a noite foi longa, muito longa, talvez até o sol quase nascer, não me
lembro do resto, lembro-me de pensar que o adeus não tem número, nem morada
para onde escrever.
Do adeus e o adeus percebi que pode não ser para sempre, que
pode haver reencontros porque a nossa vida são vidas, são todas aquelas que nós
permitirmos que sejam. Não existem obrigações contractuais, mas apenas
decisões, compromissos pessoais e que por isso mesmo não devem ser quebrados
até que se concretizem.
Do adeus e o adeus personifiquei-os e dei-lhes o meu
significado. Dessa experiência apenas posso teorizar o que dela retirei. Cada
adeus é um adeus, cada experiência é uma experiência…
2013-07-21
10 de Junho, o dia de Portugal que ninguém viu
A plateia aguardava ansiosa pela chegada dos carros topo de
gama que traziam os altos responsáveis da nação. Muitos dos que se deslocaram a
Évora traziam esperanças, esperanças de poder apupar, gritar, esbracejar,
mostrar indignação e desespero a todos aqueles responsáveis políticos, pessoas
sérias e intocáveis. Ao longe ouviram-se sirenes, prelúdio do cortejo esperado,
sirenes de pressa que mandam afastar, afastem-se que eu mando e vocês só
atrapalham. As sirenes aproximaram-se espalhando ao desbarato decibéis
insensíveis, arredando da frente vozes incomodas, pedindo bandeiras no ar, viva
Portugal, vivam os mortos e os Impérios e os Impérios que nem chegaram a
nascer, viva eu que aqui venho e estou aqui para vos ajudar, com a minha
presença, a minha compreensão, a minha explicação fácil de avó paciente que vos
entende desde que estejam calados. A plateia aguarda ansiosa que o chefe de
estado saia do automóvel negro, negro das nuvens que pairam sobre Portugal,
negro das expectativas que nos são permitidas, negro das olheiras de quem não
dorme, negro das marcas na pele que ficam no interior das casas quando o
dinheiro falta. A porta abre-se num abrir solícito de empregado de hotel de
luxo, reverência devida a tão alto cargo, o corpo dobra-se e desdobra-se como
um boneco teimoso que teima em ficar hirto numa posição que se pretende recta, demonstração
de inflexibilidade, da força perante o caos, da razão perante o desnorte, o
actor que representa um papel, que se desfaz numa credibilidade ilusória
perante uma plateia ansiosamente apática dividida entre a revolta e a veneração
que nos é característica. Os passos são perfeitos, milimétricos, em direcção à
tribuna aparentemente obediente de altos dignitários, dirigentes políticos,
militares graduados, homens de obediência institucional, amarrados de cargos
com fardas que reflectem o grau de silêncio. Do público nascem rumores que os
homens da segurança tentam descortinar. Homens da segurança, de segurança
sectária, dirigem-se dissimulados para junto das palavras que incomodam
preparados para intervir, servir de colete protector a frases contundentes.
Ouvem-se apupos, um mal-estar de hospital, quando uma operação falha, quando o
médico está presente e falha nas respostas. O presidente mostra-se indisposto, transparecem
rugas de irritação, como disfarçar esta insatisfação perante um homem eleito, o
homem de todos os portugueses, isto é uma democracia porra, a porra algarvia
não saiu, assim como não saiu tudo o resto pois a minha imaginação ficou-se
pela imagem ofendida do alto dignitário. Entretanto os militares perfilados, de
armas descarregadas nas mãos, pensavam nas namoradas para evitar pensar nos
ordenados. As botas engraxadas, o orgulho engraxado nas derrotas coloniais que
eles não conheceram, reféns da Bósnia, do Afeganistão, de todas as missões
humanitárias com mandatos internacionais, pactos, alianças, que não chegam para
pagar a renda de casa nem para livrar o país da miséria. E neste dia da Nação a
que alguns chamam da raça sem especificar qual não vá descobrirmos mais do que
aquelas que seriam convenientes a mentes tão puras, o presidente fala da
agricultura, das cebolas, das cenouras, das alfaces, esquecendo propositadamente
os nabos. Fala de como as coisas crescem bem nesta terra abençoada por
nutrientes divinos, provavelmente parentes directos dos nutrientes que fazem
crescer os jardins do paraíso, de garantia assegurada por alguma nossa senhora
disponível para ouvir da nossa fé. Da plateia continuam a ouvir-se palavras
pouco simpáticas, dirão mais tarde que ofensivas à dignidade e que justificaram
uma intervenção musculada com prisões e identificações para posterior caução judicial. Perante tal devaneio o discurso vira-se para o mar e o mar tão longe
de Évora tão longe de nós que arrasamos a frota pesqueira, os estaleiros, os…enfim
sempre podemos fazer surf, exportar as ondas em pequenos bilhetes-postais que
já não se vendem e colocar uma população inteira a servir de guia a jovens
aprendizes e profissionais bronzeados dos países ricos. Mas o discurso não acalma
as hostes discordantes que se envolvem num confronto físico com as autoridades
e com apoiantes incondicionais do nosso Chefe de Estado. Perante a violência
dos confrontos gera-se o pânico fazendo com que se percam crianças, caiam
idosos, desmaiem senhoras de bem, entrem em trabalho de parto mães que irão
poupar em despesas de hospital mas talvez não em agências funerárias; e eu
vejo-me no meio de tudo aquilo tentando chegar ao Sr. Silva, gritando-lhe a
culpa que ele esqueceu, levando bordoadas da polícia, sentindo o sangue
escorrer-me pela boca, pelo nariz, o corpo amortecido da dor, o corpo que
abandono quando o vejo preso pela segurança presidencial, farrapo enxovalhado
no chão; de corpo abandonado persigo aquele homem tão íntegro tão recto,
persigo-o como um fantasma e quando finalmente o vejo, olhos nos olhos, os
meus vermelhos de raiva, os dele brancos de desprezo anacrónico, acordei…Tudo
não passou de um pesadelo. Ninguém tem culpa do que sonha nem tão pouco queria
sonhar coisa mais degradante. Ainda bem que nada disto aconteceu, tudo está
calmo e à data que escrevo isto esperamos ansiosamente que o responsável máximo
da nação tome uma decisão. Esta será anunciada à noite pelas 20H30m. É bom saber
que ainda alguém vela por nós e com o beneplácito da Nossa Senhora…Amém!
2013-07-19
As Férias e a Leitura
Sinto-me cansado, olhos doridos de longas horas, debruçados em ecrãs, papéis que requerem atenção, números que de tanto se apresentarem chegam a não ser reconhecidos; e eu prometo-lhes descanso, poucos jornais, mingua de televisão, telemóvel em modo de emergência, prometo-lhes sol, água salgada, vistas despreocupadas, prometo-lhes o que não posso cumprir. Assim que chega a altura de partir, fazer as malas, escolher camisolas e roupas informais (não faria sentido levar a bata ou o fato-macaco) a minha preocupação é centralizada, que livros levar para ler? Todos os anos recupero os hábitos de leitura nas férias; todos os anos eu sei que esses hábitos irão perdurar durante alguns meses de esforço metódico em que a disciplina tenta sobrepor-se ao cansaço de olhos martirizados por esforços tardios em horas pouco recomendáveis. Enquanto escolho a literatura adequada para um repouso, que inclui também a minha sanidade mental, recordo-me de todos aqueles livros que prometi ler ou que comecei e não consegui acabar e invariavelmente opto por não os levar. Este ano não foi excepção. A escolha foi aleatória e recaiu numa sugestão da revista Ípsilon suplemento do Público que costumo ler para manter contacto com tendências culturais, sejam elas livros, CD´s, filmes ou qualquer outra actividade que eu possa aproveitar. “Lionel Asbo” é um livro corrosivo de um humor que tanto faz chorar como rir (o seu autor é Martin Amis). Sendo o autor Inglês era isso que se esperava do humor. Ri-me do óbvio e estava escrito e do que ele me fez pensar sendo certo que até de mim me ri apanhado nas armadilhas do autor. Ri-me da minha excitação em saber se o miúdo de quinze anos que confessa no começo do livro numa carta dirigida a uma conselheira sentimental/sexual de um tablóide Inglês “Querida Jennavieve, ando a ter um caso com uma mulher mais velha. Ela é uma senhora de alguma sofisticação e constitui uma refrescante mudança em relação às adolescentes que eu conheço (como a Alektra por exemplo, ou a Chanel). O sexo é fantástico, e penso que estou apaixonado. Mas há uma complicação muito séria e é esta: ela é a minha Avó!” é apanhado pelo tio que cuida dele (Lionel Asbo), rufia de subúrbio, para quem a mãe precisa de protecção pelos seus excessos sexuais e que não teve problemas em fazer desaparecer (vendeu-o ou matou-o? Tanto faz)um colega de escola do seu sobrinho quando descobriu que também ele lá ia a casa. A história do livro desenrola-se tendo sempre como questão subliminar a traição do sobrinho ao tio o que nos faz pensar sobre as moralidades suburbanas. Poderia dizer que o tio tem pouco mais de vinte anos e a avozinha quarenta e cinco, que Lionel está quase sempre preso como “revendedor” de material roubado ou devido a inúmeras cenas de pancadaria que ele leva como estimulo de vida (uma espécie de ida ao psicólogo), que tem mais seis irmãos, a falecida mãe de Des (o seu sobrinho protegido) e cinco irmãos (com os nomes dos Beatles, incluindo o que não se tornou famoso), que ganhou a lotaria no valor de cento e quarenta milhões de libras o que faz rodar a nossa atenção para sociedade inglesa materialista e de valores duvidosos. Enfim o livro é uma delícia. Acabei-o de um trago e entreguei-me à tarefa sempre difícil de ler Lobo Antunes, “Sôbolos rios que vão”, livro comprado antes de abalar num ímpeto compulsivo perante um autor velho conhecido e que me faz as vezes de uma ida ao psicólogo (ele há-de perdoar-me pois sou um leitor assiduo de muitas das suas obras) . Sabia ao que ia e precisava deste tratamento para me confirmar curado. Foi também sobre um rio que a minha mãe abalou, também de cancro no cólon. Mudam as memórias, delicias narrativas que nos fazem reviver toda a vida de um homem nos seus últimos dias, sangue encharcado em morfina querendo sentir dor para se sentir vivo, de olhos postos no “pingo no sapato” médico que lhe prescrevia a medicação, a dose de anestesiante, o caudal de soro, as ordens para os enfermeiros. O livro dura de 21 de Março a 4 de Abril e eu sei que é verdade, que as pessoas se apagam num fósforo, eu sei que sim. Ainda deu para começar a reler “Os Maias” do Eça, os tão odiados “Maias” da minha juventude escolar que descubro agora com outros olhos através de uma edição especial e comemorativa do semanário Expresso. Comemorativa do semanário (faz quarenta anos) e da primeira edição da obra (125 anos). Deixo-vos com este pequeno excerto, quem sabe a propósito de tão dúbias e poderosas alianças ultramarinas (ainda à pouco nos mandaram fechar fronteiras a um presidente): “Era como uma tela marinha, encaixilhada em cantarias brancas, suspensa em céu azul em face do terraço, mostrando, nas variedades infinitas de cor e luz, os episódios fugitivos duma pacata via de rio: às vezes uma vela de barco da Trafaria fugindo airosamente à bolina: outras vezes uma galera toda em pano, entrando num favor de aragem, vagarosa, no vermelho da tarde; ou então a melancolia de um grande paquete, descendo, fechado e preparado para a vaga, entrevisto um momento, desaparecendo logo, como já devorado pelo mar incerto; ou ainda durante os dias, no pó de oiro das sestas silenciosas, o vulto negro de um couraçado inglês…”.
Que o fim das férias não me traga o fim da leitura pois esta faz-me tão bem…
Que o fim das férias não me traga o fim da leitura pois esta faz-me tão bem…
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