2006-10-19
SE SAIR PARA A RUA NÃO BEBA!
Joel hoje não sai. Acabou o curso há um ano e está desempregado. Tem poucos vícios, um deles é o haxe. No quarto, de janela aberta, fuma “um” enquanto o som da aparelhagem passa Red Hot, um dos primeiros álbuns…E porque não o nome da música…”True Men Don’t Kill Coyotes”.
José fecha o jornal e decide ir até à sala. Senta-se ao pé da mulher, rotina que nunca abandonou. Na televisão uma telenovela de um qualquer canal, um homem dirige-se a um pequeno bar de sala e enche um copo com uma substância ambígua cor de tisana. A personagem masculina fala com uma mulher que decide também encher um copo. Ambos bebem da idêntica mistela. José pensa! Estão sempre a beber…Tanto que eles bebem…E dá-lhe sede…Levanta-se e vai encher um copo…Pelo menos isto eu sei o que é. Noutra sala, noutra cena, vários personagens numa festa, bebem! Raio de telenovela…
Maria está quase a dormir mas permanece atenta ao som, às vozes que saem da televisão, às vidas fingidas que lhe trazem as emoções que a sua não tem. Percebe a angustia da separação que decorre no ecrã e torce por ela, pela liberdade que ela está prestes a adquirir. Apercebe-se da tensão dramática quase sem ver.
Joel acabou de fumar e continua a ouvir música, Primus, “Frizzle Fry”. Está sentado defronte a uma consola de jogos e manobra uma personagem especialmente agressiva, mistura em partes iguais de detective e carrasco. O jogo corre-lhe bem e o animal percorre as salas de um prédio abatendo tudo o que lhe aparece à frente, sai por uma vitrina fazendo voar mil estilhaços e entra num carro fugindo a alta velocidade.
Após quatro digestivos José sente-se confortável e olha para Maria que está de olhos fechados, percebe pela respiração que ela ainda não está a dormir.
O assassino continua a matar no vídeo game.
A nova lei impede a circulação na via pública aos indivíduos que tenham consumido substâncias susceptíveis de provocar alterações do comportamento.
Ainda pensou em comprar uma pequena quinta no campo…Mas não tinha dinheiro e ainda lhe faltam muitos anos de trabalho.
A explosão é repentina, ficou-se mais tarde a saber que foi provocada por uma fuga de gás. Apenas o Joel sobreviveu. O seguro recusou-se a pagar devido a uma cláusula que impedia o consumo de substâncias capazes de provocar incapacidade de manutenção do bem segurado….Na carta de resposta vinha a lista dessas substâncias…
P.S. É tão fácil perder direitos numa democracia…Basta que os argumentos venham revestidos das melhores intenções…Com os melhores pretextos vamos cedendo…estamos numa de aborto…E do preço da electricidade…E…Um abraço…
2006-10-15
Fátima... E as pessoas

Não foi a fé que me moveu mas sim a amizade. A amizade por alguém que nos acompanhou a Cuba com uma gravidez de sete meses. Correu tubo bem e eu desconheci a promessa até que há dois meses me foi revelada. "Paulo! A Lénia prometeu, mas queria que fossemos todos.", todos significava os que tinham estado em Cuba, em Outubro do ano passado...Entre furacões.
Eramos sete...Fomos oito...Entretanto a Rita nasceu. Óptimo fim de semana, entre peregrinos e pessoal em descanso. Revi Fátima, Batalha, Alcobaça, Nazaré e Caldas da Rainha, pelo meio ficaram um sem número de pequenas terras que o nosso povo teima em habitar.
Tirei algumas fotos e reparei que em Fátima só as pessoas tinham sido o alvo da minha objectiva. A esses modelos anónimos e involuntários eu agradeço e peço desculpa pela ousadia.



A todos voçês uma boa semana...E o meu olhar sobre as pessoas, em Fátima.
P.S. A última fotografia está cá porque eu não resisti...
2006-10-12
O Castelo

Estranha pedra preciosa,
Nasces para brilhar,
A sede fez-te vir para lugares escuros,
Lugares onde a luz é regateada,
Vendida no mercado negro das trevas
Vésperas de sábado. O dia promete ser brando, não mostra o sol mas não esconde a luz. Nas ruas o movimento é calmo, fluxo preguiçoso e disperso.
Aproxima-se da janela, deixa-se estar, protegido pelas cortinas que permitem a passagem difusa da rotina lá fora. Ao de leve, com dois dedos, afasta-a o suficiente para mostrar um dos olhos, o esquerdo. É essa visão nítida que o convida a sair. Convencido o espírito o corpo obedece, lava-se, alimenta-se, apruma-se e sai. Leva consigo o espírito que decidiu.
O terreno está livre.
Espera pelo ardor da batalha.
Não se vêem exércitos…
Apenas o silêncio.
O Outono deixou a sua marca, a brisa marítima que atravessa a planície e chega à serra vem saturada, água que se prende ao rosto, à roupa, mas que a temperatura não deixa ser desagradável. Caminha pelo empedrado que preenche a parte velha da cidade. Sobe a rua do Algarve, atravessa o Largo Alexandre Herculano e vira à esquerda pela estrada que circunda o castelo num trajecto de três quartos de lua…Três quartos de paisagem que quase chegam a Tróia…
No castelo moram os meus familiares.
Mortos de outras batalhas,
Feridos de outras guerras.
Jazem, juntos, aos pares.
Vai parando entre campas, entre muros, entre saudades eternas. No recatado sossego destas pedras centenárias apenas aquela mulher de preto desconvoca o silêncio, agrada-lhe ouvir-se gemer. Já a conhece, trocam olhares cúmplices de desgosto, hoje não haverá conversa. Junto à lápide conversa com a mãe, conta-lhe da semana e da nova namorada que ela havia de gostar de conhecer. Dá um beijo ao pai e outro ao irmão mais velho. Do que foi a tragédia lembra o acaso que o deixou vivo. Uma lágrima para a tristeza, outra para a saudade e outra pela felicidade de ter sobrevivido.
Caminho ao largo,
e o som vem dos bosques,
e a erva grisalha do Verão,
manchada de sangue amargo,
relembra-me as vozes na rádio,
a notícia fresca de morte,
algo que não pode ser pago.
Que belo dia…Feriado…Vou telefonar à minha Joana!
P.S. A história não é verdadeira, mas o castelo é…E tem lá dentro o cemitério com as gentes da terra. (Santiago do Cacém)
2006-10-07
Romançe Poético
Do tamanho das estações a chuva chega,
Amarela-se o ar que nos envolve.
Ocre melancolia.
Na manhã que não dormia tudo é húmido.
A cidade transpira,
Condensa nos seus poros as vidas que nela respiram.
Ruas atrás de ruas.
No meio das rectas os pontos de referência,
As margens dos caminhos,
As direcções memorizadas.
O largo abre-se em recantos familiares.
No café a manhã é deserta,
Como quem faz o pequeno-almoço a um filho.
Ontem o filho não dormiu em casa.
O pai que o espera não é seu pai…
E não sabem…A mãe sabe mas não diz.
Depois as pessoas
As cãs marcam-lhe a idade.
O corpo que foi ágil desiste nos embates confortáveis.
A mulher não é a mesma,
Nunca foi a mesma.
Já não o procura,
Mas também não procura os outros…
…Os cheiros que ela trazia…
Tudo por amor,
Um destino sem dor,
Pelo calor nos lençóis…
…Não dorme sozinho…
Feita de traços perfeitos,
Legou-os no ventre ao seu filho.
Mãe adolescente, mãe carente,
Mãe de sonhos desfeitos.
Filho de mãe conhecida,
Conheceu no pai aquele homem.
Ó mãe porquê?...Tantos homens…
Ó pai porquê?...Tu és mãe…
Interlúdio sentimental
Aquele que lhe chamava pai já não existe.
Rendeu-se à distância, à vergonha.
Sim…Sou eu o pai,
Mas ele não quer que se saiba.
Por fim os factos
O assalto correu mal.
Duas balas prostraram-no no chão.
A ambulância demorou uma hora,
O médico legista, três.
O telefone tocava,
Os sedantes, amorteciam.
A voz do outro lado espera.
A mulher dormente não ouve.
Foi o homem que saiu a correr…
…Veio da cozinha…
Foi o homem que levantou o auscultador…
…Tremendo-lhe o gesto…
Foi ele que primeiro chorou,
Para dentro,
De dentro,
Sem sair.
Saíram atrasando os movimentos,
Num vagar de quem não quer…chegar…
Não havia urgência,
Nem urgência teria de haver.
Quem vai identificar um corpo,
Tão depressa não vai esquecer.
Na corrente sanguínea,
Morre o sedativo,
E a mulher que não sentia, sentiu,
E sofreu,
Pelo filho a quem escondeu…O pai!
Conclusão
Foi a morte,
O desgosto,
A sorte,
O destino,
A sensação de solidão,
O acaso genético,
O impulso eléctrico
O dedo feminino de Deus,
O que a fez finalmente,
Amar aquele homem?
Homem que sem ser pai se fez Pai,
De um filho que fez Filho,
E que chorou como se fosse dele.
P.S. Um Poema urbano...De amor! Bom fim de semana e até daqui a uma pausa...
2006-10-05
Anónimo
Se atado a uma cadeira,
Alucinando num quarto
Me alugo e me vendo,
A culpa de que me acuse,
A qual sempre julguei minha
Não é mais do que a ressaca,
A secura da manhã
O mau estar constante de quem nunca descansa….
Se amordaçado a um qualquer deus
Nunca me ouviste gritar,
Se vendido te denuncio,
É do pesadelo que falo,
Do inferno e do fogo.
Se privado da palavra
Me fechei em grades,
Se danado com falsas verdades
Matei e não chorei,
Então tudo valeu a pena….
2006-10-01
Noites
Leves os rosas nas maçãs do rosto, o adivinhar do sangue por debaixo da pele branca, o toque trémulo dos dedos sentindo o relevo. Os efeitos da luz matinal projectam-se na parede desafiando as cortinas, brincando com elas…Os corpos ainda se encontram juntos, membros baralhados, dispersos nas sombras. Dormem, adivinha-se o respirar, breves sopros de vida…
Conheceram-se ontem. Souberam o nome para se poderem chamar, confirmaram as músicas que estavam a ouvir e falaram. Confessaram tudo o que o álcool quis e dançaram. Nunca a pista e a multidão os conseguiu separar. Agarrando-se com os olhos largaram-se na frenética corrente misturando suores e contactos.
Ela foi com três amigas. Não levou carro. Tinham jantado num restaurante Italiano, daqueles com bandeiras e alusões despropositadas. Beberam vinho tinto e disseram mal de toda a gente…Bem, não disseram só mal, também fizeram alguns julgamentos. Ela não leva aquela regateirice muito a sério, é só para descomprimir. Ainda foram a um bar, foi ai que se libertou…
Todas as semanas espera por estes dois dias, melhor dizendo, duas noites. São cinco dias a trabalhar e dois para rebentar. Já não é muito novo, por isso adquiriu algumas rotinas de conservação. Só o Daniel sabe desse facto, amigo desde sempre para ele não há segredos. Vai com quem calha, já não são muitos os resistentes….Nem sempre leva carro. Hoje levou, arranjaram-lhe algo branco não precisa beber…Talvez…
De manhã nenhuma memória que leve ao afecto os mantém abraçados, apenas o acaso dos corpos procurando conforto, calor. Nenhum sinal de preservativo, confiança total no acaso.
É ela quem acorda primeiro, estranha o contacto, estranha a boca seca, a garganta colada, mas não se mexe. O corpo cansado recusa movimentos, o relaxamento é total, menos a cabeça. Espera um bocado, não sabe quanto, até a bexiga a obrigar a levantar-se. Não está em casa…É a casa da Luísa. Onde estará a Luísa? Tropeça nas roupas espalhadas pelo chão, entra na casa de banho, senta-se na sanita e fecha os olhos…Sente-se adormecer.
Ele também já está acordado e olha aliviado para um soutien. Leva a mão ao sexo fazendo-a descer lentamente até aos testículos, acto reflexo, como se o mundo todo estivesse ali e agarrá-lo o segurasse eternamente…”Esqueci-me!”
Nunca se tinha preocupado com questões de segurança até ao dia em que acordou com um homem. Desde então, em dias de maior desatino, a primeira coisa que faz ao acordar é confirmar a companhia. Começou a usar preservativo para proteger as amantes. Em relação a ele preferiu não saber, cruz que carrega com dificuldade. Faltou-lhe a coragem para ir fazer o teste, chegou a estar à porta do Hospital mas não entrou.
Ela nunca percebeu porque fugiu aquele homem. Saiu da casa de banho ainda a tempo de ver a porta fechar-se…Não teve reacção…”Será que não aprendo…”.
À noite telefonou à mãe. Não lhe contou nada sobre o assunto mas foi como se tivesse sido purificada…Efeito materno da origem.
Foi deitar-se mais descansada prometendo a si própria que iria ao médico.
P.S. A hora tardia faz-me mal e leva-me por essas noites…
2006-09-29
Gaivotas

Podia dizer que foi inspiração ou qualquer outra fonte de energia, mas estaria a mentir. Foi apenas mais um dia. Levantei-me cedo e fui ver o mar...Sabia que ia estar fechado nas próximas doze horas e decidi aproveitar. Porto Covo está deserto, voltou à pacatez dos seus trezentos e poucos habitantes. Estacionei o carro junto ao tratamento de águas e percorri a pé o restante caminho até á falésia, até ao mar. Bem perto de mim, nas saliências rochosas, as gaivotas espreitam os pescadores. Observam como se não fosse nada com elas...E eu também.
Lembrei-me da máquina que trazia na mochila...Desci, o suficiente para ficar no mesmo plano, olhos nos olhos e fotografei-as...
Uma vez...


E ainda outra...
Antes de abalar despedi-me do mar e agradeci ao sol a sua breve aparição.

Foi assim a minha manhã...Do resto não conto, apenas que são quase duas horas e que tenho de me ir deitar...
2006-09-25
Sobro e Azinho

Á beira da estrada três montes lenha. Uma placa tosca com letras pintadas e uma seta leva-nos a percorrer um pequeno caminho de terra que nos retira do asfalto. Uma vedação, um portão aberto e logo a seguir um toldo de plástico onde repousa um velho tractor. Ao seu lado um homem bem entrado nos cinquenta, marcas do trabalho do campo na cara e nas mãos, previsivelmente também no corpo se o mostrasse. Sentado numa cadeira, que me lembra as que existiam nos cafés quando eu era pequeno, entretém-se com uma navalha e um pau. Separa-nos uma mesa de madeira forrada com um plástico transparente, reaproveitado de outros embrulhos. Um lápis, um bloco improvisado e pedaços de madeira, simulam destroços de uma tempestade, emprestando-lhe um ar desarrumado que não destoa.
Todos os anos compro lenha, uma tonelada, meia de sobro e meia de azinho, para o recuperador lá de casa e para os meus sogros. Não tenho especial fascínio pelo fogo mas agrada-me bastante observar o lume manso na lareira durante o Inverno. Os olhos abandonam o corpo e perdem-se na brasa e aquecem-se, aquecendo com eles todo o corpo. Não consigo explicar...É muito bom…
O azinho é melhor, tem uma combustão lenta e produz mais calor que o sobro, também é mais caro. São coisas que se fazem com antecedência, antes das chuvas e do tempo húmido. A madeira molhada pesa mais e custa a pegar fogo.
“Bom dia!”, o homem desvia o olhar das mãos e debruça-o em mim, retribui o cumprimento. O negócio é rápido mas a conversa lenta. Enquanto avalio o tamanho dos cavacos pergunto pelo preço, “Cento e vinte o azinho…O sobro fica a oitenta.”. “Este ano só quero azinho…”, “Você é que sabe…”.
Aproveitei a manhã de folga. A minha sogra deixou o carrinho de mão cá fora. Por debaixo da construção em alvenaria que serve de garagem e aproveitando o desnível do terreno, existe um espaço reservado para a lenha. Fica sempre em casa deles, quando precisamos vamos lá buscar, é perto e eu gosto de lá ir. Também gosto de arrumar os cavacos, escolhê-los pelo tamanho e pelo corte, garantir que não descaem, estacá-los de vez em vez. Enquanto espero vou arranjando espaço. As vespas fazem-me companhia, atraídas por três figos podres num balde, a um canto…Depois logo os deito fora.
Ouço vozes, a minha mulher dá indicações sobre o local de descarga. Quando chego lá acima já os primeiros pedaços de madeira rebolam pelo chão. Falo com um dos homens, o outro pouco percebe do luso verbo, do Leste? Não sei, não perguntei.
Acabaram, “Um bom dia de trabalho!”, “Obrigado! Olhe que você também não está mal servido.”.
Fiz a coisa nas calmas, a Deo ajudou-me e este ano acabei mais cedo. Olhei orgulhoso para a arrumação…Ainda ficou muito espaço livre…O meu sogro vai ficar contente.
Escolhi dois pedaços de lenha para o meu recuperador de calor…Para fazer vista…
É essa a imagem que deixo…
Um abraço a todos e boa semana!
2006-09-22
Explicação
Ontem? Sim foi ontem!
Ontem organizou-se um jantar de despedida…Aliás, meteram no mesmo saco duas despedidas. Por esse motivo o número de pessoas envolvidas extravasou o laboratório e chegou ao director, alguém que eu vejo uma vez em cada dois anos e com quem tive azedas conversas de falsa cortesia. Bom…Eu não fui ao jantar…Fiquei com a minha filha…Ajudei-a no banho, jantei com ela, deitei-a cedo para a conseguir acordar de manhã.
Que a decisão foi correcta, não tenho dúvidas. Eu não tenho dúvidas porque tenho noção das minhas prioridades neste caso…Também ela percebeu.
Fui coerente comigo mas trago o sabor da derrota na boca…E sabe mal que se farta…
Não tenho de me justificar.
Hoje de manhã ressacava de uma auto flagelação estúpida e sem sentido.
Demorei tempo a perceber que no meio disto tudo não me perdi, continuei a ser quem era. Não preciso que me admirem ou odeiem, apenas que percebam até onde podem ir.
Cheguei a casa…Vim devagar…sessenta quilómetros por hora numa estrada de duas vias totalmente desimpedida…Vidros abertos, para sentir o cheiro dos pinheiros molhados a secar…Pois…Cheguei a casa e lembrei-me do que tinha escrito ontem, desse olhar absorvente pela desgraça…Faltava qualquer coisa para finalizar aquele texto que fui buscar ao baú das recordações (Doces anos oitenta…Mas tantos amigos perdidos…). Faltou explicar que ontem, de alguma forma acabou um ciclo…Para mim.
As prisões existem, são reais, servimo-nos delas para marcar territórios, delimitar consensos, abreviar relações ou extrapolar outras. Muitas vezes nem damos conta desse facto.
Escrevo enquanto vou pensando e isso não é muito bom…
Ainda me arrependi de ter postado aquilo, aquele texto de tempos quase esquecidos…
Fui à casa de banho antes de ir à cozinha buscar um copo que enchi de Whisky…Lembrei-me do que tinha escrito ontem…Li os comentários…E achei que vos devia uma explicação…
Também a mim eu tive que explicar umas tantas coisas…
2006-09-21
Sonho na última noite de um condenado

Vejo-me numa terra estranha, onde nada nasce…Ou morre…Apenas perdura…Estou só…Ao lado…De lado…A um lado…De um lado…O de cá…O meu lado…Que como lado também é isolado…Foi colocado de lado pelos outros lados…Renegado…Exilado…E no seu exílio levou-me…Arrastado…Pendurado…Pelo pescoço…Por uma corda…Presa a muitas correntes…Que eu não sabia serem tão fortes…Tão resistentes…Aonde se pode ir numa terra estranha…Numa terra de estranhos…???? Não sei!...Nem faço a menor ideia!...Estou confusamente fodido…Á minha volta, na paisagem agreste, ondulam prados rasteiros de incolor desprezo…Estou no meu poste…No meio…Preso…Volto-me para o outro lado…Do poste…E tento dormir…Sem ter de adormecer e acordar de novo nesta terra de estranhos…Como se pode estranhar os estranhos?...Faço-o sem consciência de o estar fazendo…É algo institivo…Destrutivo…Extra negativo… Ultra impositivo…E eu vejo-me nesta terra estranha onde permaneço cativo…Quero sair!!! Onde está a porta de saída…Onde está a luz…Sinto o poste nas minhas costas….Ouço os fuzis a carregar…um cheiro a azedo no ar…Porra, não me consigo lembrar do dia em que nasci…
2006-09-19
Alinhamento teológico
Os Deuses esperam a turba.
Oferendas fenecem nos altares,
Desmedidos manjares,
Almas crentes trucidadas.
No Templo,
A mensagem opalina,
Memória milenar,
É origem e conflito.
Razões profundas do ser,
Nas entranhas do que é molécula, átomo,
Na dúvida e no refúgio.
No Templo,
Cumpre-se a existência!
Nas vertentes nervosas,
Novelos de estímulos,
As palavras de oração são eco
Do eco dos oradores.
No Templo,
As paredes transpiram rumores!
Palavras de fé,
Largadas nos séculos profundos,
Teocracias ocidentais, orientais, medievais….Democráticas.
Na amálgama tudo se confunde.
Etéreo, o cordão umbilical materializa-se,
Revela-se omnipresente.
Orgânica,
A mensagem genética lembra-nos do pânico,
Do medo das noites escuras,
Do desabar dos céus.
No Templo sou uno,
Desprovido de identidade.
Tenho um nome e uma vida
Que reconheço nos mestres.
Não justifico!
Sou justificação!
Adeus alguém que já fui!
Cerrado está o portão para quem não acredita!
P.S. Porque este reacender teológico pode reacender outras questões...
2006-09-15
Suicídio
O baque foi surdo, corpo pesado após queda de trinta metros, sem ruído humano, característica que o assinalasse. Assim se deixou estar até ás seis da manhã, hora a que foi descoberto pelo cão da vizinha, rafeiro intrometido que lhe mijou para cima sem nenhum respeito.
Vai para dez anos que recebe da Segurança Social. Agora com Setenta e três anos, este Engenheiro Químico aposentado, mantém a postura que sempre o caracterizou. De uma organização e disciplina a toda a prova continua a levar a vida demasiado a sério.
Ultimamente apareceram-lhe umas dores, tentou ignorá-las, mas o ardor na zona do baixo ventre fazia-o curvar-se, algo a que ele não estava habituado. Foi ao médico numa segunda feira e fez exames de urgência na terça. Dai até saber que tinha um cancro foi um instante. Chegou a estar internado e foi a seu pedido que saiu do hospital. Quimioterapias sem garantias, operações ao intestino e inúmeras consultas seriam a rotina dos seus últimos anos.
Vestiu o seu melhor fato encheu um copo do seu Brandy velho favorito e sentou-se à secretária. Pegou num papel e na sua bonita caligrafia escreveu um “Adeus Eduarda, sempre te amei.”. Assinou, pegou no frasco de comprimidos que lhe tinha dado um médico amigo e despejou-o num trago etílico. Sentiu os olhos fecharem-se…Ainda teve tempo de balbuciar um adeus antes de partir.
Trinta e cinco anos de trabalho pesado numa rotina que o cansou fizeram dele um homem doente. Não foi o corpo que o traiu, esse sempre se portou à altura, para os patrões e para tudo. Foi a cabeça que fraquejou, uma dor de cabeça que veio com ele do Ultramar e nunca mais o largou, assim como a imagem daquele filho preto de que escondeu de todos, até da sua mulher. Durante anos disfarçou com o vinho e uma resistência anormal à bebida todos os seus pesadelos. A mulher está a trabalhar, hoje chega tarde, depois das onze da noite. Onde estás Idalina que a cabeça hoje estoura-me? Se a Idalina soubesse tinha saído mais cedo, mas não saiu. Quando entrou no seu quarto, depois do ter chamado pela casa toda, encontrou-o deitado na cama. Uma enorme poça de sangue e o cheiro a pólvora denunciavam a tragédia. Abandonada no chão a caçadeira tinha feito a última vontade ao seu dono.
Em memória de todos os meus amigos que desistiram. Aos outros...Não desistam por favor...
P.S. Bom fim de semana
2006-09-13
Primária (E não se fala mais no assunto...)
Andava na terceira classe. Por essa altura, sentados em carteiras para dois, carteiras de madeira com cavidade para o lápis e aparo e buraco para o tinteiro, estávamos sobre observação continua do Presidente do Conselho, Dr Marcelo Caetano, de Deus, pelo seu filho crucificado Jesus Cristo e do Presidente da República, Almirante Américo Tomás. Só na primeira classe fiquei impressionado. O primeiro visitava-nos regularmente na televisão, sentado num sofá do qual eu sempre quis saber a cor, o segundo só de nome o conhecia e tinha pena de Jesus, daquela sua imagem sempre pregada na cruz, o terceiro lembrava-me vagamente o meu avô e por isso achava-lhe piada naquela farda branca imaculada, uma espécie de capitão Iglo da altura.
Durante a quarta classe e depois das aulas ia distribuir manifestos dos pequenos partidos de esquerda, geralmente à porta da estação. Passei, não interessa como, tive quatro professores em quatro anos e uma revolução de permeio. Lembro-me do nome do meu primeiro professor, Barrocas, do segundo também, Barata, todos os outros se apagaram…
Foi a minha primária, cada um tem a sua e decerto com motivos de interesse, mas por ser a minha agrada-me dar-lhe importância, talvez por isso e ainda a propósito da minha filha, volte a falar no assunto.
P.S. O assunto está encerrado…É uma promessa! Boa semana a todos!
2006-09-10
Voltei ao sistema de ensino através da minha filha

O céu e o mar, o sol e a terra. Debaixo do sol que brinca, a terra olha para cima. Os risos são de crianças e os choros também. Uma mãe que se zanga, um pai atarefado com um bebé de colo deixa cair as chaves do carro e resmunga em silêncio, dois pequenos disputam a entrada numa sala e gritam e riem, depois abraçam-se e deixam-se cair no chão, as educadoras circulam apressadas esperançadas em manter a ordem, arrebanham os miúdos numa mistura de nomes, David, Guilherme, Diana, Rute, Filipe, venham cá, estejam sossegados. Os mais velhos já se separam em pequenos grupos, na sua maioria meninas de um lado e meninos do outro, vá-se lá saber porquê. Os mais novos é tudo ao molho, esses ainda não descobriram as diferenças e caminham em filas mistas atrás das técnicas de apoio. O local é agradável, térreo, com um relvado murado onde se fazem as festas e onde os gaiatos podem brincar. Todas as salas dão para esse relvado através de enormes vidraças e de uma porta, todas menos a dos bebés que providos de outros cuidados necessitam de um espaço isolado. Tive sorte, agradeço à Concha, à Bela e à Rosário terem diminuído o meu enorme sentimento de culpa. Ao fim destes cinco anos agradeço-lhes a enorme saudade que vou sentir. Aprendi muito e conseguimos sair como um grupo, um grupo que representou para eles “A Branca de Neve e os Sete Anões”, um grupo que organizou uma viagem à Eurodisney de modo a que só os adultos que quisessem ir é que pagavam, quermesses, bolos semanais, rifas, desfiles de moda…Não! Eu não desfilei, assim como não fiz bolos nem vendi rifas. Era-me pedido outro apoio, tirar bicas, vender bebidas e bilhetes de entrada, carregar com o que fosse necessário. Cada um deu o que pode, uns mais que os outros é certo, mas isso não tinha importância perante os objectivos conseguidos, todas as actividades a que nos propusemos foram realizadas. Mais uma vez digo Não! Não é um elogio à minha pessoa mas sim a quem nos motivou, lembram-se do meu agradecimento?
"Pai vou sentir tantas saudades da Concha, da Bela, da Rosário, dos meus meninos...", Também eu filha... Vou sentir saudade dessa tua alegria e bem estar recordando esses amigos que também eram meus...Ou quase!
Sim tive muita sorte e espero não a perder no futuro…Parece conversa da treta mas não é! Agora sim é que vão ser elas…Fui à escola P1 várias vezes, até porque voto lá. O local é agradável, não é novo mas está arranjado. As professoras reúnem-se numa sala que dá para uma das portas de entrada do edifício, aquela que nos leva à secretaria. Ouvem-se vozes, pressentem-me e uma delas dirige-se a mim solícita, sou bem tratado, informado do que pretendo, da informação que eu julgo necessária, procurei não ser chato, se calhar até fui rápido demais. Não vale a pena pôr a culpa na ministra da educação, o problema está comigo, sinto-me ansioso e cheio de dúvidas. A resolução do problema, também está em mim e tem sido a que sempre tenho utilizado, segue em frente que o tempo não pára. Isto dito assim parece pouco mas é fruto de um complexo mecanismo envolvendo muitas decisões.
Quem teve filhos com esta idade, a entrar para a primária sabe do que falo.
Voltei ao sistema de ensino através da minha filha…Espero não voltar a desiludir-me…
2006-09-08
Pensando em coisas boas
Faltam dez minutos para chegar, tenho de pensar em coisas boas…Claro…Tão fácil, ainda ontem adormeci na sua cama.
Pediram-me há tempos, na cresce da minha filha, a propósito de uma encenação para uma festa de finalistas em miniatura, que comprasse umas fitas. Diz o costume, e aqui falo sem conhecimento, que as fitas são distribuídas por pessoas amigas e da família.
Assim o fiz passando desenhos para cada uma delas, trabalho executado a meias com a minha mulher. Todos escreveram qualquer coisa, a minha sogra esmerou-se e fez umas quadras, felicidades, concelhos, desejos, de tudo um pouco. Só faltavam duas pessoas, eu e a mãe. “Gostas tanto de escrever vê lá se escreves alguma coisa de jeito!!”, “Em casa de ferreiro espeto de pau, não é o que dizem?”, brincámos com a situação mas aquilo deixou-me pensativo. Sei que no final entreguei, um pouco envergonhado, a minha fita com uma frase “Gosto muito de ti”. Não me lembrei mais do assunto até ontem. A minha filha começou nos tempos livres, dentro de dias vai para a primeira classe e ontem chegou muito cansada. Com a mãe a trabalhar fiquei com ela até a levar para a cama, deitei-a, “Pai!”, “Sim filha!”, “Ficas comigo até eu adormecer?”, abraçou-me. Senti-me protegido, tudo fazia sentido, “Eu gosto mesmo muito de ti.” E adormeci.
Cheguei a pensar nela, abri a porta do carro e sorri…Assim está bem!
P.S. http://www.petitiononline.com/fiminc/petition.html. Leiam, tem a ver com a especulação à volta dos terrenos ardidos. Talvez seja mais um dos variados motivos para pôr isto tudo a arder. Vale a pena, que mais não seja por tentarmos. Não é justo alguém lucrar com a desgraça e a destruição…Bem isto já toda a gente sabe. Um abraço e bom fim de semana a todos os que por cá passam.
2006-09-07
2006-09-04
Homem (oração humana)

Homem de barro, Homem pedra,
Granítico evento.
Aqui vou eu,
Peito quilha,
Cinzento, frio.
Simbiose da terra que me viu nascer,
Aqui estou eu para procriar,
Para celebrar o que vem,
Para chorar o que vai.
Superlativo de mim mesmo,
No limite do que posso,
Eis a minha doação!
Ai se tudo isto fosse verdade!
Se pudesse afirmar que tudo fiz…
Contemporânea agonia,
Histórica culpa…
Adão de seringa na mão…
Eva diz que espera…Hoje.
O que seria a maçã,
Afrodisíaco vegetal
Ou premonição fatal?
Homem corda, Homem fútil,
Multiplica-te,
Gera-te em exponenciais numéricos e
faz de ti próprio as amarras que te hão-de matar.
Deixa-te ser para sempre eterno,
Sempre com medo de olhar,
Sempre com os mesmos medos.
Homem sonho, quanto tempo me resta?...
Homem técnica, Homem luz,
Homem caleidoscópio, dono do bem e do mal,
E de todas as outras cores.
Hoje és exército e matas,
Amanhã és médico e curas,
Fazes a paz para fazer guerra.
Homem silêncio que tudo oculta.
Às vezes tenho vergonha de ti…
2006-09-01
Um conto em três páginas (c)
Somos despertados por pequenos sinais, algo que os filmes de intriga nos revelam. Vemos, vemos e não vemos nada. De repente algo nos chama e tudo o que em nós pensa se focaliza. Leonel descobriu no meio da marginalidade e do crime duas pequenas fotografias de uma mulher desaparecida dias atrás. O antes e o após, de um lado a trabalhadora, do outro o corpo de uma mulher amortalhado num cenário policial. Da primeira imagem fixou a farda e o cabelo. Passara as últimas horas pintando sobre tela uma figura feminina com as mesmas características, mas de ângulos diferentes. Voltaram-lhe à ideia as perguntas que tinha por fazer, quem são, quem as faz, porquê reproduzi-las, essas mulheres, essas fotografias, qual o objectivo?
O desespero dos últimos tempos deixara-o demasiado magoado para preocupações de superficialidade ética. Acabou o que tinha de acabar, marcou novo encontro e aceitou nova fotografia. Descrever esta fotografia seria repetir a simplicidade das restantes, um quarto, um canto, uma luz sem origem visível e uma figura feminina, sem rosto, embrulhada sobre si mesma. O lado sensual era absorvido pela ausência de pormenores e pelo estático da figura, sem roupa que apenas mostrava a zona lombar e a curvatura das pernas torcidas. O trabalho tornou-se mais pausado, mais pensado, três semanas foi o tempo necessário para entregar a terceira tela. Sentia-se a sistematização dos processos, deixara os aditivos químicos e reduzia-se ao álcool nocturno e a haxixe, que pagava a fornecedores amigos com trabalhos de menor intensidade. Um dia, por volta da sexta fotografia, consegui questionar o professor, “Posso fazer-lhe uma pergunta?”, “Sim!?!?..”, “Quem são elas?”, “Quem!?”, “As mulheres?”, “Possivelmente modelos…Não sei…Não me interessa….Porquê?”, “Porque gostava de saber.”, “Explica-te…Não estou a perceber.”, “Desculpa…Paranóia minha, isto passa …”.
A qualidade do seu trabalho melhorava a olhos vistos e o ritmo foi diminuindo de intensidade valorizando a técnica. Já tinha executado quinze telas quando, e novamente por acaso, se fixou numa coincidência criminal noticiada no Correio da Manhã, “As autoridades presumem trata-se do mesmo suspeito. “, “O assassino em série terá morto quinze mulheres, segundo fonte oficial.”. Nessa edição apareciam fotografias das vítimas, em vida e após vida. Em todas elas as datas de desaparecimento coincidiam com as suas reproduções. Mais à frente falava-se do suspeito como alguém que teria cometido os crimes para executar obras de arte. Nunca o seu instinto funcionou tão depressa. Telefonou para uma amiga em Madrid e arranjou maneira de ela o convidar para uma semana de trabalho, ele pagava tudo. Abalou de camioneta, modo seguro para passar despercebido. Foi lá que soube da rusga ao seu quarto, da certeza das autoridades sobre a identidade do assassino, das promessas sobre a sua detenção. Pediu à sua amiga que ajudava emigrantes Marroquinos para lhe arranjar outra identidade. Durante algumas semanas falou-se no caso em Portugal, tendo-se noticiado inclusive, a apreensão dos quadros das vítimas pintados pelo assassino. O valor desses quadros e após variadas especulações subiu para valores inimagináveis. O actual proprietário que os tinha adquirido ao professor do assassino fazia promessa de se desfazer deles o mais depressa possível.
Leonel Marques, agora Abelâmio Rodrigues, prosseguiu uma vida marginal com uma prostituta de Madrid…E nunca mais ninguém soube dele. Adamantino Gomes é actualmente um nome incontornável no comércio de arte em Portugal.
P.S. Um bom fim de semana!
2006-08-30
Um conto em três páginas (b)
Não chegou a responder-lhe…Sentia-se contrariado naquele restaurante, todo ele etiquetas e regras, gente de estatuto repousava por entre mesas e cadeiras sem levantar a voz, apenas um murmúrio comum a todos eles. A refeição foi lenta e muitas das perguntas que trazia guardou-as para mais tarde, era óbvio que o professor não estava interessado em falar no assunto. Mas não comeram em silêncio, Adamantino Gomes, assim se chamava o professor, questionou-o sobre o vinho “Um néctar! Do melhor que o Alentejo produz.”, dissertou sobre vinhas e lagares, seguiu em frente tecendo comentários sobre as tendências sexuais de duas mulheres que jantavam numa mesa ao lado e acabou no futebol, altura em que pediu dois cafés e duas aguardentes velhas, “Da especial!”. O nosso pintor, Leonel Marques de seu nome, estava enjoado de tudo, o seu estômago não estava habituado as estas excentricidades gastronómicas…Minto, desculpem…Do vinho ele gostou! Mas dizia eu que ele estava enjoado, farto intoxicado de todos aqueles cheiros. Suspirou de alivio quando Adamantino pediu a conta. A viagem até casa foi curta. Além do quarto o senhorio deixava-o usar as águas furtadas onde ele trabalhava. Só de dia se via bem, pela excelente clarabóia, de noite duas lâmpadas encaixilhadas faziam um serviço muito aquém do desejável. Entraram devagar naquele lugar quente e saturado de diluentes e tintas. Acendeu as luzes e esperou…esperou, até que…”Sim senhor, fizeste um óptimo trabalho.”, “A sério!?”, “Pelo que tenho de mais sagrado, está realmente muito bom, deste-lhe vida., “A quem?”, “…A tudo…O cliente vai ficar muito contente. Quando posso levá-lo?”, “Daqui a uma semana, mais ou menos…Eu depois telefono-te”, “OK! Se te achares capaz posso trazer-te mais uma foto quando cá voltar, queres?”. Enquanto falava o professor ia mexendo na carteira, contando notas, grandes notas, “Pode ser!...”. Respondeu hipnotizado, recebeu o dinheiro e esqueceu tudo o resto, inclusive as perguntas que tencionava fazer. Foi uma semana maravilhosa, pagou as dívidas e conseguia finalmente andar motivado, sem vergonha, sem medos. Até a dona Laura reparou “Só te falta uma boa mocinha.”, “Deixe-se disso dona Laura, agora é tempo de trabalho, de alcançar um sonho, o meu sonho.”, “Olha que nem só de sonhos vive o Homem, ouve a Larinha que já cá anda há um bom par de anos.”, “Tabém mamãaaa!”, “Não gozes comigo!”, “Um beijo?”. Despediram-se a sorrir.
Essa semana passou, o quadro foi entregue ao professor, recebeu uma nova fotografia e mais uma vez as perguntas ficaram por fazer. Desta vez um canto de um quarto com uma janela. Debruçada sobre essa janela uma figura feminina de costas para o observador. Percebe-se o cabelo escuro ligeiramente ondulado sobre um simples vestido azul de abotoar pelas costas, como nas fardas das meninas do supermercado ou das empresas de limpeza. De qualquer forma é um vestido ligeiramente acima dos joelhos deixando ver umas pernas bem feitas, nos pés uns ténis pretos com riscas brancas. A luz cénica vinha do exterior, pela janela e talvez de uma porta aberta por detrás de quem observa. Os pormenores não eram muitos mas sentia-se inspirado e rapidamente surgiram sinais de que a coisa andava. Não o fez numa noite como o primeiro, perdeu mais tempo, misturou técnicas, preocupou-se com detalhes da mulher, com a luz nos seus cabelos, com a sombra na farda. Ao fim de três dias ainda estava a acabá-lo. Mais uma noite em claro, que raio de mania…Trabalhar de noite.
De manhã e pela primeira vez nesses três dia foi tomar o pequeno almoço na dona Lara.
“Bom dia dona Lara.”, “Bom dia menino. Que é feito de ti que não te deixas ver?”,
“A trabalhar dona Lara, a trabalhar.”, “Queres uma tosta só com queijo e um galão bem quentinho?”, “Pode ser dona Lara…Obrigado.”. Pegou no Correio da manhã que jazia aberto numa mesa vazia e começou a folheá-lo até se deter fixamente na página oito.
2006-08-28
Um conto em três páginas
Tinha trabalhado a noite toda numa enorme tela, encomenda de gente rica, gente que ele não conhecia. O seu antigo professor tinha tratado de tudo, até do dinheiro para as tintas. Havia um ano que vivia de esmolas, de retratos a lápis de cor à porta das zonas turísticas de Lisboa. O quarto era pago pela namorada que o deixou após um ataque de nervos. Depois disso conseguiu que o senhorio aceitasse como pagamento o seu trabalho na pintura da casa, “Se você é pintor deve conseguir pintar paredes?!”. O prazo estava a esgotar-se quando encontrou por acaso o seu professor de desenho, “Ainda és capaz de fazer alguma coisa? Consegues assumir um compromisso?”, respondeu que sim, de cabeça baixa olhando para as calças que não viam água há muito tempo. O que tinha de fazer era relativamente simples. Mensalmente chegaria às suas mãos uma fotografia que teria de reproduzir com total liberdade de estilo. Única restrição, a composição teria de ser mantida, não poderia trocar ou ignorar objectos, fossem eles inanimados ou não.
A primeira fotografia mostrava uma mulher deitada de bruços numa cama de casal. A cama estava coberta com um lençol que também cobria a mulher adivinhando-lhe as formas. Nada mais se via naquele quarto iluminado de vermelho por duas luzes cuja origem não era visível. Desenhou-a a carvão, com traços ambíguos e dispersos tal qual a sua vida, a sua e a dela que parecia tão desprotegida tão sossegada. Abriu os tubos novos de tinta e aplicou-os directamente na tela. Só depois o ambiente surgiu, estavam lá as paredes, a cama, a mulher e os lençóis, um por baixo a tapar o colchão quanto ao outro já lhe fizemos referência. Como achou o vermelho demasiado agressivo substituiu-o por uma luminosidade branca que projectava sombras distintas num soalho de madeira que ele próprio inventara, algo que não se conseguia distinguir na fotografia. Agora que acabara sentia-se bem, liberto de tenções, de conflitos, conseguiu até sorrir à vizinha que o detestava. Na rua dirigiu-se para o café da dona Lara onde costumava tomar o pequeno almoço e onde mantinha uma conta por pagar. “Bom dia dona Lara. Já chegaram os jornais?”, “Estás muito alegre hoje, não me digas que acordaste cedo para ir trabalhar?”, “Não goze dona Lara. Não tenho tido sorte mas as coisas vão virar, vai ver. Para começar vou poder pagar tudo o que lhe devo assim que entregar o que estive fazendo.”, “Um quadro suponho!?!”, “Sim um quadro…E poderão ser mais!”, “Deus queira que sim meu filho.”. A dona Lara adorava aquele moço franzino de cabelo desgrenhado e barba por fazer, adorava acima de tudo aqueles olhos verdes que lhe davam uma expressão tão parecida à do seu Ricardo morto quatro anos antes por uma overdose de heroína.
Sentou-se ao pé da janela e folheou o Correio da Manhã. Leu os assaltos, aos bancos, às velhinhas, aos jovens namorados junto ao rio. Prendeu-se na notícia do desaparecimento de uma menina de 11 anos na cidade de Bragança. Pais pobres, casa pobre e mais cinco para cuidar, “Tragam-me a minha menina!”, na fotografia a imagem de um pai destroçado e de uma mãe que não consegue olhar a objectiva escondendo a cara entre mãos. Mais à frente noticiava-se o aumento da gasolina, por causa do petróleo, por causa do Irão, por causa da energia nuclear, por causa da bomba, por causa….Ficou-se pelas palavras cruzadas enquanto trincava uma tosta só com queijo.
À tarde telefonou ao professor e combinou com ele um encontro. Este convidou-o para jantar, “…Depois logo vamos ver a encomenda.”, “À noite?”, “Achas que preciso da luz do dia?”
