2006-12-12
Urbe
Está sentado por detrás de uma secretária, tenta organizá-la, organizar-se, mentira que mantém durante cinco minutos, tudo está estabelecido, as ordens são claras e o gerente já lhe disse o que pretendia. Rende-se, abre a gaveta e tira um molho de processos, empréstimos de todos os tipos que precisam ser avaliados antes de chegar ao chefe. De longe a dona Esmeralda procura-o com o olhar tentando captar a sua atenção, consegue-o e ele rende-se. Também ela precisa de ajuda, a idade não ajuda e espera paulatinamente pela reforma. “Ajudas-me nisto? Não percebo nada desta porcaria”, aponta para o monitor, para uma janela de erro, teimosa, que não se deixou intimidar pelas sucessivas escapadelas. “Dá-me só um minuto.”, buscou uma cadeira de uma secretária vazia onde já tinha trabalhado alguém, agora é de todos, à vez, redução de custos que a tanto obrigas, maldita produtividade. O problema não era complicado, um conflito manhoso de um programa mal dimensionado, fecha-se a aplicação e reinicia-se o computador, “Tinhas salvo o trabalho?”, “Estava agora a começá-lo.”, “Um beijo Esmeraldinha.”, “Obrigado meu filho, és um anjo.”, voltou para o seu lugar, desperto, bem consigo próprio pela ajuda prestada aquela velha senhora que tanto o considerava.
Sente falta de um café, a nicotina está domada e já só precisa dela depois das refeições, há quem o inveje por isso. A máquina encontra-se ao fundo da ampla sala, não muito longe de uma máquina de fotocópias de última geração cheia de ruídos suaves e estalidos discretos. A Carmem tira fotocópias com um olhar atento ao visor. Sem se voltar murmura, “Vais tirar um café?”, “Vou!”, “Tira dois.”. Sim a Carmen é uma bela rapariga, a mais nova, ele tenta agradar-lhe sempre que pode. Tem a pele bonita, branca, de um branco que lhe lembra as figuras gregas dos livros de história, lisa, sem nódoas ou marcas que lhe estraguem a matriz. Tem uns olhos sinceros, tão sinceros que não foi preciso tentar para saber que não tinha hipóteses, que pena. A diferença de vinte anos não perdoa a quem não é rico e tem de competir com o belo rapaz que a costuma ir buscar por volta das cinco. “Toma! Se não estiver bom eu tiro-te outro.”, “Está óptimo! Obrigado!”. Finalmente começa o seu trabalho. Por volta da uma da tarde tem metade dos processos revistos. Não vão almoçar todos ao mesmo tempo, revezam-se e ele dá uma mãozinha à Carmem para ela ir comer com o Ricardo, o namorado. Ficou na caixa até às duas e só depois foi para o café onde esperavam por ele uma sopa e dois rissóis. Ainda teve tempo para um bolo, um café e um cigarro. Não admira que as análises estejam uma porcaria, o médico já o avisou, você tem de se alimentar como deve ser.
A vida de solteiro também não ajuda e os jantares são uma mistura de álcool com gorduras em quantidades desaconselháveis, “Olhe o coração! Os acidentes cardiovasculares são cada vez mais frequentes em pessoas na casa dos quarenta!”, “Eu sei doutor!”, “Se sabe não parece…”, conversa repetida nestes últimos dois anos.
Na parte da tarde foi falar com o chefe, tinha noção de ter avançado bem mas não tinha a certeza de ter sido o suficiente para não ficar até mais tarde. Entregou os papéis, explicou os casos mais complicados, os que precisariam de uma segunda avaliação, dos outros, os mais simples, garantiu serem rentáveis à instituição. Esperou numa ansiedade contida, algo que os anos lhe ensinaram, “Está tudo bem. Amanhã logo vemos o resto.”, isto significava que depois de fechar o balcão só teria de ficar mais uma hora. O trajecto para casa pareceu-lhe uma eternidade, a porta de casa o paraíso. Ainda não se tinha sentado quando o telefone tocou.
(cont.)
2006-12-07
I
Do tamanho que se quer a quem nasce
Pela barriga com o cordão ao pescoço
Moniz contemporâneo entregando a ponta ao destino
Da árvore do nascimento
Até ao chão do pomar
Sente-se o calor da fermentação
Fruto de sabor alcoólico
Maçã negra de Inverno
O Inverno existe em pensamento
Pensamos em chuva e chove
O que nos faz pensar em tanta água?
Rebelde cinzento, como se existisse o cinzento
Como se cor fosse cor
O olho detecta o câmbio
O passar de um estado a outro
E a outro
De um lado o passado
Todo ele coisas internas
Sensações
Partidas
Travessuras de uma memória devassa
Escorre em mim essa água interior
Enxurrada que desagua em rios menores
Capilares que se perdem em extremidades de vida
Os quatro elementos
O Ar
A Terra
O Fogo
E o Éter que justifica o desconhecido
Meu caro Mendeliev que os atirou prá tabela
Cento e tal coisas que aprendi com medo de não entender
Do fogo tenho noções
Aquecimentos que me fazem companhia
De dia
De noite o calor é outro
Desassossego
Aperto o lençol da cama como se fosse minha mãe
Mas não sou
Sou eu
Nem a cama é cama
É a ideia que dela ficou
Da cama e de tudo o resto
Do berço que não me lembro mas sei que existiu
Fada madrinha
Anjo da guarda que eu guardo debaixo do colchão
E a mão que lá o colocou
Era eu menino
Talvez nem isso
Dorme bebé vem fazer ó ó
Dorme, dorme meu menino
Agora que já és homem
2006-12-03
Um cão, uma rua e mais qualquer coisa…
Um dia fiquei doente, talvez velhice, ou coisa que comi, os olhos envidraçaram-se e as moscas seguiam-me para todo o lado. Deixei de comer e os miúdos percebiam-me moribundo…Alguns chegaram a chorar…Abalei para morrer sozinho…longe…Para os lados da Damaia…Numa casa abandonada…Tive uma vida de cão, cão completo, com filhos e amigos que recordo. Tenho pena de não os ter visto crescer, mas sei que fui feliz por ter partilhado com eles tantos momentos…Momentos que me ajudaram a partir…
Nota: A história é verdadeira, os nomes também…O pensamento do animal é da minha imaginação....
2006-11-29
Branco...
2006-11-27
Por vezes estamos sem fazer nada...
Liguei-me à net, Homepage, favoritos, alguns blogs e a minha irmã a recordar-se e eu a recordar-me, não com as suas recordações, com outras, minhas, de outras pessoas, de mim, de mim em casa com vinte e tal a ouvir música, sempre a ouvir música, já vos contei que tive um baixo assinado para me expulsarem do prédio…E isso interessa…Cala-te!...Sim a ouvir música e um dia toca-me à porta o João Paulo, era visita da casa, assim como muitos outros, amigos, amigas, eu vivia sozinho mas tinha a casa cheia, morava ao pé de locais de encontro e quando esse não acontecia a campainha tocava. “Quem é?”, “Sou eu!”, a voz familiar, hoje alegre e satisfeita, satisfeita por voltar a Portugal depois de umas vindimas no sul de França que não correram muito bem. “Entra, estava a fazer uma.”, “Tens mil paus?”, “Para que queres os mil paus?”, “Tens ou não tens?”, “Tenho!...”, “Dá-me lá os mil paus e não me faças perguntas…Eu venho já!”. Tinha confiança no João Paulo, havia respeito na nossa relação, identificávamo-nos nas revoltas, ânsias, ambos sem mãe…O que é que isso interessa?...Na altura interessava e ajuda a compreender a história. O João Paulo não tinha mãe, o pai era tenente coronel ou coronel e tinha uma irmã mais nova. Não gostava de estar em casa, vivia para o dia, se possível pedrado…Mas era o que todos faziam, ou quase…Porra cala-te! Deixa-me acabar que depois falo contigo.”. Adiante! Demorou uns vinte minutos até que voltei a ouvir a campainha, um dling-dlong fraco porque precisava de pilhas novas. Entrou radiante com um disco debaixo do braço, “Agora sim podes fazer-me uma!”. Dirigiu-se para o gira-discos sem me deixar ver a capa, escolheu uma música, levantou o som e inundou-me a casa de “Blues”, aquele blues do Texas, branco e acelerado, “Isto é Gary Moore, um gajo que foi guitarrista nos Thin Lizzy, agora toca Blues, conheci isto em França.”. “Texas Strut” era o nome da faixa…E ainda é…Estou mesmo lixado contigo…
Ouvimos o álbum todo e repetimos alguns temas, lembro-me de mim…Novo…A sentir-me velho ao ouvir “As the Years Go Passing By”.
O João Paulo Morreu já há alguns anos, de overdose, vivia com uma moça bonita, as cores de Timor na pele, na Venda Nova, às portas de Benfica.
Viu-o a última vez na estação dos comboios da Amadora, eu já trabalhava cá em baixo, tinha partido o carro e tinha de ir de camioneta. Bebemos umas cervejas e demos um abraço, gostava de lhe ter dado um abraço maior, “Vê lá se apareces.”, “Quando tiver carro é mais fácil, eu prometo.”, promessa que não cumpri, que nunca pensei cumprir, eu que fugi de Lisboa para fugir do Mundo e de mim, por isso está calado!
Isto saiu-me mesmo assim e agora que estou acabando não sei se o deva postar…Não foi para isso que o começaste?...Foi, mas descambou e também por tua culpa!...Deixa-te de merdas, posta isso e vai almoçar…Desta vez tens razão…
2006-11-22
Manias
Espécie de perturbação ou excitação caracterizada por aferro a uma ideia fixa;
(fig.) Mau costume; excentricidade; esquisitice; extravagância; desejo imoderado, excessivo.
Agora que estou de posse de todos os dados posso responder de forma honesta ao desafio que me foi lançado…
Primeira – Tenho a mania que sou de esquerda (Espécie de perturbação ou excitação caracterizada por aferro a uma ideia fixa).
Segunda – Ainda fumo, ainda bebo, ainda… (Mau costume).
Terceira – Gosto de me isolar e andar ou então fechar-me e não falar com ninguém. São fases, manias (Esquisitice).
Quarta – Tenho um desejo imoderado, excessivo por música.
Quinta – Imagino-me várias pessoas (Excentricidade).
Foi o que me ocorreu perante a definição de “mania” encontrada no Dicionário Universal da língua Portuguesa (Texto Editora).
Muito mais ficou por dizer como seria de esperar perante a abrangência da palavra.
Possivelmente todas as outras manias têm dias, umas vezes são, outras não.
Um abraço à Isabel
2006-11-20
Caminheiro (O adeus)
“Sabes que fui violada quando estudava em Lisboa?”, cabeça baixa, cabeça alta, “Percebes? Tudo me correu mal.”. E ele escutou a história daquela noite, “Ele e os amigos…Os cabrões…Chorei tanto…”, a humilhação, os olhos negros, as escoriações no corpo, “Nunca mais fui a mesma…Tive de abortar, na altura era difícil e fiquei muito mal…Mas mesmo assim sobrevivi e consegui ter um filho do Pedro.”, “Gostas dele?”, “Gostei…Precisava de alguém…”, “Serei eu uma repetição?...”, “Não! Actualmente não estou tão frágil.”, “Talvez estejas mais amargurada…”, “Que sabes tu disso?”, “Estive preso quinze anos…Matei um homem…Por amor ou despeito ou outra coisa qualquer que me tirou o sono até eu lhe acabar com a vida.”, “Mataste um homem por amor?...”, “Por amor a uma mulher…Á minha mulher.”, “Foste…Traído?...Desculpa…”. Neste momento choravam os dois, em silêncio, com a água guardada nos olhos. “Perdi-os quando estava na prisão, primeiro o divórcio, depois o acidente…”, “Não vamos falar mais nisso…Vem cá…”, ele foi e tiveram-se como nunca se tinham tido.
A vida não é feita de felicidade ou infelicidade, a vida é feita de acontecimentos, eventos que nos colocam perante decisões, escolhas, das quais dependem outras que podem ou não interagir com futuros acontecimentos.
Foi este o caso. A principio o Pedro desconfiou, aquela súbita leveza e abnegação, mesmo quando lhe batia e violava, ele que tirava prazer do facto dela sofrer via com surpresa a cara sem expressão da mulher, quase um sorriso, um alheamento insuportável para ele. Mas o ciúme não o deixou dormir, uma dúvida de dentro, uma vontade de saber o que desconfiava e quase tinha a certeza, ele que conheceu tantas mulheres, algumas de outros. Seguiu-a num sábado depois de sair com um grupo de amigos e ter avisado que não vinha jantar. Nesse dia também o filho levou um beijo, não chegou a perceber porquê. Deixou os amigos por volta da hora do jantar, rondou a casa e viu-a partir, leve, ligeiramente apressada, quase saltitante…Apanhou-os, mas não teve coragem de aparecer, o outro era homem de trabalho, com o corpo treinado no desconforto da vida, seco, músculos fortes nas pernas e nos braços, sem serem grandes ou aberrantes intimidaram-no, a ele que tinha muita coragem quando estava bêbado ou acompanhado. Saiu humilhado daquela janela, daquele pequeno monte de uns amigos da Inês, do qual lhe haviam deixado a chave, “Para ver se está tudo bem, nunca se sabe!”. Chegou tarde a casa, depois de ter corrido todos os bares da região. Esteve com mulheres mas não conseguiu ir com nenhuma.
Inês ficou muito mal tratada, chegou a ir ao hospital onde ficou um dia antes de regressar a casa com um braço ao peito e um sem número de negras e vermelhões.
Não saiu durante um mês. Foi lá que soube de tudo o que havia para saber. A obra tinha acabado e aquele moço simpático que estava em casa da Dona Lúcilia tinha partido, o marido morreu uma semana depois, vítima de um acidente automóvel, o carro em que seguia capotou numa ribanceira e pegou fogo deixando irreconhecível o corpo do seu ocupante. Não foi ao funeral para ver os dentes que o identificaram…Deixou-se estar gozando do sossego, da paz e da saudade daquele homem. Centrou-se no filho, tinha finalmente hipótese de corrigir alguns erros…Desta vez não queria falhar…Que pena ele ter-se ido embora…Sem um beijo que fosse…
O nosso homem despediu-se dos comerciantes, aceitou farto farnel e partiu para sul, todo ele horizonte…Por fora…Por dentro a raiva e a determinação do que tinha para fazer. Esperou uma semana antes de agir. Dormiu em valados e terrenos ocultos, o farnel tinha que durar cinco dias pelo menos. Matou-o no parque de estacionamento de um bar. Tudo o resto veio dos anos de prisão, aprende-se muito, aprende-se também a ter paciência e alguns truques de honrosa marginalidade. Não se virou para trás quando deixou o carro a arder…Ainda ouviu a sirene dos bombeiros…
Inês recebeu a carta passados seis meses. Sem remetente exterior lá dentro dizia tudo…”Sou eu, amo-te…Espero que sejas muito feliz! Levo de ti um pouco do teu cheiro…O que um caminheiro pode levar…”.
Meteu a carta no correio no dia em que embarcou numa traineira em direcção à Mauritânia.
FIM!
2006-11-17
Caminheiro (A paixão)
Durante a primeira semana pouco mais fez do que dormir e trabalhar, mesmo quando chegava a casa e antes de jantar, ocupava-se a restaurar uma velha vedação de madeira que cercava o quintal. O banho depois da refeição era o acto final, a cama o descanso e a janela de céu negro e estrelado uma bênção, uma carícia. Antes de dormir deixava os olhos nas traves de madeira que escondiam aranhiços na penumbra.
Durante a segunda semana saiu duas vezes, à noite, com o russo e por convite deste. Fizeram a pé cinco quilómetros antes de encontrar um bar onde uma brasileira e três portuguesas faziam o que podiam para que um grupo de velhos agricultores mais abastados gastasse o seu dinheiro. O russo pagou e pelo que percebeu da segunda vez, havia qualquer coisa entre ele e a brasileira, mulata clara, jovem bonita de sorriso branco e aberto.
Pelo meio ficara-lhe a memória daquela mulher com o filho, memória revisitada todos os dias visto que o par atravessava regularmente aquela praceta. Um dia perdeu a vergonha e perguntou à Dona Lúcilia quem era aquela senhora que tanto passeava pelas ruas da aldeia. Menina fina, fora estudar para Lisboa mas nunca acabou nada, filha de um ricalhaço da terra, casou-se com um oportunista que lhe batia e a enganava nos negócios estourando-lhe o dinheiro que os pais lhes davam. Quem o queria ver à noite teria de procurar nas lanternas vermelhas da região. Sentiu pena daquela mulher, seria só pena? Talvez uma cumplicidade de sofrimento…Ou apenas ternura, paixão, calor… Num fim-de-semana de festa na aldeia arranjou maneira de se aproximar. A coragem não foi suficiente para meter conversa, mas os olhares que trocou com ela foram reveladores de um interesse muito maior que a simples atracção física. Ela percebeu isso e ficou perturbada mas de maneira nenhuma mostrou desagrado pelo facto, antes pelo contrário. Encontrava-se com outras mulheres, só a mais velha do grupo sentiu a inquietação na cabeça da amiga. Não seria hoje o dia indicado, talvez no café quando ela fosse à mercearia à tardinha.
Terça feira, seis e vinte, não trabalhou na cerca que só faltava pintar. Estava sentado no café e lia o jornal com uma cerveja na frente. Ela entrou como se esperasse encontrá-lo e sorriu quando o viu, “Boa tarde! Viu a dona Lúcilia?”, “Deve estar quase a vir, se quiser eu vou chamá-la…”, “Não é preciso…Eu espero…”. Esta espera que levou à conversa aberta, à apresentação formal, a um convite fora de horas…lá em casa…Paixão sem limite de carências contidas, desabafos, o retornar infindável dos corpos unidos pela ternura e pelo desejo.
(Só falta um...)
2006-11-13
Caminheiro (Decisões)
Quase oito, “Que fome…”. Pediu uma sopa, pediu carne e pão, meteu conversa e perguntou por trabalho, um quarto barato onde ficar um mês. Teve sorte com a comida e com o quarto, quanto a trabalho amanhã logo se veria. O casal, embora pouco falador, era simpático e deixava espaço para respirar, não o atropelou com questões profundas libertando-o numas águas furtadas por cima do café. O local tinha sido arranjado para poder ser alugado. Era asseado, simples, cama, mesa de cabeceira, cadeira, armário, um espelho de meio corpo. Pediu que o acordassem cedo, “A gente levanta-se às seis…”, “Pode ser…Obrigado e boa noite”, “Boa noite, durma bem!”, o desejo foi da mulher que o olhou com ternura, uma ternura materna de quem vê um filho cansado. Talvez a fizesse recordar algo.
Dormiu mal, não por culpa do quarto, mas por culpa da cabeça. Falaram-lhe numas obras da câmara, imaginou-se a rebocar, a fazer massa…Só um mês…Só para descansar.
O sol ainda não se via quando a mulher lhe bateu à porta, “Vou fazer o pequeno almoço, se quiser pode comer connosco, tem é de se despachar.”. Para ele a manhã era a melhor parte do dia, aquela em que se sentia melhor, com mais energia, recebia a luz matinal como uma bênção, aliviado da escuridão que o oprimia. Tomou um banho numa casa de banho que ficava no quintal, nas traseiras do edifício. Sentou-se à mesa depois de convidado, esperou que lhe oferecessem uma caneca de café com leite e duas torradas com manteiga caseira, comeram em silêncio. No fim da refeição o homem prontificou-se a levá-lo ao estaleiro. Ele agradeceu e aceitou o convite. A aldeia era pequena, casas brancas e térreas de ambos os lados da estrada principal ao longo de três quilómetros. Uma rua secundária, paralela, desembocava numa praceta onde iria ficar situado o posto da GNR, eram essas as obras. A apresentação foi breve, o capataz era amigo do comerciante e o contracto foi logo celebrado, “Começa hoje, amanhã tratamos dos papéis.”, Aceitou, agradava-lhe trabalhar, suar, parar de pensar. O trabalho não era muito pesado, o ritmo lento não cansava quem estivesse calejado de outros andamentos, talvez por esse motivo não parou de pensar. Recordou a imagem esguia daquela mulher de meia idade que tanto o tinha observado, coincidência ou não ali estava ela passando devagar, do outro lado da rua, com uma criança pela mão.
(cont)
2006-11-07
Caminheiro (A chegada)
Não usa relógio mas nunca adormece mais que duas horas. Desperta com calma, exercita as pálpebras e controla a quantidade de luz na íris, primeiro numa, depois na outra. De uma garrafa de plástico com água retira-lhe dois golos, o último mais demorado. Levanta-se e sacode-se das palhas que lhe serviram de enxerga. Novamente de mochila às costas decide-se por um caminho, um que o leva para o sul. Lembra-se de um comentador de televisão ter afirmado que a maior pobreza se encontrava no hemisfério sul e que o fluxo migratório dos seres humanos teria tendência para ser na direcção oposta. Também se lembra do que comeu, nesse café onde ouviu a notícia. Café familiar, acolhedor, sandes de pão caseiro com presunto, dois copos de vinho e um café. Ainda teve uma longa conversa com os donos antes de partir, chegaram a oferecer-lhe emprego, nada de especial, mas uma coisa limpa e honrada numa loja de ferragens de uns primos.
Vai para três horas de caminho. Há cerca de quinze minutos encontrou uma estrada asfaltada e segue pela sua berma. Pararam duas vezes para lhe oferecer boleia, à segunda aceitou. Chegaram a uma pequena povoação e ele apeou-se agradecendo a gentileza aquele homem do campo que o transportou na carrinha. Abeira-se do único estabelecimento aberto, café, mercearia, mini mercado, tudo junto. Lá dentro a separação é feita por pequenos arcos em alvenaria. Escolheu uma mesa para duas pessoas e sentou-se. Por detrás do balcão está um homem já bem entrado. Pouco cabelo, branco e curto, barriga saliente por debaixo do avental de plástico. Limpa uns copos, tarefa que o ocupa por breves instantes, só depois se dirige ao cliente.
(cont.)
2006-11-02
Dois dias de luta
“Como é que faço? Preciso de picar cartão?”, “Não! Não picas nada. Chegas lá abaixo e avisas a tua chefia.”
Para ele a pergunta é diferente, o costume…Continua a chover, está molhado dos joelhos para baixo, foca-se nas botas molhadas enquanto percorre a alameda encharcada. “Hoje não vou discutir, argumentar, não! Hoje vou entrar, dizer o que tenho a dizer e vir-me embora.”. A água é muita, o céu, escuro de um lado e branco do outro, distribui trovoadas, é impossível ser-lhe indiferente.
Hoje não há beijos nem abraços, apenas apertos de mão, formais, indiferentes. No sector são trinta, na greve ele e mais três…Só amanhã terá a certeza. Comprou o jornal, leu-o no hospital, não viu nada…Bem…Não o leu todo…Seria preciso?...
Não lhe interessa…A greve são dois dias, desta vez só precisa fazer greve, não precisa fazer mais nada…Mas não se sente satisfeito…Continua a chover…
Já saiu, até segunda, “Se precisarem de mim sabem o meu número”, não! Desta vez não estou disponível para horas extras.
Fala-se em oitocentos milhões de euros a serem distribuídos pelos accionistas, dinheiro não contabilizado em lucros nos anos anteriores…Fala-se em investimentos não garantidos, no futuro incerto depois da privatização, fala-se…Nos direitos! Nos deveres!
A estrada adivinha-se por debaixo do manto de água, o tracejado que divide as faixas serve de guia, as bermas não existem, sente o carro deslizar…Hoje não vou ligar a televisão, não preciso das notícias do mundo, hoje preciso descansar…
2006-10-27
Sala de espera
A filha divorciou-se, ela que estava tão bem, só porque o marido bebia um copinho de vinho. Tinha uma vida de rainha, levantava-se tarde e ia para o café o dia todo, “E não faltava nada naquela casa, levava-me a passear e ficávamos em hotéis caros e comíamos em restaurantes finos, nunca teve problemas de dinheiro…Foi uma pena…A separação…Os meus queridos netos.”. Agora vive mal, teve gémeos da segunda relação e o dinheiro anda contado, “Se a sua filha se divorciou lá tinha as suas razões. Não há mulher nenhuma que tome essa decisão sem ter razões fortes…Só quem lá está é que sabe o que se passa.”. Esta sentença, proferida pela outra mulher, deixou um silêncio com significado.
Entretanto chega mais gente, fala-se de cães, de doenças de cães, de hospitais para cães, de médicos para cães…”O meu até chora! É como um filho. Quando ele desaparecer nem sei como será.”.
Dos cães para as vizinhas, para as traições das ditas, para as relações atribuladas entre mulheres desocupadas, “Deus é que sabe e nunca dorme.”.
Eu também não durmo, estou sentado à espera, preciso de uma credencial. Sinto o tempo a passar mesmo sem ter relógio, não preciso dele para o sentir, ao tempo. Pelo estômago sei da hora de almoço. A conversa decorre agora no guichet. Sabes o que aconteceu à Laurinha? Partiu uma perna! Com aquela idade é um problema. Se é!
Lá fora, o céu ferido no seu plástico cinzento, deixa escorrer insolente as águas certas de Outono. Há seis anos atrás também choveu assim.
Ouço o meu nome, é a minha vez? Sim pode entrar!
2006-10-22
Apenas porque sou teimoso...E porque não arrogante?
Gira, gira, roda, roda.
O engenho que se revira em voltas elevatórias revela automatismos.
Robóticos gestos cima, baixo, cima, baixo, esquerda, direita, esquerda direita.
Hipnóticas mãos, malabarista eléctrico, dos electrões que lhe servem de corrente.
Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz…………….
O cartão permite o acesso, concreto, directo.
De dentro, no seu núcleo o cartão é inútil.
O electrónico que decida da minha entrada, se eu pertenço ou não.
Lá dentro sou eu e a máquina…Ela que gira, ela que roda, para cima, para baixo, esquerda, direita.
A reacção, a fusão das moléculas, os gráficos, os números que nos obrigam a pensar,
Que nunca são claros até os sentirmos por instinto…Cento e cinquenta! Dentro!...Cento e cinquenta e um! Fora! Assim num repente…Toma e já está!
Na região periférica não conhecemos, não nos conhecemos…
Quem sou eu?...Quem és tu?....
Estatística humanóide, estereotipo orgânico, célula dispersa?...
Ramificação errante qual o teu delírio?
No húmus, no estrume, procuro a verdade.
Sou tenso no músculos, mergulho na merda.
Se matei alguém?...Não sei!
Sim , eu sei a tecla do mistério,
Desdobramentos, dezassete polegadas…Ou serão mais?
Cavalgo sem me verem,
Sou sem ser,
A electrónica do meu dedo dispara setas mortíferas.
Eu mato no ecrã!
Se não gosto, odeio….Mas não digo a ninguém….
Já me viram delirar?
Aqui estou eu! Eis a minha carta, a minha mensagem, a minha angústia via mail…
Finge que não me abriste…Não me leste…eu finjo que gostas…e choro….
2006-10-20
Hoje um poema

É chegada a vez de um poema, desacerto, lamento, confissão, vulgar desabafo, encontro no espaço…se ainda estiver livre…
A alma rende-se de novo ao improviso, à divagação. O ser narrativo que sou perde-se no deserto metafórico. Onde está o significado da palavra? Da palavra que me sai, balbucio, resmungo, assobio, grito, degluto…Todo eu sou ouvidos para essas palavras escritas em papel digital, virtual, como nos sonhos.
Todo eu tenso, músculos, cérebro, concentração na leitura, na viagem, nas descrições.
Que dizer dos adjectivos com que vestiram os substantivos?
Os substantivos que sou eu e tu…E todas as coisas…E tantas são elas!
Hoje um poema, daqueles que não rimam, que não concordam no tom, que desafinam no som.
Hoje aquelas palavras que me fazem sentir importante, que me fazem sofrer.
Diz-se da poesia o mesmo que se diz de Deus…Está em toda a parte, é omnipresente. Alguém mal disposto chamar-lhe-ia “Melga!”.
Quem a lê, lê quando lhe apetece, quem a faz segue outros procedimentos. A poesia é feita por loucos, mistura de sons e conceitos.
Chegou a vez de um poema…Eu acredito que sim. Um que conte o infortúnio lusitano, que nos prometa o futuro, nem que seja em castelhano…
…Existem sondagens…
Poderia ser um poema rebelde, sem origem nem destino, Easy Rider…
Letras formando palavras, correndo livres, montadas numa caneta transformada.
Alterei-lhe a capacidade do deposito de tinta, modifiquei-lhe o aparo de modo a diminuir o atrito, prolonguei-lhe o tamanho e dei-lhe cores matizadas, metalizadas, modernas…Isso existe?...Sei lá!
Tenho tudo o que preciso, sou louco, não controlo o que escrevo e deixo-me levar pela mão.
O poema acabou…Acabei de o escrever…O lamento, a confissão, tudo foi dito.
Hoje foi assim!
Amanhã?...
P.S. Um bom fim de semana, um texto e um céu alentejano.
(foto: no quintal...)
2006-10-19
SE SAIR PARA A RUA NÃO BEBA!
Joel hoje não sai. Acabou o curso há um ano e está desempregado. Tem poucos vícios, um deles é o haxe. No quarto, de janela aberta, fuma “um” enquanto o som da aparelhagem passa Red Hot, um dos primeiros álbuns…E porque não o nome da música…”True Men Don’t Kill Coyotes”.
José fecha o jornal e decide ir até à sala. Senta-se ao pé da mulher, rotina que nunca abandonou. Na televisão uma telenovela de um qualquer canal, um homem dirige-se a um pequeno bar de sala e enche um copo com uma substância ambígua cor de tisana. A personagem masculina fala com uma mulher que decide também encher um copo. Ambos bebem da idêntica mistela. José pensa! Estão sempre a beber…Tanto que eles bebem…E dá-lhe sede…Levanta-se e vai encher um copo…Pelo menos isto eu sei o que é. Noutra sala, noutra cena, vários personagens numa festa, bebem! Raio de telenovela…
Maria está quase a dormir mas permanece atenta ao som, às vozes que saem da televisão, às vidas fingidas que lhe trazem as emoções que a sua não tem. Percebe a angustia da separação que decorre no ecrã e torce por ela, pela liberdade que ela está prestes a adquirir. Apercebe-se da tensão dramática quase sem ver.
Joel acabou de fumar e continua a ouvir música, Primus, “Frizzle Fry”. Está sentado defronte a uma consola de jogos e manobra uma personagem especialmente agressiva, mistura em partes iguais de detective e carrasco. O jogo corre-lhe bem e o animal percorre as salas de um prédio abatendo tudo o que lhe aparece à frente, sai por uma vitrina fazendo voar mil estilhaços e entra num carro fugindo a alta velocidade.
Após quatro digestivos José sente-se confortável e olha para Maria que está de olhos fechados, percebe pela respiração que ela ainda não está a dormir.
O assassino continua a matar no vídeo game.
A nova lei impede a circulação na via pública aos indivíduos que tenham consumido substâncias susceptíveis de provocar alterações do comportamento.
Ainda pensou em comprar uma pequena quinta no campo…Mas não tinha dinheiro e ainda lhe faltam muitos anos de trabalho.
A explosão é repentina, ficou-se mais tarde a saber que foi provocada por uma fuga de gás. Apenas o Joel sobreviveu. O seguro recusou-se a pagar devido a uma cláusula que impedia o consumo de substâncias capazes de provocar incapacidade de manutenção do bem segurado….Na carta de resposta vinha a lista dessas substâncias…
P.S. É tão fácil perder direitos numa democracia…Basta que os argumentos venham revestidos das melhores intenções…Com os melhores pretextos vamos cedendo…estamos numa de aborto…E do preço da electricidade…E…Um abraço…
2006-10-15
Fátima... E as pessoas

Não foi a fé que me moveu mas sim a amizade. A amizade por alguém que nos acompanhou a Cuba com uma gravidez de sete meses. Correu tubo bem e eu desconheci a promessa até que há dois meses me foi revelada. "Paulo! A Lénia prometeu, mas queria que fossemos todos.", todos significava os que tinham estado em Cuba, em Outubro do ano passado...Entre furacões.
Eramos sete...Fomos oito...Entretanto a Rita nasceu. Óptimo fim de semana, entre peregrinos e pessoal em descanso. Revi Fátima, Batalha, Alcobaça, Nazaré e Caldas da Rainha, pelo meio ficaram um sem número de pequenas terras que o nosso povo teima em habitar.
Tirei algumas fotos e reparei que em Fátima só as pessoas tinham sido o alvo da minha objectiva. A esses modelos anónimos e involuntários eu agradeço e peço desculpa pela ousadia.



A todos voçês uma boa semana...E o meu olhar sobre as pessoas, em Fátima.
P.S. A última fotografia está cá porque eu não resisti...
2006-10-12
O Castelo

Estranha pedra preciosa,
Nasces para brilhar,
A sede fez-te vir para lugares escuros,
Lugares onde a luz é regateada,
Vendida no mercado negro das trevas
Vésperas de sábado. O dia promete ser brando, não mostra o sol mas não esconde a luz. Nas ruas o movimento é calmo, fluxo preguiçoso e disperso.
Aproxima-se da janela, deixa-se estar, protegido pelas cortinas que permitem a passagem difusa da rotina lá fora. Ao de leve, com dois dedos, afasta-a o suficiente para mostrar um dos olhos, o esquerdo. É essa visão nítida que o convida a sair. Convencido o espírito o corpo obedece, lava-se, alimenta-se, apruma-se e sai. Leva consigo o espírito que decidiu.
O terreno está livre.
Espera pelo ardor da batalha.
Não se vêem exércitos…
Apenas o silêncio.
O Outono deixou a sua marca, a brisa marítima que atravessa a planície e chega à serra vem saturada, água que se prende ao rosto, à roupa, mas que a temperatura não deixa ser desagradável. Caminha pelo empedrado que preenche a parte velha da cidade. Sobe a rua do Algarve, atravessa o Largo Alexandre Herculano e vira à esquerda pela estrada que circunda o castelo num trajecto de três quartos de lua…Três quartos de paisagem que quase chegam a Tróia…
No castelo moram os meus familiares.
Mortos de outras batalhas,
Feridos de outras guerras.
Jazem, juntos, aos pares.
Vai parando entre campas, entre muros, entre saudades eternas. No recatado sossego destas pedras centenárias apenas aquela mulher de preto desconvoca o silêncio, agrada-lhe ouvir-se gemer. Já a conhece, trocam olhares cúmplices de desgosto, hoje não haverá conversa. Junto à lápide conversa com a mãe, conta-lhe da semana e da nova namorada que ela havia de gostar de conhecer. Dá um beijo ao pai e outro ao irmão mais velho. Do que foi a tragédia lembra o acaso que o deixou vivo. Uma lágrima para a tristeza, outra para a saudade e outra pela felicidade de ter sobrevivido.
Caminho ao largo,
e o som vem dos bosques,
e a erva grisalha do Verão,
manchada de sangue amargo,
relembra-me as vozes na rádio,
a notícia fresca de morte,
algo que não pode ser pago.
Que belo dia…Feriado…Vou telefonar à minha Joana!
P.S. A história não é verdadeira, mas o castelo é…E tem lá dentro o cemitério com as gentes da terra. (Santiago do Cacém)
2006-10-07
Romançe Poético
Do tamanho das estações a chuva chega,
Amarela-se o ar que nos envolve.
Ocre melancolia.
Na manhã que não dormia tudo é húmido.
A cidade transpira,
Condensa nos seus poros as vidas que nela respiram.
Ruas atrás de ruas.
No meio das rectas os pontos de referência,
As margens dos caminhos,
As direcções memorizadas.
O largo abre-se em recantos familiares.
No café a manhã é deserta,
Como quem faz o pequeno-almoço a um filho.
Ontem o filho não dormiu em casa.
O pai que o espera não é seu pai…
E não sabem…A mãe sabe mas não diz.
Depois as pessoas
As cãs marcam-lhe a idade.
O corpo que foi ágil desiste nos embates confortáveis.
A mulher não é a mesma,
Nunca foi a mesma.
Já não o procura,
Mas também não procura os outros…
…Os cheiros que ela trazia…
Tudo por amor,
Um destino sem dor,
Pelo calor nos lençóis…
…Não dorme sozinho…
Feita de traços perfeitos,
Legou-os no ventre ao seu filho.
Mãe adolescente, mãe carente,
Mãe de sonhos desfeitos.
Filho de mãe conhecida,
Conheceu no pai aquele homem.
Ó mãe porquê?...Tantos homens…
Ó pai porquê?...Tu és mãe…
Interlúdio sentimental
Aquele que lhe chamava pai já não existe.
Rendeu-se à distância, à vergonha.
Sim…Sou eu o pai,
Mas ele não quer que se saiba.
Por fim os factos
O assalto correu mal.
Duas balas prostraram-no no chão.
A ambulância demorou uma hora,
O médico legista, três.
O telefone tocava,
Os sedantes, amorteciam.
A voz do outro lado espera.
A mulher dormente não ouve.
Foi o homem que saiu a correr…
…Veio da cozinha…
Foi o homem que levantou o auscultador…
…Tremendo-lhe o gesto…
Foi ele que primeiro chorou,
Para dentro,
De dentro,
Sem sair.
Saíram atrasando os movimentos,
Num vagar de quem não quer…chegar…
Não havia urgência,
Nem urgência teria de haver.
Quem vai identificar um corpo,
Tão depressa não vai esquecer.
Na corrente sanguínea,
Morre o sedativo,
E a mulher que não sentia, sentiu,
E sofreu,
Pelo filho a quem escondeu…O pai!
Conclusão
Foi a morte,
O desgosto,
A sorte,
O destino,
A sensação de solidão,
O acaso genético,
O impulso eléctrico
O dedo feminino de Deus,
O que a fez finalmente,
Amar aquele homem?
Homem que sem ser pai se fez Pai,
De um filho que fez Filho,
E que chorou como se fosse dele.
P.S. Um Poema urbano...De amor! Bom fim de semana e até daqui a uma pausa...
2006-10-05
Anónimo
Se atado a uma cadeira,
Alucinando num quarto
Me alugo e me vendo,
A culpa de que me acuse,
A qual sempre julguei minha
Não é mais do que a ressaca,
A secura da manhã
O mau estar constante de quem nunca descansa….
Se amordaçado a um qualquer deus
Nunca me ouviste gritar,
Se vendido te denuncio,
É do pesadelo que falo,
Do inferno e do fogo.
Se privado da palavra
Me fechei em grades,
Se danado com falsas verdades
Matei e não chorei,
Então tudo valeu a pena….
2006-10-01
Noites
Leves os rosas nas maçãs do rosto, o adivinhar do sangue por debaixo da pele branca, o toque trémulo dos dedos sentindo o relevo. Os efeitos da luz matinal projectam-se na parede desafiando as cortinas, brincando com elas…Os corpos ainda se encontram juntos, membros baralhados, dispersos nas sombras. Dormem, adivinha-se o respirar, breves sopros de vida…
Conheceram-se ontem. Souberam o nome para se poderem chamar, confirmaram as músicas que estavam a ouvir e falaram. Confessaram tudo o que o álcool quis e dançaram. Nunca a pista e a multidão os conseguiu separar. Agarrando-se com os olhos largaram-se na frenética corrente misturando suores e contactos.
Ela foi com três amigas. Não levou carro. Tinham jantado num restaurante Italiano, daqueles com bandeiras e alusões despropositadas. Beberam vinho tinto e disseram mal de toda a gente…Bem, não disseram só mal, também fizeram alguns julgamentos. Ela não leva aquela regateirice muito a sério, é só para descomprimir. Ainda foram a um bar, foi ai que se libertou…
Todas as semanas espera por estes dois dias, melhor dizendo, duas noites. São cinco dias a trabalhar e dois para rebentar. Já não é muito novo, por isso adquiriu algumas rotinas de conservação. Só o Daniel sabe desse facto, amigo desde sempre para ele não há segredos. Vai com quem calha, já não são muitos os resistentes….Nem sempre leva carro. Hoje levou, arranjaram-lhe algo branco não precisa beber…Talvez…
De manhã nenhuma memória que leve ao afecto os mantém abraçados, apenas o acaso dos corpos procurando conforto, calor. Nenhum sinal de preservativo, confiança total no acaso.
É ela quem acorda primeiro, estranha o contacto, estranha a boca seca, a garganta colada, mas não se mexe. O corpo cansado recusa movimentos, o relaxamento é total, menos a cabeça. Espera um bocado, não sabe quanto, até a bexiga a obrigar a levantar-se. Não está em casa…É a casa da Luísa. Onde estará a Luísa? Tropeça nas roupas espalhadas pelo chão, entra na casa de banho, senta-se na sanita e fecha os olhos…Sente-se adormecer.
Ele também já está acordado e olha aliviado para um soutien. Leva a mão ao sexo fazendo-a descer lentamente até aos testículos, acto reflexo, como se o mundo todo estivesse ali e agarrá-lo o segurasse eternamente…”Esqueci-me!”
Nunca se tinha preocupado com questões de segurança até ao dia em que acordou com um homem. Desde então, em dias de maior desatino, a primeira coisa que faz ao acordar é confirmar a companhia. Começou a usar preservativo para proteger as amantes. Em relação a ele preferiu não saber, cruz que carrega com dificuldade. Faltou-lhe a coragem para ir fazer o teste, chegou a estar à porta do Hospital mas não entrou.
Ela nunca percebeu porque fugiu aquele homem. Saiu da casa de banho ainda a tempo de ver a porta fechar-se…Não teve reacção…”Será que não aprendo…”.
À noite telefonou à mãe. Não lhe contou nada sobre o assunto mas foi como se tivesse sido purificada…Efeito materno da origem.
Foi deitar-se mais descansada prometendo a si própria que iria ao médico.
P.S. A hora tardia faz-me mal e leva-me por essas noites…
