2021-04-25

2021/04/25 10H39

 2021/04/25 10H39

 

Dois mil e vinte e um,

Abril, dia vinte cinco,

Domingo.

São dez horas da manhã e devia sentir alguma coisa.

 

Passaram quarenta e sete anos pela data.

Passaram cinquenta e seis por mim.

Algo passou, foi o tempo.

Eu mato esse tempo para poder recordar,

Como se fosse hoje.

 

 

 

 

A criança sentada no sofá da sala.

O olhar silencioso desvendando o silêncio da mãe.

Uma lágrima solitária desce apressada após uma breve hesitação.

A lágrima repousa no canto da boca.

A criança lê os sinais,

Lê a lágrima pura e cristalina da progenitora,

Lê-lhe o canto da boca,

O risco que se eleva,

O quase sorriso.

A aparelhagem sonora que é rádio e gira discos hoje é outra coisa.

 

Não me consigo recordar das palavras,

Do verbo dos homens da rádio,

Da música que saía pelos altifalantes.

Passaram quarenta e sete anos,

E eu era tão novo.

Quero acreditar que a minha mãe me abraçou.

Quero acreditar que abraçada a mim chorou de alegria,

Pelo fim da guerra,

Para poder esquecer aquele dia em 73 quando três homens bem vestidos lhe tiraram o marido.

Três dias durou a ausência.

O desassossego, esse perdurou.

Talvez acabe hoje, naquele dia, há quarenta e sete anos.

 

Era ainda noite quando o telefone tocou.

Não me lembro do telefone mas sei que ele tocou.

Sei que do outro lado o meu pai avisou a minha mãe.

Não posso sair…Um golpe de estado…Tropa à entrada da refinaria…Liga o rádio…

Terão sido essas as palavras?

Não sei…

 

Gostava de lhes perguntar,

De confirmar a veracidade deste passado.

Hoje, juntos onde se encontram, não me podem responder.

Hoje comemoram sozinhos o seu aniversário,

 

E eu, o que comemoro eu?

Sem sombra de dúvida que comemoro a liberdade.

Haverá algo mais a comemorar?

Necessitarei de mais palavras?

Penso que não e mesmos estas poderão ter sido desnecessárias.

 

Aos homens e às mulheres que possibilitaram o 25 de Abril um grande obrigado.

A homenagem possível é uma promessa que não pode ser quebrada.

Preservar a liberdade não é coisa pouca e nem todas as pessoas a entendem da mesma forma.

Poder escrever estas palavras e não ser incomodado é quanto me basta hoje.

 

Amanhã será outro dia…

2021-03-24

Apenas um sonho como tantos outros

 Encontro-me envolto numa substância aquosa. Não me sinto desconfortável. Aparentemente o meu corpo adaptou-se ao meio e com gestos fluídos faz-se deslocar de maneira célere.  Poderia dizer-se que nada, de tal forma a deslocação é eficiente. Tomo agora consciência que a minha deslocação é feita debaixo de água. Forço a apneia e agito pernas e braços de forma harmoniosa. Terei eu um destino pelo qual valha a pena o esforço...penso que sim visto que, apneico, mantenho um rumo direito e objetivo. Sinto-me observado por alguém no exterior. Procuro não me abstrair e foco-me na respiração. Tenho uma respiração controlada, mesmo debaixo de água. Penso, isto não devia acontecer, eu não devia ser capaz de respirar. Os meus pensamentos são abruptamente travados por uma parede, aparentemente, intransponível.

Estou cá fora e o que eu julguei ser um mar não é mais que um grande tanque em cimento no meio de uma seara verde. A seara tem quase a minha altura. Apercebo-me da minha nudez e envergonho-me. Que maçã terei eu mordido...estou só, tudo à minha volta é verde e o tanque desapareceu. Caminho sem destino sentindo nos pés torrões de terra seca e morna. Primeiro devagar, depois cada vez mais depressa. Sinto as espigas fustigarem-me o corpo. Por alguma razão que desconheço tenho uma agradável sensação de calor. Olho para o céu e deslumbro-me com um sol de meio-dia pintado por uma criança de cinco anos, um sol vertical e sem sombras. Descortino ao longe uma casa branca. Imagino-a caiada porque a cal me devolve a mocidade e o meu pai.

Estamos os dois numa clareira de um grande quintal. No centro desse quintal uma figueira distribui os seus ramos repletos de folhas de forma equitativa e uniforme. A sombra que estes projetam assemelha-se à de um alpendre. Junto ao tronco da árvore está um bidon ao qual cortaram o tampo. Lá dentro grandes blocos de cal imitam icebergues num mar branco e revolto. O meu pai segura um bastão de madeira e com ele provoca remoinhos lentos fazendo soltar gases desconhecidos. Sinto o cheiro a figos e a merda de galinha. Já não vejo o meu pai e agora sou eu que seguro o bastão numa pose de imitação disfarçada.

Os meus olhos perdem-se no branco da cal. O branco da cal, a principio difuso, começa a definir  granulados. São granulados familiares, rugosidades conhecidas, que cercam por completo o meu campo de visão. Os granulados revelam-se uma parede, a parede revela-se um quarto e o quarto diz-me que acordei...   

2021-03-22

Lugares sagrados (As Pedras Brancas)

O carro sai da estrada de asfalto e segue por um caminho secundário de terra batida. Afasta-se da via principal envolto numa nuvem de poeira. Dirige-se para uma pequena mata na orla do Grande Pinhal. O Grande Pinhal é um lugar de redenção, simultaneamente adorado e temido como acontece a muito do que é sagrado. O carro imobiliza-se junto a uma clareira na qual jaz uma pedra branca.  A pedra tem a forma de meia esfera com um metro de raio e ocupa o centro da clareira. Do carro saem quatro pessoas que circundam a pedra. As sombras são quase inexistentes o que num dia soalheiro indicia a proximidade  da hora que divide o dia ao meio. As quatro pessoas colocam-se de forma equidistante ao redor da pedra. O grupo não é homogéneo sendo composto por dois homens e duas mulheres de idades e raças distintas. Dos dois homens um é jovem, de raça negra, feições angulosas e cabeça rapada. É muito alto e o fato negro que enverga fica-lhe justo e mal lhe esconde a compleição atlética. O segundo homem é o seu oposto. É branco, baixo, de idade avançada, o cabelo fraco e ralo cai-lhe sobre os ombros e a cabeça revela uma coroa generosa de pele alva ligeiramente corada. Também veste um fato negro que lhe faz sobressair o abdómen proeminente, indicador de uma sedentariedade bem consolidada. As mulheres são ambas elegantes e os seus vestidos, também negros, emprestam-lhes um ar de dignidade aristocrática. Têm mais ou menos a mesma altura e esta é mediana no que toca à estatura feminina. As diferenças revelam-se na sua idade e origem racial. Uma, muito jovem, tem traços vincadamente asiáticos e o aspecto frágil de uma boneca de porcelana, lábios finos, nariz pequeno e ligeiramente arrebitado, orelhas bem desenhadas que os seus cabelos, de um negro profundo e apanhados atrás da cabeça, fazem sobressair revelando uma proporcionalidade quase perfeita. A outra mulher é caucasiana, muito branca, maçãs do rosto salientes e bastante coradas. Os olhos são como o reflexo do mar num dia sem sol. O azul acinzentado que apresentam contrasta de forma peculiar com a suas faces coradas dando ao conjunto uma sensação bizarra que tanto pode ser de afectuosidade como de frieza. O seu cabelo loiro exibe algumas cãs que não se distinguem sem uma observação cuidadosa. 
No seu conjunto e observados à distância todas estas diferenças se diluem e o que sobressai é o contraste negro das suas roupas e a alvura da pedra que eles cercam. O Grande Pinhal por detrás apresenta-se como o toque decorativo num cenário de teatro e só vem realçar a estranheza da situação. Poderia dizer-se que o Grande Pinhal, com toda a sua carga esotérica, estaria a validar os actos deste grupo tão peculiar mas, com um olhar mais atento, percebemos que também ele é testemunha e, tal como nós, não tem poder sobre a acção que se vai desenrolar.
  Durante algum tempo as quatro figuras negras deixam-se ficar estáticas, braços caídos ao longo do corpo, cabeça levantada em direcção à pedra. Num repente e de forma simultânea, aproximam-se da pedra. Primeiro com a mão direita, depois com a mão esquerda, deixam que estas repousem sobre ela. Após breves segundos de contacto a pedra eleva-se, ligeiramente e sem ruído, do solo.
Tão simultâneamente como as colocaram, as quatro figuras negras retiram as mãos e afastam-se até à posição inicial. A pedra mantém-se suspensa durante algum tempo. Depois, silenciosamente, eleva-se até que a sua alvura se confunde com a luz do sol e desaparece no céu. Nenhum dos participantes desviou o olhar para observar o fenómeno. Voltam ao carro fazendo o trajecto contrário até à estrada asfaltada. O carro afasta-se em velocidade moderada até desaparecer no horizonte luminoso que faz de cenário a este dia de verão.

2021-03-18

Despedida I

  Procuro uma resposta como se fosse importante. Procuro uma resposta porque é importante. Se não fosse importante não doía tanto. Dura à cinco anos a minha despedida. Começou numa manhã de Janeiro, uma manhã solarenga e morna, uma manhã fora de época. Começou com um telefonema, um apelo, um grito de socorro sussurrado ao ouvido, Paulo, podes vir cá, Sim Pai, passa-se alguma coisa, Vem cá que depois falamos. Desliguei o telemóvel e fiquei suspenso. Senti urgência em saber, senti angustia sem lhe conhecer a razão. Durante os últimos anos, os anos em que o meu Pai ficara só, fruto do divorcio que o separou da mulher com quem casara após enviuvar da minha Mãe, que eu pressentia desgraças quando o telefone tocava e ele não estava presente. Mas quando atendia e lhe ouvia a voz, a minha alma repousava suavemente nas suas mãos. Nessa manhã de Janeiro isso não aconteceu, nunca mais aconteceu.

  Nessa manhã morna e solarenga saí de casa com o coração nas mãos deixando apenas espaço para segurar no volante. Toquei à porta do prédio e subi as escadas galgando lanços até estancar à porta do 1º E. A porta ainda estava fechada e eu controlando a respiração bati suavemente com os nós dos dedos na madeira, És tu Paulo, Sim, sou eu Pai, podes abrir. O meu Pai ainda estava de pijama e tinha um ar cansado e ao mesmo tempo assustado, Preciso falar contigo. Fechei a porta e segui-o até à mesa da sala de jantar. Paulo eu aceito a tua ideia, corriam-lhe lágrimas pela cara, fiquei desarmado, abracei-o e chorei com ele. O que ele aceitava era a ideia que eu lhe sugerira de ele ir para um lar. A doença avançava rápido e com o meu trabalho não havia muitas soluções disponíveis. Almoçamos juntos, eu, ele e a neta que fui buscar à escola. Um almoço de silêncios que só eu e ele compreendíamos, um almoço que ela estranhou, mas que foi diluído nas preocupações normais de uma adolescente.

Sim, foi assim que começou a minha despedida...  

Manual de lembranças I

 Escoa-se em mim o tempo de ser. Levantei-me todos os dias e todos os dias perguntei porque me levantei. Comecei novo e nunca mais parei. Primeiro na mercearia lá na rua, aproveitando a distração do Zé Monge, perdido nos peitos da vizinha. Uma mão no saco de rebuçados, apanhando o que vinha à mão, um olho no Monge e outro nos mamilos que se empertigavam contra a camisola de lã. Trazia de lá com que adoçar a boca e a noite. Nas férias da escola, quando o Liceu estava fechado, o pequeno vidro partido escondido por detrás de uma badana de cimento, simulacro de uma persiana gigante deitada sob o lado esquerdo. Já com doze anos mas ainda cabia por aquela nesga de dentes afiados. Os chocolates na prateleira e os refrigerantes na grade valiam bem a camisola rasgada e o corte no braço. Na papelaria, onde o cheiro a tinta das revistas me deixava sem folgo. A dona Fernanda preocupada com o jornal do Sr. Doutor, num sorriso branco, ligeiramente rosado por causa do baton vermelho, num contraste de branca de neve com a sua pele. Sabia que não podia chegar aos cromos, demasiado distantes e protegidos pelo corpo robusto de dona Fernanda, mas os livros da coleção RTP ficavam desprotegidos, a capa branca e desengonçada, Albert Camus , "A Queda", nº 39 , ecrã azul num debrum televisivo verde alface e azul gaiato. A dona Fernanda tinha seios enormes, mas a cara desagradável que dedicava aos miúdos do bairro estragava qualquer fantasia. A papelaria Nanda, onde eu comprava religiosamente a revista Tintin. Doze e quinhentos de aventuras em continuação, Blueberry, Corto Maltese, Jonathan, heróis de liberdade infinita, liberdade que eu desejei sem nunca alcançar. Nem todos somos talhados para seguir as pegadas dos nossos heróis. Segui outras liberdades na instabilidade dos finais de setenta. Distribuía panfletos do Movimento de Esquerda Socialista porque a sede ficava ao pé de uma pastelaria e porque a malta que lá parava era simpática para os "putos". Os homens do partido tinham a barba e cabelo grande. As mulheres, lindíssimas, tinham o cabelo escorrido e sem maquilhagem e eram pouco mais velhas que eu, talvez uns cinco ou seis anos, o que para os meus catorze significava uma barreira intransponível. Eram Deusas, as primeiras que adorei...

Comecei novo e nunca mais parei...Mas hoje paro por aqui...

2020-09-16

Perguntas e respostas sem nexo

O imenso céu de chumbo verte cinzentos sobre a alma.

A alma afoga-se em vermelhos absurdos enquanto tudo arde.

Tudo o que arde tem um fim. O fogo eterno é uma mentira.

A mentira faz parte do cenário.

O cenário revela a mentira ao contrário.

O contrário procura o seu oposto numa ânsia de equilíbrio.

O equilíbrio desloca-se impulsionado por razões numéricas.

As razões numéricas são aleatórias, dependentes de múltiplos factores incontroláveis.

Os factores incontroláveis vertem-se perversos no imenso céu de chumbo.

A alma afoga-se.


Pergunta:

Qual a cor da chuva que cai num dia cinzento

Resposta:

Cinzenta

E o mar que a liberta evaporou-a da cor do céu, dias antes, quando tudo era azul e o sol brilhava. 

Nesse dia a alma negrava-se e os amantes amavam-se.

Amantes novos penetravam-se,

Amantes experientes tocavam-se,

Amantes velhos pensavam no seu amor,

E enquanto se amavam, choravam por saber que o amor nunca é eterno.


Pergunta:

Qual a cor do amor com que se ama num dia cinzento?

Resposta:

Cinzento

As almas que o criaram beberam da luz branca e transmutaram-se em prisma. 

As almas que o criaram verteram-no em infinitas cores quando tudo era azul e o sol brilhava.


A alma arde.

Pergunta:

É fogo que se vê 

Resposta:

É fogo que arde

Há dias em que se vê 

Outros há em que se oculta enquanto tudo arde à sua volta.

Não é fogo de apagar e não é eterno.

É um fogo que morrerá quando tiver consumido toda a alma, combustível da sua existência.


A eternidade é uma mentira piedosa 

Pergunta:

Porque é  a eternidade uma mentira

Resposta:

É uma invenção do racionalismo humano

É uma invenção do nosso medo

Uma defesa, um segredo,

Um antivírus da idade,

Uma segunda oportunidade.

O espaçotempo é sempre tão pouco

Falta sempre qualquer coisa,

Falta cumprir o que fomos inventando.

Quando deixamos de inventar morremos precocemente.

A eternidade é a mão que sustem os sonhos. 

É a verdade oculta na mentira da nossa existência.


Pergunta:

Quem criou o cenário 

Resposta:

Quem criou o Homem foi o homem

Antes o homem era bicho 

Consubstanciou-se com a sua criação e tornou-se Deus

Juntou todos os poderes num só 

A mentira e a verdade são as faces de uma única moeda

Ao mesmo tempo objecto de culto e pagamento

Vivemos num cenário onde a moeda única se desmultiplica

Em versões credíveis de pagamento.


Pergunta:

Se eu despir a mentira que tenho em mim, fico com a mentira ao contrário 

Resposta:

Se tu vestires a verdade ao contrário ficas com a mentira que tens em ti

Tu nunca poderás despir a tua pele

Somos o que somos e o nosso oposto

Somos o que somos nos momentos que escolhemos para ser.

Escolhemos o que somos porque escolher é viver

E viver pode ser uma mentira cheia de verdades

Ou uma verdade cheia de mentiras


Pergunta:

E o equilíbrio

Resposta:

É um balanço controlado

Uma tentativa de anular a gravidade

Anular a existência quase não existindo

E nessa não-existência passar sem visto

O equilíbrio é uma não acção.

Quando atinges o equilíbrio a não-acção é a totalidade do teu ser.

As acções que tendem para o equilíbrio têm como objectivo a não-acção

O paraíso eterno é um equilíbrio total

A morte, até ver, também poderá ser uma forma superlativa de equilíbrio.

Convém manter algum desequilíbrio para nos sentirmos vivos.


Pergunta:

Quais as razões numéricas para a nossa existência 

Resposta:

As razões numéricas provam a nossa extinção muito mais que a nossa existência 

A razão é simples

A compreensão do nosso mundo assenta na utilização de números para se poder provar

A ciência que prova, primeiro escreve a hipótese, depois cria a fórmula e no fim cria o postulado. 

Depois, uma mão de mãe cuidadosa mói tudo num creme de fácil digestão e faz-nos digerir a mistela ao som de coisas alegres e bonitas.

Uns comem melhor que outros, outros não comem.

Uns habituam-se à papa e não querem outra coisa, outros querem saber como se faz a papa.

Todas as razões numéricas dizem que não somos viáveis. O expoente da nossa existência é incompatível  com o nosso mundoconjuntofechado.


Os factores incontroláveis vertem-se num rigor profético

Pergunta:

Porque são incontroláveis os factores

Resposta:

Porque são as ferramentas do nosso Deus consubstanciado

São arma e defesa, justificação e promessa

Salvam a alma que se afoga e no mesmo processo deixam-na afogar-se

E a alma afoga-se em cinzentos sob um céu de chumbo.



2020-06-19

Despedimento


 

Despedimento.

Despem-me da carne a pele,

a alma e o sustento.

O pouco que sobrou de mim

negociado numa mesa e o fim

anunciado no momento.

Quer, não quer, é o que há.

Hoje posso amanhã quem julgará

Não pense que eu sou o que sou,

Considere-me a voz do desengano,

nova oportunidade ou alento.

Sou porta voz de um jumento

em fim de ciclo ou novo ano.

 

 

 

Noites houve,

que a semana não contou,

em que a minha vida desfilou

pelos meus olhos cerrados.

O meu número num cartão,

e o meu nome num borrão,

são prova do que passei,

fragmentos do que fui e do que sou,

restos do que sonhei

pedaços de mim espalhados.

 

Hoje entrei,

tingindo de rosa o pudor.

Trespassei o corredor

Lembrando como cheguei.

Sinto a mão que me empurra

mas não lhe tenho rancor.

Trago um alívio de dor,

por tudo aquilo que eu dei.


2020-02-01

O Rio




O canal de águas barrentas transmuta-se em visão onírica.
Dissimula-se cobrindo o seu leito com um véu negro onde se perdem, infindas, as luzes da cidade.
Criaturas apaixonadas perdem-se e apertam-se no encanto da sua cinesia.
Águas geladas recebem-lhes os gestos e as palavras não ditas, reprofundando dentro de si a confidência de loucas promessas.
As cores que a cidade derramou no rio deixaram de lhe pertencer.
Diluídas, são obra involuntária, produto de casualidade, mesmo que a origem lhe seja indiferente e que a mão sábia do homem as tenha inventado.
Na manhã o inverno devolverá o barro ao rio, a cinza e a sépia às fachadas húmidas, a nudez crua do que é desvendado áquele que acordou.
Vemos então o canal que molda a água escorrer formas.
Quando de negro se transmutar novamente serão elas os amantes e os filhos do seu leito, escravos do seu peito, seus eternos e noctívagos navegantes.


2019-12-24

Carta aberta ao Pai Natal


Carta aberta ao Pai Natal

Meu caro Pai Natal nem sei por onde começar. Tive dúvidas no título e hesitei na “carta”. Poderia ter-lhe chamado email ou mensagem ou outra coisa qualquer mas achei que isso não tinha importância, desde que estejas disponível para ler estas sinceras palavras, o nome é apenas um nome e tu não te prendes com tais irrelevâncias.
Também tive dúvidas sobre o conteúdo, essas mais graves e de difícil resolução mas, como sempre tentei ser honesto, vou começar pelo meu comportamento. Sou um filho incompleto e a prestações. Depositei o meu Pai num lugar onde filhos incompletos como eu depositam os seus pais. Faço duas visitas semanais mas sinto-me culpado por não o ver todos os dias. O trabalho, as rotinas, a doença que lhe tomou conta da memória e não o deixa lembra-se de mim, o descanso de que necessito e mais uma mão cheia de outras desculpas servem de justificação para uma tão fraca assiduidade quando na realidade, o que me custa é vê-lo desaparecer lentamente. Sei que quanto a isto não podes fazer nada, a vontade é minha e a vida a Deus pertence, portanto o que te vou pedir é mais à tua medida.
Amanhã, dia de Natal gostava de ver o meu Pai barbeado e limpo, com roupa simples e asseada, sentado numa cadeira nova num quarto a cheirar a detergente onde uma cama em condições poderia fazer sonhar quem nela se deitasse. Gostava também de o ver pouco trôpego e com um sorriso nos lábios para podermos ir passear e ver o mar.
OK, sei que estás muito ocupado e que deves ter passado os últimos meses em centros comerciais e outros estabelecimentos do género de modo a suprir o teu stock de desejos e ambições. Também sei que já não tenho idade para acreditar em ti mas o que é que queres, também já não acredito em quase nada…
Desejo-te um excelente dia de trabalho, sem falhas nas entregas, atrasos ou imprevistos.
Um abraço deste gaiato crescido e cheio de imperfeições que muito te estima.
Até para o Ano


Jorge Saboga

2019-11-22

Verbalização Pictórica

 Abro a janela do meu quarto e respiro fundo. A tela está em branco e a paleta repleta de palavras. Começo pelo céu. Um céu nublado de nuvens gordas em camadas sucessivas, cinzentos que do claro ao escuro lhe conferem dimensão. É um céu que não oprime, antes liberta e seduz. O céu terá um ponto de referência, local onde os olhos procuram sem que tenham sido convocados. O sol nasce mas não se vê. Apercebemo-nos do seu parto. Captamos tonalidades sépias em gradientes radiais enquanto aguardamos o seu corpo, o seu calor, a sua indefinição luminosa que nos induz a noção de esfera apenas porque o desenhamos em círculo. Na contraluz matinal as formas surgem e eu coloco pequenas casas brancas, isoladas, térreas, pequenos sinais de vida adormecidos. Os últimos galos pigarreiam ladainhas de arrogância para galinhas ensonadas. Alguns animais invisíveis deixam nervosos os cães de guarda. Quem sabe se uma raposa atrasada ou uma família de javalis que ainda revolve a terra. Nada disto ficará registado, a invisibilidade e o som apenas poderão ser adivinhados. Depois das casas surge uma fileira de canas. Exército de lanças ao alto, perfilado ao longo de um curso de água. Logo depois um campo lavrado de castanhos escuros e sombras negras. Envolve-o um fino véu de pequenas gotas de água. Irei chamar-lhe névoa para que fique perceptível embora a mim me pareça a transpiração vaporosa de um corpo quente e húmido. Jogo as palavras na tela e de repente surge-me a transparência de uma camisa de dormir. Será aquela terra toda uma mulher adormecida. Sendo assim irei cobri-la com outra fileira de lanças, estas mais perto e porque mais perto, ondulantes. a seu pés percebe-se o correr da água. Tudo isto se passa num plano primeiro onde irei colocar um pássaro negro. Para lhe retirar a pose agressiva verbalizo-o no cimo de uma das lançascanas...oscilante. O pássaro negro, de asas abertas, procura o equilíbrio e com esse gesto perde a inquietante negatividade transformando-se num elemento ao mesmo tempo frágil e cómico. Dou as últimas pinceladas. Procuro corrigir algum erro de gramática, disfarçar alguma tonalidade verbal dissonante, dar coerência ao aleatório da tela. Não sei se consegui...

2017-11-27

Carta para o meu irmão desconhecido

O abraço é grande e o tempo que me sobra é incerto. De Novembro a Novembro passou um ano e eu não quero deixar passar outro sem te escrever estas palavras. São o que são e valem o que valem mas acima de tudo são sinceras. Pesam-me incertezas e o medo de ter falhado. Imagino um homem venerável e idoso. De olhar crítico e ao mesmo tempo indiferente. Traz numa mão o somatório do que fui e na outra um rol de dívidas por cobrar. Hoje alguém pagou as suas. Duas semanas de hospital não resolveram um coração cansado. Tanto trabalho para tão pouco descanso.
Tenho dormido melhor, acordo menos vezes durante a noite e já não fumo para adormecer. Não sei porque te conto estas coisas, mas o tempo voa e um dia pode ser tarde demais. Assim ficas a saber que a cama se tornou minha amiga e já não me tortura com aconchegos.
Ontem saí à meia-noite e perguntei-me porque estava a rega automática ligada. Pareceu-me estranho que na cidade deserta apenas nos repuxos aquíferos houvesse vida. A relva está viçosa e agradece este mimo autárquico. Ainda se pode pisar a relva, mas depois de ver gastar tanta água o gosto já não é o mesmo. Lembro-me de um familiar da ex-mulher do meu pai, aqui há uns anos, criticar esta “malta nova” por estar sempre a tomar banho. Segundo ele um banho por semana bastava. Na altura achei ridícula a observação, hoje acho ridículo o que eu achei.
Os dias estão cada vez mais pequenos mas eu tenho cá para mim que não é o Inverno que os anda a encolher. De ano para ano os dias vão ficando menores e o tempo escasseia para tudo. Sempre pensei que a lista de coisas para fazer fosse diminuindo. Pura mentira. A lista aumenta de dia para dia e coisas tão improváveis como a leitura de um livro deixam-me angustiado. Tanto que me falta ler, eu que continuo a comprar mais livros do que aqueles que consigo consumir. Hoje demorei uma hora a decidir-me por um. Cheguei à conclusão que perdi uma hora de leitura. Depois cheguei a outra conclusão, perco demasiado tempo a decidir-me.
Deixo-te esta confissão com a certeza de que te rirás de mim.
Faço votos para que esse sorriso te traga alguma alegria.
Abraço grande meu irmão desconhecido.

26 de Novembro de 2017


P. Guerreiro 

2017-11-25

Carta para ninguèm

Escrevo-te como se de uma carta se tratasse. Posso tratar-te por tu porque não te conheço, posso revelar-me porque nunca me dirás que me compreendes.
Lembras-te da última vez que cruzamos textos; eu escrevia e tu lias, tal como hoje o teu silêncio era meu companheiro e ajudava-me a passar o tempo. Passaram alguns anos e o sabor que trago nos dedos já não deixa impressões. Confesso que tenho saudades tuas, confesso que tenho saudades minhas. Na verdade já há algum tempo que não me vejo. Os anos passam e tudo o que eu deixei por fazer continua exatamente por fazer. Partiram mais alguns e o meu pai entrou num lar. Confessou-me a sua impotência e chorou e eu abracei-o sem o olhar, com medo que as suas lagrimas se juntassem às minhas e se transformassem num mar impossível de navegar. Já passaram quase dois anos e eu sei que não voltei a ser o mesmo. Nunca se volta ser o mesmo. Fiz cinquenta anos e não te disse nada, também não comemorei. Nesse dia chorava-se a morte de um primo, 36 anos de álcool e 48horas de hospital bastaram-lhe para a despedida. No dia que fiz cinquenta anos fui a dois funerais. Na altura não te disse porque não havia nada para dizer. As parcas palavras transformaram-se em gestos para consolar quem me era próximo.
Continuo destemido de garrafa na mão e troquei o álcool escocês pelo medronho caseiro e pelo tinto de 14 e meio. Enquanto o fígado resistir e não inventarem uma hepatite d por cá ficarei mais alguns anos. Espero que te encontres de boa saúde quando leres estas linhas. Dá cumprimentos meus a quem tu muito bem entenderes e se porventura, ou outra qualquer razão, te ajoelhares para rezar não te esqueças de interceder por mim que eu farei o mesmo por ti.
Não te quero incomodar mais.

Abraço grande e até qualquer linha.

24 de Novembro de 2017

P. Guerreiro

2015-06-09

A felicidade

Procura-se, constrói-se, adquire-se por procuração ou numa loja perto de nós? Qual o estado de ser feliz, quais os fluidos orgânicos que nos levam a esse êxtase? Posso eu acordar e bastar-me vivo para ser bafejado pelo seu toque, serei considerado minimalista ou pouco exigente? Conseguirei eu vinte e quatro horas ininterruptas de superior comiseração egoísta, de consolo permanente? Dependerá a minha felicidade de mim, apenas e só de mim, ou terão os outros uma palavra a dizer? E o tempo, consideração meteorológica, o sol, a chuva, o céu nebulado, o céu azul, serão eles apenas adereços prontos a ser desfrutados, lápis de cores, serão eles capazes de provocar felicidade, facilitar-lhe a vida? E o tempo, o outro tempo, que juntamente com o espaço nos confere dimensão, referência, ancora, nos situa e nos faz situar, foi antes, é agora, será depois ou nunca será, será esse tempo regenerador ou fator de erosão? Conseguirá a felicidade resistir a tantas questões, será ela racional, emocional, uma mistura em partes iguais ou uma formula secreta que se adapta e multiplica?
Porque não deixá-la aparecer e desaparecer, chegar e partir ao sabor de marés, limitarmo-nos marinheiros, aprender a navegá-la, saborear-lhe as nuances, os bons e os maus humores que lhe advêm da inconstância, do seu estado de constante volatilidade, permanência intermitente, que salpica as nossas vidas de sal doce.
Já assisti à sua procura, homens e mulheres dispostos a tudo nessa viagem alucinada. Vi homens e mulheres passarem-lhe ao lado por centímetros, outros chocarem com ela e nem a verem. Vi homens e mulheres que se decidiram pela sua construção e trabalharam todos os dias com ela ali ao lado, ajudando-os, fazendo-lhes a massa com que se unem os seus tijolos, vi esses homens e mulheres desesperarem por nunca ter a construção acabada, vi homens e mulheres chorarem, porque depois de acabada a construção, sentiram medo, o medo de a perder, o medo de ver a erosão destruir a sua obra. Vi homens e mulheres sonhá-la, desenhá-la, pintá-la, esculpi-la com mil cuidados, todos eles com medo de acordar. Vi homens e mulheres tentarem comprá-la, conquistá-la á força, sem nunca saber quando parar, sem nunca saber se realmente a tinham atingido, consumidos pela dúvida, esquecidos do que realmente queriam.
A felicidade é um conceito, comporta satisfação, êxito, contentamento, gosto, prazer, alegria, exultação, júbilo, regozijo, consolação, contento, bem-estar, deleite e muitos outros adjetivos.
Porque não aproveitar uma satisfação inesperada, um êxito ocasional, um contentamento genuíno, um gosto aprendido, um prazer antecipado, uma alegria ocasional, uma exultação esperada, um júbilo de conquista, um regozijo merecido, uma consolação pelo esforço, um contento pela vida, um bem-estar físico e natural, enfim, deleitarmo-nos com a vida, deixar sempre as portas abertas para que a felicidade possa entrar, para que a tristeza possa sair.
Ontem, na televisão, ouvi filósofos, escritores, advogados e outros pensadores. Ontem fiquei com uma certeza.
A felicidade não se escreve, não se diz, sente-se!

2015-05-09

Os segredos do Jorge

A noite tem segredos que não são dela, são nossos. Por vezes assusta-nos revelando-os. Será talvez a escuridão que transforma a sua pálida luz em brilho ofuscante, quase insuportável. Nessas ocasiões sentimo-nos expostos, nus. Uma nudeza crua que nos revela o interior ensanguentado. Podemos então chorar mas não é um choro de ocasião, é um carpir de fingimentos acumulados, fragmentos de histórias passadas, histórias às quais não conseguimos escrever um fim. São essas histórias que fazem a noite tão interessante, o sal que tempera a sua voluptuosidade. Quem não se descobriu na noite? A manhã, pelo contrário, é uma esponja de efeito anticéptico, absorve a nossa sujidade interior e elimina-a deixando apenas restos de nós. A cara cheia de rugas, os olhos inchados, a pele pálida e gordurosa, os músculos flácidos, os pulmões ressequidos, a vergonha do que mostrámos sem querer.
O Jorge foi deixando de sair à noite. Já não suportava o fingimento matinal, o voltar a ser o que não era, o que não queria ser. O Jorge desistiu de todos os sonhos. A escrita morreu no casamento, a pintura no primeiro filho, a música no segundo, quando todo o tempo de criar se acabou, finado entre o trabalho na fábrica e o cansaço da alma. A noite assusta-o. Por vezes, confrontado com convites irrecusáveis, cede a contragosto com a certeza do arrependimento, também ele certo. O susto persegue-o sem que ninguém se aperceba. Longe vão os tempos da recriminação. Não sabes beber, bateste outra vez com o carro, não te lembras do que fizeste, a vergonha do desconhecimento, versões múltiplas do seu medo.
Começava sempre da mesma maneira. A promessa de ser diferente estava condenada ao fracasso. Eterno fracasso, antecipado, anunciado, desde logo aceite como inevitável. O primeiro embate junto da mesa onde se acumulavam os pratos e os copos. Os copos que voltariam a encontra-lo, noutras mesas, balcões, superfícies planas que lhes permitissem a verticalidade. Os copos que se encheriam de diversas bebidas, de diversas percentagens, 5%, 14%, 30%, 50%, percentagens que subiriam e desceriam ao sabor da oportunidade, da companhia, da conversa, do desafio. No fim o mesmo medo, o vazio, a sensação vertiginosa do abandono, sozinho ou acompanhado sempre o mesmo abandono, o seu abandono.
Hoje o Jorge saiu á noite. Não fez promessas. O Jorge que desistiu dos sonhos escreve para si, toca para si, pinta para si e sente-se bem consigo. Não lhe apetece sair mas a noite é especial. Alguém que parte, que se despede, um companheiro de lutas, de desilusões. Perante estes termos seria de esperar um receio incontido, um desnorte descontrolado. Mas o Jorge já não tem ilusões. O Jorge morreu por dentro. No interior do seu corpo o sangue já não tem a mesma cor. As histórias inacabadas tiveram o seu fim. Por esse motivo o Jorge saiu descontraído, bebeu descontraído, despediu-se controladamente e foi-se deitar sóbrio.

A noite deixou de ter segredos para o Jorge e as manhãs passaram a ser todas iguais.

Deus queira que o Jorge não se canse de si...

2015-04-29

A lareira permanece acesa...

Dez de Novembro de dois mil e catorze, dezassete horas e dezanove minutos. Cheguei do trabalho. Entro em casa. A sala, fria e escura, recebe-me de braços abertos, num aconchego gelado de coisa morta. Um ligeiro cheiro a humidade paira no ar, lugar-comum para algo que se insinua, estado de presença, existência, não se impondo, fazendo-se notar. Um grito de alerta para o espaço imediato e para aquele logo a seguir, e isto significa ouvir-se em toda a casa. MARIANAA! E enquanto o nome ecoa aprumo o ouvido e sintonizo-me com os ruídos do silêncio, uma fração de segundos, uma fração que durou segundos, que me desesperou o tempo suficiente para nem chegar a ser tempo, tão ao de leve como a resposta, sim pai!
Já estás na cama? Estava com frio, uma pausa enquanto ajeita os lençóis, acomoda o corpo para se debruçar num caderno manuscrito, estavas a estudar? Vais ter algum teste? Sim, o último antes do Natal, de físico-química, o último, o primeiro de muitos, vou lá abaixo acender o aquecedor, porque é que não acendes antes a lareira.
Fui à casa de banho, depois fui à garagem e fumei um cigarro, quanto tempo demorei? Não sei, uns míseros cinco minutos. Peguei em três pequenos toros e numa caixa de acendalhas.
A lareira já está acesa, ouve-se uma guitarra e um baixo, aplausos, obrigado! Dead Combo, Live at Teatro São Luiz, começando com sopa de cavalo cansado, passando por quando a alma não é pequena, acabando num desabafo ai que vida, e o ecrã à minha frente, o ícone do Word insinuando-se, lembrando-me do atalho que criei vai para meses, numa tentativa frustrada de criar hábitos de escrita, um teclar constante e consciente, produtivo e independente de estados de humor, um exercício de construção com objetivo, um projeto acabado.

A lareira permanece acesa, eu entretanto adormeci…

2015-04-25

EU SOU!

EU SOU!

Eu sou a raiva que não posso,
A tristeza que me permito,
O desencanto que me venderam,
Um carrossel sem fim.

Eu sou o combatente sem arma,
O soldado de trincheira,
A latrina mal lavada,
Uma espada de madeira.

Sou a pedra que não fere,
A palavra que não diz,
A história que não se escreve
Os restos deste País.

Eu sou a morte renegada,
Uma flor sem cheiro,
Sou um todo que não é nada,
Quando não tem companheiro.

Sou a tristeza fingida,
Sou a alma inventada,
Sou a grandeza despida,
De liberdade comprada.

Sou um filho de más noites,
E a cova dos futuros.
Em mim morre tudo o que é sonho
Por detrás de imensos muros.


Grito sempre a horas certas,
E luto a horas marcadas.
Eu sou a espera dos outros,
Reflexo de manadas.

Eu sou os primeiros minutos do dia,
A confissão sem perdão.
Sou a vitória que adia
O destino da Nação.

Eu sou o que penso,
Quando me obrigam a pensar.
E de tudo o que me resta,
O que me falta chorar.

AH meu Vinte Cinco,
Meu cravo de florista,
Minha lembrança de livro,
Minha página de História!

O que serei eu amanhã,

Quando este dia passar?

(Após concerto de Sérgio Godinho em Vila Nova de Santo André 24 de Abril de 2015, que me sirva de lembrança...)


2014-05-31

Num dia de despedida o choro convulsivo é desnecessário

Num dia de despedida o choro convulsivo é desnecessário. Pretende-se alguma espécie de sentimento, algo que revele emoções, o trejeito facial, a tremura nas mãos, o incomodo na tensão femoral, uma ligeira gota de suor que teime em formar-se a partir do interior, o rubor que nos aquece e nos deixa incomodados. Sim, espera-se alguma coisa, mas o choro convulsivo é desnecessário. Arruma-se a secretária, o armário, entrega-se a roupa usada, faz-se o espólio de uma parte da vida, enchem-se sacos de memórias, de guerras e de amores, amizades e desavenças, vitórias e derrotas e deixa-se aos outros a obrigação da lembrança para nos manter vivos.
Não consigo chorar numa despedida. O líder que se despede, e em pranto eu esqueço-me, alzheimer de duas décadas, como se ajudasse eu não saber ler nem escrever, como se ajudasse ser uma pessoa melhor, não fazer aos outros o que não gostava para mim, esses princípios morais, essas vitórias morais que nos fazem de bem com os outros e de mal comigo. Sim Sérgio, que força é essa?
Não nasci Cristo, só o álcool me faz chorar numa despedida, só a ressaca me fará chorar porque chorei, a ressaca e a vergonha e o silêncio calado porque nem silêncio pode ser, porque se for só silêncio incomoda. Nada como um silêncio ruidoso, um silêncio de ruídos e de sorrisos embevecidos, de lágrimas complacentes e autoflagelação gratuita. Que não me doam mais as chagas que acumulei, hoje curei-as com o sal das minhas lágrimas. As minhas lágrimas não têm cloreto de sódio, as minhas lágrimas são feitas de hidrogénio e de oxigénio na devida proporção, dois para um, apenas e só dois para um, água pura, desmineralizada, lavada de iões por resinas fantásticas. As minhas lágrimas são vertidas de um esguicho, material de laboratório que eu muito prezo, um esguicho de ponta fina, desses que faz as lágrimas bonitas, arredondadas à frente e afuniladas na cauda e que deixam um bonito lastro aquoso.
São os bolos ou apenas a impressão que são bolos, o chamariz para a mesa, a garrafa de Porto e os sumos, a Fanta e a Coca-Cola, o resistente Sumol de ananás e gente, muita gente, todos numa oval evangélica. O ritual repete-se conforme os anos passam, uns passam à disponibilidade, outros apenas mudam de sítio. A rotina que se quebra porque falta um e porque só falta um a rotina mantém-se e por isso é rotina. Mas quando falta um líder seriam expectáveis rotinas novas, novos desafios, esperanças renovadas ou medos incontornáveis. Deixo a rotina seguir os seus passos, a rotina que como um rio procura os novos caminhos para desaguar num mar de rotinas e voltar à rotina. Não tenho boas lembranças e faltam-me alguns anos para deixar de me lembrar. Ave-Líder, aqueles que tu mataste te saúdam. No logro, na mentira e no despeito, em todas essas virtudes profícuas, se revela a tua grandeza!
Sim, num dia de despedida o choro convulsivo é desnecessário, e a raiva também. O que não é desnecessário é a reflexão. Passarão dias até que volte a ler (se alguma vez o fizer) este texto magoado, passarão dias e anos e talvez venha a chorar, porventura lágrimas legítimas, lágrimas de sentimento sentido, sentido de sentir, de quem não receie o arrepio de gostar, de relembrar com alegria tempos passados, os camaradas, os companheiros do dia-a-dia. Um dia também esse poderá ser o meu dia, o dia do espólio, de arrumar bagagens e viver outras rotinas.
No entanto hoje não é dia de chorar. Se lutar, talvez as lágrimas se transformem em sangue, e da cor do sangue se pinte a paisagem do nosso futuro.
Adeus companheiros de luta, companheiros da minha trincheira, o meu choro é a luta diária, a assunção sincera da nossa fraternidade. O meu adeus é seletivo, arbitrário, consonante comigo que sou imperfeito. Não finjo mais do que posso e o que posso é muito pouco…

2014-05-27

Depois de Abril...Maio...E nada de novo!

Depois de Abril...Maio...Nada de novo...
Descartada a hipótese da participação no sufrágio resta-nos...O que nos resta?
Enfim, acredita-se que a "Troika" nos vai deixar em paz, menino bonito, lavou a cara, as mãos, os dentes, mais alguma coisa que aqui não vou mencionar, lavou-se de pecados impingidos...Agora que o menino está limpo pode-se falar de uma saída limpa.
Contam-se espingardas, no velho costume militar, procuram-se ânimos e desavenças, procuram-se vitórias nos escombros da democracia.
Sim, estou telegráfico, de memória telegráfica, todo eu telegrafia, palavras curtas e frases parcas, porque tudo é perca.
Falar assim para quem nos conhece é desnecessário, mas o silêncio também é desnecessário.
Dois meses que se revelaram fúteis...
Quarenta anos de democracia sem manual de instruções...
Lembram-se! O voto é uma arma!
Talvez ninguém se tenha lembrado de a carregar...
Possivelmente faltou imaginação...Ou munição...
Enfim, alguma coisa faltou!
Do que falta toda a gente sabe, a grande maioria sabe, todos os dias são dias de aprendizagem, o pai de reforma reduzida, a empresa que aproveita as novas leis, formula mágica para incentivar o capital estrangeiro, seja lá ele qual for...
Mas não faltam os aumentos, sim, tudo aumenta na mesma proporção em que diminui o teu fundo de maneio mensal...
Possivelmente nem pensas mensalmente, talvez o dia à dia te chegue...E sobre...
Poderíamos falar do que sobra...Mas está tudo tão...Limpo!
Ainda pensei que seria desmotivação, castigo, preguiça, tenho mais que fazer, não gosto de vocês, querem mais? Desemerdem-se!, revolta...
Pensei, e por tanto pensar fiquei na dúvida...
Se lá tivessem ido talvez a dúvida não fosse tão grande, "Branco" não é "Absentismo"!
O "Absentismo" é uma vitória?
Chamar-lhe-ia uma "Vitória preguiçosa", não custa mesmo nada!
E com isto explico a diferença...
Para me absentar só preciso estar registado, desde que não absente ao nascimento...Para votar preciso de mais qualquer coisa...O raio da caneta não escreve sozinha...ou escreve?
O cabrão do papel tem de entrar pela ranhura!!!!
Sim, William Turner, e o corpo subjugado à mão que nos atormenta, e Camões do monstro marítimo, e...
Telegráfico porque assim me sinto, sem necessidade de grandes explicações, no fim de contas toda a gente sabe do que falo...
O mar, a tempestade, a espera de uma bonança prometida, mesmo que comprometida, mesmo que...
Hoje, não sei quantos dias depois, os resultados são explicados, nos jornais, nas televisões, nas rádios, nos fóruns abstractos de tele-radio-comunicação rafeira...
Eu só telefonei para dizer...
Quero cumprimentar o vosso ilustre convidado...
Vinha agora a fazer a saída da marateca e...
Estou em casa...Talvez desempregado, mal empregado, reformado, estudante com dificuldades, com uma ressaca enorme e....
No meu dia de folga e...
E...
Tanto que eu preciso de dar opinião!!!!
Ouçam-me CARALHO!!!!!!
desculpem...Carago!
Do Norte, Sul e Centro, só se aproveita um terço!!???
Estou convicto que os outros dois terços estão a prepara-se para a batalha, a revolução que se aproxima, o acto que nos vai fazer "Nação Valente e Imortal"....
Não! É mentira! Não estou nada convicto!
Estou....
Embriagado....
Quem me dera que a minha embriaguez me fizesse falar assim...
Quem me dera que do meu sonho etílico saíssem tão viscerais reflexões..
O meu álcool de maus fígados queda-me pela valeta...O intelecto derrapa de forma vertiginosa pela raiva incontrolável do destino incerto....
Retiro o 25, o Abril, o Maio e todos os outros meses, volto à minha forma normal...Um pouco disto, um pouco daquilo, pouco mais que nada...E talvez vocês para ouvirem do meu desalento...
Prometo que amanhã nada se passará, tudo como dantes, música quanto basta, duas ou três larachas para entreter...
Eu até podia falar da Eurovisão, e do Ronaldo, e do Benfica...E do gajo que andou fugido, o "Palito"...Mas esse já foi apanhado...
Eu podia dizer que tenho quarenta e nove Anos feitos a onze de Março...E mesmo assim continuaria a não dizer nada...
Afinal quem sou eu?

Depois de Abril...Maio...E nada de novo!

2014-04-26

Abril #6 Assim comecei o texto que queria publicar, assim me detive para continuar um dia depois…

“Saltei da cama, literalmente, impulso biomecânico, repleto de idealismos, sonhos revolucionários, abstrações ouvidas em surdina nos cafés, os meus colegas estudantes, os meus companheiros de labuta, lá na fábrica perto do rio. Vesti-me à pressa, com a urgência de um acidente, com a urgência de uma doença grave, se lavei a cara, não me lembro, assim como não me lembro do pequeno-almoço, ele que já de si sempre foi pequeno, muito mais pequeno do que o dos donos da fábrica. Os militares estavam na rua…”
(relato hipotético de um trabalhador no dia 25 de Abril de 1974)


“Hoje tive a noção exata do que significa o dia da liberdade, o dia 25 de Abril. Fui trabalhar cedo, entrada às oito, assim manda o meu horário que não segue as lógicas das rotinas de calendário. Durante o trajeto ouvi canções não censuradas, sim, ouvi o que bem me apeteceu, não precisei preocupar-me com tendências políticas, conceções ideológicas ou castrações moralistas….”


Assim comecei o texto que queria publicar, assim me detive para continuar um dia depois…


…Um dia depois porque um dia depois tudo adquire mais significado, limpo que fica de ruídos de fundo, de histerias convulsivas dependentes de correntes de opinião, de paixões reais, abstratas ou simplesmente fingidas. Ontem que foi 25 penso nele hoje dia 26, hoje porque já não há festas nem programas rebuscados e de gosto duvidoso que me apoquentem a alma. As reflexões sérias nunca se fazem no deslumbramento dos sentidos, dos que querem chorar, celebrar, renegar, ou pura e simplesmente desacreditar tudo aquilo que lhe devemos, ao 25 de Abril, evidentemente. Neste dia depois posso pensar calmamente, posso lembrar-me de mim, de que a minha mãe se fosse viva teria comemorado as bodas de ouro do casamento com o meu pai, sim o 25 de Abril também é a minha vida pessoal, já existia antes da revolução, dai que a data é apenas uma data e o que dela fica são sentimentos, a revolução que começou nunca acabou, a revolução é uma constante. O que nos aconteceu com o ano de 2008, o ano em que rebentou a bolha também foi uma revolução, apercebemo-nos então que tínhamos estragado tudo. Destas e de outras revoluções é feita uma nação e no seu conjunto a sociedade que se diz Ocidental. Por mais que a renegue, a ela pertenço, feito que, toda a minha vida, a maneira do meu viver, foram moldados na sua forma. Hoje, que penso no 25 de Abril, penso no essencial, no que a revolução me deu, leio o que posso sem restrições, digo do que sinto sem medo, não tenho medo de ir morrer em continentes distantes, em guerras condenadas (e se o fizer é através de um ato voluntário, portanto livre), falo livremente, sentado à mesa dos cafés ou noutro lado qualquer, sem olhar para o lado, sem sentir o frio da denúncia, durmo em casa, num convencimento profundo de que ninguém me irá arrancar da cama para me levar para um qualquer lúgubre edifício em nome da defesa do estado, vergando a minha liberdade a um silêncio profundo, se tiver de sair do país para trabalhar não o faço às escondidas, posso voltar quando quiser e posso condenar por esse fato quem me apetecer, posso votar em quem quero, posso afirmá-lo sem medo, posso carregar comigo convicções políticas e dúvidas existenciais, posso ter medo por convicção e refugiar-me nele como justificação para tantas incertezas, enfim, tenho liberdade, no que escrevi e tenho por escrever está a essência do 25 de Abril. No 25 de Abril também estão outras conceções, essencialmente ideológicas, de natureza social como o são a justiça, a saúde e a educação. E do 25 de Abril a justiça alargou-se ao povo, e eu posso invocar a justiça dos tribunais, e do 25 de Abril a saúde bafejou os desprotegidos, e o serviço nacional de saúde tratou por igual ricos e pobres, e do 25 de Abril todas as crianças tiveram direito a educação e chegaram a cursos superiores homens e mulheres que nunca o poderiam ter sonhado. O que o 25 de Abril não nos deu foi, maus juízes e maus tribunais, médicos e farmacêuticos corruptos, universidades fictícias de cursos suspeitos e outros desmandes, isso foi uma dádiva nossa através das escolhas que fizemos. Quem transformou os partidos do chamado arco da governação em casas de prostituição moral fomos nós, que com a nossa arma, o nosso voto, lhes dissemos que podiam continuar, cansados ou com medo da liberdade reduzimo-la a duas escolhas e hoje queixamo-nos de não as ter. Eu hoje, um dia depois do 25 de Abril não me queixo do 25 de Abril não me queixo das instituições democráticas, nem dos partidos, eles são o mecanismo democrático, quem o faz funcionar são as pessoas, o povo que elege e os eleitos, a esses sim, temos de pedir responsabilidades ou pelo menos confrontá-los com elas. Dizia eu que a revolução continua, agora num sentido inverso, agora que mal gerida a entregámos a outros, queixemo-nos dessa gestão, aprendamos com os erros e façamos nós a nossa revolução. O 25 de Abril deu-nos liberdade mas não nos tirou o medo e a apatia, esses são nossos, adquirimo-los com o conforto do dia-a-dia, com o sonho europeu vendido “á la carte” pelos seus fundadores, com as inovações tecnológicas, com os maravilhosos gadgets que nos fazem tão iguais…

A revolução não se esgotou no 25 de Abril, tal como uma flor preciosa, é carente de cuidados, tem que ser alimentada, com alma, com amor, com solidariedade, depende de nós não a deixarmos morrer!



Hoje, um dia depois do 25 de Abril, eu agradeço do fundo do meu coração a todos os que o tornaram possível, a esses o meu respeito é eterno e profundo!!!!!!!!

2014-04-21

Abril #5 PRIMAVERA DE 2014 Sonetos de sangue, suor e lágrimas (mesmo que só a alma escorra estes fluídos)

I

Lágrimas suaves na chuva de abril
Nos rostos cinzentos o céu cinzento
Esperança lavrada no meu lamento
No mês dos cravos, das chuvas mil

O choro contido de Pátria ferida
Quarenta anos que cheiram a geração
Um povo perdido na fome e no perdão
Cantando entre dentes o resto da vida

De leve, o leve sabor das mensagens
Alguém que nos sabe e nos leva ao céu
Com o pouco que temos de outras paragens

O vermelho dos cravos que alguém nos deu
Dos capitães negados em listagens
Porque o rubor dos cravos faleceu


II

Não faz mal se gritei que não quero
Não faz mal se fugi arrependido,
Não faz mal se o que quis está perdido
Não faz mal se me encovei com esmero

Não faz mal o ensejo esbanjado
Não faz mal a babugem na boca
Não faz mal um povo na toca
Não faz mal o contracto quebrado

Mal faz, a cegueira consentida
Não ver, nem compor o erro
Não desejar outra saída

Mal faz, encarnar o desterro
Falar a verdade desmentida
Aprovar e consentir o enterro


III

Que de morta seja a linguagem
Eterna e anafada desventura
Maleita, porque perdura
Em quarto de enfermagem

Palavra torta e sem cor
Da morte só o que restar
Não preciso celebrar
Se não quero lembrar a dor

Que não me reste só este dia
Porque a contenda sucede
Mesmo sem a minha revelia

De cada dia o que procede
Na vergonha e na porfiria
A força de quem não cede

Paulo Guerreiro 2014/04/21