2006-11-29

Branco...




Branco…Eis o meu testemunho em branco…
A minha parede roubada.
Escrevam nela a revolta, a vontade de viver.
Um abraço muito grande a todos os que lutam para ficar entre nós!

2006-11-27

Por vezes estamos sem fazer nada...

Por vezes estamos sem fazer nada, preguiçosos da vida, preguiçosos de tudo. Levantei-me tarde, quase uma, e liguei o computador. Quase embalado no ruído do arranque da máquina, olhava para o ecrã. O ambiente de trabalho, os atalhos, os ícones…E eu adormecido, olhando as palmeiras de uma viagem às Caraíbas, quase sentindo o calor e a humidade daquele entardecer. Passaram alguns segundos, ou terão sido minutos? Não sei! Passou um pouco daquilo a que chamamos tempo…Quando não está a chover…Se estiver a chover o tempo é mau…Que merda de tempo…Chuva e vento e…Não estou a falar desse tempo…Desculpa…Onde é que eu ia?...Estive por momentos distraído de tudo, sim eu sei que liguei a máquina, mas liguei-a sem objectivo definido, talvez só para a ouvir trabalhar, agora que penso nisso até me parece um bom motivo, para de me interromper! Está bem…Levei a mão ao rato…Ao quê?...Já te disse para não me interromperes! Podes ficar ai, dentro de mim, mas sossegado, está bem?....OK!
Liguei-me à net, Homepage, favoritos, alguns blogs e a minha irmã a recordar-se e eu a recordar-me, não com as suas recordações, com outras, minhas, de outras pessoas, de mim, de mim em casa com vinte e tal a ouvir música, sempre a ouvir música, já vos contei que tive um baixo assinado para me expulsarem do prédio…E isso interessa…Cala-te!...Sim a ouvir música e um dia toca-me à porta o João Paulo, era visita da casa, assim como muitos outros, amigos, amigas, eu vivia sozinho mas tinha a casa cheia, morava ao pé de locais de encontro e quando esse não acontecia a campainha tocava. “Quem é?”, “Sou eu!”, a voz familiar, hoje alegre e satisfeita, satisfeita por voltar a Portugal depois de umas vindimas no sul de França que não correram muito bem. “Entra, estava a fazer uma.”, “Tens mil paus?”, “Para que queres os mil paus?”, “Tens ou não tens?”, “Tenho!...”, “Dá-me lá os mil paus e não me faças perguntas…Eu venho já!”. Tinha confiança no João Paulo, havia respeito na nossa relação, identificávamo-nos nas revoltas, ânsias, ambos sem mãe…O que é que isso interessa?...Na altura interessava e ajuda a compreender a história. O João Paulo não tinha mãe, o pai era tenente coronel ou coronel e tinha uma irmã mais nova. Não gostava de estar em casa, vivia para o dia, se possível pedrado…Mas era o que todos faziam, ou quase…Porra cala-te! Deixa-me acabar que depois falo contigo.”. Adiante! Demorou uns vinte minutos até que voltei a ouvir a campainha, um dling-dlong fraco porque precisava de pilhas novas. Entrou radiante com um disco debaixo do braço, “Agora sim podes fazer-me uma!”. Dirigiu-se para o gira-discos sem me deixar ver a capa, escolheu uma música, levantou o som e inundou-me a casa de “Blues”, aquele blues do Texas, branco e acelerado, “Isto é Gary Moore, um gajo que foi guitarrista nos Thin Lizzy, agora toca Blues, conheci isto em França.”. “Texas Strut” era o nome da faixa…E ainda é…Estou mesmo lixado contigo…
Ouvimos o álbum todo e repetimos alguns temas, lembro-me de mim…Novo…A sentir-me velho ao ouvir “As the Years Go Passing By”.
O João Paulo Morreu já há alguns anos, de overdose, vivia com uma moça bonita, as cores de Timor na pele, na Venda Nova, às portas de Benfica.
Viu-o a última vez na estação dos comboios da Amadora, eu já trabalhava cá em baixo, tinha partido o carro e tinha de ir de camioneta. Bebemos umas cervejas e demos um abraço, gostava de lhe ter dado um abraço maior, “Vê lá se apareces.”, “Quando tiver carro é mais fácil, eu prometo.”, promessa que não cumpri, que nunca pensei cumprir, eu que fugi de Lisboa para fugir do Mundo e de mim, por isso está calado!
Isto saiu-me mesmo assim e agora que estou acabando não sei se o deva postar…Não foi para isso que o começaste?...Foi, mas descambou e também por tua culpa!...Deixa-te de merdas, posta isso e vai almoçar…Desta vez tens razão…

2006-11-22

Manias

mania (Lat. mania, proveniente do Grego mania, loucura), substantivo feminino.

Espécie de perturbação ou excitação caracterizada por aferro a uma ideia fixa;

(fig.) Mau costume; excentricidade; esquisitice; extravagância; desejo imoderado, excessivo.

Agora que estou de posse de todos os dados posso responder de forma honesta ao desafio que me foi lançado…

Primeira – Tenho a mania que sou de esquerda (Espécie de perturbação ou excitação caracterizada por aferro a uma ideia fixa).

Segunda – Ainda fumo, ainda bebo, ainda… (Mau costume).

Terceira – Gosto de me isolar e andar ou então fechar-me e não falar com ninguém. São fases, manias (Esquisitice).

Quarta – Tenho um desejo imoderado, excessivo por música.

Quinta – Imagino-me várias pessoas (Excentricidade).

Foi o que me ocorreu perante a definição de “mania” encontrada no Dicionário Universal da língua Portuguesa (Texto Editora).
Muito mais ficou por dizer como seria de esperar perante a abrangência da palavra.
Possivelmente todas as outras manias têm dias, umas vezes são, outras não.

Um abraço à Isabel

2006-11-20

Caminheiro (O adeus)

Durante seis meses e até a obra acabar arranjaram sempre maneira de se encontrar a sós. A princípio momentos breves, o desejo era mais forte, depois as confissões, os passeios junto à ribeira, o risco que aumentava.
“Sabes que fui violada quando estudava em Lisboa?”, cabeça baixa, cabeça alta, “Percebes? Tudo me correu mal.”. E ele escutou a história daquela noite, “Ele e os amigos…Os cabrões…Chorei tanto…”, a humilhação, os olhos negros, as escoriações no corpo, “Nunca mais fui a mesma…Tive de abortar, na altura era difícil e fiquei muito mal…Mas mesmo assim sobrevivi e consegui ter um filho do Pedro.”, “Gostas dele?”, “Gostei…Precisava de alguém…”, “Serei eu uma repetição?...”, “Não! Actualmente não estou tão frágil.”, “Talvez estejas mais amargurada…”, “Que sabes tu disso?”, “Estive preso quinze anos…Matei um homem…Por amor ou despeito ou outra coisa qualquer que me tirou o sono até eu lhe acabar com a vida.”, “Mataste um homem por amor?...”, “Por amor a uma mulher…Á minha mulher.”, “Foste…Traído?...Desculpa…”. Neste momento choravam os dois, em silêncio, com a água guardada nos olhos. “Perdi-os quando estava na prisão, primeiro o divórcio, depois o acidente…”, “Não vamos falar mais nisso…Vem cá…”, ele foi e tiveram-se como nunca se tinham tido.
A vida não é feita de felicidade ou infelicidade, a vida é feita de acontecimentos, eventos que nos colocam perante decisões, escolhas, das quais dependem outras que podem ou não interagir com futuros acontecimentos.
Foi este o caso. A principio o Pedro desconfiou, aquela súbita leveza e abnegação, mesmo quando lhe batia e violava, ele que tirava prazer do facto dela sofrer via com surpresa a cara sem expressão da mulher, quase um sorriso, um alheamento insuportável para ele. Mas o ciúme não o deixou dormir, uma dúvida de dentro, uma vontade de saber o que desconfiava e quase tinha a certeza, ele que conheceu tantas mulheres, algumas de outros. Seguiu-a num sábado depois de sair com um grupo de amigos e ter avisado que não vinha jantar. Nesse dia também o filho levou um beijo, não chegou a perceber porquê. Deixou os amigos por volta da hora do jantar, rondou a casa e viu-a partir, leve, ligeiramente apressada, quase saltitante…Apanhou-os, mas não teve coragem de aparecer, o outro era homem de trabalho, com o corpo treinado no desconforto da vida, seco, músculos fortes nas pernas e nos braços, sem serem grandes ou aberrantes intimidaram-no, a ele que tinha muita coragem quando estava bêbado ou acompanhado. Saiu humilhado daquela janela, daquele pequeno monte de uns amigos da Inês, do qual lhe haviam deixado a chave, “Para ver se está tudo bem, nunca se sabe!”. Chegou tarde a casa, depois de ter corrido todos os bares da região. Esteve com mulheres mas não conseguiu ir com nenhuma.
Inês ficou muito mal tratada, chegou a ir ao hospital onde ficou um dia antes de regressar a casa com um braço ao peito e um sem número de negras e vermelhões.
Não saiu durante um mês. Foi lá que soube de tudo o que havia para saber. A obra tinha acabado e aquele moço simpático que estava em casa da Dona Lúcilia tinha partido, o marido morreu uma semana depois, vítima de um acidente automóvel, o carro em que seguia capotou numa ribanceira e pegou fogo deixando irreconhecível o corpo do seu ocupante. Não foi ao funeral para ver os dentes que o identificaram…Deixou-se estar gozando do sossego, da paz e da saudade daquele homem. Centrou-se no filho, tinha finalmente hipótese de corrigir alguns erros…Desta vez não queria falhar…Que pena ele ter-se ido embora…Sem um beijo que fosse…
O nosso homem despediu-se dos comerciantes, aceitou farto farnel e partiu para sul, todo ele horizonte…Por fora…Por dentro a raiva e a determinação do que tinha para fazer. Esperou uma semana antes de agir. Dormiu em valados e terrenos ocultos, o farnel tinha que durar cinco dias pelo menos. Matou-o no parque de estacionamento de um bar. Tudo o resto veio dos anos de prisão, aprende-se muito, aprende-se também a ter paciência e alguns truques de honrosa marginalidade. Não se virou para trás quando deixou o carro a arder…Ainda ouviu a sirene dos bombeiros…
Inês recebeu a carta passados seis meses. Sem remetente exterior lá dentro dizia tudo…”Sou eu, amo-te…Espero que sejas muito feliz! Levo de ti um pouco do teu cheiro…O que um caminheiro pode levar…”.
Meteu a carta no correio no dia em que embarcou numa traineira em direcção à Mauritânia.

FIM!

2006-11-17

Caminheiro (A paixão)

Enquanto fazia massa trocaram olhares furtivos. Sentia-se curioso e atraído. Baixa, talvez não chegasse ao metro e sessenta, magra, cabelo castanho escuro, roçando o preto, solto e liso tocando-lhe nos ombros. As calças eram de ganga e ajustavam-lhe as formas, a T-shirt de número certo dizia qualquer coisa. As feições, meio menina, meio mulher, eram incertas. Ao longe e enquanto passava iam cambiando, alternando entre angustias e esperanças. Não teve tempo para ver mais, o trabalho tinha de ser feito e já alguém pedia tijolo. Ele e outro davam serventia a três pedreiros que erguiam paredes num primeiro andar. A meio da manhã pararam para uma cerveja e uma bucha, por volta da uma estavam a almoçar. Todos comiam na obra e quando ele disse que ia a casa não o deixaram abalar obrigando-o a sentar-se e a comer com eles. O mais velho sabia cozinhar e o pequeno estaleiro tinha fogão a gás, rudimentar mas eficaz. Nenhum deles era da terra, três das redondezas, ele e o outro servente de longe. O seu parceiro era novo e entroncado, alto e louro, eslavo por excelência, russo de passaporte tinha vindo de Estalinegrado, também lá tinha nascido. Dos outros três, dois rondavam os cinquenta e um parecia não ter idade, talvez tivesse parado por volta dos quarenta mas não era um número certo nem de confiança. Despegaram às seis, o encarregado veio buscar três com a carrinha, o russo dormia no estaleiro e ele em casa dos comerciantes.
Durante a primeira semana pouco mais fez do que dormir e trabalhar, mesmo quando chegava a casa e antes de jantar, ocupava-se a restaurar uma velha vedação de madeira que cercava o quintal. O banho depois da refeição era o acto final, a cama o descanso e a janela de céu negro e estrelado uma bênção, uma carícia. Antes de dormir deixava os olhos nas traves de madeira que escondiam aranhiços na penumbra.
Durante a segunda semana saiu duas vezes, à noite, com o russo e por convite deste. Fizeram a pé cinco quilómetros antes de encontrar um bar onde uma brasileira e três portuguesas faziam o que podiam para que um grupo de velhos agricultores mais abastados gastasse o seu dinheiro. O russo pagou e pelo que percebeu da segunda vez, havia qualquer coisa entre ele e a brasileira, mulata clara, jovem bonita de sorriso branco e aberto.
Pelo meio ficara-lhe a memória daquela mulher com o filho, memória revisitada todos os dias visto que o par atravessava regularmente aquela praceta. Um dia perdeu a vergonha e perguntou à Dona Lúcilia quem era aquela senhora que tanto passeava pelas ruas da aldeia. Menina fina, fora estudar para Lisboa mas nunca acabou nada, filha de um ricalhaço da terra, casou-se com um oportunista que lhe batia e a enganava nos negócios estourando-lhe o dinheiro que os pais lhes davam. Quem o queria ver à noite teria de procurar nas lanternas vermelhas da região. Sentiu pena daquela mulher, seria só pena? Talvez uma cumplicidade de sofrimento…Ou apenas ternura, paixão, calor… Num fim-de-semana de festa na aldeia arranjou maneira de se aproximar. A coragem não foi suficiente para meter conversa, mas os olhares que trocou com ela foram reveladores de um interesse muito maior que a simples atracção física. Ela percebeu isso e ficou perturbada mas de maneira nenhuma mostrou desagrado pelo facto, antes pelo contrário. Encontrava-se com outras mulheres, só a mais velha do grupo sentiu a inquietação na cabeça da amiga. Não seria hoje o dia indicado, talvez no café quando ela fosse à mercearia à tardinha.
Terça feira, seis e vinte, não trabalhou na cerca que só faltava pintar. Estava sentado no café e lia o jornal com uma cerveja na frente. Ela entrou como se esperasse encontrá-lo e sorriu quando o viu, “Boa tarde! Viu a dona Lúcilia?”, “Deve estar quase a vir, se quiser eu vou chamá-la…”, “Não é preciso…Eu espero…”. Esta espera que levou à conversa aberta, à apresentação formal, a um convite fora de horas…lá em casa…Paixão sem limite de carências contidas, desabafos, o retornar infindável dos corpos unidos pela ternura e pelo desejo.
(Só falta um...)

2006-11-13

Caminheiro (Decisões)

Sete e meia, talvez um pouco mais, um ou dois minutos. A indicação é fornecida por dois ponteiros num relógio de propaganda. A voz é amável, um pouco rouca, “Boa tarde!”, “Boa tarde!”, não sabe o que pedir, espera um pouco, o homem de avental espera também, “Vai beber alguma coisa?”, “…Sim…Uma cerveja.”. Não escolheu a marca, nem o outro o quis incomodar. Por detrás do balcão, como num passo de magia, aparece uma garrafa gelada, de caminho pega num copo. Faz a entrega e deixa o caminheiro em paz. Fez estes últimos quilómetros numa ânsia conhecida, paro, não paro, fico, não fico, distraiu-se com os pássaros, com o céu azul paraíso, azul imenso, sem fim, vai ser difícil decidir…Bebe a cerveja e ainda não sabe o que fazer. Junto à porta o dono do estabelecimento aprecia o entardecer. Na mercearia a mulher atende duas vizinhas. A mais nova observou com atenção aquele estranho. Ele apercebeu-se e sorriu sem direcção. Ela corou, acabou bruscamente a conversa, pagou e abalou apressada num aceno de urgência. Antes de sair olhou-o mais uma vez. Desta vez ele fingiu que não viu. Lembrou-se da mulher que amou, do filho que teria vinte anos se fosse vivo, mortes trágicas. Estava preso ia para cinco anos quando o padre o mandou chamar e lhe deu a notícia. Acidente brutal, corpos desfeitos, a fotografia veio no jornal, bombeiros, polícia. O jornalista falava de excessos, de velocidade, de álcool, “Segundo testemunhas a viatura em que seguiam as quatro vítimas mortais deu várias cambalhotas antes de se imobilizar e pegar fogo…”. Tinha-o deixado logo no primeiro ano de cativeiro…Desde ai nunca mais os viu…A sua família…
Quase oito, “Que fome…”. Pediu uma sopa, pediu carne e pão, meteu conversa e perguntou por trabalho, um quarto barato onde ficar um mês. Teve sorte com a comida e com o quarto, quanto a trabalho amanhã logo se veria. O casal, embora pouco falador, era simpático e deixava espaço para respirar, não o atropelou com questões profundas libertando-o numas águas furtadas por cima do café. O local tinha sido arranjado para poder ser alugado. Era asseado, simples, cama, mesa de cabeceira, cadeira, armário, um espelho de meio corpo. Pediu que o acordassem cedo, “A gente levanta-se às seis…”, “Pode ser…Obrigado e boa noite”, “Boa noite, durma bem!”, o desejo foi da mulher que o olhou com ternura, uma ternura materna de quem vê um filho cansado. Talvez a fizesse recordar algo.
Dormiu mal, não por culpa do quarto, mas por culpa da cabeça. Falaram-lhe numas obras da câmara, imaginou-se a rebocar, a fazer massa…Só um mês…Só para descansar.
O sol ainda não se via quando a mulher lhe bateu à porta, “Vou fazer o pequeno almoço, se quiser pode comer connosco, tem é de se despachar.”. Para ele a manhã era a melhor parte do dia, aquela em que se sentia melhor, com mais energia, recebia a luz matinal como uma bênção, aliviado da escuridão que o oprimia. Tomou um banho numa casa de banho que ficava no quintal, nas traseiras do edifício. Sentou-se à mesa depois de convidado, esperou que lhe oferecessem uma caneca de café com leite e duas torradas com manteiga caseira, comeram em silêncio. No fim da refeição o homem prontificou-se a levá-lo ao estaleiro. Ele agradeceu e aceitou o convite. A aldeia era pequena, casas brancas e térreas de ambos os lados da estrada principal ao longo de três quilómetros. Uma rua secundária, paralela, desembocava numa praceta onde iria ficar situado o posto da GNR, eram essas as obras. A apresentação foi breve, o capataz era amigo do comerciante e o contracto foi logo celebrado, “Começa hoje, amanhã tratamos dos papéis.”, Aceitou, agradava-lhe trabalhar, suar, parar de pensar. O trabalho não era muito pesado, o ritmo lento não cansava quem estivesse calejado de outros andamentos, talvez por esse motivo não parou de pensar. Recordou a imagem esguia daquela mulher de meia idade que tanto o tinha observado, coincidência ou não ali estava ela passando devagar, do outro lado da rua, com uma criança pela mão.
(cont)

2006-11-07

Caminheiro (A chegada)

As solas batem no cascalho, pequenas pedras que se enterram e empurram, cadência arranhada marcando o andamento. Na orla da seara a silhueta azul do caminhante é um risco harmonioso na imensidão aloirada. Desloca-se lentamente mas com convicção, movimentos decididos dão beleza a este andar. Começou às nove da manhã, como todos os outros dias. Pára por volta do meio-dia, para estudar o terreno e procurar uma sombra. Um sobreiro desnudado convida-o a sentar-se, tem no seu tronco um número pintado, sinal feito por quem o despiu. Ele aceita o convite, pousa a mochila de pano grosso, tem cor de tropa e está atafulhada de coisas, apanha um pouco de pasto e improvisa um assento. Deixa-se levar pela brisa quente do estio e quase que adormece, um ligeiro piscar que teima em ser pausa. De dentro da mochila tira um saco de supermercado, velho amarrotado, letras gastas anunciando uma superfície comercial. No saco um pano enrola duas fatias grandes de pão. Tira uma, corta-a ao meio e guarda o resto com cuidado. Ainda tem um pouco de toucinho, mas também este é dividido pela mesma navalha que cortou o pão. A sua amiga, única companheira de muitas refeições, mas não só. É habilidoso com ela e consegue milagres na madeira, verdadeiros prodígios em miniatura. Homem de mil profissões também passou por carpintarias, embora excelente na arte nunca a considerou como tal. Tem um cantil com meio litro de vinho, presente do taberneiro na última aldeia por onde passou. O trabalho na mesa da cozinha ficou bom e além do vinho e de uma farta refeição ainda ficou com algum dinheiro. Trabalha por onde passa, é assim há cinco anos, desde que…O dia está óptimo e convida a uma sesta, rende-se sem esforço, o trigo esfrega um no outro e embala o seu corpo, a sua cabeça, os seus olhos e por dentro.
Não usa relógio mas nunca adormece mais que duas horas. Desperta com calma, exercita as pálpebras e controla a quantidade de luz na íris, primeiro numa, depois na outra. De uma garrafa de plástico com água retira-lhe dois golos, o último mais demorado. Levanta-se e sacode-se das palhas que lhe serviram de enxerga. Novamente de mochila às costas decide-se por um caminho, um que o leva para o sul. Lembra-se de um comentador de televisão ter afirmado que a maior pobreza se encontrava no hemisfério sul e que o fluxo migratório dos seres humanos teria tendência para ser na direcção oposta. Também se lembra do que comeu, nesse café onde ouviu a notícia. Café familiar, acolhedor, sandes de pão caseiro com presunto, dois copos de vinho e um café. Ainda teve uma longa conversa com os donos antes de partir, chegaram a oferecer-lhe emprego, nada de especial, mas uma coisa limpa e honrada numa loja de ferragens de uns primos.
Vai para três horas de caminho. Há cerca de quinze minutos encontrou uma estrada asfaltada e segue pela sua berma. Pararam duas vezes para lhe oferecer boleia, à segunda aceitou. Chegaram a uma pequena povoação e ele apeou-se agradecendo a gentileza aquele homem do campo que o transportou na carrinha. Abeira-se do único estabelecimento aberto, café, mercearia, mini mercado, tudo junto. Lá dentro a separação é feita por pequenos arcos em alvenaria. Escolheu uma mesa para duas pessoas e sentou-se. Por detrás do balcão está um homem já bem entrado. Pouco cabelo, branco e curto, barriga saliente por debaixo do avental de plástico. Limpa uns copos, tarefa que o ocupa por breves instantes, só depois se dirige ao cliente.
(cont.)

2006-11-02

Dois dias de luta

Passaram vinte dias desde a reunião. As decisões foram tomadas, votadas, testemunhadas em acta assinada. O trabalho, as visitas à fábrica, os serviços mínimos, tudo necessita de discussão. A estratégia é definida com antecedência, os objectivos, onde se pode ceder, o que se pode aceitar. São dois dias de greve, dois dias em que deixamos de ser colegas, no grevista o contracto de trabalho é suspenso, deixa de haver hierarquia, quem manda é o piquete de greve. A greve começou às zero horas do dia dois de Novembro. Quinze e trinta, chove que nem cornos….Foda-se!...Vai entrar às dezasseis, turno da tarde. Na portaria um pequeno grupo discute, trocam-se papeis e opiniões, a fábrica I não parou, a fábrica dois “foi ao chão”, o ponto da situação, não há produto para Aveiras…O Porto parou? Cá em baixo ninguém diz nada.
“Como é que faço? Preciso de picar cartão?”, “Não! Não picas nada. Chegas lá abaixo e avisas a tua chefia.”
Para ele a pergunta é diferente, o costume…Continua a chover, está molhado dos joelhos para baixo, foca-se nas botas molhadas enquanto percorre a alameda encharcada. “Hoje não vou discutir, argumentar, não! Hoje vou entrar, dizer o que tenho a dizer e vir-me embora.”. A água é muita, o céu, escuro de um lado e branco do outro, distribui trovoadas, é impossível ser-lhe indiferente.
Hoje não há beijos nem abraços, apenas apertos de mão, formais, indiferentes. No sector são trinta, na greve ele e mais três…Só amanhã terá a certeza. Comprou o jornal, leu-o no hospital, não viu nada…Bem…Não o leu todo…Seria preciso?...
Não lhe interessa…A greve são dois dias, desta vez só precisa fazer greve, não precisa fazer mais nada…Mas não se sente satisfeito…Continua a chover…
Já saiu, até segunda, “Se precisarem de mim sabem o meu número”, não! Desta vez não estou disponível para horas extras.
Fala-se em oitocentos milhões de euros a serem distribuídos pelos accionistas, dinheiro não contabilizado em lucros nos anos anteriores…Fala-se em investimentos não garantidos, no futuro incerto depois da privatização, fala-se…Nos direitos! Nos deveres!
A estrada adivinha-se por debaixo do manto de água, o tracejado que divide as faixas serve de guia, as bermas não existem, sente o carro deslizar…Hoje não vou ligar a televisão, não preciso das notícias do mundo, hoje preciso descansar…

2006-10-27

Sala de espera

Sala de espera do posto médico, de um posto médico. Está quase vazia, apenas eu e mais duas pessoas, duas senhoras que conversam, de doenças, dos filhos, dos divórcios dos filhos, dos netos, da vida difícil que está destinada aos novos, sim porque para elas o que têm basta e a morte não está longe.
A filha divorciou-se, ela que estava tão bem, só porque o marido bebia um copinho de vinho. Tinha uma vida de rainha, levantava-se tarde e ia para o café o dia todo, “E não faltava nada naquela casa, levava-me a passear e ficávamos em hotéis caros e comíamos em restaurantes finos, nunca teve problemas de dinheiro…Foi uma pena…A separação…Os meus queridos netos.”. Agora vive mal, teve gémeos da segunda relação e o dinheiro anda contado, “Se a sua filha se divorciou lá tinha as suas razões. Não há mulher nenhuma que tome essa decisão sem ter razões fortes…Só quem lá está é que sabe o que se passa.”. Esta sentença, proferida pela outra mulher, deixou um silêncio com significado.
Entretanto chega mais gente, fala-se de cães, de doenças de cães, de hospitais para cães, de médicos para cães…”O meu até chora! É como um filho. Quando ele desaparecer nem sei como será.”.
Dos cães para as vizinhas, para as traições das ditas, para as relações atribuladas entre mulheres desocupadas, “Deus é que sabe e nunca dorme.”.
Eu também não durmo, estou sentado à espera, preciso de uma credencial. Sinto o tempo a passar mesmo sem ter relógio, não preciso dele para o sentir, ao tempo. Pelo estômago sei da hora de almoço. A conversa decorre agora no guichet. Sabes o que aconteceu à Laurinha? Partiu uma perna! Com aquela idade é um problema. Se é!
Lá fora, o céu ferido no seu plástico cinzento, deixa escorrer insolente as águas certas de Outono. Há seis anos atrás também choveu assim.
Ouço o meu nome, é a minha vez? Sim pode entrar!

2006-10-22

Apenas porque sou teimoso...E porque não arrogante?

Máquina profeta, Messias mecânico, o encanto das peças em movimento.
Gira, gira, roda, roda.
O engenho que se revira em voltas elevatórias revela automatismos.
Robóticos gestos cima, baixo, cima, baixo, esquerda, direita, esquerda direita.
Hipnóticas mãos, malabarista eléctrico, dos electrões que lhe servem de corrente.
Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz…………….

O cartão permite o acesso, concreto, directo.
De dentro, no seu núcleo o cartão é inútil.
O electrónico que decida da minha entrada, se eu pertenço ou não.
Lá dentro sou eu e a máquina…Ela que gira, ela que roda, para cima, para baixo, esquerda, direita.
A reacção, a fusão das moléculas, os gráficos, os números que nos obrigam a pensar,
Que nunca são claros até os sentirmos por instinto…Cento e cinquenta! Dentro!...Cento e cinquenta e um! Fora! Assim num repente…Toma e já está!

Na região periférica não conhecemos, não nos conhecemos…
Quem sou eu?...Quem és tu?....
Estatística humanóide, estereotipo orgânico, célula dispersa?...
Ramificação errante qual o teu delírio?
No húmus, no estrume, procuro a verdade.
Sou tenso no músculos, mergulho na merda.
Se matei alguém?...Não sei!

Sim , eu sei a tecla do mistério,
Desdobramentos, dezassete polegadas…Ou serão mais?
Cavalgo sem me verem,
Sou sem ser,
A electrónica do meu dedo dispara setas mortíferas.
Eu mato no ecrã!
Se não gosto, odeio….Mas não digo a ninguém….

Já me viram delirar?

Aqui estou eu! Eis a minha carta, a minha mensagem, a minha angústia via mail…
Finge que não me abriste…Não me leste…eu finjo que gostas…e choro….

2006-10-20

Hoje um poema


É chegada a vez de um poema, desacerto, lamento, confissão, vulgar desabafo, encontro no espaço…se ainda estiver livre…
A alma rende-se de novo ao improviso, à divagação. O ser narrativo que sou perde-se no deserto metafórico. Onde está o significado da palavra? Da palavra que me sai, balbucio, resmungo, assobio, grito, degluto…Todo eu sou ouvidos para essas palavras escritas em papel digital, virtual, como nos sonhos.
Todo eu tenso, músculos, cérebro, concentração na leitura, na viagem, nas descrições.
Que dizer dos adjectivos com que vestiram os substantivos?
Os substantivos que sou eu e tu…E todas as coisas…E tantas são elas!
Hoje um poema, daqueles que não rimam, que não concordam no tom, que desafinam no som.
Hoje aquelas palavras que me fazem sentir importante, que me fazem sofrer.
Diz-se da poesia o mesmo que se diz de Deus…Está em toda a parte, é omnipresente. Alguém mal disposto chamar-lhe-ia “Melga!”.
Quem a lê, lê quando lhe apetece, quem a faz segue outros procedimentos. A poesia é feita por loucos, mistura de sons e conceitos.
Chegou a vez de um poema…Eu acredito que sim. Um que conte o infortúnio lusitano, que nos prometa o futuro, nem que seja em castelhano…
…Existem sondagens…
Poderia ser um poema rebelde, sem origem nem destino, Easy Rider…
Letras formando palavras, correndo livres, montadas numa caneta transformada.
Alterei-lhe a capacidade do deposito de tinta, modifiquei-lhe o aparo de modo a diminuir o atrito, prolonguei-lhe o tamanho e dei-lhe cores matizadas, metalizadas, modernas…Isso existe?...Sei lá!
Tenho tudo o que preciso, sou louco, não controlo o que escrevo e deixo-me levar pela mão.

O poema acabou…Acabei de o escrever…O lamento, a confissão, tudo foi dito.
Hoje foi assim!
Amanhã?...


P.S. Um bom fim de semana, um texto e um céu alentejano.

(foto: no quintal...)

2006-10-19

SE SAIR PARA A RUA NÃO BEBA!

José, Maria e Joel vivem num apartamento no centro da cidade. Hoje, ao final do dia e depois do jantar, cada um ocupa o tempo a seu belo prazer. José é casado com Maria e tem cinquenta e quatro anos. Maria tem cinquenta e é mãe de Joel que tem vinte e quatro e ainda vive com os pais. São vinte e duas horas, dez da noite, Maria está sentada no sofá e vê televisão. Tomou dois calmantes, vício que mantém desde que lhe morreu o pai, as pálpebras tombam-lhe reduzindo-lhe a visão. José ficou na cozinha lendo o jornal e bebendo um digestivo. A refeição levou-o a beber uma garrafa de vinho, porque foi ele que a preparou, porque estava mesmo muito boa e porque lhe apeteceu. Aprendeu a receita com a mulher e é das que lhe sai melhor.
Joel hoje não sai. Acabou o curso há um ano e está desempregado. Tem poucos vícios, um deles é o haxe. No quarto, de janela aberta, fuma “um” enquanto o som da aparelhagem passa Red Hot, um dos primeiros álbuns…E porque não o nome da música…”True Men Don’t Kill Coyotes”.
José fecha o jornal e decide ir até à sala. Senta-se ao pé da mulher, rotina que nunca abandonou. Na televisão uma telenovela de um qualquer canal, um homem dirige-se a um pequeno bar de sala e enche um copo com uma substância ambígua cor de tisana. A personagem masculina fala com uma mulher que decide também encher um copo. Ambos bebem da idêntica mistela. José pensa! Estão sempre a beber…Tanto que eles bebem…E dá-lhe sede…Levanta-se e vai encher um copo…Pelo menos isto eu sei o que é. Noutra sala, noutra cena, vários personagens numa festa, bebem! Raio de telenovela…
Maria está quase a dormir mas permanece atenta ao som, às vozes que saem da televisão, às vidas fingidas que lhe trazem as emoções que a sua não tem. Percebe a angustia da separação que decorre no ecrã e torce por ela, pela liberdade que ela está prestes a adquirir. Apercebe-se da tensão dramática quase sem ver.
Joel acabou de fumar e continua a ouvir música, Primus, “Frizzle Fry”. Está sentado defronte a uma consola de jogos e manobra uma personagem especialmente agressiva, mistura em partes iguais de detective e carrasco. O jogo corre-lhe bem e o animal percorre as salas de um prédio abatendo tudo o que lhe aparece à frente, sai por uma vitrina fazendo voar mil estilhaços e entra num carro fugindo a alta velocidade.
Após quatro digestivos José sente-se confortável e olha para Maria que está de olhos fechados, percebe pela respiração que ela ainda não está a dormir.
O assassino continua a matar no vídeo game.
A nova lei impede a circulação na via pública aos indivíduos que tenham consumido substâncias susceptíveis de provocar alterações do comportamento.
Ainda pensou em comprar uma pequena quinta no campo…Mas não tinha dinheiro e ainda lhe faltam muitos anos de trabalho.
A explosão é repentina, ficou-se mais tarde a saber que foi provocada por uma fuga de gás. Apenas o Joel sobreviveu. O seguro recusou-se a pagar devido a uma cláusula que impedia o consumo de substâncias capazes de provocar incapacidade de manutenção do bem segurado….Na carta de resposta vinha a lista dessas substâncias…


P.S. É tão fácil perder direitos numa democracia…Basta que os argumentos venham revestidos das melhores intenções…Com os melhores pretextos vamos cedendo…estamos numa de aborto…E do preço da electricidade…E…Um abraço…

2006-10-15

Fátima... E as pessoas


Não foi a fé que me moveu mas sim a amizade. A amizade por alguém que nos acompanhou a Cuba com uma gravidez de sete meses. Correu tubo bem e eu desconheci a promessa até que há dois meses me foi revelada. "Paulo! A Lénia prometeu, mas queria que fossemos todos.", todos significava os que tinham estado em Cuba, em Outubro do ano passado...Entre furacões.
Eramos sete...Fomos oito...Entretanto a Rita nasceu. Óptimo fim de semana, entre peregrinos e pessoal em descanso. Revi Fátima, Batalha, Alcobaça, Nazaré e Caldas da Rainha, pelo meio ficaram um sem número de pequenas terras que o nosso povo teima em habitar.
Tirei algumas fotos e reparei que em Fátima só as pessoas tinham sido o alvo da minha objectiva. A esses modelos anónimos e involuntários eu agradeço e peço desculpa pela ousadia.


A todos voçês uma boa semana...E o meu olhar sobre as pessoas, em Fátima.

P.S. A última fotografia está cá porque eu não resisti...

2006-10-12

O Castelo


Estranha pedra preciosa,
Nasces para brilhar,
A sede fez-te vir para lugares escuros,
Lugares onde a luz é regateada,
Vendida no mercado negro das trevas

Vésperas de sábado. O dia promete ser brando, não mostra o sol mas não esconde a luz. Nas ruas o movimento é calmo, fluxo preguiçoso e disperso.
Aproxima-se da janela, deixa-se estar, protegido pelas cortinas que permitem a passagem difusa da rotina lá fora. Ao de leve, com dois dedos, afasta-a o suficiente para mostrar um dos olhos, o esquerdo. É essa visão nítida que o convida a sair. Convencido o espírito o corpo obedece, lava-se, alimenta-se, apruma-se e sai. Leva consigo o espírito que decidiu.

O terreno está livre.
Espera pelo ardor da batalha.
Não se vêem exércitos…
Apenas o silêncio.

O Outono deixou a sua marca, a brisa marítima que atravessa a planície e chega à serra vem saturada, água que se prende ao rosto, à roupa, mas que a temperatura não deixa ser desagradável. Caminha pelo empedrado que preenche a parte velha da cidade. Sobe a rua do Algarve, atravessa o Largo Alexandre Herculano e vira à esquerda pela estrada que circunda o castelo num trajecto de três quartos de lua…Três quartos de paisagem que quase chegam a Tróia…

No castelo moram os meus familiares.
Mortos de outras batalhas,
Feridos de outras guerras.
Jazem, juntos, aos pares.

Vai parando entre campas, entre muros, entre saudades eternas. No recatado sossego destas pedras centenárias apenas aquela mulher de preto desconvoca o silêncio, agrada-lhe ouvir-se gemer. Já a conhece, trocam olhares cúmplices de desgosto, hoje não haverá conversa. Junto à lápide conversa com a mãe, conta-lhe da semana e da nova namorada que ela havia de gostar de conhecer. Dá um beijo ao pai e outro ao irmão mais velho. Do que foi a tragédia lembra o acaso que o deixou vivo. Uma lágrima para a tristeza, outra para a saudade e outra pela felicidade de ter sobrevivido.

Caminho ao largo,
e o som vem dos bosques,
e a erva grisalha do Verão,
manchada de sangue amargo,
relembra-me as vozes na rádio,
a notícia fresca de morte,
algo que não pode ser pago.

Que belo dia…Feriado…Vou telefonar à minha Joana!


P.S. A história não é verdadeira, mas o castelo é…E tem lá dentro o cemitério com as gentes da terra. (Santiago do Cacém)

2006-10-07

Romançe Poético

Primeiro o Espaço

Do tamanho das estações a chuva chega,
Amarela-se o ar que nos envolve.
Ocre melancolia.

Na manhã que não dormia tudo é húmido.
A cidade transpira,
Condensa nos seus poros as vidas que nela respiram.

Ruas atrás de ruas.
No meio das rectas os pontos de referência,
As margens dos caminhos,
As direcções memorizadas.

O largo abre-se em recantos familiares.
No café a manhã é deserta,
Como quem faz o pequeno-almoço a um filho.
Ontem o filho não dormiu em casa.
O pai que o espera não é seu pai…
E não sabem…A mãe sabe mas não diz.



Depois as pessoas

As cãs marcam-lhe a idade.
O corpo que foi ágil desiste nos embates confortáveis.
A mulher não é a mesma,
Nunca foi a mesma.
Já não o procura,
Mas também não procura os outros…
…Os cheiros que ela trazia…

Tudo por amor,
Um destino sem dor,
Pelo calor nos lençóis…
…Não dorme sozinho…

Feita de traços perfeitos,
Legou-os no ventre ao seu filho.
Mãe adolescente, mãe carente,
Mãe de sonhos desfeitos.

Filho de mãe conhecida,
Conheceu no pai aquele homem.
Ó mãe porquê?...Tantos homens…
Ó pai porquê?...Tu és mãe…



Interlúdio sentimental

Aquele que lhe chamava pai já não existe.
Rendeu-se à distância, à vergonha.
Sim…Sou eu o pai,
Mas ele não quer que se saiba.



Por fim os factos

O assalto correu mal.
Duas balas prostraram-no no chão.
A ambulância demorou uma hora,
O médico legista, três.

O telefone tocava,
Os sedantes, amorteciam.
A voz do outro lado espera.
A mulher dormente não ouve.

Foi o homem que saiu a correr…
…Veio da cozinha…
Foi o homem que levantou o auscultador…
…Tremendo-lhe o gesto…
Foi ele que primeiro chorou,
Para dentro,
De dentro,
Sem sair.

Saíram atrasando os movimentos,
Num vagar de quem não quer…chegar…
Não havia urgência,
Nem urgência teria de haver.
Quem vai identificar um corpo,
Tão depressa não vai esquecer.

Na corrente sanguínea,
Morre o sedativo,
E a mulher que não sentia, sentiu,
E sofreu,
Pelo filho a quem escondeu…O pai!



Conclusão

Foi a morte,
O desgosto,
A sorte,
O destino,
A sensação de solidão,
O acaso genético,
O impulso eléctrico
O dedo feminino de Deus,
O que a fez finalmente,
Amar aquele homem?
Homem que sem ser pai se fez Pai,
De um filho que fez Filho,
E que chorou como se fosse dele.



P.S. Um Poema urbano...De amor! Bom fim de semana e até daqui a uma pausa...

2006-10-05

Anónimo

(sem nome)

Se atado a uma cadeira,
Alucinando num quarto
Me alugo e me vendo,
A culpa de que me acuse,
A qual sempre julguei minha
Não é mais do que a ressaca,
A secura da manhã
O mau estar constante de quem nunca descansa….

Se amordaçado a um qualquer deus
Nunca me ouviste gritar,
Se vendido te denuncio,
É do pesadelo que falo,
Do inferno e do fogo.

Se privado da palavra
Me fechei em grades,
Se danado com falsas verdades
Matei e não chorei,
Então tudo valeu a pena….

2006-10-01

Noites


Leves os rosas nas maçãs do rosto, o adivinhar do sangue por debaixo da pele branca, o toque trémulo dos dedos sentindo o relevo. Os efeitos da luz matinal projectam-se na parede desafiando as cortinas, brincando com elas…Os corpos ainda se encontram juntos, membros baralhados, dispersos nas sombras. Dormem, adivinha-se o respirar, breves sopros de vida…

Conheceram-se ontem. Souberam o nome para se poderem chamar, confirmaram as músicas que estavam a ouvir e falaram. Confessaram tudo o que o álcool quis e dançaram. Nunca a pista e a multidão os conseguiu separar. Agarrando-se com os olhos largaram-se na frenética corrente misturando suores e contactos.

Ela foi com três amigas. Não levou carro. Tinham jantado num restaurante Italiano, daqueles com bandeiras e alusões despropositadas. Beberam vinho tinto e disseram mal de toda a gente…Bem, não disseram só mal, também fizeram alguns julgamentos. Ela não leva aquela regateirice muito a sério, é só para descomprimir. Ainda foram a um bar, foi ai que se libertou…

Todas as semanas espera por estes dois dias, melhor dizendo, duas noites. São cinco dias a trabalhar e dois para rebentar. Já não é muito novo, por isso adquiriu algumas rotinas de conservação. Só o Daniel sabe desse facto, amigo desde sempre para ele não há segredos. Vai com quem calha, já não são muitos os resistentes….Nem sempre leva carro. Hoje levou, arranjaram-lhe algo branco não precisa beber…Talvez…

De manhã nenhuma memória que leve ao afecto os mantém abraçados, apenas o acaso dos corpos procurando conforto, calor. Nenhum sinal de preservativo, confiança total no acaso.

É ela quem acorda primeiro, estranha o contacto, estranha a boca seca, a garganta colada, mas não se mexe. O corpo cansado recusa movimentos, o relaxamento é total, menos a cabeça. Espera um bocado, não sabe quanto, até a bexiga a obrigar a levantar-se. Não está em casa…É a casa da Luísa. Onde estará a Luísa? Tropeça nas roupas espalhadas pelo chão, entra na casa de banho, senta-se na sanita e fecha os olhos…Sente-se adormecer.

Ele também já está acordado e olha aliviado para um soutien. Leva a mão ao sexo fazendo-a descer lentamente até aos testículos, acto reflexo, como se o mundo todo estivesse ali e agarrá-lo o segurasse eternamente…”Esqueci-me!”


Nunca se tinha preocupado com questões de segurança até ao dia em que acordou com um homem. Desde então, em dias de maior desatino, a primeira coisa que faz ao acordar é confirmar a companhia. Começou a usar preservativo para proteger as amantes. Em relação a ele preferiu não saber, cruz que carrega com dificuldade. Faltou-lhe a coragem para ir fazer o teste, chegou a estar à porta do Hospital mas não entrou.

Ela nunca percebeu porque fugiu aquele homem. Saiu da casa de banho ainda a tempo de ver a porta fechar-se…Não teve reacção…”Será que não aprendo…”.
À noite telefonou à mãe. Não lhe contou nada sobre o assunto mas foi como se tivesse sido purificada…Efeito materno da origem.
Foi deitar-se mais descansada prometendo a si própria que iria ao médico.


P.S. A hora tardia faz-me mal e leva-me por essas noites…

2006-09-29

Gaivotas


Podia dizer que foi inspiração ou qualquer outra fonte de energia, mas estaria a mentir. Foi apenas mais um dia. Levantei-me cedo e fui ver o mar...Sabia que ia estar fechado nas próximas doze horas e decidi aproveitar. Porto Covo está deserto, voltou à pacatez dos seus trezentos e poucos habitantes. Estacionei o carro junto ao tratamento de águas e percorri a pé o restante caminho até á falésia, até ao mar. Bem perto de mim, nas saliências rochosas, as gaivotas espreitam os pescadores. Observam como se não fosse nada com elas...E eu também.
Lembrei-me da máquina que trazia na mochila...Desci, o suficiente para ficar no mesmo plano, olhos nos olhos e fotografei-as...


Uma vez...


E outra...

E ainda outra...


Antes de abalar despedi-me do mar e agradeci ao sol a sua breve aparição.

Foi assim a minha manhã...Do resto não conto, apenas que são quase duas horas e que tenho de me ir deitar...

2006-09-25

Sobro e Azinho



Á beira da estrada três montes lenha. Uma placa tosca com letras pintadas e uma seta leva-nos a percorrer um pequeno caminho de terra que nos retira do asfalto. Uma vedação, um portão aberto e logo a seguir um toldo de plástico onde repousa um velho tractor. Ao seu lado um homem bem entrado nos cinquenta, marcas do trabalho do campo na cara e nas mãos, previsivelmente também no corpo se o mostrasse. Sentado numa cadeira, que me lembra as que existiam nos cafés quando eu era pequeno, entretém-se com uma navalha e um pau. Separa-nos uma mesa de madeira forrada com um plástico transparente, reaproveitado de outros embrulhos. Um lápis, um bloco improvisado e pedaços de madeira, simulam destroços de uma tempestade, emprestando-lhe um ar desarrumado que não destoa.

Todos os anos compro lenha, uma tonelada, meia de sobro e meia de azinho, para o recuperador lá de casa e para os meus sogros. Não tenho especial fascínio pelo fogo mas agrada-me bastante observar o lume manso na lareira durante o Inverno. Os olhos abandonam o corpo e perdem-se na brasa e aquecem-se, aquecendo com eles todo o corpo. Não consigo explicar...É muito bom…

O azinho é melhor, tem uma combustão lenta e produz mais calor que o sobro, também é mais caro. São coisas que se fazem com antecedência, antes das chuvas e do tempo húmido. A madeira molhada pesa mais e custa a pegar fogo.

“Bom dia!”, o homem desvia o olhar das mãos e debruça-o em mim, retribui o cumprimento. O negócio é rápido mas a conversa lenta. Enquanto avalio o tamanho dos cavacos pergunto pelo preço, “Cento e vinte o azinho…O sobro fica a oitenta.”. “Este ano só quero azinho…”, “Você é que sabe…”.

Aproveitei a manhã de folga. A minha sogra deixou o carrinho de mão cá fora. Por debaixo da construção em alvenaria que serve de garagem e aproveitando o desnível do terreno, existe um espaço reservado para a lenha. Fica sempre em casa deles, quando precisamos vamos lá buscar, é perto e eu gosto de lá ir. Também gosto de arrumar os cavacos, escolhê-los pelo tamanho e pelo corte, garantir que não descaem, estacá-los de vez em vez. Enquanto espero vou arranjando espaço. As vespas fazem-me companhia, atraídas por três figos podres num balde, a um canto…Depois logo os deito fora.

Ouço vozes, a minha mulher dá indicações sobre o local de descarga. Quando chego lá acima já os primeiros pedaços de madeira rebolam pelo chão. Falo com um dos homens, o outro pouco percebe do luso verbo, do Leste? Não sei, não perguntei.

Acabaram, “Um bom dia de trabalho!”, “Obrigado! Olhe que você também não está mal servido.”.

Fiz a coisa nas calmas, a Deo ajudou-me e este ano acabei mais cedo. Olhei orgulhoso para a arrumação…Ainda ficou muito espaço livre…O meu sogro vai ficar contente.

Escolhi dois pedaços de lenha para o meu recuperador de calor…Para fazer vista…

É essa a imagem que deixo…

Um abraço a todos e boa semana!

2006-09-22

Explicação

Comecei a trabalhar aos dezassete, oficialmente. Uma das primeiras pessoas que conheci vai-se embora este ano, reformou-se. Tal como eu, veio de Lisboa, uns anos depois de mim, mas não interessa, veio! Companheira, camarada, pouco importa, foi ela que me apresentou os pontenciografos, as muflas, as provetas graduadas com rolha e esmerilado, os espectrófotometros, os bicos de busen e um sem número de objectos que faziam parte do quotidiano…Cabo Ruivo, laboratório, viras à direita…Em frente ao rio…De frente para a outra margem. Essas primeiras imagens, essas primeiras experiências, tão receptivo que eu fui. Como eu gostaria de puder espantar-me…Como da primeira vez…
Ontem? Sim foi ontem!
Ontem organizou-se um jantar de despedida…Aliás, meteram no mesmo saco duas despedidas. Por esse motivo o número de pessoas envolvidas extravasou o laboratório e chegou ao director, alguém que eu vejo uma vez em cada dois anos e com quem tive azedas conversas de falsa cortesia. Bom…Eu não fui ao jantar…Fiquei com a minha filha…Ajudei-a no banho, jantei com ela, deitei-a cedo para a conseguir acordar de manhã.
Que a decisão foi correcta, não tenho dúvidas. Eu não tenho dúvidas porque tenho noção das minhas prioridades neste caso…Também ela percebeu.
Fui coerente comigo mas trago o sabor da derrota na boca…E sabe mal que se farta…
Não tenho de me justificar.
Hoje de manhã ressacava de uma auto flagelação estúpida e sem sentido.
Demorei tempo a perceber que no meio disto tudo não me perdi, continuei a ser quem era. Não preciso que me admirem ou odeiem, apenas que percebam até onde podem ir.
Cheguei a casa…Vim devagar…sessenta quilómetros por hora numa estrada de duas vias totalmente desimpedida…Vidros abertos, para sentir o cheiro dos pinheiros molhados a secar…Pois…Cheguei a casa e lembrei-me do que tinha escrito ontem, desse olhar absorvente pela desgraça…Faltava qualquer coisa para finalizar aquele texto que fui buscar ao baú das recordações (Doces anos oitenta…Mas tantos amigos perdidos…). Faltou explicar que ontem, de alguma forma acabou um ciclo…Para mim.
As prisões existem, são reais, servimo-nos delas para marcar territórios, delimitar consensos, abreviar relações ou extrapolar outras. Muitas vezes nem damos conta desse facto.
Escrevo enquanto vou pensando e isso não é muito bom…
Ainda me arrependi de ter postado aquilo, aquele texto de tempos quase esquecidos…
Fui à casa de banho antes de ir à cozinha buscar um copo que enchi de Whisky…Lembrei-me do que tinha escrito ontem…Li os comentários…E achei que vos devia uma explicação…
Também a mim eu tive que explicar umas tantas coisas…