2020-06-19

Despedimento


 

Despedimento.

Despem-me da carne a pele,

a alma e o sustento.

O pouco que sobrou de mim

negociado numa mesa e o fim

anunciado no momento.

Quer, não quer, é o que há.

Hoje posso amanhã quem julgará

Não pense que eu sou o que sou,

Considere-me a voz do desengano,

nova oportunidade ou alento.

Sou porta voz de um jumento

em fim de ciclo ou novo ano.

 

 

 

Noites houve,

que a semana não contou,

em que a minha vida desfilou

pelos meus olhos cerrados.

O meu número num cartão,

e o meu nome num borrão,

são prova do que passei,

fragmentos do que fui e do que sou,

restos do que sonhei

pedaços de mim espalhados.

 

Hoje entrei,

tingindo de rosa o pudor.

Trespassei o corredor

Lembrando como cheguei.

Sinto a mão que me empurra

mas não lhe tenho rancor.

Trago um alívio de dor,

por tudo aquilo que eu dei.


2020-02-01

O Rio




O canal de águas barrentas transmuta-se em visão onírica.
Dissimula-se cobrindo o seu leito com um véu negro onde se perdem, infindas, as luzes da cidade.
Criaturas apaixonadas perdem-se e apertam-se no encanto da sua cinesia.
Águas geladas recebem-lhes os gestos e as palavras não ditas, reprofundando dentro de si a confidência de loucas promessas.
As cores que a cidade derramou no rio deixaram de lhe pertencer.
Diluídas, são obra involuntária, produto de casualidade, mesmo que a origem lhe seja indiferente e que a mão sábia do homem as tenha inventado.
Na manhã o inverno devolverá o barro ao rio, a cinza e a sépia às fachadas húmidas, a nudez crua do que é desvendado áquele que acordou.
Vemos então o canal que molda a água escorrer formas.
Quando de negro se transmutar novamente serão elas os amantes e os filhos do seu leito, escravos do seu peito, seus eternos e noctívagos navegantes.


2019-12-24

Carta aberta ao Pai Natal


Carta aberta ao Pai Natal

Meu caro Pai Natal nem sei por onde começar. Tive dúvidas no título e hesitei na “carta”. Poderia ter-lhe chamado email ou mensagem ou outra coisa qualquer mas achei que isso não tinha importância, desde que estejas disponível para ler estas sinceras palavras, o nome é apenas um nome e tu não te prendes com tais irrelevâncias.
Também tive dúvidas sobre o conteúdo, essas mais graves e de difícil resolução mas, como sempre tentei ser honesto, vou começar pelo meu comportamento. Sou um filho incompleto e a prestações. Depositei o meu Pai num lugar onde filhos incompletos como eu depositam os seus pais. Faço duas visitas semanais mas sinto-me culpado por não o ver todos os dias. O trabalho, as rotinas, a doença que lhe tomou conta da memória e não o deixa lembra-se de mim, o descanso de que necessito e mais uma mão cheia de outras desculpas servem de justificação para uma tão fraca assiduidade quando na realidade, o que me custa é vê-lo desaparecer lentamente. Sei que quanto a isto não podes fazer nada, a vontade é minha e a vida a Deus pertence, portanto o que te vou pedir é mais à tua medida.
Amanhã, dia de Natal gostava de ver o meu Pai barbeado e limpo, com roupa simples e asseada, sentado numa cadeira nova num quarto a cheirar a detergente onde uma cama em condições poderia fazer sonhar quem nela se deitasse. Gostava também de o ver pouco trôpego e com um sorriso nos lábios para podermos ir passear e ver o mar.
OK, sei que estás muito ocupado e que deves ter passado os últimos meses em centros comerciais e outros estabelecimentos do género de modo a suprir o teu stock de desejos e ambições. Também sei que já não tenho idade para acreditar em ti mas o que é que queres, também já não acredito em quase nada…
Desejo-te um excelente dia de trabalho, sem falhas nas entregas, atrasos ou imprevistos.
Um abraço deste gaiato crescido e cheio de imperfeições que muito te estima.
Até para o Ano


Jorge Saboga

2019-11-22

Verbalização Pictórica

 Abro a janela do meu quarto e respiro fundo. A tela está em branco e a paleta repleta de palavras. Começo pelo céu. Um céu nublado de nuvens gordas em camadas sucessivas, cinzentos que do claro ao escuro lhe conferem dimensão. É um céu que não oprime, antes liberta e seduz. O céu terá um ponto de referência, local onde os olhos procuram sem que tenham sido convocados. O sol nasce mas não se vê. Apercebemo-nos do seu parto. Captamos tonalidades sépias em gradientes radiais enquanto aguardamos o seu corpo, o seu calor, a sua indefinição luminosa que nos induz a noção de esfera apenas porque o desenhamos em círculo. Na contraluz matinal as formas surgem e eu coloco pequenas casas brancas, isoladas, térreas, pequenos sinais de vida adormecidos. Os últimos galos pigarreiam ladainhas de arrogância para galinhas ensonadas. Alguns animais invisíveis deixam nervosos os cães de guarda. Quem sabe se uma raposa atrasada ou uma família de javalis que ainda revolve a terra. Nada disto ficará registado, a invisibilidade e o som apenas poderão ser adivinhados. Depois das casas surge uma fileira de canas. Exército de lanças ao alto, perfilado ao longo de um curso de água. Logo depois um campo lavrado de castanhos escuros e sombras negras. Envolve-o um fino véu de pequenas gotas de água. Irei chamar-lhe névoa para que fique perceptível embora a mim me pareça a transpiração vaporosa de um corpo quente e húmido. Jogo as palavras na tela e de repente surge-me a transparência de uma camisa de dormir. Será aquela terra toda uma mulher adormecida. Sendo assim irei cobri-la com outra fileira de lanças, estas mais perto e porque mais perto, ondulantes. a seu pés percebe-se o correr da água. Tudo isto se passa num plano primeiro onde irei colocar um pássaro negro. Para lhe retirar a pose agressiva verbalizo-o no cimo de uma das lançascanas...oscilante. O pássaro negro, de asas abertas, procura o equilíbrio e com esse gesto perde a inquietante negatividade transformando-se num elemento ao mesmo tempo frágil e cómico. Dou as últimas pinceladas. Procuro corrigir algum erro de gramática, disfarçar alguma tonalidade verbal dissonante, dar coerência ao aleatório da tela. Não sei se consegui...

2017-11-27

Carta para o meu irmão desconhecido

O abraço é grande e o tempo que me sobra é incerto. De Novembro a Novembro passou um ano e eu não quero deixar passar outro sem te escrever estas palavras. São o que são e valem o que valem mas acima de tudo são sinceras. Pesam-me incertezas e o medo de ter falhado. Imagino um homem venerável e idoso. De olhar crítico e ao mesmo tempo indiferente. Traz numa mão o somatório do que fui e na outra um rol de dívidas por cobrar. Hoje alguém pagou as suas. Duas semanas de hospital não resolveram um coração cansado. Tanto trabalho para tão pouco descanso.
Tenho dormido melhor, acordo menos vezes durante a noite e já não fumo para adormecer. Não sei porque te conto estas coisas, mas o tempo voa e um dia pode ser tarde demais. Assim ficas a saber que a cama se tornou minha amiga e já não me tortura com aconchegos.
Ontem saí à meia-noite e perguntei-me porque estava a rega automática ligada. Pareceu-me estranho que na cidade deserta apenas nos repuxos aquíferos houvesse vida. A relva está viçosa e agradece este mimo autárquico. Ainda se pode pisar a relva, mas depois de ver gastar tanta água o gosto já não é o mesmo. Lembro-me de um familiar da ex-mulher do meu pai, aqui há uns anos, criticar esta “malta nova” por estar sempre a tomar banho. Segundo ele um banho por semana bastava. Na altura achei ridícula a observação, hoje acho ridículo o que eu achei.
Os dias estão cada vez mais pequenos mas eu tenho cá para mim que não é o Inverno que os anda a encolher. De ano para ano os dias vão ficando menores e o tempo escasseia para tudo. Sempre pensei que a lista de coisas para fazer fosse diminuindo. Pura mentira. A lista aumenta de dia para dia e coisas tão improváveis como a leitura de um livro deixam-me angustiado. Tanto que me falta ler, eu que continuo a comprar mais livros do que aqueles que consigo consumir. Hoje demorei uma hora a decidir-me por um. Cheguei à conclusão que perdi uma hora de leitura. Depois cheguei a outra conclusão, perco demasiado tempo a decidir-me.
Deixo-te esta confissão com a certeza de que te rirás de mim.
Faço votos para que esse sorriso te traga alguma alegria.
Abraço grande meu irmão desconhecido.

26 de Novembro de 2017


P. Guerreiro 

2017-11-25

Carta para ninguèm

Escrevo-te como se de uma carta se tratasse. Posso tratar-te por tu porque não te conheço, posso revelar-me porque nunca me dirás que me compreendes.
Lembras-te da última vez que cruzamos textos; eu escrevia e tu lias, tal como hoje o teu silêncio era meu companheiro e ajudava-me a passar o tempo. Passaram alguns anos e o sabor que trago nos dedos já não deixa impressões. Confesso que tenho saudades tuas, confesso que tenho saudades minhas. Na verdade já há algum tempo que não me vejo. Os anos passam e tudo o que eu deixei por fazer continua exatamente por fazer. Partiram mais alguns e o meu pai entrou num lar. Confessou-me a sua impotência e chorou e eu abracei-o sem o olhar, com medo que as suas lagrimas se juntassem às minhas e se transformassem num mar impossível de navegar. Já passaram quase dois anos e eu sei que não voltei a ser o mesmo. Nunca se volta ser o mesmo. Fiz cinquenta anos e não te disse nada, também não comemorei. Nesse dia chorava-se a morte de um primo, 36 anos de álcool e 48horas de hospital bastaram-lhe para a despedida. No dia que fiz cinquenta anos fui a dois funerais. Na altura não te disse porque não havia nada para dizer. As parcas palavras transformaram-se em gestos para consolar quem me era próximo.
Continuo destemido de garrafa na mão e troquei o álcool escocês pelo medronho caseiro e pelo tinto de 14 e meio. Enquanto o fígado resistir e não inventarem uma hepatite d por cá ficarei mais alguns anos. Espero que te encontres de boa saúde quando leres estas linhas. Dá cumprimentos meus a quem tu muito bem entenderes e se porventura, ou outra qualquer razão, te ajoelhares para rezar não te esqueças de interceder por mim que eu farei o mesmo por ti.
Não te quero incomodar mais.

Abraço grande e até qualquer linha.

24 de Novembro de 2017

P. Guerreiro

2015-06-09

A felicidade

Procura-se, constrói-se, adquire-se por procuração ou numa loja perto de nós? Qual o estado de ser feliz, quais os fluidos orgânicos que nos levam a esse êxtase? Posso eu acordar e bastar-me vivo para ser bafejado pelo seu toque, serei considerado minimalista ou pouco exigente? Conseguirei eu vinte e quatro horas ininterruptas de superior comiseração egoísta, de consolo permanente? Dependerá a minha felicidade de mim, apenas e só de mim, ou terão os outros uma palavra a dizer? E o tempo, consideração meteorológica, o sol, a chuva, o céu nebulado, o céu azul, serão eles apenas adereços prontos a ser desfrutados, lápis de cores, serão eles capazes de provocar felicidade, facilitar-lhe a vida? E o tempo, o outro tempo, que juntamente com o espaço nos confere dimensão, referência, ancora, nos situa e nos faz situar, foi antes, é agora, será depois ou nunca será, será esse tempo regenerador ou fator de erosão? Conseguirá a felicidade resistir a tantas questões, será ela racional, emocional, uma mistura em partes iguais ou uma formula secreta que se adapta e multiplica?
Porque não deixá-la aparecer e desaparecer, chegar e partir ao sabor de marés, limitarmo-nos marinheiros, aprender a navegá-la, saborear-lhe as nuances, os bons e os maus humores que lhe advêm da inconstância, do seu estado de constante volatilidade, permanência intermitente, que salpica as nossas vidas de sal doce.
Já assisti à sua procura, homens e mulheres dispostos a tudo nessa viagem alucinada. Vi homens e mulheres passarem-lhe ao lado por centímetros, outros chocarem com ela e nem a verem. Vi homens e mulheres que se decidiram pela sua construção e trabalharam todos os dias com ela ali ao lado, ajudando-os, fazendo-lhes a massa com que se unem os seus tijolos, vi esses homens e mulheres desesperarem por nunca ter a construção acabada, vi homens e mulheres chorarem, porque depois de acabada a construção, sentiram medo, o medo de a perder, o medo de ver a erosão destruir a sua obra. Vi homens e mulheres sonhá-la, desenhá-la, pintá-la, esculpi-la com mil cuidados, todos eles com medo de acordar. Vi homens e mulheres tentarem comprá-la, conquistá-la á força, sem nunca saber quando parar, sem nunca saber se realmente a tinham atingido, consumidos pela dúvida, esquecidos do que realmente queriam.
A felicidade é um conceito, comporta satisfação, êxito, contentamento, gosto, prazer, alegria, exultação, júbilo, regozijo, consolação, contento, bem-estar, deleite e muitos outros adjetivos.
Porque não aproveitar uma satisfação inesperada, um êxito ocasional, um contentamento genuíno, um gosto aprendido, um prazer antecipado, uma alegria ocasional, uma exultação esperada, um júbilo de conquista, um regozijo merecido, uma consolação pelo esforço, um contento pela vida, um bem-estar físico e natural, enfim, deleitarmo-nos com a vida, deixar sempre as portas abertas para que a felicidade possa entrar, para que a tristeza possa sair.
Ontem, na televisão, ouvi filósofos, escritores, advogados e outros pensadores. Ontem fiquei com uma certeza.
A felicidade não se escreve, não se diz, sente-se!

2015-05-09

Os segredos do Jorge

A noite tem segredos que não são dela, são nossos. Por vezes assusta-nos revelando-os. Será talvez a escuridão que transforma a sua pálida luz em brilho ofuscante, quase insuportável. Nessas ocasiões sentimo-nos expostos, nus. Uma nudeza crua que nos revela o interior ensanguentado. Podemos então chorar mas não é um choro de ocasião, é um carpir de fingimentos acumulados, fragmentos de histórias passadas, histórias às quais não conseguimos escrever um fim. São essas histórias que fazem a noite tão interessante, o sal que tempera a sua voluptuosidade. Quem não se descobriu na noite? A manhã, pelo contrário, é uma esponja de efeito anticéptico, absorve a nossa sujidade interior e elimina-a deixando apenas restos de nós. A cara cheia de rugas, os olhos inchados, a pele pálida e gordurosa, os músculos flácidos, os pulmões ressequidos, a vergonha do que mostrámos sem querer.
O Jorge foi deixando de sair à noite. Já não suportava o fingimento matinal, o voltar a ser o que não era, o que não queria ser. O Jorge desistiu de todos os sonhos. A escrita morreu no casamento, a pintura no primeiro filho, a música no segundo, quando todo o tempo de criar se acabou, finado entre o trabalho na fábrica e o cansaço da alma. A noite assusta-o. Por vezes, confrontado com convites irrecusáveis, cede a contragosto com a certeza do arrependimento, também ele certo. O susto persegue-o sem que ninguém se aperceba. Longe vão os tempos da recriminação. Não sabes beber, bateste outra vez com o carro, não te lembras do que fizeste, a vergonha do desconhecimento, versões múltiplas do seu medo.
Começava sempre da mesma maneira. A promessa de ser diferente estava condenada ao fracasso. Eterno fracasso, antecipado, anunciado, desde logo aceite como inevitável. O primeiro embate junto da mesa onde se acumulavam os pratos e os copos. Os copos que voltariam a encontra-lo, noutras mesas, balcões, superfícies planas que lhes permitissem a verticalidade. Os copos que se encheriam de diversas bebidas, de diversas percentagens, 5%, 14%, 30%, 50%, percentagens que subiriam e desceriam ao sabor da oportunidade, da companhia, da conversa, do desafio. No fim o mesmo medo, o vazio, a sensação vertiginosa do abandono, sozinho ou acompanhado sempre o mesmo abandono, o seu abandono.
Hoje o Jorge saiu á noite. Não fez promessas. O Jorge que desistiu dos sonhos escreve para si, toca para si, pinta para si e sente-se bem consigo. Não lhe apetece sair mas a noite é especial. Alguém que parte, que se despede, um companheiro de lutas, de desilusões. Perante estes termos seria de esperar um receio incontido, um desnorte descontrolado. Mas o Jorge já não tem ilusões. O Jorge morreu por dentro. No interior do seu corpo o sangue já não tem a mesma cor. As histórias inacabadas tiveram o seu fim. Por esse motivo o Jorge saiu descontraído, bebeu descontraído, despediu-se controladamente e foi-se deitar sóbrio.

A noite deixou de ter segredos para o Jorge e as manhãs passaram a ser todas iguais.

Deus queira que o Jorge não se canse de si...

2015-04-29

A lareira permanece acesa...

Dez de Novembro de dois mil e catorze, dezassete horas e dezanove minutos. Cheguei do trabalho. Entro em casa. A sala, fria e escura, recebe-me de braços abertos, num aconchego gelado de coisa morta. Um ligeiro cheiro a humidade paira no ar, lugar-comum para algo que se insinua, estado de presença, existência, não se impondo, fazendo-se notar. Um grito de alerta para o espaço imediato e para aquele logo a seguir, e isto significa ouvir-se em toda a casa. MARIANAA! E enquanto o nome ecoa aprumo o ouvido e sintonizo-me com os ruídos do silêncio, uma fração de segundos, uma fração que durou segundos, que me desesperou o tempo suficiente para nem chegar a ser tempo, tão ao de leve como a resposta, sim pai!
Já estás na cama? Estava com frio, uma pausa enquanto ajeita os lençóis, acomoda o corpo para se debruçar num caderno manuscrito, estavas a estudar? Vais ter algum teste? Sim, o último antes do Natal, de físico-química, o último, o primeiro de muitos, vou lá abaixo acender o aquecedor, porque é que não acendes antes a lareira.
Fui à casa de banho, depois fui à garagem e fumei um cigarro, quanto tempo demorei? Não sei, uns míseros cinco minutos. Peguei em três pequenos toros e numa caixa de acendalhas.
A lareira já está acesa, ouve-se uma guitarra e um baixo, aplausos, obrigado! Dead Combo, Live at Teatro São Luiz, começando com sopa de cavalo cansado, passando por quando a alma não é pequena, acabando num desabafo ai que vida, e o ecrã à minha frente, o ícone do Word insinuando-se, lembrando-me do atalho que criei vai para meses, numa tentativa frustrada de criar hábitos de escrita, um teclar constante e consciente, produtivo e independente de estados de humor, um exercício de construção com objetivo, um projeto acabado.

A lareira permanece acesa, eu entretanto adormeci…

2015-04-25

EU SOU!

EU SOU!

Eu sou a raiva que não posso,
A tristeza que me permito,
O desencanto que me venderam,
Um carrossel sem fim.

Eu sou o combatente sem arma,
O soldado de trincheira,
A latrina mal lavada,
Uma espada de madeira.

Sou a pedra que não fere,
A palavra que não diz,
A história que não se escreve
Os restos deste País.

Eu sou a morte renegada,
Uma flor sem cheiro,
Sou um todo que não é nada,
Quando não tem companheiro.

Sou a tristeza fingida,
Sou a alma inventada,
Sou a grandeza despida,
De liberdade comprada.

Sou um filho de más noites,
E a cova dos futuros.
Em mim morre tudo o que é sonho
Por detrás de imensos muros.


Grito sempre a horas certas,
E luto a horas marcadas.
Eu sou a espera dos outros,
Reflexo de manadas.

Eu sou os primeiros minutos do dia,
A confissão sem perdão.
Sou a vitória que adia
O destino da Nação.

Eu sou o que penso,
Quando me obrigam a pensar.
E de tudo o que me resta,
O que me falta chorar.

AH meu Vinte Cinco,
Meu cravo de florista,
Minha lembrança de livro,
Minha página de História!

O que serei eu amanhã,

Quando este dia passar?

(Após concerto de Sérgio Godinho em Vila Nova de Santo André 24 de Abril de 2015, que me sirva de lembrança...)


2014-05-31

Num dia de despedida o choro convulsivo é desnecessário

Num dia de despedida o choro convulsivo é desnecessário. Pretende-se alguma espécie de sentimento, algo que revele emoções, o trejeito facial, a tremura nas mãos, o incomodo na tensão femoral, uma ligeira gota de suor que teime em formar-se a partir do interior, o rubor que nos aquece e nos deixa incomodados. Sim, espera-se alguma coisa, mas o choro convulsivo é desnecessário. Arruma-se a secretária, o armário, entrega-se a roupa usada, faz-se o espólio de uma parte da vida, enchem-se sacos de memórias, de guerras e de amores, amizades e desavenças, vitórias e derrotas e deixa-se aos outros a obrigação da lembrança para nos manter vivos.
Não consigo chorar numa despedida. O líder que se despede, e em pranto eu esqueço-me, alzheimer de duas décadas, como se ajudasse eu não saber ler nem escrever, como se ajudasse ser uma pessoa melhor, não fazer aos outros o que não gostava para mim, esses princípios morais, essas vitórias morais que nos fazem de bem com os outros e de mal comigo. Sim Sérgio, que força é essa?
Não nasci Cristo, só o álcool me faz chorar numa despedida, só a ressaca me fará chorar porque chorei, a ressaca e a vergonha e o silêncio calado porque nem silêncio pode ser, porque se for só silêncio incomoda. Nada como um silêncio ruidoso, um silêncio de ruídos e de sorrisos embevecidos, de lágrimas complacentes e autoflagelação gratuita. Que não me doam mais as chagas que acumulei, hoje curei-as com o sal das minhas lágrimas. As minhas lágrimas não têm cloreto de sódio, as minhas lágrimas são feitas de hidrogénio e de oxigénio na devida proporção, dois para um, apenas e só dois para um, água pura, desmineralizada, lavada de iões por resinas fantásticas. As minhas lágrimas são vertidas de um esguicho, material de laboratório que eu muito prezo, um esguicho de ponta fina, desses que faz as lágrimas bonitas, arredondadas à frente e afuniladas na cauda e que deixam um bonito lastro aquoso.
São os bolos ou apenas a impressão que são bolos, o chamariz para a mesa, a garrafa de Porto e os sumos, a Fanta e a Coca-Cola, o resistente Sumol de ananás e gente, muita gente, todos numa oval evangélica. O ritual repete-se conforme os anos passam, uns passam à disponibilidade, outros apenas mudam de sítio. A rotina que se quebra porque falta um e porque só falta um a rotina mantém-se e por isso é rotina. Mas quando falta um líder seriam expectáveis rotinas novas, novos desafios, esperanças renovadas ou medos incontornáveis. Deixo a rotina seguir os seus passos, a rotina que como um rio procura os novos caminhos para desaguar num mar de rotinas e voltar à rotina. Não tenho boas lembranças e faltam-me alguns anos para deixar de me lembrar. Ave-Líder, aqueles que tu mataste te saúdam. No logro, na mentira e no despeito, em todas essas virtudes profícuas, se revela a tua grandeza!
Sim, num dia de despedida o choro convulsivo é desnecessário, e a raiva também. O que não é desnecessário é a reflexão. Passarão dias até que volte a ler (se alguma vez o fizer) este texto magoado, passarão dias e anos e talvez venha a chorar, porventura lágrimas legítimas, lágrimas de sentimento sentido, sentido de sentir, de quem não receie o arrepio de gostar, de relembrar com alegria tempos passados, os camaradas, os companheiros do dia-a-dia. Um dia também esse poderá ser o meu dia, o dia do espólio, de arrumar bagagens e viver outras rotinas.
No entanto hoje não é dia de chorar. Se lutar, talvez as lágrimas se transformem em sangue, e da cor do sangue se pinte a paisagem do nosso futuro.
Adeus companheiros de luta, companheiros da minha trincheira, o meu choro é a luta diária, a assunção sincera da nossa fraternidade. O meu adeus é seletivo, arbitrário, consonante comigo que sou imperfeito. Não finjo mais do que posso e o que posso é muito pouco…

2014-05-27

Depois de Abril...Maio...E nada de novo!

Depois de Abril...Maio...Nada de novo...
Descartada a hipótese da participação no sufrágio resta-nos...O que nos resta?
Enfim, acredita-se que a "Troika" nos vai deixar em paz, menino bonito, lavou a cara, as mãos, os dentes, mais alguma coisa que aqui não vou mencionar, lavou-se de pecados impingidos...Agora que o menino está limpo pode-se falar de uma saída limpa.
Contam-se espingardas, no velho costume militar, procuram-se ânimos e desavenças, procuram-se vitórias nos escombros da democracia.
Sim, estou telegráfico, de memória telegráfica, todo eu telegrafia, palavras curtas e frases parcas, porque tudo é perca.
Falar assim para quem nos conhece é desnecessário, mas o silêncio também é desnecessário.
Dois meses que se revelaram fúteis...
Quarenta anos de democracia sem manual de instruções...
Lembram-se! O voto é uma arma!
Talvez ninguém se tenha lembrado de a carregar...
Possivelmente faltou imaginação...Ou munição...
Enfim, alguma coisa faltou!
Do que falta toda a gente sabe, a grande maioria sabe, todos os dias são dias de aprendizagem, o pai de reforma reduzida, a empresa que aproveita as novas leis, formula mágica para incentivar o capital estrangeiro, seja lá ele qual for...
Mas não faltam os aumentos, sim, tudo aumenta na mesma proporção em que diminui o teu fundo de maneio mensal...
Possivelmente nem pensas mensalmente, talvez o dia à dia te chegue...E sobre...
Poderíamos falar do que sobra...Mas está tudo tão...Limpo!
Ainda pensei que seria desmotivação, castigo, preguiça, tenho mais que fazer, não gosto de vocês, querem mais? Desemerdem-se!, revolta...
Pensei, e por tanto pensar fiquei na dúvida...
Se lá tivessem ido talvez a dúvida não fosse tão grande, "Branco" não é "Absentismo"!
O "Absentismo" é uma vitória?
Chamar-lhe-ia uma "Vitória preguiçosa", não custa mesmo nada!
E com isto explico a diferença...
Para me absentar só preciso estar registado, desde que não absente ao nascimento...Para votar preciso de mais qualquer coisa...O raio da caneta não escreve sozinha...ou escreve?
O cabrão do papel tem de entrar pela ranhura!!!!
Sim, William Turner, e o corpo subjugado à mão que nos atormenta, e Camões do monstro marítimo, e...
Telegráfico porque assim me sinto, sem necessidade de grandes explicações, no fim de contas toda a gente sabe do que falo...
O mar, a tempestade, a espera de uma bonança prometida, mesmo que comprometida, mesmo que...
Hoje, não sei quantos dias depois, os resultados são explicados, nos jornais, nas televisões, nas rádios, nos fóruns abstractos de tele-radio-comunicação rafeira...
Eu só telefonei para dizer...
Quero cumprimentar o vosso ilustre convidado...
Vinha agora a fazer a saída da marateca e...
Estou em casa...Talvez desempregado, mal empregado, reformado, estudante com dificuldades, com uma ressaca enorme e....
No meu dia de folga e...
E...
Tanto que eu preciso de dar opinião!!!!
Ouçam-me CARALHO!!!!!!
desculpem...Carago!
Do Norte, Sul e Centro, só se aproveita um terço!!???
Estou convicto que os outros dois terços estão a prepara-se para a batalha, a revolução que se aproxima, o acto que nos vai fazer "Nação Valente e Imortal"....
Não! É mentira! Não estou nada convicto!
Estou....
Embriagado....
Quem me dera que a minha embriaguez me fizesse falar assim...
Quem me dera que do meu sonho etílico saíssem tão viscerais reflexões..
O meu álcool de maus fígados queda-me pela valeta...O intelecto derrapa de forma vertiginosa pela raiva incontrolável do destino incerto....
Retiro o 25, o Abril, o Maio e todos os outros meses, volto à minha forma normal...Um pouco disto, um pouco daquilo, pouco mais que nada...E talvez vocês para ouvirem do meu desalento...
Prometo que amanhã nada se passará, tudo como dantes, música quanto basta, duas ou três larachas para entreter...
Eu até podia falar da Eurovisão, e do Ronaldo, e do Benfica...E do gajo que andou fugido, o "Palito"...Mas esse já foi apanhado...
Eu podia dizer que tenho quarenta e nove Anos feitos a onze de Março...E mesmo assim continuaria a não dizer nada...
Afinal quem sou eu?

Depois de Abril...Maio...E nada de novo!

2014-04-26

Abril #6 Assim comecei o texto que queria publicar, assim me detive para continuar um dia depois…

“Saltei da cama, literalmente, impulso biomecânico, repleto de idealismos, sonhos revolucionários, abstrações ouvidas em surdina nos cafés, os meus colegas estudantes, os meus companheiros de labuta, lá na fábrica perto do rio. Vesti-me à pressa, com a urgência de um acidente, com a urgência de uma doença grave, se lavei a cara, não me lembro, assim como não me lembro do pequeno-almoço, ele que já de si sempre foi pequeno, muito mais pequeno do que o dos donos da fábrica. Os militares estavam na rua…”
(relato hipotético de um trabalhador no dia 25 de Abril de 1974)


“Hoje tive a noção exata do que significa o dia da liberdade, o dia 25 de Abril. Fui trabalhar cedo, entrada às oito, assim manda o meu horário que não segue as lógicas das rotinas de calendário. Durante o trajeto ouvi canções não censuradas, sim, ouvi o que bem me apeteceu, não precisei preocupar-me com tendências políticas, conceções ideológicas ou castrações moralistas….”


Assim comecei o texto que queria publicar, assim me detive para continuar um dia depois…


…Um dia depois porque um dia depois tudo adquire mais significado, limpo que fica de ruídos de fundo, de histerias convulsivas dependentes de correntes de opinião, de paixões reais, abstratas ou simplesmente fingidas. Ontem que foi 25 penso nele hoje dia 26, hoje porque já não há festas nem programas rebuscados e de gosto duvidoso que me apoquentem a alma. As reflexões sérias nunca se fazem no deslumbramento dos sentidos, dos que querem chorar, celebrar, renegar, ou pura e simplesmente desacreditar tudo aquilo que lhe devemos, ao 25 de Abril, evidentemente. Neste dia depois posso pensar calmamente, posso lembrar-me de mim, de que a minha mãe se fosse viva teria comemorado as bodas de ouro do casamento com o meu pai, sim o 25 de Abril também é a minha vida pessoal, já existia antes da revolução, dai que a data é apenas uma data e o que dela fica são sentimentos, a revolução que começou nunca acabou, a revolução é uma constante. O que nos aconteceu com o ano de 2008, o ano em que rebentou a bolha também foi uma revolução, apercebemo-nos então que tínhamos estragado tudo. Destas e de outras revoluções é feita uma nação e no seu conjunto a sociedade que se diz Ocidental. Por mais que a renegue, a ela pertenço, feito que, toda a minha vida, a maneira do meu viver, foram moldados na sua forma. Hoje, que penso no 25 de Abril, penso no essencial, no que a revolução me deu, leio o que posso sem restrições, digo do que sinto sem medo, não tenho medo de ir morrer em continentes distantes, em guerras condenadas (e se o fizer é através de um ato voluntário, portanto livre), falo livremente, sentado à mesa dos cafés ou noutro lado qualquer, sem olhar para o lado, sem sentir o frio da denúncia, durmo em casa, num convencimento profundo de que ninguém me irá arrancar da cama para me levar para um qualquer lúgubre edifício em nome da defesa do estado, vergando a minha liberdade a um silêncio profundo, se tiver de sair do país para trabalhar não o faço às escondidas, posso voltar quando quiser e posso condenar por esse fato quem me apetecer, posso votar em quem quero, posso afirmá-lo sem medo, posso carregar comigo convicções políticas e dúvidas existenciais, posso ter medo por convicção e refugiar-me nele como justificação para tantas incertezas, enfim, tenho liberdade, no que escrevi e tenho por escrever está a essência do 25 de Abril. No 25 de Abril também estão outras conceções, essencialmente ideológicas, de natureza social como o são a justiça, a saúde e a educação. E do 25 de Abril a justiça alargou-se ao povo, e eu posso invocar a justiça dos tribunais, e do 25 de Abril a saúde bafejou os desprotegidos, e o serviço nacional de saúde tratou por igual ricos e pobres, e do 25 de Abril todas as crianças tiveram direito a educação e chegaram a cursos superiores homens e mulheres que nunca o poderiam ter sonhado. O que o 25 de Abril não nos deu foi, maus juízes e maus tribunais, médicos e farmacêuticos corruptos, universidades fictícias de cursos suspeitos e outros desmandes, isso foi uma dádiva nossa através das escolhas que fizemos. Quem transformou os partidos do chamado arco da governação em casas de prostituição moral fomos nós, que com a nossa arma, o nosso voto, lhes dissemos que podiam continuar, cansados ou com medo da liberdade reduzimo-la a duas escolhas e hoje queixamo-nos de não as ter. Eu hoje, um dia depois do 25 de Abril não me queixo do 25 de Abril não me queixo das instituições democráticas, nem dos partidos, eles são o mecanismo democrático, quem o faz funcionar são as pessoas, o povo que elege e os eleitos, a esses sim, temos de pedir responsabilidades ou pelo menos confrontá-los com elas. Dizia eu que a revolução continua, agora num sentido inverso, agora que mal gerida a entregámos a outros, queixemo-nos dessa gestão, aprendamos com os erros e façamos nós a nossa revolução. O 25 de Abril deu-nos liberdade mas não nos tirou o medo e a apatia, esses são nossos, adquirimo-los com o conforto do dia-a-dia, com o sonho europeu vendido “á la carte” pelos seus fundadores, com as inovações tecnológicas, com os maravilhosos gadgets que nos fazem tão iguais…

A revolução não se esgotou no 25 de Abril, tal como uma flor preciosa, é carente de cuidados, tem que ser alimentada, com alma, com amor, com solidariedade, depende de nós não a deixarmos morrer!



Hoje, um dia depois do 25 de Abril, eu agradeço do fundo do meu coração a todos os que o tornaram possível, a esses o meu respeito é eterno e profundo!!!!!!!!

2014-04-21

Abril #5 PRIMAVERA DE 2014 Sonetos de sangue, suor e lágrimas (mesmo que só a alma escorra estes fluídos)

I

Lágrimas suaves na chuva de abril
Nos rostos cinzentos o céu cinzento
Esperança lavrada no meu lamento
No mês dos cravos, das chuvas mil

O choro contido de Pátria ferida
Quarenta anos que cheiram a geração
Um povo perdido na fome e no perdão
Cantando entre dentes o resto da vida

De leve, o leve sabor das mensagens
Alguém que nos sabe e nos leva ao céu
Com o pouco que temos de outras paragens

O vermelho dos cravos que alguém nos deu
Dos capitães negados em listagens
Porque o rubor dos cravos faleceu


II

Não faz mal se gritei que não quero
Não faz mal se fugi arrependido,
Não faz mal se o que quis está perdido
Não faz mal se me encovei com esmero

Não faz mal o ensejo esbanjado
Não faz mal a babugem na boca
Não faz mal um povo na toca
Não faz mal o contracto quebrado

Mal faz, a cegueira consentida
Não ver, nem compor o erro
Não desejar outra saída

Mal faz, encarnar o desterro
Falar a verdade desmentida
Aprovar e consentir o enterro


III

Que de morta seja a linguagem
Eterna e anafada desventura
Maleita, porque perdura
Em quarto de enfermagem

Palavra torta e sem cor
Da morte só o que restar
Não preciso celebrar
Se não quero lembrar a dor

Que não me reste só este dia
Porque a contenda sucede
Mesmo sem a minha revelia

De cada dia o que procede
Na vergonha e na porfiria
A força de quem não cede

Paulo Guerreiro 2014/04/21

2014-04-05

Abril #4

Revolta

Revolta-me a sede não satisfeita
Revolta-me os vícios não cumpridos
Revolta-me a fome vista mas não compreendida
Revolta-me…

A revolta tem dois sentidos
Um volta…outro revolta

A revolta tem dois amigos
Um volta…o outro não volta

A revolta apaixona quem se quer apaixonar
A revolta tira e dá
Tira o que não pode
Dá o que não tem

A revolta sente-se por dentro
A revolta sente-se no centro
A revolta não é um processo lento
A revolta actua
É isso a revolta

(1995, em estado de…) 

Abril #3

Tendo em conta que a política colonial portuguesa não era do agrado da NATO e dos seus membros, e que a Censura (Comissão de Exame Prévio) tinha como atividade o corte (recorte) dos telegramas onde as agências estrangeiras davam notícias que contrariavam a versão oficial sobre a situação nas ditas “províncias ultramarinas”, talvez não se estranhe o artigo publicado em princípios de maio de 1974 na revista espanhola “Gaceta Ilustrada”.
  “Discretamente, ao amanhecer do dia 25 de Abril, as unidades militares da NATO, chegadas no dia anterior ao porto de Lisboa, deixam o Tejo com rumo ao Atlântico e regressam às suas bases. Trata-se de navios, incluindo submarinos, de alguns dos onze países atlânticos que deveriam tomar parte no grande exercício aeronaval “Dawn Patrol 74”, programado para o dia 26, no Mediterrâneo e na costa atlântica, com operações submarinas, de defesa aérea e de assalto de forças inimigas. Aviões ingleses e norte-americanos, destacados para as manobras, encontram-se estacionados na base do Montijo, a trinta quilómetros de Lisboa. Mas um pouco antes da Junta derivada do golpe anunciar a mudança de regime, através da televisão, as manobras atlânticas foram anuladas: os navios portugueses que estavam no alto mar puderam assim voltar ao Tejo e ancorar pacificamente em frente a Lisboa. Às quatro horas da tarde, o comando da Marinha estava em condições de proclamar a sua adesão à Junta de Salvação Nacional.
  Esta foi uma das muitas manobras secretas, ocorridas nos bastidores, que acompanharam a queda do regime de Caetano. Nos dez dias que precederam o golpe ocorreram outros factos determinantes que agora estamos em condições de revelar. Estes factos provam que o Golpe de Estado conseguira o seu objetivo antes da noite do 25 de Abril; do mesmo modo mostram quais eram os apoios internacionais de que gozava o general Spínola.”
Este artigo coloca em evidência o controle exercido pelas potências da NATO sobre a situação nacional. De maneira nenhuma a revolução poderia resvalar num extremar de posições, fossem elas de ultra direita ou de extrema-esquerda. De qualquer maneira a revolução era bem-vinda pela ONU porque antevia a independência das ex-colónias portuguesas, objetivo há muito ambicionado por esta organização. Mas a revista espanhola continua:
  “No plano internacional, o general Spínola volta a reativar os contactos internacionais que já tinha solicitado, quando conjuntamente com Caetano pensava em reformas.”
  “Nos primeiros dias de Abril, os seus pontos de contato nas capitais mais importantes do Ocidente obtêm as mesmas respostas. Os financeiros: “Sim, seria bem-vinda uma solução política do problema colonial português”; os políticos: “Sim, uma liberalização controlada do regime português facilitaria a sua integração na Europa.”
  “Em Roma, monsenhor Pereira Gomes, chefe da ala liberal da igreja portuguesa, defende o plano de Spínola, perante o cardeal Villot. Pereira recebe estímulo do Santo Padre, muito preocupado quanto à paz e bem-estar dos seus filhos africanos. A tensão entre o Vaticano e Lisboa por causa das atrocidades de guerra em Moçambique e da expulsão dos missionários deu os seus frutos.”
“Só resta o problema da NATO. Spínola providencia para que entre em contacto com o próprio secretário, Joseph Luns, um dos seus amigos das finanças, o diretor dos estaleiros navais portugueses (LISNAVE), Thorsten Anderson, que em Megéve, na frança, participa (de 19 a 21 de Abril), numa misteriosa reunião de homens importantes da política, da diplomacia e do mundo de negócios internacionais, verificada num igualmente misterioso clube: O Clube de Bildeberg.”
  “De 19 a 21 de Abril, Mégeve é protegido pela polícia francesa como se o visitante fosse um chefe de Estado. Com efeito, no hotel Mont d’Arbois, propriedade de Edmundo Rothschild, reúnem-se a flor e a nata da política e das finanças ocidentais. A reunião é discreta, à porta fechada; os jornalistas não falarão dela; mas é ali que se decide a sorte do mundo ocidental. Desde 1954, ia da primeira reunião no hotel Bildeberg, na cidade holandesa de Oosterbeek, sob a presidência do príncipe Bernardo da Holanda, os homens mais influentes do Ocidente reúnem-se uma vez por ano para avaliar a situação política e estudar ou aprovar programas para o futuro.”
  “Basta o número de participantes deste ano, na reunião do clube, para se dar conta da sua importância. São os seguintes: Nelson Rockefeller, governador do Estado de Nova York; Frederick Dant, secretário norte-americano do comércio; o general Andrew Goodpaster, comandante das forças aliadas na Europa; Denis Healey, ministro das Finanças britânico; Joseph Luns, secretário-geral da NATO; Richard Foren, presidente na Europa da General Electric; Helmut schimdt, ministro das finanças Oeste-alemão, hoje chanceler, após a demissão de Willy Brandt; Franz Joseph Strauss, definido como homem de negócios alemão; Joseph Abs, presidente do Deutsche Bank; Guido Carli, governador do Banco de Itália; Giovanni Agnelli, presidente da Fiat; Eugenio Cefis, presidente da Montedison. E, ainda, Thorsten Anderson, homem de negócios português, que sondou Joseph Luns sobre as possíveis reacções da NATO face à possível mudança de regime em Lisboa.”
  “A resposta da NATO, certamente positiva, foi confirmada pelo comportamento, já citado no início, dos navios da organização ancorados em frente da capital portuguesa, nas primeiras horas do golpe de Estado. A sua presença era um silencioso dissuasivo contra quaisquer, entre os generais ultras, que intentassem opor resistência a Spínola. Os generais sabem da presença daqueles navios e sabem interpretar bem a sua saída de lisboa ao amanhecer do dia 25 de Abril. É claro que a NATO sabe quem são os autores do golpe, que conhece o seu programa e que o aprova. A reunião do Clube de Bildberg cumpriu o seu fim e Spínola, neste momento, tem a via livre.”
Não irei tão longe quanto à importância da dita reunião, mas não duvido do incómodo que a política externa portuguesa causava aos parceiros da NATO. A queda do regime terá sido uma bênção, o perigo do regime ter resvalado para extremismos também me pareceu um risco calculado (estivemos sempre vigiados), sujeito a falhas, que acabou por ser bem sucedido, principalmente após o 25 de Novembro. A revolução acabava e Portugal estava pronto para ser servido à mesa dos grandes da Europa pelas mãos dos partidos democraticamente eleitos.

(Fontes: “Capitães de Abril” Vol II, Alexandre Pais e Ribeiro da Silva)

2014-04-02

Abril #2

Levantava-me cedo ao domingo. Não era um domingo qualquer, aquele que merecia tal deferência. Nesse domingo a família estava junta e perspetivava-se uma saída, uma saída de automóvel, o Ford Anglia lavado no sábado, ensaboado com a minha ajuda, encerado com um produto especial, reluzia nas traseiras do rés-do-chão, alinhado de frente para a janela da sala, sorria com a sua grelha cromada e olhava-me nos olhos com faróis convidativos. O domingo de folga era um dia especial, a folga de domingo só acontecia uma vez por mês, os turnos do meu pai faziam-no ausente e aproximavam-me da minha mãe, mas não impediam a sede paternal que me secava e me fazia contar os dias, religiosamente, assim como contava os dias até ás férias, não as minhas, que eram grandes, as dele que me levavam para terras do sul, para a casa da minha avó, para a praia deserta de São Torpes, a minha praia de eleição.
Levantava-me cedo no domingo e seguia rápido para o quarto dos meus pais, contendo a bexiga, ela que esperasse, tinha outras urgências, era preciso acordar a casa, levá-los para a mesa da cozinha, exigir, num choramingar fingido, o leite com chocolate, tenho tanta fome mãe, pai cortas-me uma fatia de pão, falta a manteiga, hoje vamos aonde. Eu sabia o que queria nesses domingos de 1973, os meus oito anos exigiam a volta do costume, a saída pelo bairro do bosque em direção às portas de Benfica, aquelas torres que marcavam território que diziam, a Amadora acaba aqui, agora estás em Lisboa, no dia seguinte poderia dizer na escola, fui a Lisboa, e onde fostes, fui ao café dos frangos, para os lados da igreja, os frangos que rodavam suculentos, lentos e brilhantes de gordura na máquina junto à porta, três filas de animais mortos que despertavam a minha gula, o cheiro que eu guardava na minha memória com medo que se finasse.
Nesse ano de 73 comecei a reparar nas paredes dos prédios mais escondidos que ficavam para os lados da Venda Nova. Deixavam de estar imaculados de bolores e ostentavam palavras de alerta, pediam o fim da guerra colonial, queriam que as nossas tropas regressassem, assinavam com foices e martelos, falavam de liberdade, da falta dela e eu perguntava porquê, que guerra era essa nas colónias, que eu só conhecia com o nome de províncias ultramarinas. Nunca obtive uma reposta satisfatória, sabia que o meu tio por lá andava e que também lá tinha casado, sabia que antes do Natal apareciam uns rostos na televisão de corpo camuflado e sotaques portugueses, um feliz Natal e um próspero Ano Novo, para a minha mãe, para o meu pai, para a minha namorada, para a minha mulher e para os meus filhos, para a minha família, sou o soldado António Ribeiro, o 1ºcabo Rafael Morais, o alferes João d’Almeida, os nomes repetiam-se num cenário composto, com mata por detrás, um jeep, um helicóptero, um carro blindado, os rostos à espera de vez, da sua vez.
Não sei bem aonde, a memória trai-me tantas vezes, mas nesses trajetos para Benfica, ou por lá perto, havia um terreno vedado onde se acumulavam viaturas destruídas, unimogues, jeeps, panhardes, eram estes os nomes com que o meu pai os identificava, e eu fazia-me espécie o mau estado em que eles se encontravam e queria saber porquê, porque estavam assim, destruídos e abandonados, a resposta era vaga, a guerra, com quem, com os movimentos de libertação, aonde, em africa, porquê, e a resposta tardava e eu já questionava, e as pessoas que iam a conduzir eram soldados portugueses, sim, e morreram, talvez, ficaram feridos, não sei, são aqueles homens que vemos no Natal, não sei…talvez…

Nesse Natal de 1973, quando vieram as mensagens de Natal e Ano Novo das tropas portuguesas, eu não as consegui ver…

2014-03-31

Abril #1 (Quarenta anos de ilusões)

A presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, avançou com a hipótese de mecenato como solução para custear algumas das iniciativas das comemorações dos 40 anos do 25 de Abril. A notícia é avançada pela edição desta quinta-feira (13 de Fevereiro) do jornal «Público», que cita fonte do gabinete da própria Assunção Esteves. 

Entre as iniciativas avançadas por Assunção Esteves para as comemorações do 25 de Abril, está uma exposição de chaimites junto à Assembleia da República, ornamentadas com cravos criados pela artista plástica Joana Vasconcelos. Seria, aliás, para esta iniciativa que se destinaria o mecenato. A exposição de chaimites é já uma segunda hipótese. A primeira seria uma cobertura para a fachada do edifício da Assembleia da República. Assunção Esteves recuou nesta hipótese, por concordar que teria custos muito elevados. 

A escolha da artista já está a originar celeuma. Há quem a questione, por temer ser alvo de críticas por parte de outros criadores. 

Assunção Esteves quer chegar a um consenso entre as bancadas sobre a forma de assinalar o 25 de Abril e foi entretanto criado um grupo de trabalho com deputados de todas as bancadas. Nuno Encarnação (PSD), João Rebelo (CDS), António Braga (PS), Miguel Tiago (PCP) e Pedro Filipe Soares (BE) reúnem esta quinta-feira com a presidente para discutir o assunto.
http://www.tvi24.iol.pt/503/politica/25-de-abril-assuncao-esteves-comemoracoes-patrocinios-parlamento-tvi24/1537042-4072.html


Foi esta a notícia que me levou a este projeto; “Financie você mesmo o seu 25 de Abril”, “Seja o mecenas da sua revolução, o 25 de Abril é seu”, “Acorde para a vida e mexa-se, se não for você a comemorar ninguém o vai fazer por si”, numa versão hard core “Porra, se estás fodido junta-te á maralha e manda-os para o caralho! Tens o abril todo por tua conta!”.
Como se percebe o título é o que menos interessa, o importante é mesmo a intenção e esta resume-se melhor quando se explica, embora pareça um contra censo. Por esta altura estamos perto de recuperar a nossa liberdade, a “troika”, qual exercito invasor (lembremos a convenção de Haia que obriga os ocupantes de um país a alimentar a respetiva população), cansou-se de nós, pouco mais temos para dar (os juros que iremos pagar e os que já pagámos tornaram-nos uma colónia, um território dependente) e os frutos que ela (e os famosos mercados, e porque não falar da ganância, afinal o que são os juros?) semeou, durarão vinte anos, na melhor das hipóteses (hipóteses baseadas em premissas irrealistas, crescimentos alucinados e défices que só se cumprirão sem saúde e sem educação, na prática, sem estado social). Pelo caminho vamos a votos para o parlamento europeu, aquela coisa lá longe de que toda a gente fala mas da qual ninguém sabe nada, ou quase, de vez em quando lá nos apercebemos que são eles que fazem as regras. Bom, com todas estas dificuldades nada mais natural do que comemorar de uma forma económica, vulgo barata, o dia que nos trouxe a liberdade. Se a liberdade custa dinheiro e esse nos falta, comemoremos então a liberdade perdida sem o dito cujo. Comemoremos com imaginação, com protesto, com demagogia, com ironia, com tudo o que nos vier à cabeça, desde que não custe dinheiro. A senhora Assunção, presidente da Assembleia da República, numa boa vontade desmedida e manifestamente preocupada com uma comemoração que lhe é cara e à qual ela deve a reforma com pouco mais de quarenta anos, levando o seu lugar de presidente como dever cívico, ainda quis arranjar financiamento, do género, “há para ai algum saudoso do sonho revolucionário disposto a gastar uns trocos? É que até fazia jeito!”, mas parece-me que essa não é a solução. A solução terá de ser individual e das vontades individuais se chegará à vontade coletiva, com ou sem dinheiro, porque ainda há vontades que não se pagam!
A minha comemoração vai durar o mês de Abril. Vou comemorar o mês de Abril lendo o antes, o durante e o depois de Abril, dessa leitura vou deixar marcas nesta página social e no blogue onde escrevinho algumas palavras. Reflexões, textos perdidos, poesia, tudo o que eu considerar interessante e comemorativo vai ser ai vertido com a satisfação de quem cumpre uma promessa, uma missão, missão de pouco impacto, eu sei, mas uma missão higiénica, que durante este mês, de vãs promessas governativas, me vai levar numa viagem de memórias. Dizia um filósofo de que eu não me lembro o nome (nem sequer se era filósofo), que a história é a procura de padrões que nos ajudam a prever o futuro e porque não, a aceitá-lo de uma forma mais ativa. Pessoalmente espero que este projeto me coloque em perspetiva, que esta reflexão me faça ver outros rumos e uma esperança que todos os dias é corrompida pela incoerência das perspetivas, estamos tão bem e tão mal ao sabor das marés, das eleições, da conveniência para os mercados, da hipocrisia (do Grego hypocrisia forma poética de hypócrisis, desempenho de um papel no teatro, dissimulação) de quem nos governa e de quem nos quer governar.

Nota: este texto foi escrito segundo o novo acordo ortográfico… por preguiça, porque estou farto de lutar com o corretor ortográfico e porque se Almeida Garrett escreveu “abhorreciam”, “systema” ou “desharmonia”, palavras que não aprendi, admito que quem ler este texto daqui a cem anos também se irá espantar com a ortografia aqui plasmada.

2014-03-09

XI (De o livro dos medos por Paulo Guerreiro)

XI
Cinza.
Ao longo da linha,
Cinza.
O trajecto cinzento,
O corpo pequeno
E a alma um pouco mais escura.
As ruas que deixam de ser,
Ruas,
E o passeio que nos abriga,
Cada pedra um amigo,
Cada amigo um desejo.
A idade da loucura foi-se,
Foi-se.
Eu fiquei mais velho,
Mais velho em tudo o que toco,
Mais velho tudo o que me toca.
Procuro o isqueiro e acendo,
A vela,
A luz que não é um interruptor,
Uma luz sem dor,
Sem electricidade.
A música também pode ser,
Isso,
Algo sem dor,
Não postiço.
Despi-me, da roupa,
De tudo.
Mesmo assim não estou nu,
Apenas cru,
Carne viva, ainda em sangue,
O resto que sobra,
Quando a vela se apaga.
Cinzentas as imagens,
Como se a cor só fosse isso,
Uma linha entre o preto e o,
Branco,
Como que o branco só,
Fosse cor,
E tudo o resto,
Amor!
Já não me deslumbro.
Tenho medo.
Tanto que eu queria,
Que tudo fosse mais cedo,
E amanhã outro,
Dia.
Cinza
Caiem-me nas mãos,
Os restos,
Da fogueira,
Do fogo quando nasci.
Alguém que me agarra,
Enfermeira,
Outras mãos de onde bebi.
Meu Deus!
Tudo tão cinza,
O rectângulo que também,
É
Prisão,
Portugal,
Nação.
Valha-me Deus!
O sonho cinza da cruz,
E Jesus,
E Eu.
E o Cristão,
E o Judeu,
E o Muçulmano,
Que Deus me deu,
Ou vendeu.
A Ásia de Budas distantes,
Confúcios vermelhos,
Bordados,
Toda uma seita que me justifica.
O mar ali tão perto,
E eu longe a afogar-me,
Numa terra escura e espessa,
Lama de lama,
Terna,
Mistura,
E eu à procura.
Cinza,
As minhas mãos estão cheias,
De cinza,
E eu cheio das minhas mãos,
Uma de cada lado,
Numa cadeira e eu sentado.
Sobre mim tudo cai,
O pano que não tem cor,
O céu despido,
O corpo velho com dor.
Cinza,
Porque tudo o resto é

Cinza.

2014-02-23

Tão Azul

O carro solavanca nos socalcos que o levam para junto do mar, pequeno carro porque pequenas são as pessoas, dois homens, um com quarenta e nove anos e outro com oitenta e quatro. Nada os fez grandes, pessoas que merecessem menção, vivos porque vivos, vivem da vida o que ela dá e deixam dela com acrescento, o pequeno resíduo que permite que ela se torne…maior…maior porque sempre assim é quando passamos por ela, mesmo quando não temos consciência do facto, e de factos está o mundo cheio. Com isto quero eu dizer que são duas pessoas normais, nada de extraordinário os revela, a pequena viatura passa despercebida junto à várzea, talvez não tanto pela pressa que dois automóveis de potência assumida, que como tal também assume poder de compra, para tais utilizadores somos apenas estorvilhos sem valor, objetos que facilmente deveriam ser recolhidos do caminho, mas não fomos e por lá ficámos, obrigando os potentes automóveis a demonstrar na prática o porquê de tão grande cilindrada, um pouco exagerada, é certo, mas isso também faz parte dos acessórios.
O carro que solavanca a estrada velha para a lagoa, solavanca-a de forma pachorrenta, quase que suave, dir-se-ia que comoda e lenta. A conversa que os alegra também os separa, um jogo de palavras à muito estabelecido, por muito que aconteça, pai e filho como dantes, como se pudesse ser de outro modo. Eu não me lembro disso assim, estás enganado, pensa lá bem, eu até falei disso depois e tu deste-me razão, razão é aquilo que não existe na pequena viatura, o que a torna tão alegre, tão displicentemente alegre. E o carro que solavanca rumo ao mar leva aqueles dois seres como se mais nada existisse no mundo, o almoço já tomado o pequeno copo de vinho que também se torna questão, não, aquilo não é só uva, claro que não é só uva, nada é só uva, também é o químico, o anti oxidante que lhe permite o envelhecimento, e os açucares não são da uva e a água e a fermentação de outras coisas e…e a conversa passa para os pinheiros e para a doença que os ataca, que os está a fazer desaparecer da nossa costa, o que irá segurar agora as areias, deviam ter tomado medidas mais cedo, há mais de dez anos que sabiam do problema e nunca fizeram nada, eles nunca fazem nada, fazem sim, o quê, sim, desta vez tens razão, concordamos, sim mas…mas o quê, mas os pinheiros não deviam ser cortados assim, assim como, assim, sem regras que nos fizesse perceber a lógica, como é que sabemos que não estão cortando também pinheiros sãos, não sabemos, temos de acreditar, estás a ver…estou…

O carro para suave junto à praia, ouvem-se os grãos de areia pressionados pela borracha dos pneus, pneus sem marca que os ateste, nada que um verdadeiro alemão aprovasse, quem sabe se feitos na Turquia por entre as montanhas do Curdistão, trabalhassem eles na Alemanha e isso deixaria de ser importante. Sabes que os verbos na língua alemã são fáceis de fixar, para mim nada é fácil de fixar na língua alemã, o problema são as palavras compostas, os conceitos que eles juntam numa só palavra, sim, não me estás a ouvir, estou e também ao mar que hoje está tão bonito, tão azul, sim, tão azul…

2014-02-06

Do adeus e o adeus

“Do adeus e o adeus, não a ele, que sendo deus tudo percebe, criador primário e inato e cuja existência omnipresente não permite tais estados de alma, falo do adeus humano, defeituoso, repleto de cambiantes cromáticas, texturais, sabores distintos entre o abandono e a aventura. Eu que já exerci o acto, o gesto mudo, porque no meu caso foi mudo, percebi a separação, o afastamento físico que não permite abraços dependentes, inconscientes da sua dependência, tão certos de estarem sempre lá, até um dia, eu disse-o sem o dizer. Não precisei de moradas nem de códigos postais, números que permitissem contactos, contactos que permitissem uma presença que na realidade não existia. O adeus foi silencioso, assim como foi silenciosa a decisão. Se foi pensada, foi, foi pensada, maturada em noites cinzentas de invernosa insatisfação intelectual, não a erudita, simplesmente aquela que nos faz pensar em caminhos tortuosos, que coloca em funcionamento o intelecto ao serviço da sobrevivência, que não sendo independente do saber não depende da sua quantidade para existir, apenas porque tudo o resto é mais importante, e o resto não é o que resta mas muitas vezes o que basta.
Do adeus e o adeus, a decisão que depois de o ser, de se concretizar intelectualmente, necessitou da aplicação prática, obviamente o objetivo final. Os dias aparentemente normais, porque normais de rotinas, indícios externos que levantassem suspeitas, apresentaram-se como testes às certezas teorizadas. O levantar cedo, porque o corpo se encontrava deitado, o levantar de um corpo que tinha deixado de dormir, ou dormia porque isso o descansava, o corpo que julgando dormir nunca o fazia, era um acto de constrição, apenas tolerado porque havia a convicção de nele existir alguma utilidade. Falava eu do levantar cedo, do corpo que se levantava sem se lembrar da alma que transportava, uma espécie de doença degenerativa, sectarista o suficiente para permitir apenas uma existência, uma realidade aparente, uma imagem que se mostra.
Do adeus e o adeus, o preparo sem restrições, mala feita sem ser mala porque não havia mala, apenas o dia, a hora em que se parte e o adeus se concretiza em acção física, que o verbo o seja depois é problema de somenos importância, irrelevante perante a força do que acontece, o dia que se faz dia porque a luz assim o permitiu, na sua incidência cíclica de outras dependências físicas entre astros. O carro arranca, mas podia não ser um carro, mas foi um carro, um carro experiente muito embora inexperiente neste tipo de viagens em que se vai e não se volta. O adeus não foi dito, nem tão pouco gritado, não houve abraços nem lágrimas nem jantares de despedida nem uma palavra que prometesse porto seguro se algo corresse mal. Foi simplesmente um adeus.
Do adeus e o adeus fiquei com a convicção da sua fragilidade, demasiado perto para ser uma separação, demorou a sê-lo efectivamente, um ano mais precisamente, um ano de retrocessos semanais, de dúvidas sobre a sua verdadeira finalidade, de laços que julgava frágeis mas que eram a minha vida. Percebi então, numa noite alcoólica mas de uma lucidez extraordinária, o que precisava fazer. A conversa saturava o ar de vapores etílicos e a confissão saiu mórbida, quase chorosa. A resposta foi seca, se tomaste a decisão vai! Olhei-o e percebi enfim o que tinha de fazer. Nunca lho disse, a noite foi longa, muito longa, talvez até o sol quase nascer, não me lembro do resto, lembro-me de pensar que o adeus não tem número, nem morada para onde escrever.
Do adeus e o adeus percebi que pode não ser para sempre, que pode haver reencontros porque a nossa vida são vidas, são todas aquelas que nós permitirmos que sejam. Não existem obrigações contractuais, mas apenas decisões, compromissos pessoais e que por isso mesmo não devem ser quebrados até que se concretizem.

Do adeus e o adeus personifiquei-os e dei-lhes o meu significado. Dessa experiência apenas posso teorizar o que dela retirei. Cada adeus é um adeus, cada experiência é uma experiência…

2013-07-21

10 de Junho, o dia de Portugal que ninguém viu

A plateia aguardava ansiosa pela chegada dos carros topo de gama que traziam os altos responsáveis da nação. Muitos dos que se deslocaram a Évora traziam esperanças, esperanças de poder apupar, gritar, esbracejar, mostrar indignação e desespero a todos aqueles responsáveis políticos, pessoas sérias e intocáveis. Ao longe ouviram-se sirenes, prelúdio do cortejo esperado, sirenes de pressa que mandam afastar, afastem-se que eu mando e vocês só atrapalham. As sirenes aproximaram-se espalhando ao desbarato decibéis insensíveis, arredando da frente vozes incomodas, pedindo bandeiras no ar, viva Portugal, vivam os mortos e os Impérios e os Impérios que nem chegaram a nascer, viva eu que aqui venho e estou aqui para vos ajudar, com a minha presença, a minha compreensão, a minha explicação fácil de avó paciente que vos entende desde que estejam calados. A plateia aguarda ansiosa que o chefe de estado saia do automóvel negro, negro das nuvens que pairam sobre Portugal, negro das expectativas que nos são permitidas, negro das olheiras de quem não dorme, negro das marcas na pele que ficam no interior das casas quando o dinheiro falta. A porta abre-se num abrir solícito de empregado de hotel de luxo, reverência devida a tão alto cargo, o corpo dobra-se e desdobra-se como um boneco teimoso que teima em ficar hirto numa posição que se pretende recta, demonstração de inflexibilidade, da força perante o caos, da razão perante o desnorte, o actor que representa um papel, que se desfaz numa credibilidade ilusória perante uma plateia ansiosamente apática dividida entre a revolta e a veneração que nos é característica. Os passos são perfeitos, milimétricos, em direcção à tribuna aparentemente obediente de altos dignitários, dirigentes políticos, militares graduados, homens de obediência institucional, amarrados de cargos com fardas que reflectem o grau de silêncio. Do público nascem rumores que os homens da segurança tentam descortinar. Homens da segurança, de segurança sectária, dirigem-se dissimulados para junto das palavras que incomodam preparados para intervir, servir de colete protector a frases contundentes. Ouvem-se apupos, um mal-estar de hospital, quando uma operação falha, quando o médico está presente e falha nas respostas. O presidente mostra-se indisposto, transparecem rugas de irritação, como disfarçar esta insatisfação perante um homem eleito, o homem de todos os portugueses, isto é uma democracia porra, a porra algarvia não saiu, assim como não saiu tudo o resto pois a minha imaginação ficou-se pela imagem ofendida do alto dignitário. Entretanto os militares perfilados, de armas descarregadas nas mãos, pensavam nas namoradas para evitar pensar nos ordenados. As botas engraxadas, o orgulho engraxado nas derrotas coloniais que eles não conheceram, reféns da Bósnia, do Afeganistão, de todas as missões humanitárias com mandatos internacionais, pactos, alianças, que não chegam para pagar a renda de casa nem para livrar o país da miséria. E neste dia da Nação a que alguns chamam da raça sem especificar qual não vá descobrirmos mais do que aquelas que seriam convenientes a mentes tão puras, o presidente fala da agricultura, das cebolas, das cenouras, das alfaces, esquecendo propositadamente os nabos. Fala de como as coisas crescem bem nesta terra abençoada por nutrientes divinos, provavelmente parentes directos dos nutrientes que fazem crescer os jardins do paraíso, de garantia assegurada por alguma nossa senhora disponível para ouvir da nossa fé. Da plateia continuam a ouvir-se palavras pouco simpáticas, dirão mais tarde que ofensivas à dignidade e que justificaram uma intervenção musculada com prisões e identificações para posterior caução judicial. Perante tal devaneio o discurso vira-se para o mar e o mar tão longe de Évora tão longe de nós que arrasamos a frota pesqueira, os estaleiros, os…enfim sempre podemos fazer surf, exportar as ondas em pequenos bilhetes-postais que já não se vendem e colocar uma população inteira a servir de guia a jovens aprendizes e profissionais bronzeados dos países ricos. Mas o discurso não acalma as hostes discordantes que se envolvem num confronto físico com as autoridades e com apoiantes incondicionais do nosso Chefe de Estado. Perante a violência dos confrontos gera-se o pânico fazendo com que se percam crianças, caiam idosos, desmaiem senhoras de bem, entrem em trabalho de parto mães que irão poupar em despesas de hospital mas talvez não em agências funerárias; e eu vejo-me no meio de tudo aquilo tentando chegar ao Sr. Silva, gritando-lhe a culpa que ele esqueceu, levando bordoadas da polícia, sentindo o sangue escorrer-me pela boca, pelo nariz, o corpo amortecido da dor, o corpo que abandono quando o vejo preso pela segurança presidencial, farrapo enxovalhado no chão; de corpo abandonado persigo aquele homem tão íntegro tão recto, persigo-o como um fantasma e quando finalmente o vejo, olhos nos olhos, os meus vermelhos de raiva, os dele brancos de desprezo anacrónico, acordei…Tudo não passou de um pesadelo. Ninguém tem culpa do que sonha nem tão pouco queria sonhar coisa mais degradante. Ainda bem que nada disto aconteceu, tudo está calmo e à data que escrevo isto esperamos ansiosamente que o responsável máximo da nação tome uma decisão. Esta será anunciada à noite pelas 20H30m. É bom saber que ainda alguém vela por nós e com o beneplácito da Nossa Senhora…Amém! 

2013-07-19

As Férias e a Leitura

Sinto-me cansado, olhos doridos de longas horas, debruçados em ecrãs, papéis que requerem atenção, números que de tanto se apresentarem chegam a não ser reconhecidos; e eu prometo-lhes descanso, poucos jornais, mingua de televisão, telemóvel em modo de emergência, prometo-lhes sol, água salgada, vistas despreocupadas, prometo-lhes o que não posso cumprir. Assim que chega a altura de partir, fazer as malas, escolher camisolas e roupas informais (não faria sentido levar a bata ou o fato-macaco) a minha preocupação é centralizada, que livros levar para ler? Todos os anos recupero os hábitos de leitura nas férias; todos os anos eu sei que esses hábitos irão perdurar durante alguns meses de esforço metódico em que a disciplina tenta sobrepor-se ao cansaço de olhos martirizados por esforços tardios em horas pouco recomendáveis. Enquanto escolho a literatura adequada para um repouso, que inclui também a minha sanidade mental, recordo-me de todos aqueles livros que prometi ler ou que comecei e não consegui acabar e invariavelmente opto por não os levar. Este ano não foi excepção. A escolha foi aleatória e recaiu numa sugestão da revista Ípsilon suplemento do Público que costumo ler para manter contacto com tendências culturais, sejam elas livros, CD´s, filmes ou qualquer outra actividade que eu possa aproveitar. “Lionel Asbo” é um livro corrosivo de um humor que tanto faz chorar como rir (o seu autor é Martin Amis). Sendo o autor Inglês era isso que se esperava do humor. Ri-me do óbvio e estava escrito e do que ele me fez pensar sendo certo que até de mim me ri apanhado nas armadilhas do autor. Ri-me da minha excitação em saber se o miúdo de quinze anos que confessa no começo do livro numa carta dirigida a uma conselheira sentimental/sexual de um tablóide Inglês   “Querida Jennavieve, ando a ter um caso com uma mulher mais velha. Ela é uma senhora de alguma sofisticação e constitui uma refrescante mudança em relação às adolescentes que eu conheço (como a Alektra por exemplo, ou a Chanel). O sexo é fantástico, e penso que estou apaixonado. Mas há uma complicação muito séria e é esta: ela é a minha Avó!” é apanhado pelo tio que cuida dele (Lionel Asbo), rufia de subúrbio, para quem a mãe precisa de protecção pelos seus excessos sexuais e que não teve problemas em fazer desaparecer (vendeu-o  ou matou-o? Tanto faz)um colega de escola do seu sobrinho quando descobriu que também ele lá ia a casa. A história do livro desenrola-se tendo sempre como questão subliminar a traição do sobrinho ao tio o que nos faz pensar sobre as moralidades suburbanas. Poderia dizer que o tio tem pouco mais de vinte anos e a avozinha  quarenta e cinco, que Lionel está quase sempre preso como “revendedor” de material roubado ou devido a inúmeras cenas de pancadaria que ele leva como estimulo de vida (uma espécie de ida ao psicólogo), que tem mais seis irmãos, a falecida mãe de Des (o seu sobrinho protegido) e cinco irmãos (com os nomes dos Beatles, incluindo o que não se tornou famoso), que ganhou a lotaria no valor de cento e quarenta milhões de libras o que faz rodar a nossa atenção para sociedade  inglesa materialista e de valores duvidosos. Enfim o livro é uma delícia. Acabei-o de um trago e entreguei-me à tarefa sempre difícil de ler Lobo Antunes, “Sôbolos rios que vão”, livro comprado antes de abalar num ímpeto compulsivo perante um autor velho conhecido e que me faz as vezes de uma ida ao psicólogo (ele há-de perdoar-me pois sou um leitor assiduo de muitas das suas obras)  . Sabia ao que ia e precisava deste tratamento para me confirmar curado. Foi também sobre um rio que a minha mãe abalou, também de cancro no cólon. Mudam as memórias, delicias narrativas que nos fazem reviver toda a vida de um homem nos seus últimos dias, sangue encharcado em morfina querendo sentir dor para se sentir vivo, de olhos postos no “pingo no sapato” médico que lhe prescrevia a medicação, a dose de anestesiante, o caudal de soro, as ordens para os enfermeiros. O livro dura de 21 de Março a 4 de Abril e eu sei que é verdade, que as pessoas se  apagam num fósforo, eu sei que sim. Ainda deu para começar a reler “Os Maias” do Eça, os tão odiados “Maias” da minha juventude escolar que descubro agora com outros olhos através de uma edição especial e comemorativa do semanário Expresso. Comemorativa do semanário (faz quarenta anos) e da primeira edição da obra (125 anos). Deixo-vos com este pequeno excerto, quem sabe a propósito de tão dúbias e poderosas alianças ultramarinas (ainda à pouco nos mandaram fechar fronteiras a um presidente): “Era como uma tela marinha, encaixilhada em cantarias brancas, suspensa em céu azul em face do terraço, mostrando, nas variedades infinitas de cor e luz, os episódios fugitivos duma pacata via de rio: às vezes uma vela de barco da Trafaria fugindo airosamente à bolina: outras vezes uma galera toda em pano, entrando num favor de aragem, vagarosa, no vermelho da tarde; ou então a melancolia de um grande paquete, descendo, fechado e preparado para a vaga, entrevisto um momento, desaparecendo logo, como já devorado pelo mar incerto; ou ainda durante os dias, no pó de oiro das sestas silenciosas, o vulto negro de um couraçado inglês…”.
Que o fim das férias não me traga o fim da leitura pois esta faz-me tão bem…

2013-06-26

À espera do jantar...

Procuro sem perceber que procuro, um lugar calmo, um lugar onde não ocupe espaço, onde a minha camisola velha e os meus ténis não sejam motivo de descrédito. Todo eu sou motivo de descrédito, tão só, tão infelizmente pobre, uma pobreza de origem suburbana, as calças de ganga rasgadas, as unhas que se desfazem no contacto com os objectos, os olhos inchados num inchaço permanente, como se a pele que circunda as orbitas não resistisse ao que elas contêm. Escrevo sem ver o que escrevo, esqueci-me dos óculos e a caneta procura os pequenos recortes brancos de papel com uma familiaridade atroz conhecida. Não consigo rever as palavras que lá ficaram. Penso que mais tarde poderei transcrevê-las, o corretor que faça o seu serviço mórbido de correcção mecânica e digital, informática de informação como se a informação fosse necessária. A Ilha percorre-se da Capital até ao Caniçal de forma intermitente, espaço, túnel, espaço, túnel, espaço, túnel, espaço, túnel, vira à direita, abre-se a cancela, bom dia, bom dia, fecha-se a cancela, descida abrupta até ao sopé dos depósitos que me são familiares, tão parecidos dos que são, independentemente do lugar geográfico, tão numericamente identificados, ferrugem que também aqui sabe a mar. A estrada que me trouxe, toda ela via rápida serpenteando na costa, com medo do sol passa por debaixo da pista, a pista que separa a terra do mar e une a Ilha ao Mundo. E eu que não me enquadro, que me desculpo constantemente, estou aqui em trabalho, eu não pertenço aqui, não tenho idade para a roupa nem roupa para a idade, por isso estou tão nu, você assim é melhor não ir lá, lá vão-lhe ao buraco, até aos trinta euros ainda lá vou, não, aquilo é para turistas, lá prós setenta, você está cá para trabalhar, não quer gastar muito, vá ao “JAQUET”, alcunha do vinho da Ilha, o da Madeira, não, o da Ilha, vinho da época. Já estou sentado, são quase dez horas e as palavras saem só por sair, nem sei porque comecei, ou sei e não quero saber, não quero olhar à volta e saber que estou sozinho. Nunca gostei de estar sozinho em público, estar sozinho é algo meu, por isso escrevo em público e pareço o que não sou gatafunhando pequenos quadrados de papel que numero para terem lógica. Pedi dourada, grelhada, sim grelhada, estou junto do mar e quero peixe, como se só assim houvesse justificação e eu não tenho justificação, apenas quero comer e as palavras saem ao som do espanhol da mesa do fundo, da moça que pede uma “seven up” para falsificar o vinho tinto de 15 euros, turistas, sim porque ao turista tudo se permite, a mim não, estás a trabalhar, já te esqueceste, não, não me esqueci, eles talvez. Fico para o fim e estou nervoso, quero fazer uma chamada e não tenho telemóvel, quero falar com a minha filha. A dourada chegou, maravilhosa, com molho de alho em vinho, sim o da madeira, o molho levemente picante, o peixe tão cheio de frescura desprende-se da espinha. Já não me apetece escrever…Até logo!

2013-04-26

O meu 25 de Abril



Parece que houve discursos. Um em particular deixou meio mundo político a discutir significados. Por ter sido proferido pelo representante máximo da República Portuguesa esperava-se que tivesse um significado especial, pacificador, galvanizador, aglutinador de vontades lusas. Tenho para mim que ninguém tinha essa esperança. Esperava-se sim um assumir das nossas debilidades, da nossa dependência, da nossa subserviência perante os poderes económicos ditos “mercados financeiros”, vulgo “credores”. Consagrou-se, num recheio de cravos caídos, a inevitabilidade da nossa perda de soberania. Chocados? Diria eu que a maioria de nós, cidadãos avisados e despertos, não terão ficado surpreendidos, mas eu já não conheço o povo a que pertenço, muito menos as suas “maiorias”. Confesso que não ouvi, que desliguei, que fui trabalhar, privilégio raro nos dias que correm. Hoje ouço os ecos de tais palavras discursivas e justifico a minha surdez.
O meu 25 de Abril sempre teve significados múltiplos, a começar pelo facto dos meus pais fazerem anos de casados nesse dia. A minha mãe, que partiu precocemente num dia de Março de 1989, volta-me sempre à memória. Pelos almoços festivos dos primeiros anos da década de setenta, pela madrugada desse dia no ano de 1974, por todos os outros almoços em que foi legítima a minha presença numa consagração que lhes pertencia e da qual eu era fruto, único fruto.
Mas estava eu falando do meu 25 de Abril, mais precisamente o de 1974. Acordei  mais cedo do que seria normal para um dia de semana. Acordei porque senti as vozes da rádio na sala, dita de "estar". O “rádio”, peça de mobiliário digna de adoração, tinha no seu interior o primeiro gira-discos que eu vi na vida. O estar sentado a ouvir rádio era um luxo de classe média que o ordenado do meu pai permitia. Nessa madrugada a posição curvada da minha mãe, olhar fixo nos números do mostrador das frequências, robe vestido por cima da camisa de dormir, tirava-lhe essa magia e emprestava-lhe uma gravidade que me assustou. Cheguei-me devagar ao pé dela e sentei-me a seu lado, ela aconchegou-me sem tirar os olhos do mostrador luminoso. Passou algum tempo até que me dignasse perguntar alguma coisa. Não me lembro exatamente da pergunta mas recordo perfeitamente a resposta, “Um golpe de estado”, ainda não era da revolução que se falava nessas primeiras horas. A minha mãe tinha sido avisada pelo meu pai. Trabalhava por turnos na refinaria de Cabo Ruivo, parece que estavam militares na portaria e não o deixavam sair às oito como seria normal. Perguntei-lhe o que era um “golpe de estado”. Penso que tentou explicar-me mas eu não devo ter entendido.
Entendi depois porque tinham, no ano de 1973, ido uns senhores de fato e gravata buscar o meu pai para uma conversa matinal em Caxias. Fiquei a saber que aquele seu colega, vinte anos mais novo e que lhe ia ensinar matemática, tinha morrido num atentado de extrema-esquerda. O meu pai, aluno tardio do actual ISEL, andava no primeiro ano do curso que o habilitava a chamar-se “agente técnico” e que depois de grandes controvérsias com o Técnico (o da Alameda) se apelidou de “engenheiro técnico”, tinha na boa vontade desse jovem a moleta que o ajudava a superar as dificuldades do horário e os problemas respiratórios do filho. Não me lembro do nome do “rapaz”. Para sempre ficou “rapaz” na minha memória, cabelo grande e barba descuidada, mãos finas e compridas num corpo esguio e frágil, sempre me fizera festas na cabeça à entrada de minha casa. A sua mãe reconheceu-o pela roupa, pelos restos que a bomba não destruiu. Na sua agenda encontrava-se o número de telefone do meu pai.
Só depois do 25 de Abril de 1974 é que percebi as palavras escritas nas paredes dos subúrbios onde se pedia o fim da guerra colonial. As letras vermelhas ou pretas que gatafunhadas à pressa testemunhavam um descontentamento crescente não faziam parte dos meus ensinamentos, quanto menos eu soubesse menos eu poderia contar, como confiar na discrição de um menino de sete anos, o que haveria para dizer?
Havia muito para contar, que o digam os anos que se seguiram atá à década de oitenta. Anos loucos de frenesim constante, de sonhos de esperanças, de medos e desencantos.
Hoje o meu “vinte cinco de Abril” é essa madrugada em que o mundo se abriu e eu descobri que não vivia sozinho no meu bairro suburbano da reboleira. Não vai ser a notícia de um discurso infeliz, para não lhe chamar outra coisa, que me vai estragar essa memória. 

2013-04-23

O grafismo da minha escrita


Que pena tenho eu de não poder mostrar o grafismo da minha escrita. Resumia-a a um programa informático que descodifica pensamentos em letras elaboradas, inventadas por quem achou que bastavam. Procuro no meio de tantas opções a opção certa sabendo de antemão que nunca será a correcta. Tão pouco de mim a não ser isso mesmo, a tradução, descodificação alinhavada, palavras passadas a fino pelo corrector automático que um dia se impôs no processador avisando-me de acordos com que eu não concordei, ou concordei pelo silêncio. E no entanto tudo sairá igual, destino traçado pelo modo automático com que o defini num dia de preguiças residuais. Enquanto escrevo vou-me apercebendo dos erros, as linhas vermelhas, ondulantes, que sublinham palavras fora das normas e eu penso nas normas, na facilidade com que as normas se impõem, se sobrepõem a tudo o que faço. Não será fácil fugir-lhe quando tudo está preso. Às vezes penso se estou dependente das opiniões, das visitas estranhas em países de atlas onde o português não pode ser mais que uma tradução automática. Às vezes penso que não são os autóctones. Os leitores, imagino-os portugueses de longínqua coragem, refugiados da impotência de rectângulo marginal nas margens marítimas de uma Europa milenar. E voltando aos erros, não sei se os deva corrigir, se corrijo só metade, se será a metade correcta e se depois da aceitação alguma norma terá sido seguida. Longe vai a disciplina de português que aprendi na escola quando ainda não sabia quem era. Hoje tudo é tão fútil, tão necessitado de renovação constante, Darwin linguístico em passo acelerado para depois nos dizerem que não. Deita fora essa língua que não presta, aprende das que te darão o futuro e no futuro lambe essa primeira língua como a recordação de um seio materno já morto. Que estou eu escrevendo? Fossem estas linhas, tinta numa página e o desentendimento gráfico tornar-se-ia percetível. Não são, são 0 e I´s numa simbologia binária que me permite divulgá-la.  Tenho pena que não seja o papel escrito. Reservo para mim essa escrita manufacturada, a tinta desenhada que me permite aferir de disposições psicológicas. O desabafo por aqui fica, a pequena reflexão pós digestiva que um sol primaveril aqueceu e iluminou. A edição será rápida, com a rapidez e a comodidade de um clique…ou dois…que importa quando os dedos já nem os sentem? O texto que queria escrever já está feito, manuscrito, que perda de tempo neste século XXI tão cheio de pressas. Chego ao fim com a sensação de que já estou desactualizado. Como tudo neste mundo frenético, já não valerá a pena ler isto…e apenas passaram alguns minutos…