De burro, porque de burro tudo é lento, assim viaja quem tem paciência. A sela, toda ela mantas e pó, tem o conforto de quem gosta do lombo de animais magros. Nos alforges guarda-se, num pano enrolado, um bocado de pão e o luxo de um pequeno peixe frito no dia anterior. A jornada será longa, de quilómetros desconhecidos para além da freguesia. Protegida por cerros inundados de medronheiros o caminho serpenteia no fundo do vale. A Primavera vai avançada e a vegetação rasteira começa a mostrar sinais de cansaço ao misturar verdes secos com amarelos pálidos a roçar o branco.
De burro, porque de burro tudo é lento, assim viajam dois moços, pouco mais de treze anos, mas que de longe facilmente seriam confundidos com homens já feitos. As roupas são únicas, roupas que duram semanas, meses, o tempo que for necessário até ser impossível terem esse nome. Um deles tem botas, é esse que caminha ao lado do burro. Leva na mão uma varinha feita de um ramo de oliveira que uma navalha ganha ao chinquilho trabalhou com figuras facilmente confundidas com animais domésticos. As botas têm um tamanho improvável para os pés do rapaz, possivelmente herdadas de um adulto farto das suas aberturas laterais. A sola mostra um desgaste acentuado que apenas se vislumbra quando o passo é mais acelerado. De quando em quando o Carqueja para. Assim é a alcunha, mais forte que nome, pela qual o moço é conhecido e que faz dele representante e continuador da linhagem familiar pelo lado paterno. Dizia eu que o Carqueja para e nesse seu acto leva a intenção de sacudir os pés, ou melhor, os sapatos, na tentativa de retirar pedras e pedrinhas do seu interior. O pó, esse há muito se tornou lama e faz parte da pele. O António vai em cima do burro e sabe que dali a pouco será a sua vez de ir pé. Quando o momento chegar serão suas as botas e o Carqueja será o cavaleiro de tão cobiçado burro, dedos dos pés ao léu refrescando-se da cozedura.
De burro, porque de burro é a melhor opção, assim viajam os dois moços. Decidiram ver o mar, querem saber para onde vai aquele rio do qual só conhecem um pedaço, querem saber o destino daquelas águas frescas e transparentes onde aprenderam a nadar, a pescar, a descansar, fugidos do trabalho que aperta, do açoite de quem os sabe mandriões. É domingo e não sabem quando irão encontrar o destino da sua viagem. Talvez por isso se levantaram tão cedo. Levavam já umas horas de caminho quando ouviram os primeiros cantos daqueles que são os anunciadores de madrugadas. Disseram-lhes que o mar faz almarear, que se perde o norte de tão grande que ele é. O Carqueja acredita mas o António dúvida. Se ele olha todas as noites para o céu e adormece olhando o negro e no negro apenas pequenas luzes que lhe disseram ser estrelas, como pode ser o mar tão grande que almareie? O Carqueja diz-lhe que não é só o tamanho mas também o cheiro, e o balanço…O balanço? Que balanço? O balanço das ondas…Ondas? Aquele lambe- lambe da água nas margens do rio? Não! Uma coisa maior, mais alta que tu, mais alta do que a estação do caminho-de-ferro…És mesmo parvalhão, acreditas em tudo o te dizem. Estou a dizer-te qu’é verdade…Tá bem, a gente logo tira as teimas.
Já o sol começava a perder a embalagem quando começaram a ouvi-lo. Mesmo antes do ouvir tinham-lhe sentido o cheiro e sem saber o que era achavam que cheirava mal. Cheira a quê? Sei lá, cheira mal!
Depois de o ouvir calaram-se. O ruido era surdo vindo do horizonte, uma nevoa que não se percebia. Aceleraram o passo. O primeiro a vê-lo foi o Carqueja. Primeiro parou depois correu pala areia dando pequenos saltos para fugir da água que teimava em procura-lo numa cadência de ondas. Ria e gritava como uma criança que era mas que lhe tinham dito já não ser. Olha António! Olha como é bonito!
O António tinha conseguido chegar à areia mas depois sentiu um enjoo que foi aumentando na ondulação, no ruido do vai e vem da água, no sufocar da maresia e de repente a areia desapareceu e tudo ficou negro.
Quando o António abriu os olhos viu o Carqueja ao pé dele sorrindo de alívio. Tava a ver que não acordavas tive que dar-te umas bofetadas.
Afinal era verdade Carqueja…Afinal era verdade…
2012-04-20
2012-04-07
A Decisão
Estacionou o carro. Olhou para o relógio, nove horas da manhã. Ainda se ouve o rádio, o motor ainda se mantém a trabalhar, ainda se ouve o gasóleo a circular, a queimar, o som de barítono rouco numa vocalização subaquática.
Sabe que vai esperar e essa certeza impede-lhe os movimentos. O corpo recusa-se a obedecer consciente das horas de torpor que lhe estão destinadas. Ele olha para a matéria que o suporta e diz-lhe “Sou eu que mando. Levanta-te corpo e cumpre a tua missão! Leva a consciência que te comanda de modo a que ela te possa alimentar e, quem sabe, talvez matar.”.
Esta ligeira disfunção é momentânea, dura o tempo das notícias, são nove horas e sete minutos e talvez não fosse o corpo que estivesse a fazer ronha. Seja como for o binómio orgânico precisa reagir. Desliga o rádio, roda a chave da ignição, faz calar esse motor rouco que te adormece, sai do carro e fecha a porta, esquece o calor do ar condicionado, deixa o bafo quente encontrar o ar frio da manhã, deixa que eles se entrelacem numa nuvem de vapor, deixa como se isso importasse.
O caminho até á porta do edifício é curto, não mais que cinquenta metros, talvez nem tanto, mas ele não tem fita métrica e hoje parece-lhe mais longo. As escadas só têm quatro degraus, talvez cinco, mas esse número multiplicou-se por um factor de grandeza igual à sua frustração à raiva que não consegue evitar.
Tem hora marcada para as nove e meia, deve estar presente quando o pensarem ausente. Leva um livro debaixo do braço, pequeno almoço reforçado, alguns cigarros e isqueiro. Também leva o telemóvel porque é necessário manter-se comunicável, de telemóvel ligado ele existe.
São onze horas da manhã e ainda não o receberam. As entrevistas atrasaram-se, a necessidade não é igual de ambas as partes. Lembra-se da última nota gasta em combustível, do café com leite, das carcaças com manteiga e fiambre, dos filhos em casa, da mulher longe, da mulher em casa, dos filhos longe…do último dia em que se sentiu útil e lembra-se de uma frase num livro “Ser optimista é pensar que vivemos no melhor sistema possível. Ser pessimista é acreditar que isso é verdade.”.
Chegou a sua vez. Entra devagar num trejeito que poderia ser confundido com timidez. Procura um lugar para poisar o livro. De modo algum o livro deverá ser abandonado como um objecto inútil. “Sente-se!”. O pedido é mais uma ordem, a última que vai receber.
Ele senta-se. “Sabe que vai ser difícil…”. A frase é cortada pela violência do impacto com que o pisa papéis embateu na cabeça do funcionário. O golpe foi fulminante, o corpo tombou sobre a secretária escorrendo sangue abundantemente.
Somente o silêncio. Esperou ainda alguns minutos até decidir levantar-se. Afinal não foi assim tão difícil. Sentiu-se aliviado. Pegou cuidadosamente no livro e saiu do gabinete. “Já está despachado?”. Ouviu a pergunta e sorriu. Virou-se para a mulher e como que segredando respondeu-lhe, “Sim! O assunto não era complicado. O Doutor pediu-me um favor…”, “o que é que o Doutor lhe pediu?...”, “Que você lhe levasse um comprimido para as dores de cabeça.”.
A rapariga, cuidadosamente vestida ficou olhando para ele vendo-o afastar-se. Já cá fora o ar deixara de ser frio. Percebeu pelos gritos que a secretária do senhor Doutor tinha entrado no gabinete, imaginou-lhe o corpo esbelto cingido pelo negro do vestido, sentiu-lhe o espanto e as tremuras.
O corpo agora obedecia-lhe melhor. A chave rodou na ignição, o gasóleo começou a circular provocando um ronronar manso.
Dai a pouco o carro circulava pelas ruas da cidade…
Sabe que vai esperar e essa certeza impede-lhe os movimentos. O corpo recusa-se a obedecer consciente das horas de torpor que lhe estão destinadas. Ele olha para a matéria que o suporta e diz-lhe “Sou eu que mando. Levanta-te corpo e cumpre a tua missão! Leva a consciência que te comanda de modo a que ela te possa alimentar e, quem sabe, talvez matar.”.
Esta ligeira disfunção é momentânea, dura o tempo das notícias, são nove horas e sete minutos e talvez não fosse o corpo que estivesse a fazer ronha. Seja como for o binómio orgânico precisa reagir. Desliga o rádio, roda a chave da ignição, faz calar esse motor rouco que te adormece, sai do carro e fecha a porta, esquece o calor do ar condicionado, deixa o bafo quente encontrar o ar frio da manhã, deixa que eles se entrelacem numa nuvem de vapor, deixa como se isso importasse.
O caminho até á porta do edifício é curto, não mais que cinquenta metros, talvez nem tanto, mas ele não tem fita métrica e hoje parece-lhe mais longo. As escadas só têm quatro degraus, talvez cinco, mas esse número multiplicou-se por um factor de grandeza igual à sua frustração à raiva que não consegue evitar.
Tem hora marcada para as nove e meia, deve estar presente quando o pensarem ausente. Leva um livro debaixo do braço, pequeno almoço reforçado, alguns cigarros e isqueiro. Também leva o telemóvel porque é necessário manter-se comunicável, de telemóvel ligado ele existe.
São onze horas da manhã e ainda não o receberam. As entrevistas atrasaram-se, a necessidade não é igual de ambas as partes. Lembra-se da última nota gasta em combustível, do café com leite, das carcaças com manteiga e fiambre, dos filhos em casa, da mulher longe, da mulher em casa, dos filhos longe…do último dia em que se sentiu útil e lembra-se de uma frase num livro “Ser optimista é pensar que vivemos no melhor sistema possível. Ser pessimista é acreditar que isso é verdade.”.
Chegou a sua vez. Entra devagar num trejeito que poderia ser confundido com timidez. Procura um lugar para poisar o livro. De modo algum o livro deverá ser abandonado como um objecto inútil. “Sente-se!”. O pedido é mais uma ordem, a última que vai receber.
Ele senta-se. “Sabe que vai ser difícil…”. A frase é cortada pela violência do impacto com que o pisa papéis embateu na cabeça do funcionário. O golpe foi fulminante, o corpo tombou sobre a secretária escorrendo sangue abundantemente.
Somente o silêncio. Esperou ainda alguns minutos até decidir levantar-se. Afinal não foi assim tão difícil. Sentiu-se aliviado. Pegou cuidadosamente no livro e saiu do gabinete. “Já está despachado?”. Ouviu a pergunta e sorriu. Virou-se para a mulher e como que segredando respondeu-lhe, “Sim! O assunto não era complicado. O Doutor pediu-me um favor…”, “o que é que o Doutor lhe pediu?...”, “Que você lhe levasse um comprimido para as dores de cabeça.”.
A rapariga, cuidadosamente vestida ficou olhando para ele vendo-o afastar-se. Já cá fora o ar deixara de ser frio. Percebeu pelos gritos que a secretária do senhor Doutor tinha entrado no gabinete, imaginou-lhe o corpo esbelto cingido pelo negro do vestido, sentiu-lhe o espanto e as tremuras.
O corpo agora obedecia-lhe melhor. A chave rodou na ignição, o gasóleo começou a circular provocando um ronronar manso.
Dai a pouco o carro circulava pelas ruas da cidade…
2012-03-21
Amanhã
Amanhã eu vou ser grilo,
Vou cantar até morrer.
Vou ser vida proibida,
E teimar-me em nascer.
Vou ser luz, vou ser calor,
Um quadro de cores tentadoras.
Serei esperança e coragem,
Um assomo de liberdade,
Ou apenas a sua imagem.
Vou ser a flor que não é
E o verde que devia ser.
Vou ser a força que não tenho,
E a que poderia ter.
Vou ser palavras amigas,
E o outro com ouvidos.
Vou ser dois braços amigos,
O que sinto e os teus sentidos.
Amanhã eu vou lembra-me,
Fingir tudo sem fingir,
Ser o poeta que não sou,
Poetastro de mau vinho.
Vou esconder os meus rancores,
E deixar de ouvir o mar,
Resmungar palavras tolas
E brindar à Vera Prima.
Vou cantar até morrer.
Vou ser vida proibida,
E teimar-me em nascer.
Vou ser luz, vou ser calor,
Um quadro de cores tentadoras.
Serei esperança e coragem,
Um assomo de liberdade,
Ou apenas a sua imagem.
Vou ser a flor que não é
E o verde que devia ser.
Vou ser a força que não tenho,
E a que poderia ter.
Vou ser palavras amigas,
E o outro com ouvidos.
Vou ser dois braços amigos,
O que sinto e os teus sentidos.
Amanhã eu vou lembra-me,
Fingir tudo sem fingir,
Ser o poeta que não sou,
Poetastro de mau vinho.
Vou esconder os meus rancores,
E deixar de ouvir o mar,
Resmungar palavras tolas
E brindar à Vera Prima.
2012-02-03
Biblioteca
A biblioteca da Amadora esteve em tempos sediada na rua da “Nau”. A poucos metros da minha casa assediava-me sempre que me dirigia para aquela cervejaria. Com a sua grande montra virada para a rua deixava os seus frequentadores em posição inferior provocando nos transeuntes a sensação de verem estranhos seres subterrâneos debruçados sobre mesas. Não tenho a certeza mas penso que terá sido essa a razão que me fez lá entrar pela primeira vez. Do lado de dentro as pessoas cá fora eram só pés e pernas. Para que tal não acontecesse era necessário levantar a cabeça e nesse gesto pouco usual procurar nas alturas as feições de quem passava. Sim, eu passei algumas horas lá dentro. Sim, era um acto individual provocado por necessidades estranhas de silêncio acompanhado.
Actualmente, quando quero saber do meu pai e tenho o telemóvel sem bateria vou procurá-lo na biblioteca de Santo André. Penso que ele sente essa mesma necessidade. Nunca discutimos o assunto mas percebe-se o conforto silencioso da biblioteca. Muitas vezes chego e dou-lhe um beijo, também ele silencioso e deixo-me ficar a seu lado vendo-o transcrever palavras de um velho manual de Inglês. Nunca procurei a biblioteca de Santo André por vontade própria, talvez porque encontre no sossego de minha casa a paz para ler e escrever.
Mas a vida prega-nos partidas…Hoje levei a Deolinda ao médico a Santiago do Cacém. Santiago do Cacém também tem uma biblioteca e esta fica precisamente em frente da clínica onde eu ia deixar a Deolinda. Levava debaixo do braço um caderno, uma caneta e o jornal. Dentro do bolso o meu inseparável MP4. Escrevi algumas folhas e cansado de escrever fui procurar um livro. Fixei-me num pequeno livro já usado e sem apelos gráficos desmedidos. O livro “O Spleen de Paris” continha pequenos poemas em prosa de Charles Baudelaire.
Poderia falar do imenso prazer que me deu ler estas prosas poéticas, do facto de as ter lido a ouvir Keith Jarrett, “The Koln Concert”, de estar junto a uma janela virado para o castelo de Santiago, do calor do sol, ampliado pelas vidraças, me ter feito esquecer as notícias do frio. Sim poderia falar disso tudo…
Ficou-me este excerto do VII poema/prosa “ O Louco e a Vénus”:
Que dia admirável! O vasto parque sob os olhares flamejantes do Sol, tal como a juventude sob o domínio do amor.
O êxtase universal das coisas não se exprime por nenhum ruído; as próprias águas estão como adormecidas. Bem diferente das festas humanas, a orgia aqui é silenciosa.
Bom fim de semana!
Actualmente, quando quero saber do meu pai e tenho o telemóvel sem bateria vou procurá-lo na biblioteca de Santo André. Penso que ele sente essa mesma necessidade. Nunca discutimos o assunto mas percebe-se o conforto silencioso da biblioteca. Muitas vezes chego e dou-lhe um beijo, também ele silencioso e deixo-me ficar a seu lado vendo-o transcrever palavras de um velho manual de Inglês. Nunca procurei a biblioteca de Santo André por vontade própria, talvez porque encontre no sossego de minha casa a paz para ler e escrever.
Mas a vida prega-nos partidas…Hoje levei a Deolinda ao médico a Santiago do Cacém. Santiago do Cacém também tem uma biblioteca e esta fica precisamente em frente da clínica onde eu ia deixar a Deolinda. Levava debaixo do braço um caderno, uma caneta e o jornal. Dentro do bolso o meu inseparável MP4. Escrevi algumas folhas e cansado de escrever fui procurar um livro. Fixei-me num pequeno livro já usado e sem apelos gráficos desmedidos. O livro “O Spleen de Paris” continha pequenos poemas em prosa de Charles Baudelaire.
Poderia falar do imenso prazer que me deu ler estas prosas poéticas, do facto de as ter lido a ouvir Keith Jarrett, “The Koln Concert”, de estar junto a uma janela virado para o castelo de Santiago, do calor do sol, ampliado pelas vidraças, me ter feito esquecer as notícias do frio. Sim poderia falar disso tudo…
Ficou-me este excerto do VII poema/prosa “ O Louco e a Vénus”:
Que dia admirável! O vasto parque sob os olhares flamejantes do Sol, tal como a juventude sob o domínio do amor.
O êxtase universal das coisas não se exprime por nenhum ruído; as próprias águas estão como adormecidas. Bem diferente das festas humanas, a orgia aqui é silenciosa.
Bom fim de semana!
2012-01-24
Que seca!
Que seca! Olho para o outro lado da rua e vejo o jornaleiro que já não existe, a banca que desapareceu e os jornais que já não tentam desprender-se dos elásticos ausentes.
Que seca! O velho café fechou e o novo que lá abriu, LCD na parede, cadeiras com ergonomia assegurada, visualmente moderno, pop, ou lá o que seja, deixa-me um sabor estranho nos olhos, talvez o perfume que me arranha a pele.
Que seca! Diz a minha filha quando lhe infernizo o juízo e perante uma qualquer justificação parva exclama, LOL! E eu sem mais digo-lhe, SOS! O quê pai? SOS! Tu estás bem pai? Que seca tentar estar actualizado, perceber o que há-de ser sempre igual com vocábulos diferentes, vocábulos inventados na fobia juvenil de tudo codificar, de tudo diferenciar. E eu que tanto diferenciei sinto-me perdido por tudo me parecer igual. Fogo pai não percebes nada! Sim filha, eu também gosto de ti. Um sorriso teu que vale por mil, um ligeiro beijo…Pai tu picas! Eu sei, amanhã eu corto-a!
Que seca! O olhar provocador do cão enquanto me mija o pneu do carro. ÃO! ÃO! Este carro pode ser teu mas entre aquela curva da estrada e este sinal de passadeira tudo tem de cheirar a mim. Eu não me importo que me mijes a roda do carro, o que eu não gosto mesmo é essa perna alçada, esses tomates à mostra, do género, “Olha o que eu tenho para ti!”.
Que seca! Estou sentado e tento concentrar-me, as letras fogem-me e eu teimo em não usar os óculos para ver ao perto, para ler, para os detalhes…estou-me nas tintas para os detalhes! Olá Paulo! Posso sentar-me? Claro, meu irmão, estava mesmo farto de tentar ler o jornal. Nem sei porque é que ainda compras essa treta.
Que seca! Há obras por todo o lado! Agora que me dizem não haver dinheiro só vejo é máquinas de asfaltar, “Estradas da Planície”, que imaginação! P…Que os Pariu! Já nem dinheiro têm para fazer o resto até Beja! Que seca!
Este verão irão aparecer cartazes apelativos, “Sinta as pedras a bater no seu pára-brisas, sinta os fantasmas das árvores abatidas, sinta as camadas de asfalto fazerem-lhe cócegas nos pés, tudo isto que fazemos fazemo-lo para si, visite-nos, estacione a sua caravana junto das dezenas de outras que bordejam a praias, muro de casas sobre rodas em nome da mobilidade, da liberdade…” P…Que Pariu a liberdade! Que seca!
Que seca! Escrevo estas palavras como um desabafo…Sou um falso…Não digo o que me vai na alma, apenas o que me incomoda, o que perturba a minha epiderme sensorial. Que seca, o copo está vazio, são vinte e três horas e apetece-me fumar um cigarro.
Este Inverno falta-me um pouco de chuva…Que seca!
2012-01-16
Um conto
Jonas é um homem já feito. Feito porque foi feito, feito porque assim se mantém. Poder-se-ia dizer que depois de feito só lhe bastava crescer. Jonas tornou-se “Jonas” porque João não lhe bastava, nem aos amigos que assim o baptizaram.
Jonas nasceu numa família pequena, numa casa pequena, numa terra pequena, num país pequeno, Jonas também é pequeno, mas só de tamanho, mas disso não tem culpa assim como de tudo o resto.
Jonas andou na escola mas não estudou, teve empregos mas não trabalhou, mas quando sonhou partiu. Esteve em África quando todos se vieram embora, foi para o Brasil quando o Brasil era favela e fez-se pescador quando voltou a Portugal.
Jonas teve um barco pequeno, pequeno foi o barco mas grande foi o amor que teve por ele. Jonas que é um homem já feito disse que tinha sido feito para o mar. Foi o mar que lhe levou o barco e por pouco também a vida. Maldito dia em que um barco maior não o viu e numa madrugada enevoada o entornou para a água.
Benditos os braços de Jonas que lhe despiram a roupa, lhe tiraram as botas e lhe remaram o corpo para terra.
Jonas, homem já feito, tornou-se mendigo, habitou-se a pedir, trocou o mar pela terra e vagueou sem destino à espera de outro sonho, Jonas queria ser poeta.
Mas Jonas não sabia escrever, ou já não se lembrava, sabia no entanto as palavras que descreviam a vida do homem que era. Jonas recordava da mesma maneira que os poetas inventam.
Jonas comia pouco e bebia o que podia. Jonas tinha uma tenda por detrás do pinhal.
Jonas trocava poemas por sandes, frases por cigarros, filosofias por um copo.
Hoje Jonas partiu…Não morreu! Partiu apenas. Deixou a tenda e o sonho da poesia. Diz quem sabe que o viu a caminho do Algarve, a pé, pela estrada que sai do Cercal.
Jonas, homem já feito, não para de sonhar…
Jonas nasceu numa família pequena, numa casa pequena, numa terra pequena, num país pequeno, Jonas também é pequeno, mas só de tamanho, mas disso não tem culpa assim como de tudo o resto.
Jonas andou na escola mas não estudou, teve empregos mas não trabalhou, mas quando sonhou partiu. Esteve em África quando todos se vieram embora, foi para o Brasil quando o Brasil era favela e fez-se pescador quando voltou a Portugal.
Jonas teve um barco pequeno, pequeno foi o barco mas grande foi o amor que teve por ele. Jonas que é um homem já feito disse que tinha sido feito para o mar. Foi o mar que lhe levou o barco e por pouco também a vida. Maldito dia em que um barco maior não o viu e numa madrugada enevoada o entornou para a água.
Benditos os braços de Jonas que lhe despiram a roupa, lhe tiraram as botas e lhe remaram o corpo para terra.
Jonas, homem já feito, tornou-se mendigo, habitou-se a pedir, trocou o mar pela terra e vagueou sem destino à espera de outro sonho, Jonas queria ser poeta.
Mas Jonas não sabia escrever, ou já não se lembrava, sabia no entanto as palavras que descreviam a vida do homem que era. Jonas recordava da mesma maneira que os poetas inventam.
Jonas comia pouco e bebia o que podia. Jonas tinha uma tenda por detrás do pinhal.
Jonas trocava poemas por sandes, frases por cigarros, filosofias por um copo.
Hoje Jonas partiu…Não morreu! Partiu apenas. Deixou a tenda e o sonho da poesia. Diz quem sabe que o viu a caminho do Algarve, a pé, pela estrada que sai do Cercal.
Jonas, homem já feito, não para de sonhar…
2012-01-04
Os dias estão bonitos!
Os dias estão bonitos. Talvez por estarem tão bonitos deixaram-me mais atento. Que melhor desculpa poderia eu ter para ouvir diálogos alheios?
À portaria da fábrica, por volta das oito horas, juntam-se uniformes de trabalho num mesclado cinzento. São os “empreiteiros”, pessoal que veio de longe, de perto, de qualquer lugar onde falte emprego, a construção da nova unidade assim o exige. Os quartos da região estão todos ocupados, os andares arrendados, a espanhóis, a imigrantes do leste, a brasileiros, aos africanos de nascença ou de descendência, a portugueses vindos do norte, a gente de sul que deixou de poder trabalhar em Espanha, na Holanda, em qualquer outro lugar, onde o dinheiro ganho de forma sazonal, ia dando para a despesa.
Formam-se grupos, esperam-se os encarregados, os responsáveis pela segurança, aguardam-se chamamentos que permitam a entrada ordenada pelo torniquete. No meio desde burburinho tento entrar despercebido, sigo um atalho de corpos, espero a minha vez e sigo atrás de um pequeno grupo. O passeio construído em “I’s” de cimento é ladeado por vários metros de relvado durante os duzentos metros que separam a portaria da rede das fábricas. Não costumo seguir, ordeiro, na corrente que se forma até à segunda entrada, geralmente entretenho-me a fazer gincanas.
Mas os dias estão bonitos, frios mas bonitos e convidam-me a passos lentos. Sigo aquele pequeno grupo, quatro homens, uma mulher, a responsável pela segurança, mulher nova com menos de trinta anos. Um dos homens, moço novo com pouco mais de vinte anos, queixa-se com o frio do quarto, “F…tu tinhas dito que ias comprar a m… dum aquecedor”, o mais velho, moço de trinta e poucos, responde-lhe à letra “Porque que não o compras tu c…? Sais á noite para mamar mas para comprar o c… do aquecedor tá quieto!”. O outro tentou responder qualquer coisa que o vento abafou e o mais velho continuou, “Eu se tivesse guita também andava nos copos, mas f…., se vou para o quarto já não saio! E tu não precisas de aquecedor meu cabrão, tu cagas-te como ò c….!”. Riram-se todos, eu também me ri...por dentro…
Houve troca de acusações até que o mais velho fez valer a experiência “Meu, eu na paragem dois mil só havia um dia que não vinha bêbado e era à sexta feira!”. Virei para o lado direito, pressenti-os e lancei-lhes um último olhar…Cabo Ruivo 1983!....o que a memória vai buscar…
F… os dias estão mesmo bonitos!
À portaria da fábrica, por volta das oito horas, juntam-se uniformes de trabalho num mesclado cinzento. São os “empreiteiros”, pessoal que veio de longe, de perto, de qualquer lugar onde falte emprego, a construção da nova unidade assim o exige. Os quartos da região estão todos ocupados, os andares arrendados, a espanhóis, a imigrantes do leste, a brasileiros, aos africanos de nascença ou de descendência, a portugueses vindos do norte, a gente de sul que deixou de poder trabalhar em Espanha, na Holanda, em qualquer outro lugar, onde o dinheiro ganho de forma sazonal, ia dando para a despesa.
Formam-se grupos, esperam-se os encarregados, os responsáveis pela segurança, aguardam-se chamamentos que permitam a entrada ordenada pelo torniquete. No meio desde burburinho tento entrar despercebido, sigo um atalho de corpos, espero a minha vez e sigo atrás de um pequeno grupo. O passeio construído em “I’s” de cimento é ladeado por vários metros de relvado durante os duzentos metros que separam a portaria da rede das fábricas. Não costumo seguir, ordeiro, na corrente que se forma até à segunda entrada, geralmente entretenho-me a fazer gincanas.
Mas os dias estão bonitos, frios mas bonitos e convidam-me a passos lentos. Sigo aquele pequeno grupo, quatro homens, uma mulher, a responsável pela segurança, mulher nova com menos de trinta anos. Um dos homens, moço novo com pouco mais de vinte anos, queixa-se com o frio do quarto, “F…tu tinhas dito que ias comprar a m… dum aquecedor”, o mais velho, moço de trinta e poucos, responde-lhe à letra “Porque que não o compras tu c…? Sais á noite para mamar mas para comprar o c… do aquecedor tá quieto!”. O outro tentou responder qualquer coisa que o vento abafou e o mais velho continuou, “Eu se tivesse guita também andava nos copos, mas f…., se vou para o quarto já não saio! E tu não precisas de aquecedor meu cabrão, tu cagas-te como ò c….!”. Riram-se todos, eu também me ri...por dentro…
Houve troca de acusações até que o mais velho fez valer a experiência “Meu, eu na paragem dois mil só havia um dia que não vinha bêbado e era à sexta feira!”. Virei para o lado direito, pressenti-os e lancei-lhes um último olhar…Cabo Ruivo 1983!....o que a memória vai buscar…
F… os dias estão mesmo bonitos!
2011-12-30
E depois…A Gravata Verde
Na mesa que estava gasta,
O dia ia longo,
De lonjuras gastronómicas,
De garrafas cansadas de vazias,
O dia ia longo neste natal de 2011.
Alguém que coma mais um pouco,
Um pouco do que sobra nestes pratos,
Nesta mesa gasta,
Cansada de um dia longo.
A televisão esgotara-se,
Esvaíra-se,
De programas,
De circos,
De pretensos filmes de natal,
De espectáculos gastos…
…E longos,
Neste dia de natal,
Que ia longo.
E depois…
A gravata apareceu,
Verde,
Elegante,
Preparada.
A gravata estava preparada,
Arranjada,
Estudada,
Hoje vais ser verde,
Verde da esperança que nos falta,
Verde da esperança que te prometem esta noite,
Mas que te roubam de dia,
Todos os dias,
Também neste dia,
Um dia que ia longo.
A gravata não veio sozinha,
Tinha um sujeito agarrado,
De fato imaculado…
Era um facto!
O dia ia longo,
De lonjuras gastronómicas,
De garrafas cansadas de vazias,
O dia ia longo neste natal de 2011.
Alguém que coma mais um pouco,
Um pouco do que sobra nestes pratos,
Nesta mesa gasta,
Cansada de um dia longo.
A televisão esgotara-se,
Esvaíra-se,
De programas,
De circos,
De pretensos filmes de natal,
De espectáculos gastos…
…E longos,
Neste dia de natal,
Que ia longo.
E depois…
A gravata apareceu,
Verde,
Elegante,
Preparada.
A gravata estava preparada,
Arranjada,
Estudada,
Hoje vais ser verde,
Verde da esperança que nos falta,
Verde da esperança que te prometem esta noite,
Mas que te roubam de dia,
Todos os dias,
Também neste dia,
Um dia que ia longo.
A gravata não veio sozinha,
Tinha um sujeito agarrado,
De fato imaculado…
Era um facto!
2011-12-21
Meu fado
O fado como eu o conheço,
É feito de palavras doridas,
Coisas amargas, sofridas,
Dores que vi e não esqueço.
A minha vida não tem preço,
Nunca a vendi a ninguém,
Nem mesmo a quem me quer bem.
Não tem rotulo nem etiqueta,
Não está num frasco ou saqueta,
Só dela estou refém
O fado é destino traçado,
Vida que é vida por ser,
O que se é antes de morrer.
Fado é futuro é passado,
É um amor destroçado,
É o caminho dos dias,
Companheiro das noites frias,
Retrato da minha tristeza,
Dúvida na minha certeza,
O livro que tu não lias.
Fado é o meu esquecimento,
E o que me falta esquecer.
Do que não vi mas vou ver,
Apenas aguardo o momento,
Pois o fado é espera é tormento,
É o choro de alguém sentido,
Soldado sem guerra, perdido.
Fado é sorte é esperança,
Uma memória, lembrança,
A alma de um convertido.
É feito de palavras doridas,
Coisas amargas, sofridas,
Dores que vi e não esqueço.
A minha vida não tem preço,
Nunca a vendi a ninguém,
Nem mesmo a quem me quer bem.
Não tem rotulo nem etiqueta,
Não está num frasco ou saqueta,
Só dela estou refém
O fado é destino traçado,
Vida que é vida por ser,
O que se é antes de morrer.
Fado é futuro é passado,
É um amor destroçado,
É o caminho dos dias,
Companheiro das noites frias,
Retrato da minha tristeza,
Dúvida na minha certeza,
O livro que tu não lias.
Fado é o meu esquecimento,
E o que me falta esquecer.
Do que não vi mas vou ver,
Apenas aguardo o momento,
Pois o fado é espera é tormento,
É o choro de alguém sentido,
Soldado sem guerra, perdido.
Fado é sorte é esperança,
Uma memória, lembrança,
A alma de um convertido.
2011-12-09
Décimas para,
Um fado de (falsas) ilusões
Ou
Fado do mal agradecido
Ou
Fado da geração de “Alex”
Leva-me à boca a garrafa,
Deixa-me bebê-la de um trago,
Sonhar quer já fui jovem,
Sem me sentir estragado.
Ouvir desse novo som,
Sentir novamente a nascer,
A vontade de quem quer “viver”.
Pensar que sou bom,
Que não estou fora de tom.
O escritório que me agrafa,
Afogado num ar que me abafa.
As paredes que me cercam,
As portas que me fecham,
Leva-me à boca a garrafa.
Hoje estou longe de mim,
Estou onde não escolhi estar.
Poderia estar noutro lugar,
Mas como vês estou assim.
Estou à procura de um fim,
De um canto, um lugar vago.
De mergulhar neste lago.
De sentir uma mão.
Traz-me uma nova canção,
Deixa-me bebê-la de um trago.
Ouve-me deus meu, meu senhor,
Ouve o que te quero pedir,
Estou farto de fugir.
Sangra-me a alma, sinto dor,
Perdi o resto de amor.
Olho para o que lá vem,
Olho e sinto desdém.
Esta vida não me agrada,
Vou-me fazer à estrada,
Sonhar que já fui jovem.
Acordei e olhei à volta,
Olhei p’ró fundo, p’ró fim,
Olhei para dentro de mim,
Mesmo junto à minha porta.
Não vou pedir vida morta,
De boi manso, de mau gado
Do que deixei do outro lado.
Olhei p’ró que me falta viver,
Vivo a vida por querer,
Sem me sentir estragado.
Ou
Fado do mal agradecido
Ou
Fado da geração de “Alex”
Leva-me à boca a garrafa,
Deixa-me bebê-la de um trago,
Sonhar quer já fui jovem,
Sem me sentir estragado.
Ouvir desse novo som,
Sentir novamente a nascer,
A vontade de quem quer “viver”.
Pensar que sou bom,
Que não estou fora de tom.
O escritório que me agrafa,
Afogado num ar que me abafa.
As paredes que me cercam,
As portas que me fecham,
Leva-me à boca a garrafa.
Hoje estou longe de mim,
Estou onde não escolhi estar.
Poderia estar noutro lugar,
Mas como vês estou assim.
Estou à procura de um fim,
De um canto, um lugar vago.
De mergulhar neste lago.
De sentir uma mão.
Traz-me uma nova canção,
Deixa-me bebê-la de um trago.
Ouve-me deus meu, meu senhor,
Ouve o que te quero pedir,
Estou farto de fugir.
Sangra-me a alma, sinto dor,
Perdi o resto de amor.
Olho para o que lá vem,
Olho e sinto desdém.
Esta vida não me agrada,
Vou-me fazer à estrada,
Sonhar que já fui jovem.
Acordei e olhei à volta,
Olhei p’ró fundo, p’ró fim,
Olhei para dentro de mim,
Mesmo junto à minha porta.
Não vou pedir vida morta,
De boi manso, de mau gado
Do que deixei do outro lado.
Olhei p’ró que me falta viver,
Vivo a vida por querer,
Sem me sentir estragado.
2011-12-01
Décimas para um fado actual
Moderna morte a fadiga.
Falta-me trabalho e dinheiro,
Mas não me faltam promessas,
Para uma visita ao coveiro.
Destino turvo e curvado,
Tristes estradas e caminhos,
Todos juntos ou sozinhos.
Uns de frente outros de lado,
Um ou outro mais chegado.
Levo a mão que mendiga,
E a boca que mastiga
Por vergonha está cerrada.
Tenho uma vida cansada
Moderna morte a fadiga.
Agora que estou sem lei
Conto-te a história da vida,
Da minha por ser vivida,
Porque das outras não sei.
Por lá perto eu andei,
Tinta do mesmo tinteiro,
Cortiça do mesmo sobreiro.
Conto-te de mim onde estou.
Onde estive, para onde vou,
Falta-me trabalho e dinheiro.
Agora que tudo perdi,
Derrapagem sem sentido,
Sem direito a desmentido,
Olho em silêncio para ti.
Perdoa-me se não reagi,
No passado de onde regressas,
Nas minhas noites sem pressas,
Guardo em mim a tua imagem,
Margem da outra margem,
Mas não me faltam promessas
De todo o meu sentimento,
Estou mais farto do que velho,
Mais despido, mais vermelho,
Vítima deste momento,
Sou sacrilégio, sou tormento,
Sou um homem meio inteiro,
Cortaram-me pelo meio.
É a alma que se agarra,
Tristemente a uma guitarra,
Para uma visita ao coveiro
Falta-me trabalho e dinheiro,
Mas não me faltam promessas,
Para uma visita ao coveiro.
Destino turvo e curvado,
Tristes estradas e caminhos,
Todos juntos ou sozinhos.
Uns de frente outros de lado,
Um ou outro mais chegado.
Levo a mão que mendiga,
E a boca que mastiga
Por vergonha está cerrada.
Tenho uma vida cansada
Moderna morte a fadiga.
Agora que estou sem lei
Conto-te a história da vida,
Da minha por ser vivida,
Porque das outras não sei.
Por lá perto eu andei,
Tinta do mesmo tinteiro,
Cortiça do mesmo sobreiro.
Conto-te de mim onde estou.
Onde estive, para onde vou,
Falta-me trabalho e dinheiro.
Agora que tudo perdi,
Derrapagem sem sentido,
Sem direito a desmentido,
Olho em silêncio para ti.
Perdoa-me se não reagi,
No passado de onde regressas,
Nas minhas noites sem pressas,
Guardo em mim a tua imagem,
Margem da outra margem,
Mas não me faltam promessas
De todo o meu sentimento,
Estou mais farto do que velho,
Mais despido, mais vermelho,
Vítima deste momento,
Sou sacrilégio, sou tormento,
Sou um homem meio inteiro,
Cortaram-me pelo meio.
É a alma que se agarra,
Tristemente a uma guitarra,
Para uma visita ao coveiro
2011-11-23
A CULPA
Louvados sejam os deuses,
Glorificados os seu actos,
Na esperança de sua bênção.
Que incapacidade genética,
Que deficiência maligna,
Nos tornou tão submissos?
Louvados sejam os guias,
Adorados os seus passos,
Porque o caminho é difícil.
Levem-nos pela mão,
Cegos por convicção,
Amanhã o regresso será incerto,
E o futuro desconhecido.
Pensem por nós que somos pecadores.
Nós que escolhemos sem saber
Um destino qualquer.
Lavem-me a roupa das nódoas,
A alma das misérias
E a cabeça de pensamentos.
Doem-me tanto as decisões,
As escolhas incertas,
As ruas desertas
Por onde me fazem andar.
Deixem-me somente o prazer,
Mesmo que não seja eu a escolher.
Quero lá saber da liberdade,
Se não souber a quem louvar.
Quero que me levem pela mão.
Levem-me vocês que inventaram o medo
E a minha solidão.
Levem-me dos receios que não sabia,
Levem-me de tudo o que desconhecia.
Não quero ter opinião,
Que me reste a justificação
De não haver outra saída.
Adormeçam-me com receios,
Cenários escuros e negros,
Abismos e sobressaltos.
Acordem-me para votar,
Façam-me sentir importante
Com escolhas de mão no ar.
Ontem disse que sim,
Hoje penso que não.
E vocês que já lá estão
Estão a rir-se de mim.
Louvados todos os que eu sigo
Porque já não há solução,
Enquanto eu beijar a mão
Que me dá o castigo.
Glorificados os seu actos,
Na esperança de sua bênção.
Que incapacidade genética,
Que deficiência maligna,
Nos tornou tão submissos?
Louvados sejam os guias,
Adorados os seus passos,
Porque o caminho é difícil.
Levem-nos pela mão,
Cegos por convicção,
Amanhã o regresso será incerto,
E o futuro desconhecido.
Pensem por nós que somos pecadores.
Nós que escolhemos sem saber
Um destino qualquer.
Lavem-me a roupa das nódoas,
A alma das misérias
E a cabeça de pensamentos.
Doem-me tanto as decisões,
As escolhas incertas,
As ruas desertas
Por onde me fazem andar.
Deixem-me somente o prazer,
Mesmo que não seja eu a escolher.
Quero lá saber da liberdade,
Se não souber a quem louvar.
Quero que me levem pela mão.
Levem-me vocês que inventaram o medo
E a minha solidão.
Levem-me dos receios que não sabia,
Levem-me de tudo o que desconhecia.
Não quero ter opinião,
Que me reste a justificação
De não haver outra saída.
Adormeçam-me com receios,
Cenários escuros e negros,
Abismos e sobressaltos.
Acordem-me para votar,
Façam-me sentir importante
Com escolhas de mão no ar.
Ontem disse que sim,
Hoje penso que não.
E vocês que já lá estão
Estão a rir-se de mim.
Louvados todos os que eu sigo
Porque já não há solução,
Enquanto eu beijar a mão
Que me dá o castigo.
2011-11-19
Dúvida
Lembro-me de mim,
em cada passo me revejo.
Do centro ao sul
e depois ao centro.
Lembro-me de ti,
ao lado dos passos que dei.
De um lado ao outro,
De tudo o que foi,
e depois voltei.
Voltei porque tinha de voltar,
porque os passos não se esquecem,
porque com os passos que dei,
a algum lado havia de chegar.
Sítio que é porque estou,
relembro quem ficou.
E lembro-me de mim,
com os passos que dei.
Assim foi o que decidi,
horas na estrada do sul,
rumo ao sol que nascia,
rumo ao sul que um dia soube,
para um “Eu” já pequenino.
Numa terra de um largo,
num terraço já antigo,
de uma casa que não existe,
com uma porta e um postigo,
por onde ninguém olha.
Foi destino, foi castigo,
foi a vida, fui eu,
com os passos que dei,
que decidi, amigo,
voltar ao que já não sei.
Sei que não é retorno,
parte de mim ai morreu
e outra parte renasceu,
num lugar mais morno.
Lembro-me de mim
e dos passos que dei,
Só não sei se fui eu que caminhei.
2011-11-14
Quando as palavras nos faltam porque as pessoas se foram

Sentado na minha cadeira,
no conforto do meu quarto,
na sala do meu descanso, manso o desassossego das visitas.
A cadeira de um café,
onde também se bebia café,
porque era no café que tudo começava
e onde tudo também podia acabar.
Falam as bocas de coisas, de pessoas,
das pessoas o mundo,
do mundo as palavras e as pessoas que as dizem.
Foi ontem, mais ou menos à trinta anos,
como podia ser hoje a pensar ontem,
como se tivesse importância o que se diz quando se pensa.
Foram quartos, muitos quartos,
dos quartos de pessoas que se conheciam.
O conforto dos quartos, que era o conforto da amizade,
da cumplicidade, de mais qualquer coisa.
Na sala a música,
omnipresente,
pretexto e finalidade,
desculpa ou lazer,
prazer, discussão, união.
As visitas que se repetiam,
os números que sabiam,
as portas que se conheciam,
e outras coisas mais que atenuavam desassossegos.
Mansos os dias de visita,
calmas peregrinações,
de café em café, sala em sala,
nas escadas, nos jardins, nos passeios
ou simplesmente na rua,
na minha, na tua, na nossa,
que também podia não ser…
tudo isto são palavras que são ditas quando não existem palavras,
porque as palavras escasseiam quando a ausência é definitiva,
no entanto dizem-se!
Até logo!
2011-08-24
Assertivo
ASSERTIVO:
assertivo (Lat. assertivu),adj. que encerra asserto; afirmativo.
asserto (Lat. assertu), s.m. asserção; afirmação.
asserção (Lat. assertione), s.f. proposição que se apresenta como verdadeira; afirmação; asseveração; alegação.
afirmação (Lat. Affirmatione), s.f. acto de afirmar; asseveração, declaração peremptória;
Eu afirmo!
Serei assertivo?
E se afirmar uma mentira, será a minha mentira uma declaração peremptória?
Decisiva será se for terminante, se nela encerrar a convicção de quem engana.
E se mentir convicto de afirmar verdade?
Será a minha afirmação uma asserção?
E a minha atitude?
Terá ela a assertividade que se reconhece nas pessoas honestas?
Será honesta a pessoa que não confirma as suas afirmações?
E se essa pessoa confirmar incorrectamente, se basear as suas afirmações numa mentira bem contada, numa mentira que é geralmente aceite como verdade sem que disso tenha consciência?
Poderei eu respeitar os outros apenas pelo facto de afirmar sem alienar, sem influenciar?
Sempre quis ser assertivo, homem de bem, homem de proposições que se apresentam como verdadeiras, mesmo quando não o são.
Sentado à mesa, uma mesa comprida, rectangular, de frente para um grupo de homens austeros, rígidos, implacáveis, inflexíveis. Sentado à mesa, deste lado, do lado de cá. Comigo estão outros homens, também eles rígidos, tesos, como se diz dos homens que vão à luta, que arriscam o pouco que têm pelo muito que todos possam ganhar.
Sentado à mesa espero a minha vez. Alguns tópicos num papel, a convicção de que tenho razão. Os tópicos que também são as minhas razões, as razões que esperam por se afirmar.
Por cima da mesa ouvem-se afirmações, asserções, declarações, de um lado, do outro, num jogo de esgrima, como se as palavras de uns procurassem a sua verdade nas incertezas dos outros, nos outros termos, nos outros homens que os dizem.
Conseguirei eu ser assertivo, repousar a minha verdade de forma conclusiva, definitiva, como se nada mais houvesse para dizer, ou melhor, afirmar.
Sim, eu proferi afirmações, verdades que sendo minhas estão de acordo com as verdades dos outros, ou não? Eu julgava que sim, assim como eles. Eles que procuram as imperfeições das minhas afirmações, que tentam destruir a minha assertividade, num duelo de verdades, as deles, as minhas, verdades que se cruzam de tempos a tempos, um ligeiro roçar de sílabas, um partilhar de conceitos desgarrados sem que isso se torne compromisso.
Entrei no jogo, entrei para perder, o jogo de assertividades contraditórias, eu sei que não tenho toda a razão, eles também não a têm e sabem-no. Poderemos ficar pelo meio, menor denominador comum, que o maior seria pedir muito, seria?
A meio do jogo o resultado é incerto, mas eu tenho algumas certezas, a certeza de que não vou conseguir tudo o que pretendo, a dúvida de que talvez consiga alguma coisa, uma declaração favorável, algo a que me possa agarrar, uma verdade que seja comum, uma no meio de todas as outras que não o são.
O jogo está a chegar ao fim, a mesa está cheia de garrafas de água, cheia de assertividades inconsequentes, cheia de verdades que de tantas vezes ditas perderam objectividade.
Podemos fazer a acta da reunião, que afirmações podem ficar registadas? O silêncio que ocupa aqueles breves segundos…Será altura de fazer mais afirmações?
Faz-se um esboço, depois cada um lê e lá para o final da semana sairá a versão definitiva que de tão consensual nunca será assertiva. De um lado ficará a nossa verdade do outro a verdade deles, no meio, o que conseguirmos aproveitar…
Amanhã ir-me-ão perguntar, “Então correu bem? Conseguiram o que tínhamos decidido no plenário?”, “ Não!”, seria esta a asserção, mas não posso fazê-lo, não devo fazê-lo, e tanto que eu quero dizer “Não!”. Vou-me deixar levar pela demagogia, fazer uma festa com uma mão cheia de nada.
Vale a pena lutar? Claro que vale! Para saberem que não somos uns” merdas”, podem mandar na gente mas não nos fazem de parvos.
Somos parvos!
Serei eu assertivo quando digo que somos parvos?
Pelo menos é uma afirmação.
Ou será a confissão de um estado de espírito?
Tudo isto afirmei, verdades da minha verdade, a assertividade possível, a que me foi possível. Terá sido suficiente?
Para mim foi.
assertivo (Lat. assertivu),adj. que encerra asserto; afirmativo.
asserto (Lat. assertu), s.m. asserção; afirmação.
asserção (Lat. assertione), s.f. proposição que se apresenta como verdadeira; afirmação; asseveração; alegação.
afirmação (Lat. Affirmatione), s.f. acto de afirmar; asseveração, declaração peremptória;
Eu afirmo!
Serei assertivo?
E se afirmar uma mentira, será a minha mentira uma declaração peremptória?
Decisiva será se for terminante, se nela encerrar a convicção de quem engana.
E se mentir convicto de afirmar verdade?
Será a minha afirmação uma asserção?
E a minha atitude?
Terá ela a assertividade que se reconhece nas pessoas honestas?
Será honesta a pessoa que não confirma as suas afirmações?
E se essa pessoa confirmar incorrectamente, se basear as suas afirmações numa mentira bem contada, numa mentira que é geralmente aceite como verdade sem que disso tenha consciência?
Poderei eu respeitar os outros apenas pelo facto de afirmar sem alienar, sem influenciar?
Sempre quis ser assertivo, homem de bem, homem de proposições que se apresentam como verdadeiras, mesmo quando não o são.
Sentado à mesa, uma mesa comprida, rectangular, de frente para um grupo de homens austeros, rígidos, implacáveis, inflexíveis. Sentado à mesa, deste lado, do lado de cá. Comigo estão outros homens, também eles rígidos, tesos, como se diz dos homens que vão à luta, que arriscam o pouco que têm pelo muito que todos possam ganhar.
Sentado à mesa espero a minha vez. Alguns tópicos num papel, a convicção de que tenho razão. Os tópicos que também são as minhas razões, as razões que esperam por se afirmar.
Por cima da mesa ouvem-se afirmações, asserções, declarações, de um lado, do outro, num jogo de esgrima, como se as palavras de uns procurassem a sua verdade nas incertezas dos outros, nos outros termos, nos outros homens que os dizem.
Conseguirei eu ser assertivo, repousar a minha verdade de forma conclusiva, definitiva, como se nada mais houvesse para dizer, ou melhor, afirmar.
Sim, eu proferi afirmações, verdades que sendo minhas estão de acordo com as verdades dos outros, ou não? Eu julgava que sim, assim como eles. Eles que procuram as imperfeições das minhas afirmações, que tentam destruir a minha assertividade, num duelo de verdades, as deles, as minhas, verdades que se cruzam de tempos a tempos, um ligeiro roçar de sílabas, um partilhar de conceitos desgarrados sem que isso se torne compromisso.
Entrei no jogo, entrei para perder, o jogo de assertividades contraditórias, eu sei que não tenho toda a razão, eles também não a têm e sabem-no. Poderemos ficar pelo meio, menor denominador comum, que o maior seria pedir muito, seria?
A meio do jogo o resultado é incerto, mas eu tenho algumas certezas, a certeza de que não vou conseguir tudo o que pretendo, a dúvida de que talvez consiga alguma coisa, uma declaração favorável, algo a que me possa agarrar, uma verdade que seja comum, uma no meio de todas as outras que não o são.
O jogo está a chegar ao fim, a mesa está cheia de garrafas de água, cheia de assertividades inconsequentes, cheia de verdades que de tantas vezes ditas perderam objectividade.
Podemos fazer a acta da reunião, que afirmações podem ficar registadas? O silêncio que ocupa aqueles breves segundos…Será altura de fazer mais afirmações?
Faz-se um esboço, depois cada um lê e lá para o final da semana sairá a versão definitiva que de tão consensual nunca será assertiva. De um lado ficará a nossa verdade do outro a verdade deles, no meio, o que conseguirmos aproveitar…
Amanhã ir-me-ão perguntar, “Então correu bem? Conseguiram o que tínhamos decidido no plenário?”, “ Não!”, seria esta a asserção, mas não posso fazê-lo, não devo fazê-lo, e tanto que eu quero dizer “Não!”. Vou-me deixar levar pela demagogia, fazer uma festa com uma mão cheia de nada.
Vale a pena lutar? Claro que vale! Para saberem que não somos uns” merdas”, podem mandar na gente mas não nos fazem de parvos.
Somos parvos!
Serei eu assertivo quando digo que somos parvos?
Pelo menos é uma afirmação.
Ou será a confissão de um estado de espírito?
Tudo isto afirmei, verdades da minha verdade, a assertividade possível, a que me foi possível. Terá sido suficiente?
Para mim foi.
2011-08-23
Hoje pressionaram-me imenso! Começaram de manhã. Pressões de vogal, a primeira da lengalenga, o “a”, maiúsculo ou minúsculo, pouco interessa.
Sou um teclado, um teclado comum, de plástico, letras pretas em fundo branco, letras que são símbolos e símbolos que não são letras, emblemas de outras literaturas.
Sou pressionado de manhã e de tarde, tenho um horário fixo. Teoricamente isso corresponderia à verdade. Quem me pressiona tem também um horário fixo. Fixo no contrato assinado em que se assentou a presença quotidiana. A presença que existe independente da pressão contratualizada.
Quando sou bem pressionado a imagem flui no ecrã. Independentemente do tamanho ou qualidade os ecrãs serão sempre o espelho da minha pressão. Não que eu tenha experiência no assunto, ainda hoje sou fiel ao meu primeiro reflexo.
Mas hoje abusaram, palavras cheias de letras massacradas, titubeantes. O contrato que se cumpre. São oito são oito! São sete são sete!
Não há tempo a perder, arrumam-se as letras em sinais eléctricos, que sem electrões nada disto se faz, por enquanto…
Tenho duas teclas gastas e a funcionar mal. Sujidade? Humidade? Ou apenas a erosão do que não é estável. Quantos óxidos escondidos? Quem sabe algum pequeno insecto que se tenha habituado à rotina. Ele entra! Eu saio!
Estou cansado. Não é só a pressão, também é quem a exerce. Não me sinto motivado para fingir letras em impulsos electrónicos, jogos de pressões e contactos, acordos, o eu hoje que amanhã serás tu.
Estou cansado, não são só os dedos que me martelam. É o martelar sem sentido. O provocar de reflexos inconsequentes. Para quê tanto esforço? Hoje é até às cinco! Até às seis! Hoje eu faço horas! Prolongo o meu esforço como consequência da mecânica dos teus dedos, extremidades insaciáveis. Eu sou piano! Ouve o meu silêncio, o gentil ruído da percussão sem corda nem ressonância, o gemido da tua aflição.
Está escuro e a sala está quente. O ar condicionado também tem horário. Tento-me lembrar das palavras que escrevi. Falta-me o pensamento, o raciocínio de quem as juntou. Nunca tive jeito para papagaio.
Eu sou povo! Sou dois digítos de desempregados! Sou o que apanha e que esqueçe!
Sou teclado, povo pressionado, que escreve sem entender, sou aquele que ainda acredita, mas que diz que não acredita, por vergonha, com medo que deixem de escrever.
Assim hoje, como Cecil Taylor, improvisando só para me libertar.
P.S. Perdoe-me o Cecil Taylor que é de longe muito melhor músico que eu escrevinhador. No entanto foi ele que me inspirou.
Sou um teclado, um teclado comum, de plástico, letras pretas em fundo branco, letras que são símbolos e símbolos que não são letras, emblemas de outras literaturas.
Sou pressionado de manhã e de tarde, tenho um horário fixo. Teoricamente isso corresponderia à verdade. Quem me pressiona tem também um horário fixo. Fixo no contrato assinado em que se assentou a presença quotidiana. A presença que existe independente da pressão contratualizada.
Quando sou bem pressionado a imagem flui no ecrã. Independentemente do tamanho ou qualidade os ecrãs serão sempre o espelho da minha pressão. Não que eu tenha experiência no assunto, ainda hoje sou fiel ao meu primeiro reflexo.
Mas hoje abusaram, palavras cheias de letras massacradas, titubeantes. O contrato que se cumpre. São oito são oito! São sete são sete!
Não há tempo a perder, arrumam-se as letras em sinais eléctricos, que sem electrões nada disto se faz, por enquanto…
Tenho duas teclas gastas e a funcionar mal. Sujidade? Humidade? Ou apenas a erosão do que não é estável. Quantos óxidos escondidos? Quem sabe algum pequeno insecto que se tenha habituado à rotina. Ele entra! Eu saio!
Estou cansado. Não é só a pressão, também é quem a exerce. Não me sinto motivado para fingir letras em impulsos electrónicos, jogos de pressões e contactos, acordos, o eu hoje que amanhã serás tu.
Estou cansado, não são só os dedos que me martelam. É o martelar sem sentido. O provocar de reflexos inconsequentes. Para quê tanto esforço? Hoje é até às cinco! Até às seis! Hoje eu faço horas! Prolongo o meu esforço como consequência da mecânica dos teus dedos, extremidades insaciáveis. Eu sou piano! Ouve o meu silêncio, o gentil ruído da percussão sem corda nem ressonância, o gemido da tua aflição.
Está escuro e a sala está quente. O ar condicionado também tem horário. Tento-me lembrar das palavras que escrevi. Falta-me o pensamento, o raciocínio de quem as juntou. Nunca tive jeito para papagaio.
Eu sou povo! Sou dois digítos de desempregados! Sou o que apanha e que esqueçe!
Sou teclado, povo pressionado, que escreve sem entender, sou aquele que ainda acredita, mas que diz que não acredita, por vergonha, com medo que deixem de escrever.
Assim hoje, como Cecil Taylor, improvisando só para me libertar.
P.S. Perdoe-me o Cecil Taylor que é de longe muito melhor músico que eu escrevinhador. No entanto foi ele que me inspirou.
2010-01-13
O velho e o casal
Num banco de jardim está sentado um velho, assim mesmo, velho. Velho de velhice vivida, daquela que se agarra à pele e marca cada pequeno pedaço de carne, a pele ajusta-se e enruga. Eu vejo-o daqui mas não é aqui que eu estou. Estou mais além, à porta daquele café, de frente para aquela mulher que por sinal é a minha mulher, não que a tenha comprado, mas o contrato assim obriga. No fim de contas talvez não tenha sido o contrato, mas que importa isso agora que a vejo daqui. O velho olha para nós, paciente, à espera. A experiência diz-lhe que algo se vai passar e ele que já pensou levantar-se, sim eu bem o vi fazer o gesto que a finta desfez quando a ouviu gritar, deixa-se ficar mais um pouco. E eu daqui olho para ele e ouço-te chamar-me parvo e imagino-me a corar, a encher-me de raiva. Pela expressão do velho sei que vou responder, ele que inclina ligeiramente a cabeça, como se eu não fosse gritar suficientemente alto, Eu não sou parvo! Mas sou, sempre fui e ainda agora que daqui nos vejo o sou. Vejo-me parvo, pateticamente parvo e vejo que o velho me vê tal e qual. E eu grito que não sou, que só sou quando acredito em ti e eu acredito sempre em ti, mesmo quando não acredito, porque os teus olhos verdes me fazem sonhar, porque a tua pele que é branca e aveludada me toca sem me tocar, cola-se a mim e quando tu te vais embora eu choro porque sei que não és só minha. A minha mulher, será que o velho percebe que ela não é só minha, que todo aquele trabalho fora de horas…O velho inclina-se um pouco mais e arregala os olhos. Fui eu que levantei a mão. Porque levantei eu a mão? Não estava com atenção, olhava para ti velho de uma figa, mas adivinho uma das tuas respostas entre dentes, se não acreditas em mim tens bom remédio, mesmo depois de lhe sentir o cheiro na tua roupa, aquele cheiro de aftershave cara que eu não tenho dinheiro para pagar nem nariz para apreciar. Eu preciso trabalhar, o velho retoma uma posição de recosto, a minha mão desceu devagar, cobarde do gesto que nunca teve intenção, e eu preciso de ti, depois de eu ir trabalhar. Sinto que o velho me olha com pena, agora que olho para mim também eu sinto pena…De mim…Porque és tão grande e eu tão pequeno, tão insignificante ao pé de ti? O velho olha-me e vê-me pequeno, de ombros caídos, cansado de mim que te ama desesperadamente. O velho vê-te e partir, depois vira o olhar na minha direcção e estremece. Não sei bem o que foi, talvez um arrepio de frio, com este calor, nunca se sabe, a idade, o velho abre a boca e solta um som, talvez uma palavra, o seu olhar é um misto de incredulidade e terror. Começo a assustar-me, quero olhar para nós e não consigo, os meus olhos estão fixos no velho que grita. Ouvem-se tiros e eu que não tirei os olhos do velho vejo-o encolher-se e escorregar pelo banco do jardim. Ele escorrega lentamente e vai deixando um pequeno rasto vermelho acastanhado, sangue, provavelmente sangue, sangue de velho, gasto, escuro, baço. Agora que o velho se encontra todo no chão, escorrido e mole eu olho para ti e não te vejo, vejo-me a mim de arma na mão tentando apontar não sei a quem. Vejo-me cair e só depois percebo que também tu estás deitada. O polícia, que se aproxima, à confiança faz mais um disparo. Vejo-me imóvel e olho para o velho, também ele imóvel. Ao de leve sinto-me partir. Dos três corpos deitados só um me desperta atenção…Adeus velho!
2009-12-23
Natal
Sem necessidade de ser violento. Falar do Natal como se falasse de paz. Oferecer a ceia e desfrutar da companhia dos familiares. Olhar para as luzes e ver apenas as luzes, as luzes multiplicadas pelas ruas de lojas, todos esses apêndices luminosos que nos confortam o coração, que nos escondem da escuridão, do medo de ficarmos sós quando todos gostam de todos.
Sem necessidade de mentir como se falasse verdade. Deixar que os olhos consumam tudo aquilo que é feito para consumir. Também o sonho porque é do sonho que eu falo. O sonho que se alimenta e que existe nas crianças. Acreditas no Pai Natal? Responder como se respondesse a um teste. Ainda acreditas no Pai Natal? Responder como se estivesse num tribunal. Eu já não escrevo cartas, não sei o que pedir. Portei-me bem Pai?
Sem necessidade de ser grosseiro. Lembrar-me do pinheiro cortado comprado junto às grades da estação de caminho de ferro. O pinheiro que entrava no balde forrado de cores garridas. O balde que se enchia de pedras. Tanto que eu gostava de apanhar as pedras. São suficientes? Do tamanho certo? Obrigado Mãe!
Sem necessidade de jantar e de abrir prendas. Falar do Natal como se falasse de amor, do gosto que tenho em estar com vocês, mesmo que o vinho me faça tropeçar nas palavras e que as palavras falem da vida, da que foi, lembras-te, da que virá, esperemos, da que é e que temos de aproveitar.
Amanhã não será Natal e eu encherei o balde com laços e papéis. Para alguns será uma medida de sucesso. Tenho medo de deixar ir o Natal embrulhado em tantos laços e papéis.
A todos um bom Natal!
Sem necessidade de mentir como se falasse verdade. Deixar que os olhos consumam tudo aquilo que é feito para consumir. Também o sonho porque é do sonho que eu falo. O sonho que se alimenta e que existe nas crianças. Acreditas no Pai Natal? Responder como se respondesse a um teste. Ainda acreditas no Pai Natal? Responder como se estivesse num tribunal. Eu já não escrevo cartas, não sei o que pedir. Portei-me bem Pai?
Sem necessidade de ser grosseiro. Lembrar-me do pinheiro cortado comprado junto às grades da estação de caminho de ferro. O pinheiro que entrava no balde forrado de cores garridas. O balde que se enchia de pedras. Tanto que eu gostava de apanhar as pedras. São suficientes? Do tamanho certo? Obrigado Mãe!
Sem necessidade de jantar e de abrir prendas. Falar do Natal como se falasse de amor, do gosto que tenho em estar com vocês, mesmo que o vinho me faça tropeçar nas palavras e que as palavras falem da vida, da que foi, lembras-te, da que virá, esperemos, da que é e que temos de aproveitar.
Amanhã não será Natal e eu encherei o balde com laços e papéis. Para alguns será uma medida de sucesso. Tenho medo de deixar ir o Natal embrulhado em tantos laços e papéis.
A todos um bom Natal!
2009-12-11
Rotinas
Na porta umas verrugas imensas, a rugosidade dos anos, e eu sem tocar, sem saber se tocamos, eu e as minhas mãos, com medo de ficarmos velhos, velhos como aquela porta.
Distraio-me da porta e fixo-me nas paredes, também elas velhas, sujas, húmidas, verdes, cinzentas, negras, de bolores intemporais. O sangue escorre-me frio, para os pés, e eu penso em água quente, água muito quente, penso no leite da minha mãe, no café da manhã, na manta que tenho na sala, na cama quando tu estás e eu estou.
Agora sim a janela, a janela com vidros, vidros partidos e sujos que deixam passar o frio e tapam a visão. A janela que podia ter sido o que tudo o resto não foi, e eu ali, parado, sem saber, toco, não toco.
Volto-me e encontro o caminho que percorri. Tão complicado voltar atrás quando só a cabeça volta. Arrisco uma simulação, uma finta, uma vénia traiçoeira. Arrisco convencido que estou a arriscar, arrisco sem saber que já tinha aberto a porta.
E no entanto a piscina está lá, toda aquela água que eu devoro três vezes por semana, todo aquele esforço para me cansar, uma, duas, três…Vinte, vinte e uma, vinte e duas…Oitenta…Cem…Para! Eu paro! Não estou convencido mas paro.
O vapor, os azulejos quentes que me escaldam a pele, seis metros quadrados que me lembram a asma, a janela aberta, eu a querer respirar, a querer voar, a querer viver.
Esqueci-me da porta, hoje não vou pensar mais nela. Não vou pensar mais na porta.
Não vou pensar mais na porta nem nas paredes…
Vou esquecer a janela e o caminho que me trouxe mas que não me pode levar para trás.
Só assim faz sentido ter-me cansado.
Distraio-me da porta e fixo-me nas paredes, também elas velhas, sujas, húmidas, verdes, cinzentas, negras, de bolores intemporais. O sangue escorre-me frio, para os pés, e eu penso em água quente, água muito quente, penso no leite da minha mãe, no café da manhã, na manta que tenho na sala, na cama quando tu estás e eu estou.
Agora sim a janela, a janela com vidros, vidros partidos e sujos que deixam passar o frio e tapam a visão. A janela que podia ter sido o que tudo o resto não foi, e eu ali, parado, sem saber, toco, não toco.
Volto-me e encontro o caminho que percorri. Tão complicado voltar atrás quando só a cabeça volta. Arrisco uma simulação, uma finta, uma vénia traiçoeira. Arrisco convencido que estou a arriscar, arrisco sem saber que já tinha aberto a porta.
E no entanto a piscina está lá, toda aquela água que eu devoro três vezes por semana, todo aquele esforço para me cansar, uma, duas, três…Vinte, vinte e uma, vinte e duas…Oitenta…Cem…Para! Eu paro! Não estou convencido mas paro.
O vapor, os azulejos quentes que me escaldam a pele, seis metros quadrados que me lembram a asma, a janela aberta, eu a querer respirar, a querer voar, a querer viver.
Esqueci-me da porta, hoje não vou pensar mais nela. Não vou pensar mais na porta.
Não vou pensar mais na porta nem nas paredes…
Vou esquecer a janela e o caminho que me trouxe mas que não me pode levar para trás.
Só assim faz sentido ter-me cansado.
2008-05-20
Enganos I
Levado por falsas conversas, argumentos enganosos, cavalos de Tróia em palavras de madeira, o logro no seu interior.
Prometem-lhe que sim, que pode vir a ficar. Por enquanto o recibo, as férias sem dinheiro, o Natal sem prendas, as moedas que ganham importância, contam-se primeiro os Euros, depois os cêntimos, depois os passos para casa dos pais, os dela, os dele, as escassas reformas que sustentam a sua actividade mal paga.
Ele espera porque não vê saída, porque se esconde na traição das palavras, veículos blindados, armas mortíferas que se habituou a odiar. Espera a conta ao balcão de um café de centro comercial.
Ela também espera. O seu quarto emprego acabou e espera pelo quinto. O curso de sociologia não ajuda, “Não precisamos de gente com curso.”, atender um telefone, dar recados, tirar fotocópias, distribuir memorandos e ordens de serviço, ser bonita e gentil, arranjada o suficiente para ser agradável ao senhor Doutor. Não será difícil enquanto a beleza dos seus vinte e seis anos permitir. “Vive com alguém? É casada! E filhos? Pensa ter filhos?”, “Não, de maneira nenhuma, nunca antes dos trinta.”, sim claro que pensa, pensa nisso todos os dias. No outro dia pegou no bebé da vizinha, um belo moço com quatro meses. Cresceu-lhe uma vontade do fundo da carne, vontade de ser mãe, vontade de amamentar aquele filho que podia ser seu, “Os miúdos são uma chatice, primeiro quero viver a vida. Mais tarde logo penso nisso”, “E o seu marido, o que pensa ele?”, “Estamos em total sintonia”, sim ela quer e ele não, ainda não. E quando fala nisso o corpo a pedir, a mão que inconscientemente repousa no ventre como que a sentir.
Vai começar amanhã, falaram-lhe num contracto mas os primeiros meses são com recibo, “Sabe como funciona?”, “Sim, sei!”, o meu marido está na mesma situação há três anos, a minha melhor amiga também.
Pagou a conta e saiu. Sente-se cansado, cansado de respirar ar reciclado: Está quase na hora de voltar ao escritório, cinco minutos a pé pelo meio do trânsito. Puxa por um cigarro e antes de o acender olha instintivamente por cima do ombro, “Voçê promete-me que vai deixar de fumar?”, “Claro senhor Gonçalves, já fui ao médico e tudo.”, inspira profundamente aquele fumo nicotínico, sente uma ligeira tontura, uma sensação de agradável relaxamento. Retarda o passo, aprecia o cigarro na mão e retira-lhe a cinza com um sopro enérgico. Ainda ontem andava a estudar, cinco anos na engonha numa Universidade Particular, o curso não acabado, a imposição dos pais, “Não acabas o curso vais trabalhar que a gente não consegue aguentar, o mês passado já nos atrasamos na renda.”, faltava só um ano, o mais difícil, aquele em que a cabeça só queria noite. Foi na noite que a conheçeu. Também a ela faltava um ano. Ela acabou-o, ele foi trabalhar. Foi depois da queima das fitas que marcaram o casamento, os pais de ambos assim decidiram e eles cegos pelo amor assim aceitaram, não seria por causa de um papel que a iria perder. Um “Não” dos pais dela e ela desistiria dele, incapaz de confrontar os seus progenitores.
Passou primeiro pela casa da mãe para dar a novidade, o Ricardo saberia depois quando ela se vestisse para o receber à noite e o convidasse para jantar naquele restaurante mais caro ao fundo da rua. Sentia-se aliviada com a possibilidade de nesse mês não precisarem pedir dinheiro a ninguém. Talvez com esse alívio voltassem a fazer amor como das primeiras vezes.
P.S. Voltei! Uns dias depois...
Prometem-lhe que sim, que pode vir a ficar. Por enquanto o recibo, as férias sem dinheiro, o Natal sem prendas, as moedas que ganham importância, contam-se primeiro os Euros, depois os cêntimos, depois os passos para casa dos pais, os dela, os dele, as escassas reformas que sustentam a sua actividade mal paga.
Ele espera porque não vê saída, porque se esconde na traição das palavras, veículos blindados, armas mortíferas que se habituou a odiar. Espera a conta ao balcão de um café de centro comercial.
Ela também espera. O seu quarto emprego acabou e espera pelo quinto. O curso de sociologia não ajuda, “Não precisamos de gente com curso.”, atender um telefone, dar recados, tirar fotocópias, distribuir memorandos e ordens de serviço, ser bonita e gentil, arranjada o suficiente para ser agradável ao senhor Doutor. Não será difícil enquanto a beleza dos seus vinte e seis anos permitir. “Vive com alguém? É casada! E filhos? Pensa ter filhos?”, “Não, de maneira nenhuma, nunca antes dos trinta.”, sim claro que pensa, pensa nisso todos os dias. No outro dia pegou no bebé da vizinha, um belo moço com quatro meses. Cresceu-lhe uma vontade do fundo da carne, vontade de ser mãe, vontade de amamentar aquele filho que podia ser seu, “Os miúdos são uma chatice, primeiro quero viver a vida. Mais tarde logo penso nisso”, “E o seu marido, o que pensa ele?”, “Estamos em total sintonia”, sim ela quer e ele não, ainda não. E quando fala nisso o corpo a pedir, a mão que inconscientemente repousa no ventre como que a sentir.
Vai começar amanhã, falaram-lhe num contracto mas os primeiros meses são com recibo, “Sabe como funciona?”, “Sim, sei!”, o meu marido está na mesma situação há três anos, a minha melhor amiga também.
Pagou a conta e saiu. Sente-se cansado, cansado de respirar ar reciclado: Está quase na hora de voltar ao escritório, cinco minutos a pé pelo meio do trânsito. Puxa por um cigarro e antes de o acender olha instintivamente por cima do ombro, “Voçê promete-me que vai deixar de fumar?”, “Claro senhor Gonçalves, já fui ao médico e tudo.”, inspira profundamente aquele fumo nicotínico, sente uma ligeira tontura, uma sensação de agradável relaxamento. Retarda o passo, aprecia o cigarro na mão e retira-lhe a cinza com um sopro enérgico. Ainda ontem andava a estudar, cinco anos na engonha numa Universidade Particular, o curso não acabado, a imposição dos pais, “Não acabas o curso vais trabalhar que a gente não consegue aguentar, o mês passado já nos atrasamos na renda.”, faltava só um ano, o mais difícil, aquele em que a cabeça só queria noite. Foi na noite que a conheçeu. Também a ela faltava um ano. Ela acabou-o, ele foi trabalhar. Foi depois da queima das fitas que marcaram o casamento, os pais de ambos assim decidiram e eles cegos pelo amor assim aceitaram, não seria por causa de um papel que a iria perder. Um “Não” dos pais dela e ela desistiria dele, incapaz de confrontar os seus progenitores.
Passou primeiro pela casa da mãe para dar a novidade, o Ricardo saberia depois quando ela se vestisse para o receber à noite e o convidasse para jantar naquele restaurante mais caro ao fundo da rua. Sentia-se aliviada com a possibilidade de nesse mês não precisarem pedir dinheiro a ninguém. Talvez com esse alívio voltassem a fazer amor como das primeiras vezes.
P.S. Voltei! Uns dias depois...
2008-01-11
O Automóvel X (O FIM)
A polícia entrou de repente, “Deitados no chão, já! Mãos atrás da cabeça!”. A Xana empurra-o aos gritos e tenta chegar à porta. Ouvem-se tiros de pistola. Ele tenta protegê-la com o corpo. A cabeça que não seguiu o movimento envolve-se de tonturas, o desmaio, onde estou?
Uma enfermaria, tudo branco e o silêncio, “Onde estou?”. Uma enfermeira que se aproxima enquanto recomenda:
- Deixe-se estar deitado que eu vou já ter consigo!
- Onde estou?
-No Hospital.
- O que me aconteceu?
- Foi uma rapariga que o trouxe. Segundo ela, lançou-se do seu jeep em andamento, bateu com a cabeça no asfalto e desmaiou. Tem a cabeça partida e o corpo todo esfolado, de resto está bem. Só precisa descansar e ficar mais umas horas em observação. Que raio de ideia a sua, lançar-se de um automóvel em andamento. O susto que deve ter pregado à pobre da moça.
A enfermeira tenta ajeitá-lo na cama e impedindo-o de se levantar.
- E a Xana?
- A Xana?
- A rapariga que me trouxe.
- Chama-se Xana? Não a conheço, deve ser nova cá na zona. Sabe, mais cedo ou mais tarde todos por cá passam.
- Foi-se embora?
- O que estava à espera? Muita sorte teve voçê, se fosse outra tinha-o deixado lá estendido e fugido a sete pés.
- A minha carrinha?
- Essa não foge, não se preocupe. O reboque que voçê pediu levou-a para a oficina Central. “Central” é o nome e fica ao pé da paragem das camionetas o que lhe vai dar muito jeito. Tenho comigo um cartão que eles me deram para lhe entregar.
O Zé não conseguiu perguntar pela casa de Xana, pelo quarto de Xana, pelo corpo de Xana. Queria acreditar que tinha salvo Xana das balas assassinas da polícia, queria ser o herói daquela história onde não estava sozinho.
Está sozinho, sentado junto a uma janela, no expresso para Lisboa. Fez-se noite. Foi de táxi para a Damaia. Na mesa da cozinha, entre duas torradas e um chá, faz as contas possíveis. Só o transporte da carrinha é um balúrdio. E ainda foi um favor, teve de convencê-los a trazerem-na no dia a seguir, logo de manhãzinha. Amanhã irá à oficina do André para saber dos estragos.
A noite passou-se. Sem sonhos, visões, ilusões ou qualquer outro tipo de alucinações. Acordou vazio. Sentiu falta de uma mulher que não existia. A mulher que não só o ajudou, mas também lhe ofereceu cama, o corpo e que o fizera sentir-se vivo, era um truque, uma partida do subconsciente. Não teve vontade de tomar o pequeno almoço em casa. Apetecia-lhe o leite quente em casa da Xana, da Xana que inventou.
Hoje irá olhar para a sua carrinha e ouvir o André confessar a sua impossibilidade para efectuar a reparação:
- Teria que correr todas as sucateiras de Lisboa e arredores. Sem contar com o trabalho de bate chapas. Ficava-te uma fortuna Zé. E ficarias sempre com uma carrinha velha, nunca irias recuperar o dinheiro, nem mesmo que a vendesses.
- Eu não queria vendê-la, só queria vê-la inteira novamente. Percebes?
O Zé carregava aquela interrogação de todo o seu sofrimento, a mágoa de perder a última coisa de que realmente gostava.
- Eu percebo Zé, mas ouve o que eu te digo. Por metade do preço do arranjo da carrinha, consigo-te um Ibiza a gasóleo de dois lugares quase novo, impecável, deixas de vir cá tantas vezes.
E Sorriu, o Zé não:
- Diz-me tu um número para eu pensar no assunto.
- Vais ver que não te arrependes!
O Zé saiu da oficina com um número, um número demasiado grande para as suas economias, ainda assim possível de se conseguir com umas horas extraordinárias. Foi o último dia desse ano em que trabalhou oito horas. Todos os outros tiveram doze ou mais horas de rotina vigilante. Começou a apanhar tudo. Chegou a não despir a farda de segurança, adormecendo no sofá agarrado a uma carcaça com manteiga. No princípio o café bastava para o manter acordado. Com o acumular do cansaço precisou de outro tipo de ajudas. Não precisou ir muito longe para conseguir o que pretendia. Mesmo ali, no café da rua, local onde um conhecido vendedor de substâncias ilícitas lhe recomendou anfetaminas:
- Olha que eu não quero ficar maluco e a ver coisas. Eu só quero é aguentar o serviço acordado.
- É por isso que não te estou a vender outras merdas. Mas tens de ter juízo. Toma isto com calma, “meio” antes de ir trabalhar deve chegar.
Olha que eu não te quero ver como os outros que cá vêm, tu não és desses.
- Então sou de quais?
- Não sei, és diferente.
Realmente aquilo ajudou. Principalmente naquele último mês, o mês que faltava para ter o dinheiro suficiente.
O Zé perdeu o apetite e deixou de se cuidar. Não fosse a sua disposição para aceitar tudo tê-lo-iam despedido. Nele, a farda parecia pendurada num cabide. Foi essa imagem que ele apresentou ao André quando lhe estendeu a mão com o cheque.
O Ibiza comercial, de dois lugares, era branco. Esperou duas horas até conseguir um lugar de onde o pudesse vigiar da sua janela.
No dia seguinte pegou no carro e dirigiu-se para a ponte em direcção ao sul. Foi sem razão aparente que se jogou para fora do veículo em andamento. As pessoas que viajavam atrás dele ainda tentaram ajudá-lo. Não o salvaram mas foram a tempo de o ouvir:
- Onde estou? És tu Xana?
(Fim)
P.S. Um grande abraço para a minha irmã TiTá, para o Adriano e para o PB. A voçês as minhas desculpas pelas ausências, silêncios, pela falta de resposta. Por favor não a confundam com falta de respeito. O desejo de um bom ano para todos voçês.
Uma enfermaria, tudo branco e o silêncio, “Onde estou?”. Uma enfermeira que se aproxima enquanto recomenda:
- Deixe-se estar deitado que eu vou já ter consigo!
- Onde estou?
-No Hospital.
- O que me aconteceu?
- Foi uma rapariga que o trouxe. Segundo ela, lançou-se do seu jeep em andamento, bateu com a cabeça no asfalto e desmaiou. Tem a cabeça partida e o corpo todo esfolado, de resto está bem. Só precisa descansar e ficar mais umas horas em observação. Que raio de ideia a sua, lançar-se de um automóvel em andamento. O susto que deve ter pregado à pobre da moça.
A enfermeira tenta ajeitá-lo na cama e impedindo-o de se levantar.
- E a Xana?
- A Xana?
- A rapariga que me trouxe.
- Chama-se Xana? Não a conheço, deve ser nova cá na zona. Sabe, mais cedo ou mais tarde todos por cá passam.
- Foi-se embora?
- O que estava à espera? Muita sorte teve voçê, se fosse outra tinha-o deixado lá estendido e fugido a sete pés.
- A minha carrinha?
- Essa não foge, não se preocupe. O reboque que voçê pediu levou-a para a oficina Central. “Central” é o nome e fica ao pé da paragem das camionetas o que lhe vai dar muito jeito. Tenho comigo um cartão que eles me deram para lhe entregar.
O Zé não conseguiu perguntar pela casa de Xana, pelo quarto de Xana, pelo corpo de Xana. Queria acreditar que tinha salvo Xana das balas assassinas da polícia, queria ser o herói daquela história onde não estava sozinho.
Está sozinho, sentado junto a uma janela, no expresso para Lisboa. Fez-se noite. Foi de táxi para a Damaia. Na mesa da cozinha, entre duas torradas e um chá, faz as contas possíveis. Só o transporte da carrinha é um balúrdio. E ainda foi um favor, teve de convencê-los a trazerem-na no dia a seguir, logo de manhãzinha. Amanhã irá à oficina do André para saber dos estragos.
A noite passou-se. Sem sonhos, visões, ilusões ou qualquer outro tipo de alucinações. Acordou vazio. Sentiu falta de uma mulher que não existia. A mulher que não só o ajudou, mas também lhe ofereceu cama, o corpo e que o fizera sentir-se vivo, era um truque, uma partida do subconsciente. Não teve vontade de tomar o pequeno almoço em casa. Apetecia-lhe o leite quente em casa da Xana, da Xana que inventou.
Hoje irá olhar para a sua carrinha e ouvir o André confessar a sua impossibilidade para efectuar a reparação:
- Teria que correr todas as sucateiras de Lisboa e arredores. Sem contar com o trabalho de bate chapas. Ficava-te uma fortuna Zé. E ficarias sempre com uma carrinha velha, nunca irias recuperar o dinheiro, nem mesmo que a vendesses.
- Eu não queria vendê-la, só queria vê-la inteira novamente. Percebes?
O Zé carregava aquela interrogação de todo o seu sofrimento, a mágoa de perder a última coisa de que realmente gostava.
- Eu percebo Zé, mas ouve o que eu te digo. Por metade do preço do arranjo da carrinha, consigo-te um Ibiza a gasóleo de dois lugares quase novo, impecável, deixas de vir cá tantas vezes.
E Sorriu, o Zé não:
- Diz-me tu um número para eu pensar no assunto.
- Vais ver que não te arrependes!
O Zé saiu da oficina com um número, um número demasiado grande para as suas economias, ainda assim possível de se conseguir com umas horas extraordinárias. Foi o último dia desse ano em que trabalhou oito horas. Todos os outros tiveram doze ou mais horas de rotina vigilante. Começou a apanhar tudo. Chegou a não despir a farda de segurança, adormecendo no sofá agarrado a uma carcaça com manteiga. No princípio o café bastava para o manter acordado. Com o acumular do cansaço precisou de outro tipo de ajudas. Não precisou ir muito longe para conseguir o que pretendia. Mesmo ali, no café da rua, local onde um conhecido vendedor de substâncias ilícitas lhe recomendou anfetaminas:
- Olha que eu não quero ficar maluco e a ver coisas. Eu só quero é aguentar o serviço acordado.
- É por isso que não te estou a vender outras merdas. Mas tens de ter juízo. Toma isto com calma, “meio” antes de ir trabalhar deve chegar.
Olha que eu não te quero ver como os outros que cá vêm, tu não és desses.
- Então sou de quais?
- Não sei, és diferente.
Realmente aquilo ajudou. Principalmente naquele último mês, o mês que faltava para ter o dinheiro suficiente.
O Zé perdeu o apetite e deixou de se cuidar. Não fosse a sua disposição para aceitar tudo tê-lo-iam despedido. Nele, a farda parecia pendurada num cabide. Foi essa imagem que ele apresentou ao André quando lhe estendeu a mão com o cheque.
O Ibiza comercial, de dois lugares, era branco. Esperou duas horas até conseguir um lugar de onde o pudesse vigiar da sua janela.
No dia seguinte pegou no carro e dirigiu-se para a ponte em direcção ao sul. Foi sem razão aparente que se jogou para fora do veículo em andamento. As pessoas que viajavam atrás dele ainda tentaram ajudá-lo. Não o salvaram mas foram a tempo de o ouvir:
- Onde estou? És tu Xana?
(Fim)
P.S. Um grande abraço para a minha irmã TiTá, para o Adriano e para o PB. A voçês as minhas desculpas pelas ausências, silêncios, pela falta de resposta. Por favor não a confundam com falta de respeito. O desejo de um bom ano para todos voçês.
2007-12-14
O Automóvel IX
A carrinha atravessa a ponte 25 de Abril, sai de Lisboa e brilha, brilho de pintura metalizada que não veio de origem, brilha com o sol que pode ser de Verão, ou talvez não. O velocímetro regista o cuidado do condutor, sessenta quilómetros por hora. A distância de segurança que separa a carrinha do carro da frente é cumprida. O rádio está ligado, sem palavras supérfluas, só as canções têm direito a elas. A ponte já lá está, para trás, no sítio onde o passado guarda as coisas. Os pneus esborracham-se no asfalto procurando aderência. O ruído que eles provocam é contínuo, registo agradável que denuncia o contacto com o solo. A estrada é estreita, ladeada por árvores de tronco grosso, é noite e as luzes da Toyota procuram o caminho no meio da serra, guiam o corpo metálico pela estrada sinuosa, subida íngreme e constante. O Zé não conduz o carro. Vai no banco de trás, embrulhado numa manta. Está a dormir e agarra um cowboy mascarado de roupa azul clara. O cowboy ainda tem na mão o seu revolver, mas os seus vinte centímetros de altura não o ajudam na tarefa protectora. Para dizer a verdade é o Zé que proteje aquele homem armado de andar aos safanões dentro da carrinha. A carrinha que chega ao parque em frente à praia. A curva que rodeou as piscinas deixou-se ficar insinuando a saída. O mar está bravo, a espuma castanha revolta a areia espalhando-a com impulsos vários. O Zé sai da carrinha e corre para ao pé do pai, agarra-lhe a mão. A mãe olha para os dois e ri-se. O riso fica e dilui-se.
Xana entrou na cama devagar. Deixou que o corpo magro daquele homem se moldasse com o seu. Deixou que ele lhe chamasse mãe, acariciou-o, guiou-lhe uma das mãos para os seus seios e apertou-a. Diverte-a o facto do Zé não saber o que faz. Tão frágil, tão puro, tão diferente dos homens que conheceu, que conhece. Encaixou um dos joelhos do Zé entre as suas pernas, sorri satisfeita enquanto meneia as ancas com volúpia. Ele sonha, pede-lhe coisas que ela não percebe, não quer perceber. Perante os movimentos da mulher ele estende-se e encolhe-se em convulsões. Ela deixa-se embalar no desassossego do homem. Quase sem querer tem um primeiro orgasmo. Aperta-o um pouco mais e solta um murmúrio que não chega a gemido. O Zé continua sonhando, está bêbado e uma rapariga tenta despi-lo, ele resiste com pouca convicção. Sonha que ela lhe toca no sexo, agarra-o possessiva, movimenta-o, aumenta o ritmo. Sonha que a manda parar, grita-lhe para parar, tarde demais. O Zé acordou ainda a mão de Xana repousava, flácida, sobre o seu sexo de homem, despreocupada dos fluidos que provocara. A vergonha, o embaraço.
- O que aconteceu?
- Beija-me!
- O que é que fizeste?
- Beija-me!
O Zé obedeceu ao pedido, à ordem. Nunca se tinha sentido tão submisso. O beijo foi longo, Xana prolongou-o com carinho, depois adormeceu. Ele ficou sem sono. Estará ainda a dormir, belisca-se e solta um ligeiro gemido de dor, não era preciso exagerar. Até de madrugada não vai conseguir adormecer e só o barulho de viaturas em bruscas travagens e a porta do quarto a ser arrombada o fizeram levantar da cama.
(cont.)
Xana entrou na cama devagar. Deixou que o corpo magro daquele homem se moldasse com o seu. Deixou que ele lhe chamasse mãe, acariciou-o, guiou-lhe uma das mãos para os seus seios e apertou-a. Diverte-a o facto do Zé não saber o que faz. Tão frágil, tão puro, tão diferente dos homens que conheceu, que conhece. Encaixou um dos joelhos do Zé entre as suas pernas, sorri satisfeita enquanto meneia as ancas com volúpia. Ele sonha, pede-lhe coisas que ela não percebe, não quer perceber. Perante os movimentos da mulher ele estende-se e encolhe-se em convulsões. Ela deixa-se embalar no desassossego do homem. Quase sem querer tem um primeiro orgasmo. Aperta-o um pouco mais e solta um murmúrio que não chega a gemido. O Zé continua sonhando, está bêbado e uma rapariga tenta despi-lo, ele resiste com pouca convicção. Sonha que ela lhe toca no sexo, agarra-o possessiva, movimenta-o, aumenta o ritmo. Sonha que a manda parar, grita-lhe para parar, tarde demais. O Zé acordou ainda a mão de Xana repousava, flácida, sobre o seu sexo de homem, despreocupada dos fluidos que provocara. A vergonha, o embaraço.
- O que aconteceu?
- Beija-me!
- O que é que fizeste?
- Beija-me!
O Zé obedeceu ao pedido, à ordem. Nunca se tinha sentido tão submisso. O beijo foi longo, Xana prolongou-o com carinho, depois adormeceu. Ele ficou sem sono. Estará ainda a dormir, belisca-se e solta um ligeiro gemido de dor, não era preciso exagerar. Até de madrugada não vai conseguir adormecer e só o barulho de viaturas em bruscas travagens e a porta do quarto a ser arrombada o fizeram levantar da cama.
(cont.)
2007-11-15
O Automóvel VIII
Ainda está no jeep. Daí a pouco entrará no quarto de Xana.
- Apetece-te alguma coisa?
- Deitar-me. Tenho o corpo dorido, sinto-me cansado.
- Queres comer? Posso trazer-te uma fatia de pão com manteiga, um chá, para enganares o estômago.
- Leite quente! Se tiveres um pouco de leite quente com café eu agradeço.
- Arranja-se. Mas tens de comer, nem que seja uma bolacha.
- És obstinada. Não sei se aguento até tu voltares.
- Aguentas. Para já vou buscar um pijama para ti.
- Eu posso dormir assim.
- Mas eu não quero! O pijama vai-te ficar largo, os meus irmãos são bem maiores que tu.
O Zé bocejou.
- Aguenta um pouco que eu venho já. Liga a televisão mas baixa-lhe o som.
- Para não os acordar?
- A quem?
- Aos teus irmãos.
- Agora sim estás a ser parvo.
- Não te esqueceste.
- É raro fazê-lo.
- Mas eu estou a falar a sério. Eles não vão ficar chateados por tu trazeres um estranho para casa, ainda por cima para dormir no quarto da irmã?
- O que eu acho é que estás com medo deles, ou então de mim.
- És capaz de ter razão. Não estou habituado a dormir na casa de outras pessoas.
- Não precisas preocupar-te, nós somos muito independentes. Vivemos juntos e sabemos defender-nos como família mas no que diz respeito às nossas relações pessoais não interferimos. Nem sei se eles estão em casa.
- E os vossos pais?
- Morreram, mas eu não quero falar nisso. Vou buscar-te o pijama.
Xana cortou assim a conversa, de forma rápida, abrupta. Saiu de cabeça baixa, com gestos desenvoltos mas de cabeça baixa. A morte dos pais ainda lhe pesava no coração. O Zé ficou sentado no sofá. Olhou para a televisão mas não teve coragem para a ligar. Tinha ficado com o comando na mão desde que pegara nele para se poder sentar, sem saber porquê não o largara desde então. Olhou depois para a cama, cama pequena para uma só pessoa e começou a preocupar-se, onde iria ele dormir, onde iria ela dormir. Sentiu um grande incómodo pelo desconhecido que a situação provocava. Ele que não gostava de ser pressionado a reagir. E a carrinha? A sua carrinha. Queria vê-la, amanhã de manhã seria a primeira coisa a fazer. Xana voltou a entrar no quarto com um pijama na mão, umas calças, uma camisola.
- Está amarrotado porque tive de o ir buscar ao cesto da roupa por passar a ferro. Mas tu não te deves importar com essas coisas. Veste-o enquanto eu vou aquecer o leite para ti.
Não o deixou responder, deu a ordem e voltou a sair. Que mulher, pensou o Zé. Sentia-se intimidado, frágil. Obedeceu, acima de tudo para não ter que justificar a recusa ou inacção perante a ordem da Xana. O pijama era realmente grande, duas peças, calças e camisola de um azul desbotado, comido de lixívias e detergentes. O tecido, de meia estação, não era desagradável mas não o conseguiu identificar. Deixou-se estar sentado boiando na roupa de um mano que não era o seu. Esteve assim um bom bocado até começar a ouvir vozes, de homem, primeiro, da Xana, depois. A voz do homem destilava bebida alcoólica, a da Xana, reprovação. Pareceu-lhe que discutiam. Ao fim de um bom bocado as vozes calaram-se. Sentiu medo que entrassem pela porta do quarto e o vissem naquele estado, farrapo humano, ressacado de medicamentos, tristezas e outros azares, vestido para dormir com roupa que não é sua, sem justificação credível para a sua presença a não ser a vontade de Xana. A vontade de Xana. Qual seria a vontade de Xana. Nesse momento abriu-se a porta e o seu coração quase parou.
- Desculpa a demora. O teu leite já deve estar frio, vais ter de o beber assim.
Esboçou um sorriso que não lhe disfarçou a preocupação estampada na fonte enrugada. Tinha um sorriso bonito.
- Não faz mal. Está tudo bem.
- O meu irmão mais velho está a cair de bêbado. Veio a casa buscar dinheiro e quer sair outra vez, vou ter de ir falar com ele.
- Espero que ele te ouça.
- Eu também.
Após esta sentença Xana apressou-se a sair do quarto mas antes lançou-lhe:
- Podes deitar-te na minha cama que eu logo me desenrasco.
O Zé não lhe respondeu. A cabeça doía-lhe. Bebeu o leite lentamente, não tinha café, não estava frio, não tinha bolachas. Rendeu-se à cama, devagar, por cima dos cobertores. Acariciou os lençóis e sentiu o odor de mulher. Num impulso lento, se tal existe, enrolou-se neles e assim adormeceu.
(Cont.)
- Apetece-te alguma coisa?
- Deitar-me. Tenho o corpo dorido, sinto-me cansado.
- Queres comer? Posso trazer-te uma fatia de pão com manteiga, um chá, para enganares o estômago.
- Leite quente! Se tiveres um pouco de leite quente com café eu agradeço.
- Arranja-se. Mas tens de comer, nem que seja uma bolacha.
- És obstinada. Não sei se aguento até tu voltares.
- Aguentas. Para já vou buscar um pijama para ti.
- Eu posso dormir assim.
- Mas eu não quero! O pijama vai-te ficar largo, os meus irmãos são bem maiores que tu.
O Zé bocejou.
- Aguenta um pouco que eu venho já. Liga a televisão mas baixa-lhe o som.
- Para não os acordar?
- A quem?
- Aos teus irmãos.
- Agora sim estás a ser parvo.
- Não te esqueceste.
- É raro fazê-lo.
- Mas eu estou a falar a sério. Eles não vão ficar chateados por tu trazeres um estranho para casa, ainda por cima para dormir no quarto da irmã?
- O que eu acho é que estás com medo deles, ou então de mim.
- És capaz de ter razão. Não estou habituado a dormir na casa de outras pessoas.
- Não precisas preocupar-te, nós somos muito independentes. Vivemos juntos e sabemos defender-nos como família mas no que diz respeito às nossas relações pessoais não interferimos. Nem sei se eles estão em casa.
- E os vossos pais?
- Morreram, mas eu não quero falar nisso. Vou buscar-te o pijama.
Xana cortou assim a conversa, de forma rápida, abrupta. Saiu de cabeça baixa, com gestos desenvoltos mas de cabeça baixa. A morte dos pais ainda lhe pesava no coração. O Zé ficou sentado no sofá. Olhou para a televisão mas não teve coragem para a ligar. Tinha ficado com o comando na mão desde que pegara nele para se poder sentar, sem saber porquê não o largara desde então. Olhou depois para a cama, cama pequena para uma só pessoa e começou a preocupar-se, onde iria ele dormir, onde iria ela dormir. Sentiu um grande incómodo pelo desconhecido que a situação provocava. Ele que não gostava de ser pressionado a reagir. E a carrinha? A sua carrinha. Queria vê-la, amanhã de manhã seria a primeira coisa a fazer. Xana voltou a entrar no quarto com um pijama na mão, umas calças, uma camisola.
- Está amarrotado porque tive de o ir buscar ao cesto da roupa por passar a ferro. Mas tu não te deves importar com essas coisas. Veste-o enquanto eu vou aquecer o leite para ti.
Não o deixou responder, deu a ordem e voltou a sair. Que mulher, pensou o Zé. Sentia-se intimidado, frágil. Obedeceu, acima de tudo para não ter que justificar a recusa ou inacção perante a ordem da Xana. O pijama era realmente grande, duas peças, calças e camisola de um azul desbotado, comido de lixívias e detergentes. O tecido, de meia estação, não era desagradável mas não o conseguiu identificar. Deixou-se estar sentado boiando na roupa de um mano que não era o seu. Esteve assim um bom bocado até começar a ouvir vozes, de homem, primeiro, da Xana, depois. A voz do homem destilava bebida alcoólica, a da Xana, reprovação. Pareceu-lhe que discutiam. Ao fim de um bom bocado as vozes calaram-se. Sentiu medo que entrassem pela porta do quarto e o vissem naquele estado, farrapo humano, ressacado de medicamentos, tristezas e outros azares, vestido para dormir com roupa que não é sua, sem justificação credível para a sua presença a não ser a vontade de Xana. A vontade de Xana. Qual seria a vontade de Xana. Nesse momento abriu-se a porta e o seu coração quase parou.
- Desculpa a demora. O teu leite já deve estar frio, vais ter de o beber assim.
Esboçou um sorriso que não lhe disfarçou a preocupação estampada na fonte enrugada. Tinha um sorriso bonito.
- Não faz mal. Está tudo bem.
- O meu irmão mais velho está a cair de bêbado. Veio a casa buscar dinheiro e quer sair outra vez, vou ter de ir falar com ele.
- Espero que ele te ouça.
- Eu também.
Após esta sentença Xana apressou-se a sair do quarto mas antes lançou-lhe:
- Podes deitar-te na minha cama que eu logo me desenrasco.
O Zé não lhe respondeu. A cabeça doía-lhe. Bebeu o leite lentamente, não tinha café, não estava frio, não tinha bolachas. Rendeu-se à cama, devagar, por cima dos cobertores. Acariciou os lençóis e sentiu o odor de mulher. Num impulso lento, se tal existe, enrolou-se neles e assim adormeceu.
(Cont.)
2007-10-25
O Automóvel VII
Não dormiu no Hospital. O médico de turno conhecia Xana. Recomendou-lhe atenção. Muito embora os exames comprovassem normalidade, os inchaços na cabeça do Zé eram motivo para preocupação.
-Se ele se sentir mal, vomitar ou tiver dores de cabeça promete que me telefonas.
-Prometo!
-Eu não estou a brincar Xana.
-Eu também não senhor doutor, Jorge.
-Continuas sem juízo nenhum.
-E tu continuas com ele todo.
-Terá sido por isso que me recusaste?
-Não! É por isso que eu gosto de ti.
-Sempre com resposta pronta.
-Sabes como eu sou, não gosto de guardar nada para depois.
-Eu sei.
Jorge sentou-se por detrás da secretária. Xana fixou nele o olhar. Sentindo-se incomodado apressou a receita. Ela sempre o intimidara, desta vez também não foi diferente. Estendeu-lhe o papel quase sem levantar a cabeça. Só depois de sentir o ligeiro puxão e ouvir um sorriso demasiado feminino, o sorriso de Xana, teve coragem para a enfrentar novamente.
- Sabes qual é a farmácia que está de serviço?
- Não deve ser difícil encontrá-la. Das três há-de ser uma.
- Tem cuidado. Tu nem conheces o fulano.
- Nem preciso. O destino cruzou-nos, ele precisa de ajuda e eu vou ajudá-lo. Depois de amanhã desaparece daqui dizendo que o trataram bem e eu fico muito satisfeita.
- Estás a ser irónica.
- E tu estás a ser ciumento!
O tom de voz da Xana foi demasiado para o Jorge. A xana já não ouviu o pedido de desculpas que Jorge lançou no vazio do gabinete. Longas seriam as horas até sair de serviço. Vai-te lixar Xana!
Xana já levou o Zé para o exterior, para o pequeno parque de estacionamento mesmo junto às urgências. O Zé sente-se tonto e vai amparado na mulher, lembra-se da mãe, também ela tem os seios grandes, talvez por isso se sinta tranquilo. Xana ajudou-o a subir para o Jeep.
- Estás bem?
- Estou. É longe a tua casa?
- Não! Daqui a um quarto de hora estamos lá.
- Posso fechar os olhos?
- Preferia que fosses com eles abertos, pelo menos até chegarmos.
- Percebo, não queres chegar com um morto a casa?
O tom de graça fê-los rir.
- Olha , olha, também sabes rir.
O Zé já tinha fechado os olhos. Tinha a respiração pesada. Os tranquilizantes ainda estavam a fazer efeito. Xana olhou para ele e decidiu ir directo para casa, mais propriamente um monte, uma série de casas baixas distando alguns quilómetros da estrada principal.
Foi o ladrar dos cães que acordou o Zé.
- Onde estou?
(cont.)
-Se ele se sentir mal, vomitar ou tiver dores de cabeça promete que me telefonas.
-Prometo!
-Eu não estou a brincar Xana.
-Eu também não senhor doutor, Jorge.
-Continuas sem juízo nenhum.
-E tu continuas com ele todo.
-Terá sido por isso que me recusaste?
-Não! É por isso que eu gosto de ti.
-Sempre com resposta pronta.
-Sabes como eu sou, não gosto de guardar nada para depois.
-Eu sei.
Jorge sentou-se por detrás da secretária. Xana fixou nele o olhar. Sentindo-se incomodado apressou a receita. Ela sempre o intimidara, desta vez também não foi diferente. Estendeu-lhe o papel quase sem levantar a cabeça. Só depois de sentir o ligeiro puxão e ouvir um sorriso demasiado feminino, o sorriso de Xana, teve coragem para a enfrentar novamente.
- Sabes qual é a farmácia que está de serviço?
- Não deve ser difícil encontrá-la. Das três há-de ser uma.
- Tem cuidado. Tu nem conheces o fulano.
- Nem preciso. O destino cruzou-nos, ele precisa de ajuda e eu vou ajudá-lo. Depois de amanhã desaparece daqui dizendo que o trataram bem e eu fico muito satisfeita.
- Estás a ser irónica.
- E tu estás a ser ciumento!
O tom de voz da Xana foi demasiado para o Jorge. A xana já não ouviu o pedido de desculpas que Jorge lançou no vazio do gabinete. Longas seriam as horas até sair de serviço. Vai-te lixar Xana!
Xana já levou o Zé para o exterior, para o pequeno parque de estacionamento mesmo junto às urgências. O Zé sente-se tonto e vai amparado na mulher, lembra-se da mãe, também ela tem os seios grandes, talvez por isso se sinta tranquilo. Xana ajudou-o a subir para o Jeep.
- Estás bem?
- Estou. É longe a tua casa?
- Não! Daqui a um quarto de hora estamos lá.
- Posso fechar os olhos?
- Preferia que fosses com eles abertos, pelo menos até chegarmos.
- Percebo, não queres chegar com um morto a casa?
O tom de graça fê-los rir.
- Olha , olha, também sabes rir.
O Zé já tinha fechado os olhos. Tinha a respiração pesada. Os tranquilizantes ainda estavam a fazer efeito. Xana olhou para ele e decidiu ir directo para casa, mais propriamente um monte, uma série de casas baixas distando alguns quilómetros da estrada principal.
Foi o ladrar dos cães que acordou o Zé.
- Onde estou?
(cont.)
Quinze anos depois - Outubro
Decidi arrumar a garagem, que no meu caso não serve para arrumar nenhum carro. Entre bicicletas, bolas de basquet, máquina de lavar roupa, arca frigorífica, uma mesa de actividades e muito mais coisas, encontra-se um móvel onde vou colocando o que não me cabe na sala. Dentro dele encontrei rastos na minha vida, passo a explicar. Sempre gostei de coleccionar revistas. Quando mais novo comprei a revista semanal “Tintin” onde o Vasco Granja me ensinou a gostar de Corto Maltese, do Tenente Blueberry, de Bruno Brazil e a sua brigada Caimão entre muitos outros. Já mais velhinho, em 82, acabado de fazer a prova oral em francês do 11ºano, comecei a comprar a revista Rock & Folck, francesa, hábito que só larguei nos anos noventa. Em noventa e dois rendi-me à irreverência do estilo do Miguel Sousa Tavares que imprimiu, aliada a um excelente cuidado gráfico, à Grande Reportagem uma imagem de marca que quase aguentou a sua saída. Tenho a década de noventa em Grandes Reportagens guardadas na garagem. Porque estamos em Outubro aqui vão algumas das actualidades de 92, já lá vão quinze anos.
No Editorial, Miguel Sousa Tavares afirmava num texto intitulado “Regresso à barbárie”.
“que Europa é esta, que Nova Ordem Internacional é esta, que assiste inerte à selvajaria que todas as noites nos é servida em casa pelas imagens da televisão? Enquanto a Europa discute se há-de ou não viver com o tratado de Maastricht, para depois ter uma política externa e uma política de defesa comum que lhe permitirão (dentro de três ou quatro anos) intervir em situações como a da Bósnia,”
Na secção “As coisas que eles dizem” aparece uma citação de D. José Policarpo, à altura bispo auxiliar de Lisboa e Reitor da Universidade Católica, retirada do semanário Expresso (edição de 12 de Setembro de 92). Assim, sem “papas na língua”, como diz o povo, desculpem-me falar dele, ele que anda tão mal tratado.
“O caso de Timor Leste é muito complicado. Em Portugal, a posição dos media em relação a Timor Leste só apanha um dos lados do problema. Nós temos informações muito mais completas, que nos levam a uma tomada de posição mais silenciosa, até para ser eficaz. Todos nós sabemos que estes problemas complicados não se resolvem na praça pública mas na confidencialidade das chancelarias e canais diplomáticos.”
Deu-lhe a Grande Reportagem o Prémio “Deus lhe perdoe tanto silêncio” visto tratar-se de uma secção onde se premiavam citações.
Nas actualidades um pequeno artigo falava de cientistas russos a viver e trabalhar no Pólo Sul. Dizia esse artigo que os tais cientistas continuavam de “castigo”. Punha-se em questão a sua sobrevivência no Inverno que ai vinha. Sentindo-se abandonados pediram socorro pela rádio a outros cientistas de uma base Americana em Amundsen-Scott (Trágica a morte de Scott). Declarações feitas pelo chefe da base russa de Vostok referiam “O governo deixou-nos cair.”. Em resposta as autoridades de Moscovo justificavam-se com outras prioridades. Em todas as estações antárcticas ponderava-se o recurso à greve inviabilizando o envio dos boletins meteorológicos para S. Petersburgo e para Moscovo. Sentenciava o artigo, “A situação de abandono destes técnicos russos é uma das consequências das mudanças ocorridas na ex-União soviética. Recebem apenas 10 por cento dos salários a que têm direito e os responsáveis pelas estações polares, ou seja o Comité de Estado para a Hidrometeorologia, caiu em desgraça.”.
Na “fotossíntese” encontrávamos uma fotografia do Eng.º Guterres (Foto de Pedro Silva, publicada no Diário de Notícias de 16-9-92). O Homem estava mais novo, queimado pelo sol das férias acabadas de gozar, dizia-se, na Praia dos Tomates.
Em pleno Cavaquismo criticava-se a apatia do PS em férias no Algarve e do PC na festa da Atalaia. Em tom de desabafo constatava-se, “A oposição em Portugal já só se ouve graças ao CDS”.
Ainda e só CDS com Paulo Portas no semanário Independente (acho que o MEC também para lá andava), isto digo eu.
No próximo mês vou trazer outras recordações.
Um grande bem haja para todos os que colaboraram na Grande reportagem. A eles lhes peço que vejam este post como um tributo e não como um plágio.
No Editorial, Miguel Sousa Tavares afirmava num texto intitulado “Regresso à barbárie”.
“que Europa é esta, que Nova Ordem Internacional é esta, que assiste inerte à selvajaria que todas as noites nos é servida em casa pelas imagens da televisão? Enquanto a Europa discute se há-de ou não viver com o tratado de Maastricht, para depois ter uma política externa e uma política de defesa comum que lhe permitirão (dentro de três ou quatro anos) intervir em situações como a da Bósnia,”
Na secção “As coisas que eles dizem” aparece uma citação de D. José Policarpo, à altura bispo auxiliar de Lisboa e Reitor da Universidade Católica, retirada do semanário Expresso (edição de 12 de Setembro de 92). Assim, sem “papas na língua”, como diz o povo, desculpem-me falar dele, ele que anda tão mal tratado.
“O caso de Timor Leste é muito complicado. Em Portugal, a posição dos media em relação a Timor Leste só apanha um dos lados do problema. Nós temos informações muito mais completas, que nos levam a uma tomada de posição mais silenciosa, até para ser eficaz. Todos nós sabemos que estes problemas complicados não se resolvem na praça pública mas na confidencialidade das chancelarias e canais diplomáticos.”
Deu-lhe a Grande Reportagem o Prémio “Deus lhe perdoe tanto silêncio” visto tratar-se de uma secção onde se premiavam citações.
Nas actualidades um pequeno artigo falava de cientistas russos a viver e trabalhar no Pólo Sul. Dizia esse artigo que os tais cientistas continuavam de “castigo”. Punha-se em questão a sua sobrevivência no Inverno que ai vinha. Sentindo-se abandonados pediram socorro pela rádio a outros cientistas de uma base Americana em Amundsen-Scott (Trágica a morte de Scott). Declarações feitas pelo chefe da base russa de Vostok referiam “O governo deixou-nos cair.”. Em resposta as autoridades de Moscovo justificavam-se com outras prioridades. Em todas as estações antárcticas ponderava-se o recurso à greve inviabilizando o envio dos boletins meteorológicos para S. Petersburgo e para Moscovo. Sentenciava o artigo, “A situação de abandono destes técnicos russos é uma das consequências das mudanças ocorridas na ex-União soviética. Recebem apenas 10 por cento dos salários a que têm direito e os responsáveis pelas estações polares, ou seja o Comité de Estado para a Hidrometeorologia, caiu em desgraça.”.
Na “fotossíntese” encontrávamos uma fotografia do Eng.º Guterres (Foto de Pedro Silva, publicada no Diário de Notícias de 16-9-92). O Homem estava mais novo, queimado pelo sol das férias acabadas de gozar, dizia-se, na Praia dos Tomates.
Em pleno Cavaquismo criticava-se a apatia do PS em férias no Algarve e do PC na festa da Atalaia. Em tom de desabafo constatava-se, “A oposição em Portugal já só se ouve graças ao CDS”.
Ainda e só CDS com Paulo Portas no semanário Independente (acho que o MEC também para lá andava), isto digo eu.
No próximo mês vou trazer outras recordações.
Um grande bem haja para todos os que colaboraram na Grande reportagem. A eles lhes peço que vejam este post como um tributo e não como um plágio.
2007-10-12
O Automóvel VI
Continuava com os pulsos presos.
Onde estou?
Estás no hospital e tens sorte em não ter partido nada. Foste de cabeça ao chão duas vezes e continuas vivo. És um tipo com sorte.
Devo dizer obrigado?
Se quiseres?
Estou a ser parvo.
Ainda é cedo para dizer o que tu estás a ser.
Tens razão.
Eu sei.
Podes ajudar-me?
Eu estou a ajudar-te!
A Xana chegou-se ao Zé e tirava-lhe os cintos. O Zé olhava-a com o ar culpado de quem cometeu um acto injusto. O semblante culpado do homem contrastava com a compreensão da mulher.
Estás melhor?
Estou! Que horas são?
É quase meia-noite.
Meia-noite?!
Da primeira vez que acordaste foste muito agressivo, foram precisos sedativos.
Da primeira vez?
Depois de saltares do meu jeep desmaiaste. Consegui reanimar-te e chamei os bombeiros. Quando eles chegaram só chamavas pela carrinha e não deixavas que te levassem para o hospital. Os gajos passaram-se e deram-te uma injecção. Fiquei contigo até agora.
Obrigado!
As palavras saíram-lhe sinceras, descargo de consciência, mas logo se lembrou da Toyota.
E a minha carrinha?
Gostas mesmo muito dela?
Sim!
Parece que não puxaste o travão de mão como deve ser. Encontraram-na voltada ao contrário no fundo de um pequeno barranco.
A cara do Zé transformou-se, sentiu-se desfalecer novamente. Sentiu nojo, tonturas. A minha carrinha, a minha única amiga, sangue do meu sangue.
Como é que ela está?
Está um pouco amassada.
Um pouco?!
Não penses nisso agora. Tens onde ficar?
Como não pensar? Agora sim é que tinha arranjado um belo problema. Não teria decerto dinheiro para o arranjo, ainda por cima com a dificuldade em arranjar peças, muito trabalho de bate chapas, horas de labor naquele lugar escuro a que chamam oficina e que é o único que ele conhece, o único em que ele tem confiança para deixar a sua carrinha, mas primeiro ainda tem de a tirar daqui.
Onde é que ela está?
Não desistes?
Ficou lá?
Xana mostrou propositadamente um ar desiludido e enfadado.
Não. Os moços do reboque são meus amigos e conseguiram tirar de lá a tua querida carrinha que descansa agora no parque de uma oficina para tu amanhã, de cabeça fresca e com calma, decidires o que queres fazer.
O Zé reparava agora na maneira pouco formal como aquela rapariga falava com ele. Parecera-lhe mais velha da primeira vez que a viu, talvez a maneira pouco cuidada como se veste, a ausência de maquilhagem, as maneiras masculinas e de movimentos bruscos, a tenham envelhecido. Agora, com mais atenção apercebe-se da sua juventude, pele morena e lisa, marca de duas ou três borbulhas que ficaram da adolescência na cara bonita embora um pouco arredondada. Xana era uma rapariga alta e forte onde não havia lugar a gorduras supérfluas, os seus vinte e dois anos assim como o trabalho que fazia de permeio com várias actividades radicais não o permitia. Zé reparou que ela esperava uma reacção sua. Era também notório que estava aborrecida.
Conheces algum sítio onde eu possa dormir?
Xana abriu a boca num grande sorriso e largou um risinho demasiado feminino para o seu aspecto.
Agora é que estás a falar bem. Se quiseres podes ficar em minha casa.
E tu não tens medo? Mal me conheces.
No estado em que tu estás não fazes mal a uma mosca, além disso eu vivo com dois irmãos bem maiores que tu. Eu própria sou maior que tu. Tens cara de escritor, ou poeta, muito pálido, magrinho, com ar esgazeado e sonhador.
Não teve coragem para lhe dizer que era segurança. A descrição que ela fizera dele não lhe deixara qualquer vontade de se revelar, por outro lado até lhe agradava saber que não parecia um gorila, que não assustava ninguém. Que melhor oferta poderia ter a estas horas da noite. Admirava-se com a persistência da rapariga. Não é todos os dias que se encontra alguém que nos ajuda de uma maneira desinteressada. Ele que se julga um Michael K português. Solidão, desapego material, fraca figura, que pode alguém esperar dele. Está demasiado cansado para pensar, sente fome.
Preciso comer alguma coisa.
Comes quando chegarmos a casa. Espera um pouco enquanto trato da papelada. É verdade, tirei-te a carteira e as chaves da carrinha.
O Zé levantou-se e deixou-se estar encostado à cama. À sua volta encontravam-se mais duas camas com rodas, ambas ocupadas por idosos. Numa cadeira com rodas estava uma mulher de meia-idade ligada pelo braço a uma embalagem de soro. A enfermaria parecia calma aquela hora, Agora que estava em pé apercebia-se das escoriações, todas superficiais, não tinha partido nada, quase que lhe apeteceu ficar ali durante a noite.
(cont.)
P.S. Bom fim-de-semana!
Onde estou?
Estás no hospital e tens sorte em não ter partido nada. Foste de cabeça ao chão duas vezes e continuas vivo. És um tipo com sorte.
Devo dizer obrigado?
Se quiseres?
Estou a ser parvo.
Ainda é cedo para dizer o que tu estás a ser.
Tens razão.
Eu sei.
Podes ajudar-me?
Eu estou a ajudar-te!
A Xana chegou-se ao Zé e tirava-lhe os cintos. O Zé olhava-a com o ar culpado de quem cometeu um acto injusto. O semblante culpado do homem contrastava com a compreensão da mulher.
Estás melhor?
Estou! Que horas são?
É quase meia-noite.
Meia-noite?!
Da primeira vez que acordaste foste muito agressivo, foram precisos sedativos.
Da primeira vez?
Depois de saltares do meu jeep desmaiaste. Consegui reanimar-te e chamei os bombeiros. Quando eles chegaram só chamavas pela carrinha e não deixavas que te levassem para o hospital. Os gajos passaram-se e deram-te uma injecção. Fiquei contigo até agora.
Obrigado!
As palavras saíram-lhe sinceras, descargo de consciência, mas logo se lembrou da Toyota.
E a minha carrinha?
Gostas mesmo muito dela?
Sim!
Parece que não puxaste o travão de mão como deve ser. Encontraram-na voltada ao contrário no fundo de um pequeno barranco.
A cara do Zé transformou-se, sentiu-se desfalecer novamente. Sentiu nojo, tonturas. A minha carrinha, a minha única amiga, sangue do meu sangue.
Como é que ela está?
Está um pouco amassada.
Um pouco?!
Não penses nisso agora. Tens onde ficar?
Como não pensar? Agora sim é que tinha arranjado um belo problema. Não teria decerto dinheiro para o arranjo, ainda por cima com a dificuldade em arranjar peças, muito trabalho de bate chapas, horas de labor naquele lugar escuro a que chamam oficina e que é o único que ele conhece, o único em que ele tem confiança para deixar a sua carrinha, mas primeiro ainda tem de a tirar daqui.
Onde é que ela está?
Não desistes?
Ficou lá?
Xana mostrou propositadamente um ar desiludido e enfadado.
Não. Os moços do reboque são meus amigos e conseguiram tirar de lá a tua querida carrinha que descansa agora no parque de uma oficina para tu amanhã, de cabeça fresca e com calma, decidires o que queres fazer.
O Zé reparava agora na maneira pouco formal como aquela rapariga falava com ele. Parecera-lhe mais velha da primeira vez que a viu, talvez a maneira pouco cuidada como se veste, a ausência de maquilhagem, as maneiras masculinas e de movimentos bruscos, a tenham envelhecido. Agora, com mais atenção apercebe-se da sua juventude, pele morena e lisa, marca de duas ou três borbulhas que ficaram da adolescência na cara bonita embora um pouco arredondada. Xana era uma rapariga alta e forte onde não havia lugar a gorduras supérfluas, os seus vinte e dois anos assim como o trabalho que fazia de permeio com várias actividades radicais não o permitia. Zé reparou que ela esperava uma reacção sua. Era também notório que estava aborrecida.
Conheces algum sítio onde eu possa dormir?
Xana abriu a boca num grande sorriso e largou um risinho demasiado feminino para o seu aspecto.
Agora é que estás a falar bem. Se quiseres podes ficar em minha casa.
E tu não tens medo? Mal me conheces.
No estado em que tu estás não fazes mal a uma mosca, além disso eu vivo com dois irmãos bem maiores que tu. Eu própria sou maior que tu. Tens cara de escritor, ou poeta, muito pálido, magrinho, com ar esgazeado e sonhador.
Não teve coragem para lhe dizer que era segurança. A descrição que ela fizera dele não lhe deixara qualquer vontade de se revelar, por outro lado até lhe agradava saber que não parecia um gorila, que não assustava ninguém. Que melhor oferta poderia ter a estas horas da noite. Admirava-se com a persistência da rapariga. Não é todos os dias que se encontra alguém que nos ajuda de uma maneira desinteressada. Ele que se julga um Michael K português. Solidão, desapego material, fraca figura, que pode alguém esperar dele. Está demasiado cansado para pensar, sente fome.
Preciso comer alguma coisa.
Comes quando chegarmos a casa. Espera um pouco enquanto trato da papelada. É verdade, tirei-te a carteira e as chaves da carrinha.
O Zé levantou-se e deixou-se estar encostado à cama. À sua volta encontravam-se mais duas camas com rodas, ambas ocupadas por idosos. Numa cadeira com rodas estava uma mulher de meia-idade ligada pelo braço a uma embalagem de soro. A enfermaria parecia calma aquela hora, Agora que estava em pé apercebia-se das escoriações, todas superficiais, não tinha partido nada, quase que lhe apeteceu ficar ali durante a noite.
(cont.)
P.S. Bom fim-de-semana!
2007-10-09
O Automóvel V
Cheirava a medicamentos, a desinfectantes vários. Mexeu primeiro os dedos das mãos e dos pés. Apercebendo-se deitado abriu os olhos. O tecto branco cegou-o e fechou-os novamente. Imaginou-se numa enfermaria e teve receio de mover o corpo. O medo de que alguma coisa estivesse mal, a ânsia de saber o quê. Lentamente o medo recua, a ânsia avança destrutiva e num gesto reflexo tenta levantar-se. Sente uma dor aguda que lhe começa nas costas e acaba na perna esquerda. O braço esquerdo também lhe dói e cedeu ao esforço fazendo-o desequilibrar-se. Vencido deixa-se cair. O impacto desamparado da cabeça no chão deixa-o novamente sem sentidos.
Agora o cheiro a medicamentos recorda-o da queda, tem os pulsos presos.
Alguém que se aproxima, ele pressente o movimento, os pés que calçam sapatos sem salto, sola de borracha no guincho com o pavimento polido. O movimento é leve, dir-se-ia gracioso. Neste momento algo respira por cima dele, uma voz desabafa, Ia jurar que o vi mexer. Manteve-se imóvel, deixou que a respiração se afastasse. Não se afastou muito, o barulho de uma cadeira ali perto assim o indicou, novamente a voz, Se ele não acordar vou-me embora. A voz, a voz que o conduzia num Jeep, a voz que lhe gritou, Não faça isso!
Está acordado mas mantém os olhos fechados. Irá decidir abri-los, revelar através deles que recuperou a consciência.
Abriu a porta e saiu, o pânico assim determinou, a carrinha que não estava onde devia estar, a sua imagem num relance, mais abaixo, virada ao contrário num declive abrupto. Abriu a porta e saiu, a voz, Não faça isso!
Ele lá fora, a queda, o vazio, o momento do impacto, a dor e de seguida novamente o vazio, desta vez escuro, intemporal.
É este o momento, decidido está a enfrentar a realidade, o que aconteceu à sua carrinha, onde está a sua carrinha?
Novo movimento reflexo, desta vez com a força que a convicção grava nas nossas decisões, sentado de uma só vez, apoiado nos braços como se estes fossem suporte de um baloiço.
Xana arregalou os olhos, o movimento demasiado rápido surpreendeu-a, já não era a primeira vez.
Olha quem acordou! Já estava para me ir embora.
O Zé ouviu a voz ao longe e quis responder, enrolou a língua nos dentes e grunhiu algo parecido com, Onde está o meu automóvel?
O seu automóvel? Não me faça rir.
Até ele sentiu vontade de rir, por momentos sentiu vontade de rir e sentiu-se ridículo, Onde está a minha carrinha?
Não seria melhor saber onde estás?
Xana está irritada, o Zé está desorientado, melhor o silêncio que vai ficar entre os dois nos minutos que se seguiram.
(Cont.)
P.S. Obrigado a todos os que me comentam por me fazerem continuar. A todos vós um abraço.
Até que tudo o que é a vida nos separe.
Agora o cheiro a medicamentos recorda-o da queda, tem os pulsos presos.
Alguém que se aproxima, ele pressente o movimento, os pés que calçam sapatos sem salto, sola de borracha no guincho com o pavimento polido. O movimento é leve, dir-se-ia gracioso. Neste momento algo respira por cima dele, uma voz desabafa, Ia jurar que o vi mexer. Manteve-se imóvel, deixou que a respiração se afastasse. Não se afastou muito, o barulho de uma cadeira ali perto assim o indicou, novamente a voz, Se ele não acordar vou-me embora. A voz, a voz que o conduzia num Jeep, a voz que lhe gritou, Não faça isso!
Está acordado mas mantém os olhos fechados. Irá decidir abri-los, revelar através deles que recuperou a consciência.
Abriu a porta e saiu, o pânico assim determinou, a carrinha que não estava onde devia estar, a sua imagem num relance, mais abaixo, virada ao contrário num declive abrupto. Abriu a porta e saiu, a voz, Não faça isso!
Ele lá fora, a queda, o vazio, o momento do impacto, a dor e de seguida novamente o vazio, desta vez escuro, intemporal.
É este o momento, decidido está a enfrentar a realidade, o que aconteceu à sua carrinha, onde está a sua carrinha?
Novo movimento reflexo, desta vez com a força que a convicção grava nas nossas decisões, sentado de uma só vez, apoiado nos braços como se estes fossem suporte de um baloiço.
Xana arregalou os olhos, o movimento demasiado rápido surpreendeu-a, já não era a primeira vez.
Olha quem acordou! Já estava para me ir embora.
O Zé ouviu a voz ao longe e quis responder, enrolou a língua nos dentes e grunhiu algo parecido com, Onde está o meu automóvel?
O seu automóvel? Não me faça rir.
Até ele sentiu vontade de rir, por momentos sentiu vontade de rir e sentiu-se ridículo, Onde está a minha carrinha?
Não seria melhor saber onde estás?
Xana está irritada, o Zé está desorientado, melhor o silêncio que vai ficar entre os dois nos minutos que se seguiram.
(Cont.)
P.S. Obrigado a todos os que me comentam por me fazerem continuar. A todos vós um abraço.
Até que tudo o que é a vida nos separe.
2007-10-07
Branco
Branco,
Sou branco, tenho quarenta e dois anos e sou branco,
Podia ser azul, cor-de-rosa, amarelo, mas não…
Sou branco…Por definição…por justificação…
E vejo branco, no branco dos meus olhos,
Vejo branco na minha maneira de ser.
Disseram-me o que era o branco,
Do lado de cá,
Do ocidente.
Eu vejo branco,
Eu pinto de branco,
Eu sonho em branco,
Fizeram-me branco e criaram-me branco.
Se alguma vez fugir,
Fujo em branco.
Não fui eu quem inventou a cor,
Sou consequência.
Pálidas as faces
Das pessoas que por mim passam.
Em certas alturas, na rua, no passeio,
Tudo se desfoca,
Olho para eles e vejo-me.
Pálidos os reflexos
Das manhãs cinzas que inventei.
Janeiro borralho e a humidade nos vidros.
A borra castanha escura,
Escuro do negro,
No negro do café.
A língua que se revolve na boca procura
O doce meigo do açúcar,
O frio que cede ao calor,
Levo o jornal debaixo,
Não sei se do braço, se de todo o arco.
Da coluna arqueada saem coisas,
Demandas, cansaços, os gastos quotidianos,
Pormenores, e tantos que eles são!
Hoje, por ser hoje,
Pensei no que fui, no que sou.
Sobra-me a mim o lado lógico do contador de anos.
Moderno equilíbrio que gasta todas as peças,
Reciclado está o futuro para quem o há-de comer,
O plágio irónico à saída do autocarro.
Falta-me um pouco de vida para o fim de carreira,
Do emprego que vai para além do fim do mês, no fim de mais um dia.
Sou branco,
Digo-o como se tivesse importância,
Justificando, quem sabe,
A falta de outra cor.
Sou branco, tenho quarenta e dois anos e sou branco,
Podia ser azul, cor-de-rosa, amarelo, mas não…
Sou branco…Por definição…por justificação…
E vejo branco, no branco dos meus olhos,
Vejo branco na minha maneira de ser.
Disseram-me o que era o branco,
Do lado de cá,
Do ocidente.
Eu vejo branco,
Eu pinto de branco,
Eu sonho em branco,
Fizeram-me branco e criaram-me branco.
Se alguma vez fugir,
Fujo em branco.
Não fui eu quem inventou a cor,
Sou consequência.
Pálidas as faces
Das pessoas que por mim passam.
Em certas alturas, na rua, no passeio,
Tudo se desfoca,
Olho para eles e vejo-me.
Pálidos os reflexos
Das manhãs cinzas que inventei.
Janeiro borralho e a humidade nos vidros.
A borra castanha escura,
Escuro do negro,
No negro do café.
A língua que se revolve na boca procura
O doce meigo do açúcar,
O frio que cede ao calor,
Levo o jornal debaixo,
Não sei se do braço, se de todo o arco.
Da coluna arqueada saem coisas,
Demandas, cansaços, os gastos quotidianos,
Pormenores, e tantos que eles são!
Hoje, por ser hoje,
Pensei no que fui, no que sou.
Sobra-me a mim o lado lógico do contador de anos.
Moderno equilíbrio que gasta todas as peças,
Reciclado está o futuro para quem o há-de comer,
O plágio irónico à saída do autocarro.
Falta-me um pouco de vida para o fim de carreira,
Do emprego que vai para além do fim do mês, no fim de mais um dia.
Sou branco,
Digo-o como se tivesse importância,
Justificando, quem sabe,
A falta de outra cor.
2007-09-24
O Automóvel IV
Olhou em redor, cento e oitenta graus de cabeça, o suficiente para se sentir sozinho. Rodou a chave mais uma vez. Um clique e novamente o silêncio, a presença sonora do que se ouve à volta, um registo suave que acompanha a paisagem. Está indeciso, valerá a pena olhar para o motor, tentar percebe-lo, no fim de contas há trinta anos que se conhecem. Se fosse a bateria seria fácil. Procurou o telemóvel na esperança de este ter a bateria carregada, algo que raramente acontecia quando era urgente a utilização. Não vai ser diferente desta vez e a alternativa vai passar pelas pernas do Zé. Tirou a mochila com meia dúzia de livros, os documentos e fechou a carrinha. Afinal não me livrei duma torreira. Não se sentia em má forma, tivesse o tempo mais fresco e o inconveniente da avaria até que seria um bom pretexto para uma caminhada no campo. O restaurante não ficava longe, dois mil metros numa alameda entre pinheiros e a “vacaria” que se adivinha, não mais de quinze minutos, porquê a medição do tempo, retratar o espaço? Ambos relativos pareceram-lhe maiores, a ele que abusou da sua relatividade. Explicando melhor, o Zé não é homem de finanças abastadas, no Zé nada é abastado. Mentira! Existe uma coisa onde o Zé não encontra limites, o seu olhar é orgânico. Voltando ao assunto, o Zé é um teso. Moço bem entrado nos trinta, digamo-lo por simpatia, o ordenado é curto na empresa onde nunca subiu, empresa de segurança que lhe garante os horários mais estranhos nos locais mais impróprios. São portarias de fábricas de noites desertas, estabelecimentos comerciais em hora de ponta, Hospitais e Clínicas de gente doente, enfim, tudo o que lhe mandem fazer, o Zé não é moço de refilar. Assim sendo, a avaria do seu automóvel pode tornar-se um sério problema económico que o poderá privar da sua liberdade. Fez todo o percurso a pensar no assunto, não foi a primeira vez. Também o pai e a mãe tiveram um fim, um dia seria a vez da sua carrinha. O último membro da família, que ele considerava chegada, poderia morrer. Afastou os pensamentos negros, tinha dinheiro suficiente para ir à oficina do André, a dificuldade existia em arranjar peças. Com uma regularidade pendular o Zé levava a Toyota à oficina do André, uma espécie de amante que mantinha uma relação vergonhosa com a sua carrinha e que lhe levava muitas das suas poupanças. Foi assim o trajecto do Zé até ao restaurante, amargurado, receoso, repleto de preocupações, logo ele que detesta preocupações. A fome dissipou-se, o estômago encolheu, só a cabeça crescia, do tamanho dos seus medos. Avistou a placa de faca e garfo apontada. O Zé já só pensava em arranjar um telefone de onde pudesse mandar um pedido de socorro, todo um fim de semana estragado. Ainda por cima a próxima semana seria no Hospital, maldito Hospital, se pudesse recusar, mas não pode.
Alegrou-se ao ver a longa casa rasteira caiada de branco, debruada a azul, pequeno toldo na porta de entrada, letreiro discreto avisando do nome e do que ali se fazia. Sentia-se fatigado, mais da cabeça do que do corpo, por esse motivo deixou-se ficar um pouco cá fora antes de entrar. Organizou as ideias, primeiro iria comer, de nada serviria esperar de barriga vazia, contrariar o pessimismo, relaxar, depois o telefone, um qualquer mecânico que o tentaria intrujar, com sorte ficaria com o problema mecânico resolvido e com menos uns Euros na conta mensal, pelo menos assim o esperava. Foi com o espírito renovado que entrou no restaurante e escolheu uma mesa para se sentar. Ainda hoje está para saber se foi ele que escolheu a mesa ou se esta lhe atravessou o destino insinuando-se tentadora, junto à janela, cheia de luz, para duas pessoas, um pouco afastada das longas mesas de seis e quatro pessoas, beneficiando do facto de uma coluna interior a isolar do resto espaço. Sentou-se e apreciou o aconchego daquela luz, local ideal para observar todo o campo em volta. Ao longe as vacas procuravam abrigo junto das arvores isoladas, mancha castanha e verde marcando a paisagem. Sentiu as palavras da empregada. Sentiu-as sem as ouvir, como se sente a presença de algo que está onde deveria estar, sabe que a intenção das palavras vem acompanhada de uma lista, bastará sorrir e agradecer, obrigado, se calhar nem tanto. Esta era a única mesa de onde se podia ver distintamente o balcão. Estava situada no ponto exacto onde este, fazendo um ângulo de 45º, escondia da sala quem nele se quisesse apoiar. Foi por este motivo que enquanto bebia o café deixou o seu olhar orgânico repousar numa mulher ao balcão. Já tinha telefonado a um mecânico, “amigo” do dono do restaurante que lhe garantiu ajuda dali a uma hora. Ficava portanto com uma boa meia hora sem nada para fazer. De tanto a olhar ela correspondeu e ele receoso baixou a cabeça sem reparar que ela sorriu.
Decidiu pagar ao balcão e o dono do restaurante, dirigindo-se à mulher, arranjou-lhe boleia até à carrinha. Embora envergonhado não teve coragem para recusar. Quase sem palavras e apenas sabendo que lhe chamavam Xana deixou-se arrastar até um velho Landrover. O caminho até à sua Toyota seria rápido. Decidiu aproveitar e olhar para a mulher, que descobria agora, muito bonita. Começava a sentir-se mais à vontade quando ela lhe perguntou pela carrinha, efectivamente já deviam ter chegado ao local onde a tinha deixado. Ao olhar para trás apercebeu-se da árvore que escolhera para a estacionar. Debaixo dela nada se via. Ainda em andamento abriu a porta do jeep e saltou.
(cont.)
Alegrou-se ao ver a longa casa rasteira caiada de branco, debruada a azul, pequeno toldo na porta de entrada, letreiro discreto avisando do nome e do que ali se fazia. Sentia-se fatigado, mais da cabeça do que do corpo, por esse motivo deixou-se ficar um pouco cá fora antes de entrar. Organizou as ideias, primeiro iria comer, de nada serviria esperar de barriga vazia, contrariar o pessimismo, relaxar, depois o telefone, um qualquer mecânico que o tentaria intrujar, com sorte ficaria com o problema mecânico resolvido e com menos uns Euros na conta mensal, pelo menos assim o esperava. Foi com o espírito renovado que entrou no restaurante e escolheu uma mesa para se sentar. Ainda hoje está para saber se foi ele que escolheu a mesa ou se esta lhe atravessou o destino insinuando-se tentadora, junto à janela, cheia de luz, para duas pessoas, um pouco afastada das longas mesas de seis e quatro pessoas, beneficiando do facto de uma coluna interior a isolar do resto espaço. Sentou-se e apreciou o aconchego daquela luz, local ideal para observar todo o campo em volta. Ao longe as vacas procuravam abrigo junto das arvores isoladas, mancha castanha e verde marcando a paisagem. Sentiu as palavras da empregada. Sentiu-as sem as ouvir, como se sente a presença de algo que está onde deveria estar, sabe que a intenção das palavras vem acompanhada de uma lista, bastará sorrir e agradecer, obrigado, se calhar nem tanto. Esta era a única mesa de onde se podia ver distintamente o balcão. Estava situada no ponto exacto onde este, fazendo um ângulo de 45º, escondia da sala quem nele se quisesse apoiar. Foi por este motivo que enquanto bebia o café deixou o seu olhar orgânico repousar numa mulher ao balcão. Já tinha telefonado a um mecânico, “amigo” do dono do restaurante que lhe garantiu ajuda dali a uma hora. Ficava portanto com uma boa meia hora sem nada para fazer. De tanto a olhar ela correspondeu e ele receoso baixou a cabeça sem reparar que ela sorriu.
Decidiu pagar ao balcão e o dono do restaurante, dirigindo-se à mulher, arranjou-lhe boleia até à carrinha. Embora envergonhado não teve coragem para recusar. Quase sem palavras e apenas sabendo que lhe chamavam Xana deixou-se arrastar até um velho Landrover. O caminho até à sua Toyota seria rápido. Decidiu aproveitar e olhar para a mulher, que descobria agora, muito bonita. Começava a sentir-se mais à vontade quando ela lhe perguntou pela carrinha, efectivamente já deviam ter chegado ao local onde a tinha deixado. Ao olhar para trás apercebeu-se da árvore que escolhera para a estacionar. Debaixo dela nada se via. Ainda em andamento abriu a porta do jeep e saltou.
(cont.)
2007-09-06
O Automóvel III
Sábado, Verão, uma linda manhã de sol. O “lindo” para as cores claras, brilhantes, o branquear dos tons, a sensação extrema de luz, quase o desconforto, bem ditos óculos escuros.
A Toyota encontra-se imóvel, meio asfalto, meio terra, areia. O ar está salgado, sabe a mar. Estranha névoa que percorre a linha da praia sem nunca passar as dunas, sem nunca ofuscar o sol, traço de vertigem na paisagem costeira. O Zé está de olhos fechados no lugar do condutor. Tem no seu colo um livro aberto. As mãos sobre o livro tremem ligeiramente. A respiração é pausada, por enquanto.
Agora que já é mais tarde, pela cara do Zé escorrem gotas de suor, acelera o ritmo cardíaco, o ar entra e sai mais rápido, mexe as pernas, cai o livro. Acorda assustado, incomodado com a falta de espaço, com o calor, Que brasa!
Ao sair da carrinha reparou no livro aberto, Herberto Hélder, do mundo, “Esta coluna de água, bastam-lhe o peso próprio, o ar à roda,”, a garrafa, com esse precioso líquido, em cima da mesa do restaurante no dia anterior. A decisão de abalar para sul, por dois dias, para ler sob um céu aberto, horizonte sem arestas. Hoje fecha com cuidado o livro de poemas e arruma-o, guarda-o na mochila, esconde-o, hoje é ele o poeta. Antes fosse. As palavras nunca lhe fluíram. Oralmente desaparecem por entre grunhidos e trejeitos faciais. Na escrita emperram no branco da folha. Tantas as vezes que ideias brilhantes se dissiparam na aridez da caneta e do papel. Desistiu de o fazer. Deixou que o olhar fosse a sua poesia.
Percorre a passadeira de madeira que o leva para o primeiro desnível, onde a vegetação é verde seco e as flores arranham. A areia é grossa, talvez nova, ainda pouco rolada nos ciclos marítimos. Sente-a nos pés à mistura com conchas, umas inteiras, outras partidas, todas juntas no limite da maré anterior, perto está a rebentação, escondida no segundo desnível. As ondas desfazem-se na areia numa raiva trepadora que morre na forte inclinação da praia. Difícil entrar e sair, lá dentro tudo é mais calmo, mais amplo, mais bruto, dois metros e deixa-se de ter pé, que magnifico lugar para relaxar, deixar os olhos fazerem magia, soltar a poesia dos azuis do mar, dos azuis do céu. Olhá-los demoradamente, as palavras que não ditas, não escritas, as palavras olhadas, os azuis que o fazem sentir bem, que não é um estranho no mundo, que é normal querer isolar-se, não querer companhia, que transformam tudo isso num belo e efémero poema, como se a palavra efémero lhe pudesse aumentar a beleza. Não fosse o estômago e o Zé teria torrado ao sol. Quase nunca a fome o convence, não é escravo da comida nem das horas para comer, para se sentar à mesa, quase sempre sozinho. Dias não são dias, está com fome, porque não aproveitar? Sentiu-se satisfeito com a sua decisão. Enquanto palmilha o caminho em sentido contrário vai inventando menus, cardápios com nomes a cheirar a Verão, nomes de peixes, peixes abertos no prato, o azeite, o vinagre, só uma gota, para tirar o doce. Apetece-lhe vinho, vinho branco muito fresco, está de apetites, ele que raramente bebe bebidas alcoólicas, muito menos quando conduz. Se vai aproveitar a fome, também vai aproveitar a sede. A carrinha está perto, apercebeu-se que acelerou o passo e sorriu, Que gesto mais impróprio, nem pareço eu! Lançou um último olhar às dunas antes de engrenar a primeira. Fez a inversão de marcha com cuidado e iniciou a subida em segunda. Já no alto, e quando a estrada inicia um serpentear pelo pinhal, o motor falhou. Aproveitando a descida procurou uma sombra, uma daquelas enormes árvores seria sua amiga. De falha passou a silêncio. O arranque eléctrico não fazia mover a mecânica. Merda!
(cont.)
A Toyota encontra-se imóvel, meio asfalto, meio terra, areia. O ar está salgado, sabe a mar. Estranha névoa que percorre a linha da praia sem nunca passar as dunas, sem nunca ofuscar o sol, traço de vertigem na paisagem costeira. O Zé está de olhos fechados no lugar do condutor. Tem no seu colo um livro aberto. As mãos sobre o livro tremem ligeiramente. A respiração é pausada, por enquanto.
Agora que já é mais tarde, pela cara do Zé escorrem gotas de suor, acelera o ritmo cardíaco, o ar entra e sai mais rápido, mexe as pernas, cai o livro. Acorda assustado, incomodado com a falta de espaço, com o calor, Que brasa!
Ao sair da carrinha reparou no livro aberto, Herberto Hélder, do mundo, “Esta coluna de água, bastam-lhe o peso próprio, o ar à roda,”, a garrafa, com esse precioso líquido, em cima da mesa do restaurante no dia anterior. A decisão de abalar para sul, por dois dias, para ler sob um céu aberto, horizonte sem arestas. Hoje fecha com cuidado o livro de poemas e arruma-o, guarda-o na mochila, esconde-o, hoje é ele o poeta. Antes fosse. As palavras nunca lhe fluíram. Oralmente desaparecem por entre grunhidos e trejeitos faciais. Na escrita emperram no branco da folha. Tantas as vezes que ideias brilhantes se dissiparam na aridez da caneta e do papel. Desistiu de o fazer. Deixou que o olhar fosse a sua poesia.
Percorre a passadeira de madeira que o leva para o primeiro desnível, onde a vegetação é verde seco e as flores arranham. A areia é grossa, talvez nova, ainda pouco rolada nos ciclos marítimos. Sente-a nos pés à mistura com conchas, umas inteiras, outras partidas, todas juntas no limite da maré anterior, perto está a rebentação, escondida no segundo desnível. As ondas desfazem-se na areia numa raiva trepadora que morre na forte inclinação da praia. Difícil entrar e sair, lá dentro tudo é mais calmo, mais amplo, mais bruto, dois metros e deixa-se de ter pé, que magnifico lugar para relaxar, deixar os olhos fazerem magia, soltar a poesia dos azuis do mar, dos azuis do céu. Olhá-los demoradamente, as palavras que não ditas, não escritas, as palavras olhadas, os azuis que o fazem sentir bem, que não é um estranho no mundo, que é normal querer isolar-se, não querer companhia, que transformam tudo isso num belo e efémero poema, como se a palavra efémero lhe pudesse aumentar a beleza. Não fosse o estômago e o Zé teria torrado ao sol. Quase nunca a fome o convence, não é escravo da comida nem das horas para comer, para se sentar à mesa, quase sempre sozinho. Dias não são dias, está com fome, porque não aproveitar? Sentiu-se satisfeito com a sua decisão. Enquanto palmilha o caminho em sentido contrário vai inventando menus, cardápios com nomes a cheirar a Verão, nomes de peixes, peixes abertos no prato, o azeite, o vinagre, só uma gota, para tirar o doce. Apetece-lhe vinho, vinho branco muito fresco, está de apetites, ele que raramente bebe bebidas alcoólicas, muito menos quando conduz. Se vai aproveitar a fome, também vai aproveitar a sede. A carrinha está perto, apercebeu-se que acelerou o passo e sorriu, Que gesto mais impróprio, nem pareço eu! Lançou um último olhar às dunas antes de engrenar a primeira. Fez a inversão de marcha com cuidado e iniciou a subida em segunda. Já no alto, e quando a estrada inicia um serpentear pelo pinhal, o motor falhou. Aproveitando a descida procurou uma sombra, uma daquelas enormes árvores seria sua amiga. De falha passou a silêncio. O arranque eléctrico não fazia mover a mecânica. Merda!
(cont.)
2007-08-23
O Automóvel II
Em Lisboa, tinha ele oito anos, entrou no stand de automóveis. Ia com os pais. Havia dois anos que poupavam dinheiro, dois anos de privações. Decidiram-se prestações, mensalidades de suavidade calculada, a casa na Damaia ainda estava a ser paga. Também venderam o “carocha”.
No stand tudo era novo e limpo. Cheirava a materiais acabados de transformar, aromas acabados de moldar, “Cheira bem.”, disse para si e revelou-o na expressão exibindo um sorriso largo. De olhos bem abertos assimilou o fascínio, o brilho do objecto, o apelo dos panfletos publicitários que haviam convencido os seus pais, que também o tinham convencido. Estacionada no meio, entre dois parentes, quatro portas, duas portas, a station que superava todas as expectativas, mais brilhante, mais cromada, mais negra nos seus estofos, apelativa nos extras, o volante com o símbolo, o conta quilómetros indicando cento e sessenta, quatro velocidades, excelente a subir.
Logo que entraram um homem de meia-idade veio ter com eles, também ele de sorriso aberto. Não se lembra muito bem do homem. Sentou-se na carrinha, no banco de trás, os pais, à frente, simulavam a viagem, o homem incentivava-os, “Veja o cinzeiro, as mudanças, o espaço, o conforto, e ainda não viu o motor!”. Foi a sua primeira viagem na carrinha. Nos olhos cerrados a imagem de uma estrada num espaço aberto, o poster na parede do stand, o carro vermelho, ele ia a conduzir.
O negócio foi demorado, discutiram-se números, dinheiro que faltava, preencheram-se papeis, intermináveis papeis, “Pai, quando é que vamos embora?”, “Vamos já.”, o olhar da mãe, comprovação serena do poder paternal. Nesse dia a carrinha ficou no stand, nesse dia e nos nove dias que o seguiram. Nove noites, nove sonhos, em Janeiro, dias cinzentos, dias que o Zé pintou de amarelo Verão e azul calor. António José viajou por todas as fotografias, todas as imagens, jornais, revistas, televisão.
A televisão a preto e branco, a carrinha cor de vinho atravessando paisagens no telejornal, a carrinha nas imagens do sul de França, na revista da sala de espera do médico da mãe, do médico que disse que a mãe iria morrer alguns anos mais tarde.
Foram buscar a carrinha numa quinta-feira. O tecto que desaparece e dá lugar ao céu, a cara esborrachada no vidro, a respiração presa no movimento da máquina. Percorreram as ruas de Lisboa num estranho momento de sol. A Damaia chegou e havia lugar para arrumar, muitos lugares. Da janela do primeiro andar, depois do jantar, ficaram olhando a carrinha, indiferentes à intensa chuva que caía. Nesse dia não sonhou.
Sexta à noite partiram para a terra, foi a primeira grande viagem da Toyota.
(cont.)
No stand tudo era novo e limpo. Cheirava a materiais acabados de transformar, aromas acabados de moldar, “Cheira bem.”, disse para si e revelou-o na expressão exibindo um sorriso largo. De olhos bem abertos assimilou o fascínio, o brilho do objecto, o apelo dos panfletos publicitários que haviam convencido os seus pais, que também o tinham convencido. Estacionada no meio, entre dois parentes, quatro portas, duas portas, a station que superava todas as expectativas, mais brilhante, mais cromada, mais negra nos seus estofos, apelativa nos extras, o volante com o símbolo, o conta quilómetros indicando cento e sessenta, quatro velocidades, excelente a subir.
Logo que entraram um homem de meia-idade veio ter com eles, também ele de sorriso aberto. Não se lembra muito bem do homem. Sentou-se na carrinha, no banco de trás, os pais, à frente, simulavam a viagem, o homem incentivava-os, “Veja o cinzeiro, as mudanças, o espaço, o conforto, e ainda não viu o motor!”. Foi a sua primeira viagem na carrinha. Nos olhos cerrados a imagem de uma estrada num espaço aberto, o poster na parede do stand, o carro vermelho, ele ia a conduzir.
O negócio foi demorado, discutiram-se números, dinheiro que faltava, preencheram-se papeis, intermináveis papeis, “Pai, quando é que vamos embora?”, “Vamos já.”, o olhar da mãe, comprovação serena do poder paternal. Nesse dia a carrinha ficou no stand, nesse dia e nos nove dias que o seguiram. Nove noites, nove sonhos, em Janeiro, dias cinzentos, dias que o Zé pintou de amarelo Verão e azul calor. António José viajou por todas as fotografias, todas as imagens, jornais, revistas, televisão.
A televisão a preto e branco, a carrinha cor de vinho atravessando paisagens no telejornal, a carrinha nas imagens do sul de França, na revista da sala de espera do médico da mãe, do médico que disse que a mãe iria morrer alguns anos mais tarde.
Foram buscar a carrinha numa quinta-feira. O tecto que desaparece e dá lugar ao céu, a cara esborrachada no vidro, a respiração presa no movimento da máquina. Percorreram as ruas de Lisboa num estranho momento de sol. A Damaia chegou e havia lugar para arrumar, muitos lugares. Da janela do primeiro andar, depois do jantar, ficaram olhando a carrinha, indiferentes à intensa chuva que caía. Nesse dia não sonhou.
Sexta à noite partiram para a terra, foi a primeira grande viagem da Toyota.
(cont.)
2007-08-14
O Automóvel
Automóvel, viatura, carro, bólide ou então a marca, “Eu tenho um Mercedes.”, “Eu tenho um BMW.”, “Eu tenho um Fiat Uno em segunda mão”. A personagem de quem vou contar este episódio trata o carro por “O meu carro”, para os amigos o seu carro é “O chaço do Zé.”. O Zé tem um carinho especial pela Toyota Corolla 1200 station, cor de vinho tinto, herdou-a do pai. Junto com a carrinha veio também o apartamento na Damaia e uma série de bugigangas que lhe causaram grande sentimento de culpa, como escolher o que deitar fora de entre os pertences de um pai morto. Sem dinheiro para remodelar a casa aligeirou-a de tudo o que precisasse de muita limpeza. Ainda hoje recorda com imensa tristeza esses dias em que as coisas iam e vinham para dentro de grandes caixas de papelão, cortesia de um vizinho dono de uma pequena loja de electrodomésticos na Amadora, objectos que se demoravam nas mãos, primeiro uma ligeira lembrança, estava com a mãe, com o pai, depois o local, Portimão, a hora do dia, talvez meio-dia, antes do almoço de certeza, comeu à pressa para lhe poder mexer, aquela jarra branca cheia de ramos verdes e flores, parecem rosas, são rosas. Já não tem essa jarra, partiu-a a dona Chica, Cabo-Verdiana forte e de temperamento instável que lhe limpa a casa uma vez por semana. Para o Zé a casa não é importante, também não se pode dar a grandes luxos. Tem o essencial para os padrões normais de vida num apartamento, máquinas para lavar, a roupa, a loiça, máquina de frio, aspirador, ferro de engomar e uma televisão. Também tem um leitor de cassetes VHS que ainda funciona, muito embora o aspecto do aparelho indiciasse outra constatação. Além destas essencialidades também tem uma cama, uma mesa-de-cabeceira, uma pequena escrivaninha, uma cadeira, isto no quarto. Na sala o móvel da televisão, contraplacado à vista por detrás da fina capa a imitar pinho, um sofá que com boa vontade albergaria quatro pessoas não anafadas. Na cozinha uma mesa, seis cadeiras, número exagerado para o uso diário. Só uma se mostra usada, prova que o Zé é homem de hábitos e rotinas e escolhe sempre a forma de utilizar os mesmos objectos, passava-se o mesmo com os garfos, as facas, os pratos, os copos. Da sala pode ir-se para outros dois quartos, o quarto do pai que ficou na mesma desde que este morreu e outro, mais pequeno, atravancado de estantes cheias de livros, o vício do Zé, a leitura.
O Zé é António, podia ser Tó-Zé mas não é. É António José Maria Cardoso, António porque o avó paterno era António, José Maria porque sua mãe era devota a Cristo, o Cardoso também é do avó paterno, que assim sendo tem a primazia do baptismo. Quis o destino que António Manuel Cardoso nunca tenha conhecido o neto. Foi Miguel Cardoso, pai do Zé, que assim prestou homenagem à memória do progenitor. Mas que interessa o nome, interessa o suficiente para dele contar-mos toda uma história se for essa a intenção. Não é este o caso.
O Zé tem uma paixão, a sua carrinha Toyota Corolla. Aos fins-de-semana, faça sol ou faça chuva, planta-se com a sua carrinha num local perto do mar e desfruta do prazer da leitura durante horas. Baixou os bancos de trás de modo a só poder transportar mais um passageiro. No banco do passageiro encontra-se um amontoado de livros. O motor da carrinha está afinado, a carroçaria não apresenta mazelas, a pintura está em bom estado, os interiores estão cuidados, gastos mas cuidados. Desde os seus oito anos que aquela carrinha é o seu meio de transporte, o seu automóvel.
(Cont.)
P.S. A história que agora começei pode ou não ser original, tantas são as palavras que já foram escritas, uma coisa eu prometo, não a copiei de ninguém embora me tenha inspirado num pequeno conto de nome “O Capote” escrito por Nikolai Gogol no século XIX que situou a acção na cidade de São Petersburgo
O Zé é António, podia ser Tó-Zé mas não é. É António José Maria Cardoso, António porque o avó paterno era António, José Maria porque sua mãe era devota a Cristo, o Cardoso também é do avó paterno, que assim sendo tem a primazia do baptismo. Quis o destino que António Manuel Cardoso nunca tenha conhecido o neto. Foi Miguel Cardoso, pai do Zé, que assim prestou homenagem à memória do progenitor. Mas que interessa o nome, interessa o suficiente para dele contar-mos toda uma história se for essa a intenção. Não é este o caso.
O Zé tem uma paixão, a sua carrinha Toyota Corolla. Aos fins-de-semana, faça sol ou faça chuva, planta-se com a sua carrinha num local perto do mar e desfruta do prazer da leitura durante horas. Baixou os bancos de trás de modo a só poder transportar mais um passageiro. No banco do passageiro encontra-se um amontoado de livros. O motor da carrinha está afinado, a carroçaria não apresenta mazelas, a pintura está em bom estado, os interiores estão cuidados, gastos mas cuidados. Desde os seus oito anos que aquela carrinha é o seu meio de transporte, o seu automóvel.
(Cont.)
P.S. A história que agora começei pode ou não ser original, tantas são as palavras que já foram escritas, uma coisa eu prometo, não a copiei de ninguém embora me tenha inspirado num pequeno conto de nome “O Capote” escrito por Nikolai Gogol no século XIX que situou a acção na cidade de São Petersburgo
2007-08-04
Ressacando das férias (a culpa de quem não quer produzir)
De espada na mão decapitei uns quantos. Estava deitado numa toalha, numa praia…E o mar, sempre o mar e o som do mesmo agora nos meus ouvidos e eu deitado numa toalha.
O Sol, também o Sol. O Sol nos meus olhos cerrados e as figuras por ele criadas…e eu divirto-me e deixo-me levar.
Que bom o descanso…O descanso?! Sim o descanso, o mar manso, a toalha, a areia, o silêncio no grito da minha filha, “Pai já posso tomar banho?”, “Espera mais um bocadinho…”, “Vá lá Pai!...”.
Eu e a minha mulher tocando-nos por amor ao toque, o leve eriçar da penugem corporal, a sensação de que o tempo pode mesmo ser parado.
O carro sobe junto à falésia e de repente fura a rocha, uma vez e outra e outra ainda, desemboca num vale, numa rotunda, na escolha que sempre se faz quando se viaja sem destino, “Paulo, temos gasolina?”, “É melhor parar aqui.”.
De espada na mão decapitei uns quantos…Que nobre o sentido das coisas, são cortes temporários, cabeças que hão-de voltar ao lugar.
No dia seguinte o sol e eu, e a toalha, o agrado da irresponsabilidade, tenho tempo para vocês, consigo ouvir-vos melhor…Estamos numa ilha, isolados do mundo…
O que eu gosto mais das férias é a minha filha, a minha mulher…O cenário pode mudar, escolha-se o cenário!
A minha filha, a minha mulher, os meus amigos, o meu mundo!
Que pena as férias terem acabado…
2007-07-07
O que me ficou depois de ter escrito IV
A garrafa já está vazia
Raul não sente o alcool.
“Onde estás Joana?!”
“Joana…Joana…Joana…Joana!...?
Adormeci nos teus braços, entreguei-me no teu corpo, aconchego de mãe…”,
“Joana…Joana…Joana…Joana!...
Que vou eu fazer das folhas escritas?”.
A garrafa está vazia e ele tão cheio.
Poucas as palavras para tão cheio conteúdo.
“Tenho cem palavras escritas em Português escorreito, em verso, do verso filosofo, do professor frustrado.”,
“Preciso de ti Joana, dos teus braços, do teu corpo, aconchego de mãe…Não Joana! Estou a mentir-te…Não sei do teu corpo…Agora que não estás aqui!”,
“Joana…Joana…Joana…Joana…
…Lembra-me um sonho lindo…Fausto? Sim! O músico, o Português!”.
“Vou tomar banho, lavar-me de suores residuais, sínteses químicas, produtos das reacções, das minhas reacções…Joana…Joana…Joana…Espera por mim…Joana!...”
Guarda o saquinho de pó branco junto do arroz, na cozinha, cinco gramas mal pesadas.
“Vou desistir, pedir a demissão, a rescisão gentil do contrato…Amigável…Retirem-me da trincheira, da fronteira, da loucura…”,
“Que vou eu fazer dos meus ensinamentos, do meu entendimento, das horas que passei lendo tudo o que os outros pensaram, tudo tão depressa, demasiado depressa…Hoje, depois dos quarenta…Que irei eu fazer depois dos cinquenta?...Talvez F… , Pedro? Sim! O Português, o cantor!”
Abre mais uma garrafa, a última, a que provoca pânico de ausência, demência. Limpou-se delicadamente, vestiu-se de novo, como se novo fosse, como se não se sentisse velho. Ao fim de todos estes anos, tantas as páginas que faltaram.
“Joana…Joana…Joana…”
A demência, o pânico, a ausência…
“…Joana…”
Agora de novo, como se novo fosse. Novo de gestos lentos.
“Onde estás Raul, Dr. Raul, Sr. Raul, Professor Raul, Raul?...Onde estás Joana? Simplesmente Joana…No passado, na rádio novela, simplesmente Maria, simplesmente um nome…”
O saco com o pó branco voltou-lhe à mão. Entretanto Joana discute com o patrão. O patrão sente um enorme desanimo por ainda não a ter levado para a cama.
Raul pega no telefone…
“Atende Joana!...Janta comigo…Não me deixes só…”
A Joana vai sair mais cedo do escritório. Não sabe se vai voltar. O patrão, o Dr. João está a sangrar do nariz, em silêncio, encharcando um lenço de pano fino. A Joana atendeu o telefone.
“Sim, eu vou jantar contigo. Não faças asneiras…Promete-me…”, “Tu sabes que não posso prome…”, “Eu preciso falar contigo.”, “Eu também preciso de ti…”.
A Joana vai chegar a tempo de chamar uma ambulância. O Dr. Raul não irá voltar ao ensino. Seis meses isolado na serra da estrela fizeram dele um homem novo. Joana vai ficar com ele, ama-o. Foi ela que o levou para casa dos avós e lá ficou nos tempos mais díficeis. Depois arranjou emprego em Coimbra…Do resto não sei…Um conto é mesmo assim, é uma fracção de tempo, um pouco de vida, da vida…
FIM
P.S. Vou de férias. À Titá, ao PB, ao AD, à Isabel, ao Rocha de Sousa, à Elsa, ao Talk, enfim, a todos os que me visitam e comentam um abraço.
Até sempre!
(Sim, são estes os Blogues que eu mais visito)
Raul não sente o alcool.
“Onde estás Joana?!”
“Joana…Joana…Joana…Joana!...?
Adormeci nos teus braços, entreguei-me no teu corpo, aconchego de mãe…”,
“Joana…Joana…Joana…Joana!...
Que vou eu fazer das folhas escritas?”.
A garrafa está vazia e ele tão cheio.
Poucas as palavras para tão cheio conteúdo.
“Tenho cem palavras escritas em Português escorreito, em verso, do verso filosofo, do professor frustrado.”,
“Preciso de ti Joana, dos teus braços, do teu corpo, aconchego de mãe…Não Joana! Estou a mentir-te…Não sei do teu corpo…Agora que não estás aqui!”,
“Joana…Joana…Joana…Joana…
…Lembra-me um sonho lindo…Fausto? Sim! O músico, o Português!”.
“Vou tomar banho, lavar-me de suores residuais, sínteses químicas, produtos das reacções, das minhas reacções…Joana…Joana…Joana…Espera por mim…Joana!...”
Guarda o saquinho de pó branco junto do arroz, na cozinha, cinco gramas mal pesadas.
“Vou desistir, pedir a demissão, a rescisão gentil do contrato…Amigável…Retirem-me da trincheira, da fronteira, da loucura…”,
“Que vou eu fazer dos meus ensinamentos, do meu entendimento, das horas que passei lendo tudo o que os outros pensaram, tudo tão depressa, demasiado depressa…Hoje, depois dos quarenta…Que irei eu fazer depois dos cinquenta?...Talvez F… , Pedro? Sim! O Português, o cantor!”
Abre mais uma garrafa, a última, a que provoca pânico de ausência, demência. Limpou-se delicadamente, vestiu-se de novo, como se novo fosse, como se não se sentisse velho. Ao fim de todos estes anos, tantas as páginas que faltaram.
“Joana…Joana…Joana…”
A demência, o pânico, a ausência…
“…Joana…”
Agora de novo, como se novo fosse. Novo de gestos lentos.
“Onde estás Raul, Dr. Raul, Sr. Raul, Professor Raul, Raul?...Onde estás Joana? Simplesmente Joana…No passado, na rádio novela, simplesmente Maria, simplesmente um nome…”
O saco com o pó branco voltou-lhe à mão. Entretanto Joana discute com o patrão. O patrão sente um enorme desanimo por ainda não a ter levado para a cama.
Raul pega no telefone…
“Atende Joana!...Janta comigo…Não me deixes só…”
A Joana vai sair mais cedo do escritório. Não sabe se vai voltar. O patrão, o Dr. João está a sangrar do nariz, em silêncio, encharcando um lenço de pano fino. A Joana atendeu o telefone.
“Sim, eu vou jantar contigo. Não faças asneiras…Promete-me…”, “Tu sabes que não posso prome…”, “Eu preciso falar contigo.”, “Eu também preciso de ti…”.
A Joana vai chegar a tempo de chamar uma ambulância. O Dr. Raul não irá voltar ao ensino. Seis meses isolado na serra da estrela fizeram dele um homem novo. Joana vai ficar com ele, ama-o. Foi ela que o levou para casa dos avós e lá ficou nos tempos mais díficeis. Depois arranjou emprego em Coimbra…Do resto não sei…Um conto é mesmo assim, é uma fracção de tempo, um pouco de vida, da vida…
FIM
P.S. Vou de férias. À Titá, ao PB, ao AD, à Isabel, ao Rocha de Sousa, à Elsa, ao Talk, enfim, a todos os que me visitam e comentam um abraço.
Até sempre!
(Sim, são estes os Blogues que eu mais visito)
2007-07-02
O que me ficou depois de ter escrito III
“Querida Joana…”, o desabafo, o arrependimento. Joana foi para casa cedo. Saíu ainda o sol não tinha aparecido. Preocupou-se com o quarto, com o Dr. Raul que desmaiara a altas horas da madrugada pregando-lhe um susto de morte. Chegou a falar com a emergência médica, pediu informações, instruções, procedimentos, agradeceu e desligou…O Raul tinha acordado e procurava o copo, cego, de gestos desconexos. Aconchegou-o no seu colo, adormeceram os dois…Antes de sair arrumou o quarto, silenciosa, vigilante do sopro de vida do seu amante. Está apaixonada, sempre gostou de se apaixonar, de todas as vezes sofreu…Sina de quem vive intensa a dependência amorosa…Mas quem poderá dizer que viveu sem a sentir?
Joana foi de carro para a cidade, ficou presa no transito e chorou enquanto ouvia as notícias das nove. Apeteceu-lhe telefonar mas não foi capaz. Agarrou o telemóvel com força até o sentir queimar…Largou-o bruscamente. Procurou o lenço na mala e deixou o motor do carro ir abaixo. Atrás de sim as buzinas começaram a tocar, uma mistura desagradável de sons estridentes que lhe agravou a tensão. Fechou os olhos e sentiu correrem-lhe lágrimas pela cara, percebeu que chorava novamente…Por momentos tudo despareceu…O motor do carro está a funcionar. Olhou-se no espelho retrovisor. Dois grandes riscos negros nas faces, um em cada uma, emprestavam-lhe um ar sinistro de palhaço assassino. Simétricos os riscos, o olhar que endureçera, “Reage Joana!”, “Que suplício!”, “Com sorte daqui a meia hora largo o carro.”.
Deixou a moeda habitual a um dos arrumadores habituais. Este revezava-se com mais dois que protegiam o local contra possíveis intrusos. Era sem dúvida o mais forte. Dizia-se Romeno, confessava a fome, os vícios, os crimes e mostrava uma garra fora do normal para quem anda naquela vida. Joana nunca se sentira incomodada com ele, antes pelo contrário, preferia a sua presença à dos outros dois “sócios”. Foi gentil o suficiente para reparar no desarranjo de Joana, suficiente para lhe perguntar se ela precisava de alguma coisa, para lhe garantir que não precisava de se preocupar com o carro e que o dia ia estar muito bonito. Sim, a Joana não tinha dúvidas quanto a isso. Precisava limpar a cara, tentar-se apresentável. Entrou no café que ficava mesmo junto à entrada do escritório de advogados onde trabalhava. Cumprimentou a empregada mais velha e fez-lhe sinal que precisava de ir à casa de banho. Esta desimpediu a ponta do balcão e preparou-lhe um chá bem quente com uma torrada.
Joana deixou-se ficar, de mãos no lavatório, olhando-se no espelho, “Gosto tanto de ti Raul, deixa-me pelo menos provar o mel… antes do fel…”, riu-se de si, da rima feita ao acaso. O que a juventude não faz, não há nada que pague a juventude, um sorriso, uma expressão que muda, os vinte cinco anos de Joana a mostrar frescura, sangue que é quente, contracenso, a frescura do semblante, o sangue quente…
Bebeu o chá em silêncio, perdeu-se na conversa de dois homens que discutiam uma contratação do Benfica. Enquanto mastigava a torrada reflectiu sobre a facilidade que os homens tinham em descarregar as suas frustrações no futebol. Nem todos eram assim, mas para o caso isso também não interessava, também as mulheres tinham os seus truques. No seu caso não eram as novelas ou as revistas, mas honestamente não poderia dizer-se imune a esse tipo de descompressão. Gostava de fazer compras, gostava de comprar, isso fazia-a sentir-se bem…Quando não estava a ler, a estudar, a escrever, a amar…Comprar e vestir-se…Joana era uma mulher bem feita, talvez um pouco magra, mas a roupa assentava-lhe bem e ela gostava da sensação.
Libertou-se do balcão com um beijo para a dona Marta que apontou a despesa num bloco.
Agora o trabalho, o escritório. Primeiro a entrada do edíficio, é preciso dar ordem às coisas…O edificio, que tinha beneficiado de melhoramentos recentes, era ostensivamente fruto dos anos sessenta, habitações plurifamiliares que se foram desabitando, pilar, viga. Não gostava dele nem o sentia confortável. Hoje, em particular, ser-lhe-ia ainda mais desagradável…
(Cont.)
P.S. Perdoem-me o espaçamento. Este conto vai ter de acabar até ao fim da semana...Depois...Férias...Descanso...Um abraço a todos os visitantes.
Joana foi de carro para a cidade, ficou presa no transito e chorou enquanto ouvia as notícias das nove. Apeteceu-lhe telefonar mas não foi capaz. Agarrou o telemóvel com força até o sentir queimar…Largou-o bruscamente. Procurou o lenço na mala e deixou o motor do carro ir abaixo. Atrás de sim as buzinas começaram a tocar, uma mistura desagradável de sons estridentes que lhe agravou a tensão. Fechou os olhos e sentiu correrem-lhe lágrimas pela cara, percebeu que chorava novamente…Por momentos tudo despareceu…O motor do carro está a funcionar. Olhou-se no espelho retrovisor. Dois grandes riscos negros nas faces, um em cada uma, emprestavam-lhe um ar sinistro de palhaço assassino. Simétricos os riscos, o olhar que endureçera, “Reage Joana!”, “Que suplício!”, “Com sorte daqui a meia hora largo o carro.”.
Deixou a moeda habitual a um dos arrumadores habituais. Este revezava-se com mais dois que protegiam o local contra possíveis intrusos. Era sem dúvida o mais forte. Dizia-se Romeno, confessava a fome, os vícios, os crimes e mostrava uma garra fora do normal para quem anda naquela vida. Joana nunca se sentira incomodada com ele, antes pelo contrário, preferia a sua presença à dos outros dois “sócios”. Foi gentil o suficiente para reparar no desarranjo de Joana, suficiente para lhe perguntar se ela precisava de alguma coisa, para lhe garantir que não precisava de se preocupar com o carro e que o dia ia estar muito bonito. Sim, a Joana não tinha dúvidas quanto a isso. Precisava limpar a cara, tentar-se apresentável. Entrou no café que ficava mesmo junto à entrada do escritório de advogados onde trabalhava. Cumprimentou a empregada mais velha e fez-lhe sinal que precisava de ir à casa de banho. Esta desimpediu a ponta do balcão e preparou-lhe um chá bem quente com uma torrada.
Joana deixou-se ficar, de mãos no lavatório, olhando-se no espelho, “Gosto tanto de ti Raul, deixa-me pelo menos provar o mel… antes do fel…”, riu-se de si, da rima feita ao acaso. O que a juventude não faz, não há nada que pague a juventude, um sorriso, uma expressão que muda, os vinte cinco anos de Joana a mostrar frescura, sangue que é quente, contracenso, a frescura do semblante, o sangue quente…
Bebeu o chá em silêncio, perdeu-se na conversa de dois homens que discutiam uma contratação do Benfica. Enquanto mastigava a torrada reflectiu sobre a facilidade que os homens tinham em descarregar as suas frustrações no futebol. Nem todos eram assim, mas para o caso isso também não interessava, também as mulheres tinham os seus truques. No seu caso não eram as novelas ou as revistas, mas honestamente não poderia dizer-se imune a esse tipo de descompressão. Gostava de fazer compras, gostava de comprar, isso fazia-a sentir-se bem…Quando não estava a ler, a estudar, a escrever, a amar…Comprar e vestir-se…Joana era uma mulher bem feita, talvez um pouco magra, mas a roupa assentava-lhe bem e ela gostava da sensação.
Libertou-se do balcão com um beijo para a dona Marta que apontou a despesa num bloco.
Agora o trabalho, o escritório. Primeiro a entrada do edíficio, é preciso dar ordem às coisas…O edificio, que tinha beneficiado de melhoramentos recentes, era ostensivamente fruto dos anos sessenta, habitações plurifamiliares que se foram desabitando, pilar, viga. Não gostava dele nem o sentia confortável. Hoje, em particular, ser-lhe-ia ainda mais desagradável…
(Cont.)
P.S. Perdoem-me o espaçamento. Este conto vai ter de acabar até ao fim da semana...Depois...Férias...Descanso...Um abraço a todos os visitantes.
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