2007-08-14

O Automóvel

Automóvel, viatura, carro, bólide ou então a marca, “Eu tenho um Mercedes.”, “Eu tenho um BMW.”, “Eu tenho um Fiat Uno em segunda mão”. A personagem de quem vou contar este episódio trata o carro por “O meu carro”, para os amigos o seu carro é “O chaço do Zé.”. O Zé tem um carinho especial pela Toyota Corolla 1200 station, cor de vinho tinto, herdou-a do pai. Junto com a carrinha veio também o apartamento na Damaia e uma série de bugigangas que lhe causaram grande sentimento de culpa, como escolher o que deitar fora de entre os pertences de um pai morto. Sem dinheiro para remodelar a casa aligeirou-a de tudo o que precisasse de muita limpeza. Ainda hoje recorda com imensa tristeza esses dias em que as coisas iam e vinham para dentro de grandes caixas de papelão, cortesia de um vizinho dono de uma pequena loja de electrodomésticos na Amadora, objectos que se demoravam nas mãos, primeiro uma ligeira lembrança, estava com a mãe, com o pai, depois o local, Portimão, a hora do dia, talvez meio-dia, antes do almoço de certeza, comeu à pressa para lhe poder mexer, aquela jarra branca cheia de ramos verdes e flores, parecem rosas, são rosas. Já não tem essa jarra, partiu-a a dona Chica, Cabo-Verdiana forte e de temperamento instável que lhe limpa a casa uma vez por semana. Para o Zé a casa não é importante, também não se pode dar a grandes luxos. Tem o essencial para os padrões normais de vida num apartamento, máquinas para lavar, a roupa, a loiça, máquina de frio, aspirador, ferro de engomar e uma televisão. Também tem um leitor de cassetes VHS que ainda funciona, muito embora o aspecto do aparelho indiciasse outra constatação. Além destas essencialidades também tem uma cama, uma mesa-de-cabeceira, uma pequena escrivaninha, uma cadeira, isto no quarto. Na sala o móvel da televisão, contraplacado à vista por detrás da fina capa a imitar pinho, um sofá que com boa vontade albergaria quatro pessoas não anafadas. Na cozinha uma mesa, seis cadeiras, número exagerado para o uso diário. Só uma se mostra usada, prova que o Zé é homem de hábitos e rotinas e escolhe sempre a forma de utilizar os mesmos objectos, passava-se o mesmo com os garfos, as facas, os pratos, os copos. Da sala pode ir-se para outros dois quartos, o quarto do pai que ficou na mesma desde que este morreu e outro, mais pequeno, atravancado de estantes cheias de livros, o vício do Zé, a leitura.
O Zé é António, podia ser Tó-Zé mas não é. É António José Maria Cardoso, António porque o avó paterno era António, José Maria porque sua mãe era devota a Cristo, o Cardoso também é do avó paterno, que assim sendo tem a primazia do baptismo. Quis o destino que António Manuel Cardoso nunca tenha conhecido o neto. Foi Miguel Cardoso, pai do Zé, que assim prestou homenagem à memória do progenitor. Mas que interessa o nome, interessa o suficiente para dele contar-mos toda uma história se for essa a intenção. Não é este o caso.
O Zé tem uma paixão, a sua carrinha Toyota Corolla. Aos fins-de-semana, faça sol ou faça chuva, planta-se com a sua carrinha num local perto do mar e desfruta do prazer da leitura durante horas. Baixou os bancos de trás de modo a só poder transportar mais um passageiro. No banco do passageiro encontra-se um amontoado de livros. O motor da carrinha está afinado, a carroçaria não apresenta mazelas, a pintura está em bom estado, os interiores estão cuidados, gastos mas cuidados. Desde os seus oito anos que aquela carrinha é o seu meio de transporte, o seu automóvel.

(Cont.)



P.S. A história que agora começei pode ou não ser original, tantas são as palavras que já foram escritas, uma coisa eu prometo, não a copiei de ninguém embora me tenha inspirado num pequeno conto de nome “O Capote” escrito por Nikolai Gogol no século XIX que situou a acção na cidade de São Petersburgo

2007-08-04

Ressacando das férias (a culpa de quem não quer produzir)




De espada na mão decapitei uns quantos. Estava deitado numa toalha, numa praia…E o mar, sempre o mar e o som do mesmo agora nos meus ouvidos e eu deitado numa toalha.
O Sol, também o Sol. O Sol nos meus olhos cerrados e as figuras por ele criadas…e eu divirto-me e deixo-me levar.
Que bom o descanso…O descanso?! Sim o descanso, o mar manso, a toalha, a areia, o silêncio no grito da minha filha, “Pai já posso tomar banho?”, “Espera mais um bocadinho…”, “Vá lá Pai!...”.
Eu e a minha mulher tocando-nos por amor ao toque, o leve eriçar da penugem corporal, a sensação de que o tempo pode mesmo ser parado.
O carro sobe junto à falésia e de repente fura a rocha, uma vez e outra e outra ainda, desemboca num vale, numa rotunda, na escolha que sempre se faz quando se viaja sem destino, “Paulo, temos gasolina?”, “É melhor parar aqui.”.
De espada na mão decapitei uns quantos…Que nobre o sentido das coisas, são cortes temporários, cabeças que hão-de voltar ao lugar.
No dia seguinte o sol e eu, e a toalha, o agrado da irresponsabilidade, tenho tempo para vocês, consigo ouvir-vos melhor…Estamos numa ilha, isolados do mundo…
O que eu gosto mais das férias é a minha filha, a minha mulher…O cenário pode mudar, escolha-se o cenário!
A minha filha, a minha mulher, os meus amigos, o meu mundo!

Que pena as férias terem acabado…

2007-07-07

O que me ficou depois de ter escrito IV

A garrafa já está vazia
Raul não sente o alcool.

“Onde estás Joana?!”
“Joana…Joana…Joana…Joana!...?
Adormeci nos teus braços, entreguei-me no teu corpo, aconchego de mãe…”,
“Joana…Joana…Joana…Joana!...
Que vou eu fazer das folhas escritas?”.

A garrafa está vazia e ele tão cheio.
Poucas as palavras para tão cheio conteúdo.

“Tenho cem palavras escritas em Português escorreito, em verso, do verso filosofo, do professor frustrado.”,
“Preciso de ti Joana, dos teus braços, do teu corpo, aconchego de mãe…Não Joana! Estou a mentir-te…Não sei do teu corpo…Agora que não estás aqui!”,
“Joana…Joana…Joana…Joana…
…Lembra-me um sonho lindo…Fausto? Sim! O músico, o Português!”.
“Vou tomar banho, lavar-me de suores residuais, sínteses químicas, produtos das reacções, das minhas reacções…Joana…Joana…Joana…Espera por mim…Joana!...”

Guarda o saquinho de pó branco junto do arroz, na cozinha, cinco gramas mal pesadas.

“Vou desistir, pedir a demissão, a rescisão gentil do contrato…Amigável…Retirem-me da trincheira, da fronteira, da loucura…”,
“Que vou eu fazer dos meus ensinamentos, do meu entendimento, das horas que passei lendo tudo o que os outros pensaram, tudo tão depressa, demasiado depressa…Hoje, depois dos quarenta…Que irei eu fazer depois dos cinquenta?...Talvez F… , Pedro? Sim! O Português, o cantor!”

Abre mais uma garrafa, a última, a que provoca pânico de ausência, demência. Limpou-se delicadamente, vestiu-se de novo, como se novo fosse, como se não se sentisse velho. Ao fim de todos estes anos, tantas as páginas que faltaram.

“Joana…Joana…Joana…”

A demência, o pânico, a ausência…

“…Joana…”

Agora de novo, como se novo fosse. Novo de gestos lentos.

“Onde estás Raul, Dr. Raul, Sr. Raul, Professor Raul, Raul?...Onde estás Joana? Simplesmente Joana…No passado, na rádio novela, simplesmente Maria, simplesmente um nome…”

O saco com o pó branco voltou-lhe à mão. Entretanto Joana discute com o patrão. O patrão sente um enorme desanimo por ainda não a ter levado para a cama.
Raul pega no telefone…

“Atende Joana!...Janta comigo…Não me deixes só…”

A Joana vai sair mais cedo do escritório. Não sabe se vai voltar. O patrão, o Dr. João está a sangrar do nariz, em silêncio, encharcando um lenço de pano fino. A Joana atendeu o telefone.

“Sim, eu vou jantar contigo. Não faças asneiras…Promete-me…”, “Tu sabes que não posso prome…”, “Eu preciso falar contigo.”, “Eu também preciso de ti…”.

A Joana vai chegar a tempo de chamar uma ambulância. O Dr. Raul não irá voltar ao ensino. Seis meses isolado na serra da estrela fizeram dele um homem novo. Joana vai ficar com ele, ama-o. Foi ela que o levou para casa dos avós e lá ficou nos tempos mais díficeis. Depois arranjou emprego em Coimbra…Do resto não sei…Um conto é mesmo assim, é uma fracção de tempo, um pouco de vida, da vida…

FIM


P.S. Vou de férias. À Titá, ao PB, ao AD, à Isabel, ao Rocha de Sousa, à Elsa, ao Talk, enfim, a todos os que me visitam e comentam um abraço.
Até sempre!
(Sim, são estes os Blogues que eu mais visito)

2007-07-02

O que me ficou depois de ter escrito III

“Querida Joana…”, o desabafo, o arrependimento. Joana foi para casa cedo. Saíu ainda o sol não tinha aparecido. Preocupou-se com o quarto, com o Dr. Raul que desmaiara a altas horas da madrugada pregando-lhe um susto de morte. Chegou a falar com a emergência médica, pediu informações, instruções, procedimentos, agradeceu e desligou…O Raul tinha acordado e procurava o copo, cego, de gestos desconexos. Aconchegou-o no seu colo, adormeceram os dois…Antes de sair arrumou o quarto, silenciosa, vigilante do sopro de vida do seu amante. Está apaixonada, sempre gostou de se apaixonar, de todas as vezes sofreu…Sina de quem vive intensa a dependência amorosa…Mas quem poderá dizer que viveu sem a sentir?
Joana foi de carro para a cidade, ficou presa no transito e chorou enquanto ouvia as notícias das nove. Apeteceu-lhe telefonar mas não foi capaz. Agarrou o telemóvel com força até o sentir queimar…Largou-o bruscamente. Procurou o lenço na mala e deixou o motor do carro ir abaixo. Atrás de sim as buzinas começaram a tocar, uma mistura desagradável de sons estridentes que lhe agravou a tensão. Fechou os olhos e sentiu correrem-lhe lágrimas pela cara, percebeu que chorava novamente…Por momentos tudo despareceu…O motor do carro está a funcionar. Olhou-se no espelho retrovisor. Dois grandes riscos negros nas faces, um em cada uma, emprestavam-lhe um ar sinistro de palhaço assassino. Simétricos os riscos, o olhar que endureçera, “Reage Joana!”, “Que suplício!”, “Com sorte daqui a meia hora largo o carro.”.
Deixou a moeda habitual a um dos arrumadores habituais. Este revezava-se com mais dois que protegiam o local contra possíveis intrusos. Era sem dúvida o mais forte. Dizia-se Romeno, confessava a fome, os vícios, os crimes e mostrava uma garra fora do normal para quem anda naquela vida. Joana nunca se sentira incomodada com ele, antes pelo contrário, preferia a sua presença à dos outros dois “sócios”. Foi gentil o suficiente para reparar no desarranjo de Joana, suficiente para lhe perguntar se ela precisava de alguma coisa, para lhe garantir que não precisava de se preocupar com o carro e que o dia ia estar muito bonito. Sim, a Joana não tinha dúvidas quanto a isso. Precisava limpar a cara, tentar-se apresentável. Entrou no café que ficava mesmo junto à entrada do escritório de advogados onde trabalhava. Cumprimentou a empregada mais velha e fez-lhe sinal que precisava de ir à casa de banho. Esta desimpediu a ponta do balcão e preparou-lhe um chá bem quente com uma torrada.
Joana deixou-se ficar, de mãos no lavatório, olhando-se no espelho, “Gosto tanto de ti Raul, deixa-me pelo menos provar o mel… antes do fel…”, riu-se de si, da rima feita ao acaso. O que a juventude não faz, não há nada que pague a juventude, um sorriso, uma expressão que muda, os vinte cinco anos de Joana a mostrar frescura, sangue que é quente, contracenso, a frescura do semblante, o sangue quente…
Bebeu o chá em silêncio, perdeu-se na conversa de dois homens que discutiam uma contratação do Benfica. Enquanto mastigava a torrada reflectiu sobre a facilidade que os homens tinham em descarregar as suas frustrações no futebol. Nem todos eram assim, mas para o caso isso também não interessava, também as mulheres tinham os seus truques. No seu caso não eram as novelas ou as revistas, mas honestamente não poderia dizer-se imune a esse tipo de descompressão. Gostava de fazer compras, gostava de comprar, isso fazia-a sentir-se bem…Quando não estava a ler, a estudar, a escrever, a amar…Comprar e vestir-se…Joana era uma mulher bem feita, talvez um pouco magra, mas a roupa assentava-lhe bem e ela gostava da sensação.
Libertou-se do balcão com um beijo para a dona Marta que apontou a despesa num bloco.
Agora o trabalho, o escritório. Primeiro a entrada do edíficio, é preciso dar ordem às coisas…O edificio, que tinha beneficiado de melhoramentos recentes, era ostensivamente fruto dos anos sessenta, habitações plurifamiliares que se foram desabitando, pilar, viga. Não gostava dele nem o sentia confortável. Hoje, em particular, ser-lhe-ia ainda mais desagradável…


(Cont.)


P.S. Perdoem-me o espaçamento. Este conto vai ter de acabar até ao fim da semana...Depois...Férias...Descanso...Um abraço a todos os visitantes.

2007-06-23

O Trabalho (Pequena reflexão nocturna)

Diz Javé a Adão

“Maldita seja a terra por tua causa, e dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, todos os dia da tua vida. Produzir-te-á espinhos e abrolhos, e comerás a erva dos campos. Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado. Porque tu és pó e ao pó hás-de voltar.” (Génesis, 3, 17-19)

O penoso trabalho, o castigo diário cravado nas nossas mais remotas origens religiosas. Será que nos apercebemos da maldição, da cruz herdada de Adão, o primeiro a arrancar alimento através da canseira, do suor, até à morte…
Mas que dizer do trabalho? O trabalho é o que é, vale o que vale, o dos outros vale sempre menos…
Pesada herança a de Moisés que teve de convencer os Judeus, pastores nómadas, a praticarem a agricultura. Qual o argumento? Na verdade consegui-o convencendo-os da irreversibilidade do castigo divino. Distribuiu as terras e criou leis que impediam a sua venda definitiva. De cinquenta em cinquenta anos o Jubileu saldava todas as dívidas, a ninguém seria espoliado o direito à terra, ao ganha pão, ao trabalho!
Como poderão os ricos comer o pão com o suor no rosto, como poderão os pobres suar menos para comer um pouco mais de pão, como poderão os desempregados comer algum pão, pobres da pobreza , da miséria e da exclusão…E do trabalho.
Enquanto o trabalho for pago será sempre deficitário no número de vagas. Na escravatura não existe limite para a necessidade de fazer, construir, ampliar, angariar. A remuneração é um sério problema, travão do progresso.
Que novos reinos existem? Serão os países pobres os verdadeiros herdeiros da palavra de Javé?
Aqui fica a minha dúvida, a minha vertigem nocturna…



Um bom fim de semana a todos!...

2007-06-14

O que me ficou depois de ter escrito II

Em tudo acertámos, no copo, na casa de banho, no cigarro, no… Sente um amargo na boca, “O gosto amargo é causado por átomos redondos, macios, pequenos, cuja circunferência é, na realidade, sinuosa; portanto, ele é ao mesmo tempo pegajoso e viscoso.”, malditos filosofos, malditos átomos, redondos, macios…O amargo quimico da substância que lhe entrou pela veia, “Por convenção existem o doce e o amargo, o quente e o frio, por convenção existe a cor; na verdade são os átomos e o vazio…”, o vazio…”Demócrito defende que os elementos são o cheio e o vazio; chama-lhes ser e não ser, respectivamente. Ser é cheio e sólido, não-ser é vazio e não-denso.”, tudo se resume a um problema de densidade, e porque não?...
O coração acelera, tem palpitações de esforço. O embolo desce e sobe uma vez, duas vezes, três vezes…E pára! Por momentos as forças vão-se, impossível o gesto, o movimento, perdido no orgasmo que é todo aquele sentir, aquele calor e logo a seguir o arrepio de frio e as forças novamente a voltarem…”Um dia não volto…”. Agora sim, está pronto para enfrentar o carrasco branco. “Onde é que eu ia?...”, estranhou a arrumação, as folhas alinhadas, o repouso da máquina sobre a mesa. Pegou nas folhas como se não fossem suas, como se aquelas palavras não tivessem nascido do contacto dos seus dedos com as teclas, e passou-as uma a uma, uma a uma olhou-as sem as ler, admirando-se da escrita, do contorno preto das estrofes…Nem bem preto…Mais cinzento…”Que bela silhueta…Terá igualmente belas palavras…”…

“Que fazer com o saber que me incomoda
Filosofo do pecado
Irmão gemeo que me ocupas…
Bebe um golo e cerra os olhos com força
Marca a vida antes que ela te fuja
Dá-lhe metade de ti
De mim
Não a deixes ir sózinha…Matéria…”

Não se reconheçe nas palavras, no desabafo feito poema, “Que merda é esta?...”, “Onde está a prosa segura que me caracteriza, onde estão os mestres que deveria evocar?”…”O intelecto actua sempre como se o fascinasse a contemplação da matéria inerte. É a vida a olhar para fora, saindo de si mesma, tomando como principio os caminhos da matéria inorgânica, para dirigi-los de facto.”, “Bergson tem razão…Que fascinio…O intelecto com o poder de ver as coisas separadas e a matéria para as destinguir como diferentes…Será que alguma vez o compreendi? Que me interessa isso agora? Se está certo ou errado…Só me interessa o belo…”, “Porque não me sai bela a poesia? Porquê a amargura…Falso filosofo, falso poeta…”.
Enrola mais um cigarro, acaba de beber o que resta no copo e enche-o novamente, está calor. Decidiu abrir os estores e o sol quase que o cega, “Que bonito dia, que boa essa energia solar, fonte de vida…E de morte…”. No prédio em frente, duas adolescentes numa janela fazem-lhe caretas de nojo. Apercebe-se do seu triste estado, “Aonde queres chegar Raul…Dr. Raul…Professor Raul…Raul?”, afasta-se da janela e apaga o candeiro, refugia-se no fundo de um sofá velho, em pele, de um avó famoso, também ele Doutor, Professor, homem de grande saber, de grande capacidade de trabalho, com extensa obra públicada…”…Ouve bem Raul, sem trabalho nada se consegue. Os sonhos são bonitos mas precisamos conquistá-los.”, “Sim avó.”, ou só o dizer que sim com a cabeça, que idade teria?
O pensamento cortado pela presença de um pedaço de papel, porque não reparou nele? Estava junto da garrafa, agora definitivamente meio vazia. Um pedaço de papel pequeno, bem dobrado, bem cheiroso. Desdobrou-o adivinhando-lhe letras, palavras, frases, sentidos.

“Amo-o Dr. Raul
Amo-te Raul
Não te destruas por favor

Joana”

“Joana…Afinal foste tu…Querida Joana…”


(Continua...Com um abraço para todos os que se dão ao trabalho de por cá passar)

2007-06-05

Para lá dos recantos, dos segredos da alma.


Para lá dos recantos, dos segredos da alma,
Das crenças e superstições.
Distante fica o corpo, observando-nos em fuga…

Retenho o cheiro da seara ceifada,
Os fardos de formas geométricas,
O aroma do caule cortado, multiplicado…

Tenho o segredo de mim,
Sei-me fazer feliz,
Egoísta do que não sei nem quero saber…

Olho para cima e invento deuses,
Faço do que me ensinaram,
Sei que não tenho a chave…

Tenho a porta aberta,
Numa amplitude incerta,
O suficiente para passar…

…A areia que desliza na ampulheta…
O mecanismo gravítico, movimento manual que prolonga o tempo,
Não me posso esquecer de a virar…
Escorre e dá-me a medida do que existi, do que existo, do que tenho para dar.
Sou eu que te peço, agora que te virei.
Vejo o amontoado de tempo, acumulando-se no fundo,
O fio de areia que o aumenta…Escorre e responde-me granulado temporal…

Obrigado!
Pelo teu silêncio de frequências, rumor de partículas roçando-se.
Obrigado por me fazeres olhar…
Para lá dos recantos, dos segredos da alma.

2007-06-02

O que me ficou depois de ter escrito

A janela de cortinas arregaçadas parecia nua e oferecia do alto do segundo andar um espectáculo de desordem e sujidade a quem, convenientemente colocado, o pudesse contemplar. Numa cama de casal uns lençois, que já deviam ter sido brancos, eternamente enrodilhados salientavam o ar de abandono. Além da cama pouco mais havia a registar, uma cómoda pequena a seus pés, uma escrivaninha e uma cadeira encostadas à parede que defronte para a janela ostentava uma gravura a carvão de um mosteiro, numa moldura envelhecida. Algumas garrafas de vinho pelo chão e dois cinzeiros completamente cheios, um na cama outro na escrivaninha, eram adereços de uma companhia de Teatro sem subsídios. Na janela ao lado o contraste era evidente, com os estores totalmente fechados como que negando todo e qualquer raio de luz que ousasse iluminar por pouco que fosse a escuridão que se adivinhava nesse quarto, levando-nos a concluir, talvez um pouco apressadamente, que se no outro quarto não se via ninguém, neste deveria ser presença pelo menos um ser humano. Embora apressada, a conclusão estava correcta, efectivamente havia vida nesse quarto, alguém que dormindo, procurava passar despercebido ao mundo exterior, esse que por norma nos costuma rodear e nalguns casos trágicos digerir. Como não se pode ter tudo, correcta a conclusão, errada a escuridão que se tentou adivinhar. Um candeeiro de pé alto iluminava uma sala onde tudo parecia demasiado arrumado tendo em conta o aspecto abandonado do homem que dormia em tronco nu, num sofá que poderia ser cama se o tivessem aberto para esse efeito. Este homem não é de se preocupar com locais para dormir, o sono vem-lhe do cansaço, das horas de desassossego.
O sol está a pique, como deve estar o sol que quer queimar. Algumas gota de suor escorrem-lhe da testa, destilam o veneno que o consumiu, doce veneno…Hummm, doce veneno…Quando acordar logo sentirá a carência. Arrumada, a sala mostrava-se indiscreta aos vícios, uma caixa metálica com algodão, uma seringa de vidro e respectiva agulha, um vidro de relógio, uma garrafa de água, um saquinho de pó branco…Uma garrafa de Grants meio cheia…Meio vazia…Sempre a mesma merda de dilema…Desde que não seja a última…Não consegue dormir sem saber que pelo menos existem duas garrafas por abrir…Ao acordar a mão pede o copo, o copo pede a garrafa e ela tem de estar lá…Como poderia ele escrever, como poderia ele ensinar…Ainda se dão ao trabalho de o ouvir na faculdade onde dá aulas de filosofia…Esqueçeu os filosofos sem esqueçer a filosofia, algumas más linguas acusam-no de inventar…Tudo mentira…
Está de baixa vai para três semanas, para escrever o livro que o vai tirar da miséria, que o vai libertar de patrões…Desculpas, mais de vinte dias a consumir de modo intensivo…Escorre-lhe suor do corpo magro, branco, magro sem fragilidades, branco sujo da vida.
Acordou, os olhos mantêm-se fechados, primeiro só os ouvidos, o emaranhado sonoro, o fio por onde lhe pega, na agulha, na cabeça, a ambulância ao longe, os miúdos na rua, o autocarro que arranca, o trinco da porta da escada…Também ladram, os cães da vizinha…
Já tem todos os sons, agora sim pode abrir os olhos, um de cada vez, devagar…O corpo ainda não se mexeu…Quando o fizer vai pegar no copo e vai reparar que está vazio, vai enche-lo com a garrafa meio cheia, meio vazia, verificar do stock…Só depois a casa de banho, o cigarro sem filtro que vai enrolar à mão, o saquinho de pó branco…Está a ficar vazio…Como a conta bancária…Está quase o fim do mês…
Ainda usa máquina de escrever, como o Paul Auster, só que não houve nenhum artista a querer pintá-la, nem ele que também se julga pintor. Também a máquina está arrumada, alinhada com a mesa, alinhada com uma resma de folhas escritas.

(I Parte, tem continuação)

2007-05-30

Foi hoje! Podia ter sido outro dia...

Manifesto de intenções

Eu prometo não inventar mais do que posso.
Prometo também escrever…escrever sobre tudo…sobretudo o que não conseguir esconder.
Não tenho pretensões moralistas, nem acredito que alguém precise delas.
Sou novo da idade, de que me quero, sou velho da idade que já tive…E acrescento…
Regulo os dias por horários.
Regulo os dias pela pausas…Entre cada pausa um anseio…
Não durmo enquanto falo.
Nas escadas, se as desço, olho para os pés…Não é visível…
Entristece-me o adeus definitivo, o abalar sem perspectivas.
Não evito confrontos, mas preciso de razões.
Por elas vou lutar todos os dias.
Na indignação, no desencanto vou encontrar motivos para viver.
Prometo não me esquecer.
Vou-me lembrar de ti e de todos os que estiveram comigo.


Greve Geral

Escrevo estas linhas sem ter ouvido a comunicação social. Levantei-me cedo e fui andar de bicicleta, estou de folga. Havia tempo que eu não me sentia tão bem. Benditas sejam, a cremalheira, a corrente, todo aquele conjunto de engenhocas que me permite galgar distâncias, encontrar-me só com as minhas decisões…Parece fácil mas não é...Quando se pedala os caminhos que se escolhem pegam-se ao corpo, pagam-se com o corpo…É preciso saber quanto o corpo vale, fazer a gestão do seu valor…Também para a vida…Durasse a vida cento e oitenta minutos, o tempo de uma volta no campo…
Não estou em greve, estou de folga. Chateia-me não ter sido posto à prova, aferir do meu inconformismo. Nada a fazer, se tenho dúvidas com elas vou ter de ficar. De qualquer maneira é a primeira vez que, enquanto trabalhador sindicalizado, não faço greve.
Não sei se foi um êxito ou um fracasso, da minha experiência estas coisas não se medem como no futebol…”Quem ganhou?”, “O Governo, três zero!”, ou, “O Sindicato, dois a um!”, ou ainda, “Empataram a zero!”, são outras as questões. Estamos ou não treinados para ver esta coisa das greves como coisas de comunistas? O que é ser comunista? Quantos de nós leram Marx ou Lenine? Confesso que li pouco.
Percebo no entanto o sonho dos incógnitos, a necessidade de justiça de quem não se evidenciou, obviamente e por definição, a grande maioria.
Entendo a greve como uma medida de protesto, um medir forças com o poder, com todas as consequências que possam devir desse facto. Assusta-me a represália, o despedimento, a exclusão social dos desempregados, a culpa do insucesso, a culpa é nossa! De quem mais haveria de ser?
Hoje, dia trinta de Maio de dois mil e sete, houve com certeza gente corajosa, gente que fez por nós o que gostaríamos de ter feito…Mas não fizemos…Quando nos falta a coragem tão fáceis são as desculpas…Não interessa se são comunistas, istas…Interessa saber se acreditamos no caminho ou se estamos lá apenas por que nos falta a garra, medo de acreditar que haja outras soluções.
Amanhã tudo voltará à normalidade. De alguma forma vamos esquecer isto tudo e trabalhar para os novos impostos…”Sim! A electricidade é mais barata em Espanha.”, “Os professores na Escócia ganham três mil e seiscentos euros.”, “Sim, fomos mal governados e por esse motivo estamos a pagar mais que os outros…Isto não era preciso sermos Espanhóis, bastava-nos um Rei, ou talvez Salazar…Quem sabe…”.
Perdeu-se a culpa, na curta memória do último fim de semana já não se sabe quem lixou isto tudo. Foi Salazar, foi a democracia, os anos comunistas do PREC, os anos socialistas, a AD, o PSD, o PS, novamente o PSD agora com o CDS, novamente o PS…Talvez os Portugueses…Em última análise esses serão os culpados…Sim! A maioria de nós vai pagar por isso.

2007-05-26

Para além do Tejo

Espelho, espelho meu, existe alguém mais burro que eu?
Eu nasci para ser cão, não um burro! Cabrão de espelho…Que teimosia em duplicar-me com orelhas grandes, espetadas, olhos grandes, negros, estúpidos.
Costumo ladrar desencontrado com os outros, para me ouvir, para afinar o meu gemer canino, fazer-me de cão. São cascos senhora, são cascos, as extremidades que me unem ao chão e embora eu esteja convencido de que estou a uivar, será a voz de um burro o que de mim sairá…Eu até já estou habituado à ideia, desiludido mas habituado, acomodado.


Hoje é o deserto, alguém que me alerta, “Vives num deserto, não tens hospitais, não tens escolas, universidades, comércio, pessoas…Não existes e assim vais continuar, nómada da minha indiferença”. Obrigado Sr. Ministro, agradeço-lhe pelo que tenho de mais sagrado, a sua falta de atenção, a sua insensibilidade, a sua falta de educação. O que somos nós a Sul do Tejo, aquele terço de Portugal que se estende até ás praias do Algarve onde tudo muda?
O Sr. Doutor Almeida Santos é peremptório, venham os terroristas, destroem-se as pontes e pimba, toda a segurança nacional fica ameaçada…Ou Ota ou morte!
Espelho, espelho meu existe alguém mais camelo que eu?
Não tenho particular apreço por aeroportos e aprecio o esforço dos responsáveis governativos por me confundirem com a paisagem, sou apenas aquela coisa à beira da auto-estrada ou por detrás da colina…Lá mais dentro no planalto ou do outro lado, para junto do Oceano Atlântico.
O engano, a inconveniência, o deslize, o fugir a boca para a verdade. Desta vez não me posso queixar, são eles próprios que o dizem, país pobre, de baixos salários, que precisa de flexibilizar-se…E tanto que nós temos sido flexíveis…
Há quem diga que estes momentos de reflexão, em que são apanhados os nossos ministros, são perfeitamente normais. Pela minha parte considero-os úteis, quase as anotações de Napoleão no “O Príncipe” de Maquiavel. Aprende-se muito nas entrelinhas.



Eu que nasci para ser cão acabar assim, burro de burrice inteira, asno assumido, instrumento de carga de mercadoria desconhecida.
Também já me explicaram que não é obrigatório o crescimento económico ter reflexos na vida da maioria dos cidadãos, que o serviço nacional de saúde foi sabotado por terroristas internacionais, os mesmos das pontes sobre o Tejo (eles andam ai!...) e que a sua reconstrução vai ter a minha contribuição, se entretanto não me despedirem, ou dispensarem, ou desligarem…Parvoíce…Eu sou um burro e os burros não se desligam…Abatem-se!
É isso mesmo! Sinto-me como um burro…A presidência europeia, a presidência da rosa, as pétalas simbolizando os países da união sobre o azul do mar…
E eu burro com pretensões a cão, ladrando, zurrando…Acudi ao paço Real que matam o burro!

Foi o comentário da semana pelo inventado repórter Paulo Guerreiro, enviado especial no deserto para além do Tejo.

2007-05-16

E se tudo não passasse de um sonho?




Na Paróquia tudo está calmo. O Padre Miguel parou o carro no parque. O parque está vazio como sempre se encontra à hora da sesta. Deixou-se ficar sentado, de mãos agarradas ao volante, o motor ainda a trabalhar. Na rádio as notícias das duas terminaram. O locutor anunciava agora que o programa iria continuar com música. Tirou a chave da ignição com o intuito de eliminar ruídos. Os sinais luminosos no painel de instrumentos desapareceram, desapareceu também a indicação que o avisava da necessidade de encher o depósito. Levou a mão ao bolso à procura da carteira, quarenta euros em notas de dez e um papel de Multibanco evidenciando um saldo diminuto, maldito ordenado que mal chega…Dinheiro divino mas curto. Saiu do carro e fechou a porta com cuidado, procurou no comando o botão do fecho centralizado e activou-o. Ouviu o ruído automático das trancas. Deixou que o olhar acariciasse a viatura comprada em segunda mão, um Seat Leon em muito bom estado, um favor ao Sr. Padre. Nunca um objecto lhe tinha dado tanto prazer…
Junto ao passeio que cercava o parque, encontravam-se flores cuidadosamente plantadas pelos jardineiros da autarquia. Agora, na primavera, e depois da poda que as fez rejuvenescerem, perfumavam o ar e coloriam a atmosfera. Sentiu-se tentado a colher uma, que diria a dona Rosa se o visse de flor na mão, será que perceberia a nostalgia do gesto, a alegria infantil, a libertação da mente em relação aos dogmas, a atitude simples de um homem que também foi criança, ou antes acharia o acto despropositado, estragar assim o jardim da igreja, logo o Sr. Padre, “Olhe lá Padre Miguel, o senhor sente-se bem?”.
Se a dona Rosa estivesse lá para o questionar e se ele tivesse colhido a flor poderia responder-lhe que sim, que o cheiro daquela flor na sua mão lhe tinha trazido um enorme conforto. Não a colheu e entrou triste no pequeno átrio que antecipava o local de oração. Benzeu-se num gesto automático que hoje não tinha significado de motivação, apenas respeito ensinado. Sentiu vontade de chorar, sentiu o peso dos seus cinquenta e dois anos de idade, trinta anos de paróquias, de jovens raparigas que o tentaram, de velhas que o enjoaram, benzeu-se novamente perante o pecado do pensamento, o lamento, já não tinha idade para dúvidas…
…”-Faz-me o favor de um retorno certo. Eu espero, tu sabes que eu espero, sempre esperei…Amanhã? Porque não?!
-Serás capaz de aguentar as minhas demoras? As indecisões próprias de quem não tem certezas?! Será o teu amor tão grande que roce a imbecilidade?
-Dúvidas tu da minha capacidade para me anular, para te amar, incondicionalmente?....
-Duvido que te dures eternamente escravo, escravo de mim que não quero ser tua dona.
-Que provas te posso eu dar? De tudo eu desisto…Desisti…Resta-me a tua presença, as tuas palavras, o som delas materializando-te, o ter cheiro, tu…
-Doentio esse amor que construíste. Não posso continuar a ser personagem nessa história, nunca poderei garantir um final feliz para a tua vida.
-E quem pode?...
-…Nem tão pouco a esperança que tal pudesse suceder.
-Nunca te pedi isso, apenas que me deixes sonhar, sonhar este amor que não existe, se necessário morrer por ele…
-Não sejas trágico, patético.
-Não é necessária a ofensa.
-Tu obrigas-me a ser assim. Eu não gosto de ser pressionada…Gostava de poder ser tua amiga…
-Tu és minha amiga, a minha maior amiga…Terei culpa de amar a minha maior amiga.
-Não terás culpa do amor mas por ele a amizade pode ser destruída…Se não o foi já…”
Sim…Nessa altura teve dúvidas…Não tivesse havido a recusa e a vida teria sido diferente…Qual o problema da idade, o que são quinze anos quando se ama…Ele dezassete, ela trinta e dois, madura de dois filhos e três relações frustradas…
A quem se confessa um Padre?
O Padre Miguel não vai ouvir confissões, hoje não é dia para essa tarefa, penosa tarefa de ouvir os outros pecarem por ele, pecados pequenos, outros maiores, mas nunca de mortes ouviu testemunho.
Miguel hoje não se sente Padre…Sente-se criança, com saudades da terra, o cheiro lembrado que faz chorar, o cheiro que nos guia quando a vista nos engana…
Sentou-se na primeira fila, defronte ao altar, à Cruz, Cristo que não está lá mas se pressupõe…Que interessa se existiu…A história existe e é Linda, Bela, Pura, o limar dos Evangelhos na unificação factual, o clímax da virtude e do sacrifício, a declaração carnal da existência do Supremo, do Divino…
Quantas vezes falou em seu nome?...
“De que falei eu?...E se tudo não passasse de um sonho?...De quem este corpo que eu comi, este sangue que eu bebi, esta memória que não me deixa fugir?....”
Na pia santa a água benta convida-o à penitência…Penitência…
…Ainda tem o número da irmã…Penitência…
O Miguel não vai ser Padre esta noite…

2007-05-07

Declaração




Por detrás o sol nasce cinzento
Reflexo polido
Esfera afagada.
Por fora o brilho que ofusca
A luz que não mostra
Contorno apagado.

Tenho o contorno na mão
No papel que o lápis suja
No meu dedo na areia
Na projecção da minha sombra
Na assinatura do poema.

Cresce
Criança velha
Da vida
Cresce
No sentido decrescente
No lugar poente
Para onde tudo cresce.

Cresce e perdoa-te
Porque crescer é pecado para ser perdoado.


O sol que nasce mudou de cor
Cinzento sou eu se não a souber
Olhando para ti
Minha flor
Meu amor.

Toca-me ao de leve
Leva de mim um bocado
Deixa de ti o que puderes
Para eu poder tocar-te.

Hoje vi a cabeça de um passarinho
Morto
Na primavera da minha rua
Na distância da árvore.

Hoje foi ele
Não fui eu
E eu estou feliz por mim.

Vou poder chegar a casa
E dizer que te amo.

2007-05-03

Fim de Semana

Teatro de sombras, ao Sul









Barragem, prisão de água
















Alentejo Vermelho, sonho ou alucinação?
(fotografias editadas pelo autor, barragem de Odivelas, Baixo Alentejo)

2007-04-30

Feriado vivo

Do dia vinte cinco de Abril tenho várias lembranças. A primeira das primeiras veio com a experiência festiva dos meus pais. Festejavam nesse dia o casamento, união acordada, paixão confessa em meados de sessenta. Aprendi o dia e entreguei-lhe um significado que durou até mil novecentos e setenta e quatro. No dia vinte cinco de Abril desse ano acrescentei-lhe outro. Tanto que esse dia me deu…Tanto que falar, que ouvir, histórias que todos tinham medo de contar. Todo eu sou depois, filho da liberdade. Só depois percebi a busca em minha casa, o meu pai indo embora, a minha mãe a chorar.
Dias atrás tentei escrever qualquer coisa sobre o assunto mas não fui capaz, faltaram-me as palavras para explicar. Indignação, talvez… Por feliz coincidência comprei o jornal “Público”, edição de vinte e oito de Abril de dois mil e sete, ano XVIII, nº 6238, e na página 45 deparei com o seguinte artigo, “Feriados vivos e mortos” escrito pelo José Pacheco Pereira. Este ano gostaria de ter escrito esse texto…”O vinte cinco de Abril é um dos poucos feriados vivos que ainda existem”, palavras que antecedem o título…”A manifestação popular do vinte cinco de Abril é uma não-entidade, um caso curioso de como uma coisa que existe não existe nem para os media, nem para a mecânica da opinião pública e publicada”…Palavras chocantes sem dúvida…Mas que dizer das comemorações do dia da Restauração, que dirão aqueles que desejam ser espanhóis nesse dia feriado, e que dirão os monárquicos no dia da implantação da Republica, mas quem se lembra?...Serão esses feriados vivos? Soubéssemos nós da nossa história e lembraríamos com menos asfalto e frenesim consumista esses dias.
Termina José Pacheco Pereira o artigo com as seguintes palavras, “Resta pois o único feriado vivo de carácter histórico e cívico, o 25 de Abril, porque continua controverso e divisor, politicamente pouco neutro e mexendo com a paixão ou repulsa das pessoas que o viveram e que ainda são muitas. Mas como em tudo, é só esperar que o tempo o mate. A entropia fará o serviço de reduzir o 25 de Abril ao 5 de Outubro, como reduziu o 5 de Outubro ao 10 De Junho e o 1º de Dezembro a nada. Ficou alguma coisa?...”. A esta pergunta o autor do texto responde, “Ficou e muita, mas perderá a data como referência e ainda bem, porque significa que teve sucesso depois de estarmos todos mortos.”. Pensei muito nisto… não seria desta maneira que finalizaria o artigo…Que ficou alguma coisa ficou! Se vai ficar depende do que ensinarmos aos mais novos…Mesmos depois de mortos…
Como também diz Pacheco Pereira “…A liberdade, algo tão abstracto porque felizmente ainda existe como o ar que se respira, ou seja, não se dá por ela a não ser quando não se tem.”.
Não sou do Partido Popular Democrático, que perdeu o Partido Popular para o Centro Democrático social e se tornou Social Democrata, ou do Partido socialista que substituiu o punho em fundo vermelho pela rosa, ou do Partido Comunista tornado CDU, talvez não seja de nada, talvez seja parvo…O que sei é que enquanto viver vou agradecer todos os dias aos capitães de Abril.

Nota: O Texto do Pacheco merece ser lido…O Social-democrata mais comunista que eu conheço.

VINTE CINCO DE ABRIL SEMPRE

2007-04-20

A Lagoa X (Finalmente o fim)

Difícil foi a tarefa de identificação. Por entre gritos e insultos lá conseguiram o nome de toda a gente. Alguns, conhecidos, apelavam a esse facto para obterem tratamento especial. As circunstâncias não o permitiam e esse apelo foi ignorado. Finalmente, presos os treze homens, puderam os guardas concentrar-se no pinhal e na lagoa.
Para fazer cumprir a interdição do acesso a esses locais foi deslocada a polícia de intervenção, agora que a situação no hospital estava sanada. Com os efectivos todos na rua, a GNR sentia-se impotente perante a onda de violência que se deslocou para a cidade. Dizia-se que havia mais mortos no pinhal e que as autoridades queriam ocultar a questão. Na verdade, por entre o mato, haviam mais dois cadáveres, mas as autoridades não tinham disso conhecimento, são um aproveitamento da situação. Quem provocou estas mortes quis misturar intenções, dispersar culpas, livrar-se de alguém incómodo.
Desconhecem-se as causas que levaram as águas da lagoa a mudar de cor. Sabe-se que os peixes morreram e as plantas apodreceram deixando por cima da água um cheiro azedo de decomposição.
Também o pinhal mudou de cor. Com o avançar da tarde levantou-se vento forte e aumentou o calor. Passavam trinta minutos das três horas. O fogo apareceu do lado do mar, do lado menos guardado, rapidamente consumiu os pinheiros.
Foram estas cores, estes tons de vermelho, que fizeram parar a violência humana. De todos os lados convergia gente e uma enorme multidão se juntou em silêncio à beira da via rápida. Do outro lado o fogo, entre eles a polícia de intervenção que lá ficara com a incumbência de vedar acessos. Acessos que pelos vistos não vedou. Embora habituados a estas andanças, alguns dos rostos destes homens, geralmente duros e insensíveis, mostravam uma perturbação anormal.
Pedro e Alice tinham ficado na cidade e procuravam acalmar dois grupos que se tinham envolvido em confrontos na paragem dos Expressos. A coisa não estava fácil, as pessoas facilmente se dispersavam recomeçando as escaramuças algumas dezenas de metros depois. As ruas largas e o terreno aberto não ajudavam a conter tanta gente e eles eram só dez. Fez mais o cheiro a queimado do que os seus esforços, na luta desigual que travavam. Os confrontos acabaram subitamente e as pessoas, como autómatos, dirigiram-se para o pinhal e para a lagoa. Pedro e Alice pediram novas instruções perante esta nova situação. Não tinham efectuado detenções e os feridos, se os havia, tinham desaparecido arrastados pelos desertores, pela forte ventania sem direcção definida.
Pedro vai saber da mulher, do filho mais novo, Alice vai com ele. Os outros guardas seguem em direcção ao inferno.
Ouvem-se as sirenes dos bombeiros. Momentaneamente cercado pela lagoa e pelo mar, o fogo investe violentamente contra a via rápida e desagua pelo lado sul por onde o pinhal se prolonga até aos viveiros, até ao tratamento de águas, até à rotunda.
Dos dois corpos que lá se encontram só o carvão é testemunha da sua presença, talvez os especialistas consigam descobrir identidades.
Na lagoa o peixe que veio à superfície para morrer, jaz boiando junto às margens. Também as enguias e os lagostins lhe fazem companhia, fauna morta, feita fronteira entre a terra e a água. Vermelha, a água reflecte o vermelho do fogo. Do pinhal, nuvens negras de fumo, rodopiam em pequenos tornados. O calor é insuportável e o vento decide empurrar as chamas de encontro ao asfalto. São as faúlhas que o atravessam pegando fogo ao mato rasteiro do outro lado, do lado da cidade, na periferia sul.
Acossados pelo fogo os polícias de intervenção empurraram a multidão. A princípio estupefacta, a mole humana dispersou em direcção à cidade. Pequenos grupos de corajosos cidadãos organizaram-se junto às primeiras habitações decididos a defendê-las.
Mas depois de atravessada a via rápida as primeiras casas tornaram-se cordeiros dispostos ao sacrifício. Vê-se gente acorrer num atropelo de urgência, na defesa dos seus lares.
Sem razão para estarem presentes, os elementos da polícia de intervenção foram desmobilizados. Corporações de bombeiros das povoações vizinhas apareciam de todos os lados. A coordenação era difícil e ainda se encontrava muita gente nas ruas.
Travado no lado sul pela rotunda e pela colaboração dos trabalhadores de duas fábricas perto do local, o fogo ocupava-se agora a queimar as casas na orla da cidade. Mesmo com os meios dispersos os soldados da paz tentaram salvar as habitações que ainda não tinham ardido. Entretanto, no lado norte, mesmo junto à lagoa, o lume encontrara uma pequena passagem de mato entre as águas e a estrada ameaçando várias pequenas quintas ao longo da costa. Libertara-se o inferno e este tudo consumia.
Desesperados, antigos rivais, lutavam lado a lado na tentativa de travar a destruição. Tivesse esta união vindo mais cedo…..
De como tudo recomeçou passados tantos anos há-de ficar um mistério para as autoridades e para a população. Eu, no entanto, sou o narrador e tenho por obrigação saber mais, e do que sei vou-vos contar. Sei que as duas crianças foram mortas por vingança, vingança do Rafael. O Rafael que não resistiu às insinuações do caseiro, pai das meninas, e que frequentava a sua filha lá para os lados da rotunda. Ele sabia o que custava ter perdido uma filha…O outro havia de perder as duas…Não abusou delas, não era essa a intenção, destruiu-as por dentro apenas para camuflar o crime. Nessa mesma noite, no café do Aníbal, encontraram-se os dois e numa troca de olhares o caseiro percebeu quem o tinha feito. A espera foi feita nessa mesma noite, a asfixia foi rápida, também ai a destruição interna do cadáver foi pormenor de encobrimento, pormenor que não teve com Dona Inês que sabia o que Rafael tinha feito e foi à casa do caseiro para lhe contar. Este matou-a com uma faca e com a ajuda da mulher deixou-a junto à lagoa.
A verdade destas mortes ficou selada quando o casal sucumbiu perante o fogo. Na tentativa de salvarem a sua pequena quinta deixaram-se cercar e morreram carbonizados….
As outras mortes foram fruto da situação, assim como os conflitos e ódios que germinaram entre a população.
Ficam duas perguntas…E o fogo no pinhal? E a água envenenada? Terá sido castigo divino?
Talvez as respostas estejam no empreendimento turístico que vai ser construído no local onde existia o pinhal…Junto à lagoa…

Fim

2007-04-12

Três pequenos textos sobre a vida… Sem nexo…




De faca na mão à procura do destino risquei todos os carros que encontrei no caminho da estação, carros grandes e pequenos, de cores híbridas, disfarçadas pela noite. Faca de cozinha com vinte centímetros de lâmina, os alarmes tocando nas pressões maiores, nas penetrações profundas. Pessoas à janela e a faca que desaparece no blusão de ganga e o blusão de ganga desvanecendo-se no fundo da rua, tal como os carros todo ele híbrido na cor. As montras apelativas e as marcas nas montras, as marcas de gordura do meu nariz no vidro fabricado vitrina, procurando tocar nas outras marcas. A polícia que passa depressa, o desinteresse despercebido, figura diluída, alguém que grita “Foi ele!!!”, demasiado tarde…O movimento do corpo deixa cair a faca que volta a riscar na rua seguinte. Um casal em silêncio, olhos nos olhos com a loucura, o branco demasiado branco, dois círculos pretos, aberturas escuras, buracos negros desesperando por luz. O casal que é sombra, tudo é sombra, também eu sou sombra no meio de sombras. A estação está guardada, por guardas, por sistemas de vigilância, por silhuetas suspeitas que me fazem recuar, o recuo físico da lâmina no avanço do resto do corpo que atravessa o átrio rumo a nenhures…








Inventei margens junto ao rio, só para ir de uma à outra. Não construí pontes nem jangadas, mergulhei nas águas, ontem revoltas, hoje paradas. Nadei até me cansar e quando me cansei nadei mais…Tenho lama e lodo nas mãos, marcas de quem esgravatou para subir. Nas unhas sujas bocados das margens que alcancei. Percorri terrenos alagados onde enterrei os meus pés, fossem eles de barro e teria lá ficado. Tenho sede dos pântanos, dos mosquitos e suas bombas de sucção, motores insaciáveis na imensidão do meu sangue. Cortei canas por apelo, por amor à vara verde. Soubesse eu tocar e teria feito uma flauta. Das varas fiz bordões que levaram os meus passos, passos que me levaram…







Hoje jantei junto à televisão. Ligada que estava informou-me das coisas, coisas importantes. Disse-me de cursos de ministros, de professores de ministros, executores de politicas, da existência de um título que os defina, lhes dê importância. Falou-me de outros que não são ministros mas desejam ser ministros, da sua indignação perante a falta de confirmação das valências do que entre todos é o primeiro. Explicou-me que no ecrã as pessoas tornam-se mais pessoas, que entre filhos abandonados existem uns mais abandonados que outros, com pais mas sem pais adoptivos presos, sem o apoio da nossa opinião. Fez-me acreditar que precisamos de mais um aeroporto, porque três é a conta que Deus fez, porque sim, porque mesmo sem dinheiro podemos fazer romarias nesses locais de culto, olhar o progresso e sentirmo-nos nele. Convenceu-me que na agricultura os problemas são os agricultores, que não souberam semear o dinheiro que receberam, fadado que estava ao crescimento, desperdício de boa vontade. Explicou-me que lá fora acreditam no caminho que seguimos mesmo que nós não saibamos qual é, tudo uma questão de fé. Mostrou-me que na assembleia também existem seres humanos com virtudes humanas e defeitos humanos (Um abraço à Odete pela sua maneira honesta de ser, mesmo quando é inconveniente…Vou sentir falta), que também se vão embora com mais de vinte cinco anos de trabalho e possivelmente sem entrada directa numa das grandes empresas sedentas de assessores, paciência…Contou-me a história de um parto numa ambulância, no Alentejo, a mim que não sei de ambulâncias mas sei o que é levar uma mulher a parir, a cem quilómetros de distância do local de residência, noite passada numa pensão, “Ainda não é hoje, o melhor é ir-se embora e vir amanhã.”, eu que não fui, que a deixei lá para ir dormir num quarto de aluguer, “Pode vir que vai nascer.”, sete horas da manhã, “Tenho tempo para pagar?...”, passaram-se mais de seis anos e esta já era a realidade, mesmo quando fizemos um cordão humano e a ministra da saúde, Maria? De Belém? Que nome mais apropriado, nos disse que tínhamos de foder mais, não nascíamos em número suficiente….Poderemos nós morrer em número suficiente para garantir as reformas?
Passaram sete horas desde que abandonei o ecrã amigo. Depois disso fiz o resto do serviço, desliguei equipamentos e luzes, fechei portas, entreguei chaves vim para casa e estou a escrever (Decididamente a hora não ajuda). Apeteceu-me desabafar…Os textos ainda não estão publicados mas é esse o seu destino…Hoje, ao fim de uma semana sem me ligar ao mundo deixo aqui o meu testemunho.

2007-04-04

A Morte é...

A morte é vida camuflada,
Uma alma desnivelada,
A luz invisível de uma vela,
O choro de alguém a uma janela,

Um lenço preto estendido numa corda,
O sono de alguém que não acorda,
Um monte de terra e uma cruz,
O brilho de ouro que não reluz,

Uma ajuda que nunca vem,
Um lamento vindo do além,
Um charco de água gelada,
Uma conversa cortada,

Uma vida que desaparece,
O meu olhar que não te esquece,
O teu seio, o teu calor,
A recordação de te perder, a dor.


Vinte anos se passaram, foi em Março de 1987 que me deixaste.
Para ti esta adaptação (o original era bem mais duro...O tempo suavizou a tua falta mas não a anulou)…Um beijo do teu filho Paulo
.

(À memória da minha MÃE)

2007-04-02

A Lagoa IX

Grandes foram as discussões e trocaram-se palavras azedas, pouco dignas de tão distintos intervenientes. Havia quem quisesse cortar o mal pela raiz, lotear, vender, ganhava-se dinheiro e acabava-se com a insegurança. Do outro lado a crença, o respeito pelo local.
Por falta de consenso aceitou-se a interdição temporária dos dois locais, vigilância apertada. A falta de meios dificultava esta opção mas o responsável a quem caberia a tarefa garantiu-a. Como sempre seriam os peões a pagar a factura neste jogo de xadrez. Mas os acontecimentos precipitavam-se, os ânimos estavam exaltados e enquanto estas decisões eram ponderadas, perto do pinhal, várias pessoas confrontavam-se violentamente. Conta quem esteve presente que o ódio prevaleceu durante a contenda e além de vários feridos graves encontravam-se duas pessoas mortas. Ainda a reunião não tinha terminado quando as noticias chegaram. O isolamento da área tornou-se urgente e todos os meios foram convocados. Também a polícia de intervenção foi chamada como forma de acalmar os vários grupos que se formaram nas imediações do local. No Hospital para onde tinham sido levados os feridos, acompanhantes rivais envolveram-se em confrontos. Pacientes desprevenidos foram agredidos, enfermeiras, bombeiros, pessoal da segurança e forças policiais corriam em todas as direcções sem conseguir travar os tumultos. Ouviram-se tiros e no meio da confusão um maqueiro foi atingido. A situação só ficou controlada quando chegaram as duas carrinhas da polícia de intervenção, deslocadas que foram, à pressa, do seu destino original. Pedro e Alice ainda dormiam, mas por pouco tempo. Quem acordou o Pedro foi Afonso que tinha ido almoçar a casa. Chegara excitadíssimo, comendo as palavras enquanto contava o que sabia ao pai. Alice acordou com o telefone, monótono chamamento que ela custou a interpretar, primeiro lá no fundo, primitivo chamamento dos sentidos, sem identificação e sem urgência, depois mais próximo, estou aqui, ouve-me Alice, acorda, alguém precisa de ti. Pedro telefonou à mulher, professora primária na escola P2, perto do pinhal. Por lá tudo bem. Do Hugo sabia-o em Lisboa, numa visita de estudo, por via das dúvidas também lhe telefonou, “Acordaste tão cedo para me telefonar?”, “Foi a tua mãe que me pediu…”, “Pai, não sabes mentir.”, “Precisava de te saber bem…As coisa aqui estão complicadas…”, “As seitas?!”, “Sim…Não sei bem mas penso que sim. Possivelmente vou ser chamado. Quando voltares telefona-me.”, “Não te preocupes.”, “Promete-me que esta noite não sais de casa.”, “Eu depois telefono-te, um beijo…”, a ligação interrompida, teria de ser a Gabriela a cuidar deste caso.
Encontraram-se no posto, quase vazio. As ordens eram claras, dentro em pouco começariam a chegar pessoas para ser identificadas, “Quantos?”, “Ninguém sabe ao certo mas parece que esta merda vai ficar cheia.”, “E onde é que os metemos?”, “Logo se vê…”. As celas estavam atafulhadas de papelada e a primeira coisa a fazer foi limpá-las, não no sentido de limpeza mas no sentido espacial da questão. Tanta porcaria que para ali havia…Eram três celas, em condições normais dariam para doze detidos a julgar pelos dois beliches que faziam parte do mobiliário de cada uma. No rádio do posto as noticias eram boas e más. No Hospital a situação estava controlada mas para os lados da Lagoa não havia gente suficiente e foram detectados vários grupos que se dirigiam nessa direcção. Para contrastar com os acontecimentos o tempo estava óptimo, sem nuvens, calor até demasiado tendo em conta a época e um sol que parecia indiferente à agitação humana, que tem ele com isso?...Também me parece!
A primeira carrinha a chegar trazia treze pessoas, todos homens, algemados e cercados por guardas que mostravam ostensivamente as suas armas automáticas. Alguns dos presos traziam escoriações, algumas delas bastante feias. Do Hospital tinham vindo sem ser tratados, não fora esse o motivo que os levara lá. Percebia-se que não pertenciam todos ao mesmo grupo, os olhares de morte não enganavam, teriam isso em consideração quando os arrumassem nas celas.


(Continua mas está quase no fim....)

2007-04-01

Jim Morrinson


Influênciado pelo AD voltei a ouvir alguns dos meus discos de Doors, em vinyl...Enquanto os ouvia fui desenhando...O resultado está à vista...Não é brilhante mas é honesto.
Foi para mim uma das maiores referências musicais e não só...
Um abraço a todos.
P.S. Vejam isto como uma simples homenagem...

2007-03-27

Escolher o melhor

Para ser justo acho que o canal “um” prestou um serviço público ao realizar este programa/concurso/escolha/seja lá o que lhe queiram chamar. Falou-se de Portugal, de Portugueses, realizaram-se documentários interessantes e fizeram-nos ler a História, a nossa História, pelo menos eu revisitei-a. Não quero entrar em polémicas sobre a originalidade, os critérios, a votação, o resultado, para mim interessa-me sobretudo o que nos foi fornecido em termos de informação irrevogável e comprovada ou no mínimo consensual.
De Fernando Pessoa voltei a apaixonar-me, de Aristides fiquei a conhecer pormenores, de Camões a irreverência e a genialidade à época, antes dele dois iluminados, um Rei, acordou com os espanhóis a divisão do mundo conhecido, o outro Infante, via para além do mar. Houve quem neles acreditasse, caso do Vasco, outros que os cantaram, Camões, também Pessoa. Na origem o Henriques, o primeiro dos Afonsinos (Leiam o “Cavaleiro da Águia” de Fernando Campos, um romance em que se aprende muito) o mestre de diplomacia que convenceu os cruzados a fazer a guerra santa em Portugal, em Lisboa, na conquista. Mais tarde Pombal, a organização após a destruição, a organização do ensino, quase um plano de contingência.
Chegamos ao século XX, povo gasto, de brilho baço, desse tempo escolhemos QUATRO, Pessoa, Aristides, Cunhal e Salazar, um sonhador, um moralista/humanista e dois antagonistas que ainda hoje nos atormentam.
Dos resultados da votação percebe-se imediatamente que não temos memória, os três primeiros viveram no século vinte e os dois primeiros existiram em oposição (o segundo ao primeiro). Se olharmos para o facto de o primeiro ter perseguido os dois segundos apertamos ainda mais a malha da memória. Só esses três Portugueses arrecadaram mais de 70% dos votos. Para mim isto é um facto incrível mas que revela o que nos vai na alma. Ainda estamos divididos, por políticas, por clubes, por sei lá mais o quê, a tal ponto que deixamos de ser coerentes, independentes.
Não votei, acho que não se pode votar a história, fiquei-me pelo conhecimento adquirido ou relembrado.
É esse o agradecimento ao canal “um”, obrigado por cumprirem com a vossa obrigação!


P.S. Poderão algumas pessoas estranhar a minha falta de indignação em relação ao primeiro lugar (isto é para ti Titá), mas não era esse o objectivo deste post. Li História e isso agradou-me, ponto final….Talvez…..

A Lagoa VIII


Ouvem-se vozes dentro de casa e passos que se aproximam da porta, passos leves, de gente jovem. Foi o Hugo que abriu a porta, rapaz alto, parecido com o pai, tem dezassete anos. É o filho mais velho do casal e para o próximo ano entra na universidade. “Boa noite Alice, entra!”, “Boa noite Hugo.”, ela entrou sem notar que Hugo ao fechar a porta lhe apreciou as formas e as imaginou por debaixo da farda, a idade não perdoa e o crescimento traz consigo sensações extraordinárias. Cheirava bem, a Gabriela tinha a sorte de viver perto da casa da mãe, pessoa humilde mas que conseguia tirar do quintal a auto-suficiência saudável da vida no campo. Frango do campo com pimentos, batata nova, cortada na hora, frita para o momento, salada fresca, vinho novo, pão comprado à vizinha que tinha um forno a lenha e também fazia folares, pena que o jantar tivesse de ser rápido. Gabriela cumprimentou Alice, “Boa noite Alice, o Pedro ainda está na casa de banho mas está quase despachado.”, “Temos tempo.”, “Será coisa que não vos faltará…”, palavras sem malícia, relembrando apenas a noite longa em local de desassossego, “Quando escolhemos esta profissão temos de nos habituar.”, “Faz anos que ouvi essas mesmas palavras da boca do Pedro.”, “Ele mudou?”, “Não, habituou-se.”. Pedro chegou já fardado, sentaram-se à mesa. Entretanto Afonso largara a Playstation que tinha no quarto e juntara-se ao resto da família. Moço de catorze anos fazia o lado da mãe, irrequieto, irreverente, sentimental, muito diferente do irmão mesmo tendo em conta a diferença de idades. Jantaram quase em silêncio, a comida convidava à apreciação gustativa, este só foi quebrado para discutir banalidades do quotidiano. Afonso acabou mais cedo e pediu para voltar ao quarto, tinha o jogo a meio e encontrava-se impaciente para o terminar. Hugo ficou até ao fim olhando de soslaio para Alice, aquela mulher perturbava-o, com ela sim se transformaria num homem, pensamentos de uma adolescência a acabar. Pedro levantou-se devagar, por vontade própria teria ficado com a mulher, nem que fosse a ver a novela, só para lhe sentir o calor, o conforto, quem sabe se quando fossem para a cama…Mas não foram, ele não vai dormir na cama esta noite. Foram a pé para o posto. Ao Pedro não lhe apetecia falar, Alice percebeu e respeitou-lhe a vontade.
“Até às seis, pode ser?”, não uma pergunta, uma ordem simpática de uma hierarquia humana. Até que ponto a recusa, mas eles não pensam nisso, sabem o que têm para fazer e a sua inevitabilidade, o treino para isso serviu.
Patrulharam a noite toda o perímetro do lago. Outros dois colegas noutra viatura fizeram o mesmo no pinhal. Sempre com o canal de rádio ligado não fosse o diabo tece-las. Os grupos de crentes haviam diminuído na lagoa e os poucos que avistaram mostravam-se receosos. Ao interpelarem um destes grupos para identificação provocaram a debandada do mesmo, que se separou em várias direcções impedindo a sua missão.
Foi já depois de terem chegado a casa e de se terem deitado que o mantorras descobriu o cadáver da mulher. Coincidência ou não a mulher morta era Dona Inês, mulher viúva que tinha aconchegado Rafael, também morto. Foi por esta altura que as decisões se agudizaram. As autoridades tinham na mão quatro mortes num caso que reabria feridas profundas de um passado recente. Informaram o presidente da autarquia e foi promovida uma reunião de urgência que tivesse em conta os vários aspectos da situação. Temia-se o pânico nas populações, a má fama que os acontecimentos traziam para a região, o turismo prejudicado, a queda de um projecto que não se queria industrial. Nem todos estavam descontentes e entre os convocados para essa reunião encontravam-se pessoas agradadas com o desenrolar dos acontecimentos.

(cont.)

2007-03-18

Circunstâncias II

Circunstâncias
A sede, a solidão, o espaço fechado.
Circunstâncias
A noite que se pressente mas não se ouve.
Circunstâncias
Uma voz no escuro que teima em dialogar.
Circunstâncias
As palavras vazias de confissões alcoólicas.
Circunstâncias
As palavras que nunca se dizem.
Circunstâncias
A cadeira, o homem de pernas cruzadas.
Circunstâncias
A mulher que bebe ao balcão.
Circunstâncias
…E no entanto nada se sabe.
Circunstâncias
Nestas e noutras a dúvida persiste…

…Circunstâncias
E nada mais do que isso mesmo…
…Circunstâncias!



P.S. Escrito em mil novecentos e noventa e um, na Reboleira, caderno diário, amarelo, caneta de tinta permanente, feito de uma só vez, sem emendas. Pertence a um grupo mais vasto de circunstâncias, passos, e sem sentido, numerados conforme iam sendo feitos. Sei-lhes o ano, foi a única referência que lhes deixei. Julguei este caderno perdido, perdido nas mudanças dos anos noventa, vim descobri-lo por acaso na procura de uma credencial que me fez revirar a sala. Chamou-me a atenção aquele caderno amarelo com uma assinatura e uma data, nada mais, só depois de aberto revelou o que tinha para revelar. Tirando duas ou três coisas já feitas, que postei no blog, nunca tinha ido buscar nada tão antigo. Fica a excepção…Fica a recordação…Um pouco do que fui…
Não sendo este o objectivo da minha presença na blogosfera prometo retornar à normalidade já no próximo post.
Um abraço para todos os que me visitam…

2007-03-15

A Lagoa VII

Aurício não vai comunicar a presença daquele corpo, chega de polícia. Com a sorte que tenho os gajos ainda me prendem, pensou, quem sabe se com razão. Levou o filho para dentro da carrinha e abalou do lugar, deles só os rastos dos pneus à mistura com tantos outros.
Que repouse em paz a mulher que lá ficou, morta. Assim vai ficar todo o dia e toda a noite até ser descoberta pelo Mantorras, rafeiro alentejano, cão de alma nobre e guerreira, cão pesado, ossudo, de cabeça grande, como os seus antepassados Asiáticos trazidos pelos soldados romanos. O Mantorras estava a brincar com o dono, o Miguel, pastor de quinze anos com inteligência de seis, o único de quatro filhos que ficou com o pai, refém do atraso ficará certamente refém do progenitor enquanto este for vivo, mas era do Mantorras que eu falava. Ao focinho deste cão não escapou o cheiro a morte, melhor dizendo, o cheiro putrefacto da matéria abandonada. Sim, porque existe uma diferença, podemos cheirar morangos e morrer de ataque, só depois o odor acre, a reacção química, a decomposição.
Mas tudo isto para mais tarde, o dia ainda não acabou, a carrinha ainda marca presença, gasóleo queimado no ar, perto de um crime que Aurício não cometeu.
A meio da manhã, Pedro e Alice estão à beira da via rápida, ajudam no fluir de viaturas que saem da berma após controlo, na sua maioria carrinhas, um ou outro mais descarado ou suspeito, é bom não esquecer que já morreram três pessoas, da quarta só nós, Aurício e a família, e os presumíveis autores do crime que a transportaram para a lagoa, têm conhecimento. Estão ressentidos um com o outro, é natural, usaram argumentos duros. Natural será também que tudo passe, que vença a amizade, é recente mas verdadeira, o carácter dos dois não a permitiria de outra forma. Para ajudar à reconciliação, vão ter de fazer horas extras juntos, foram convocados para rondas nocturnas junto da lagoa. Deram-lhes algum tempo, o suficiente para comer, tomar um banho, Pedro convidou-a para jantar lá em casa, a Gabriela iria gostar muito, “Ela simpatiza contigo.”, “Tens a certeza que ela não se vai aborrecer?”, ficou combinado para depois do duche.
Alice entrou cansada em casa, despiu-se devagar, com cuidado, amaciando a pele com os dedos, examinando-a meticulosamente defronte do espelho, no quarto de banho, procurando vestígios de sujidade, vestígios de um dia na rua, na estrada. Alice tomou banho de pé, a água do chuveiro escorrendo-lhe pelo corpo bem desenhado, libertando-a de tensões. Ensaboou-se com cuidado e demorou-se com a espuma, viu-se menina, na banheira, mostrando ao pai que já tomava banho sozinha, que saudades do pai, “Porque partiste pai?...”.
Foi mais lesta a vestir-se. Conseguia fazê-lo de modo rápido e desembaraçado, um pouco masculino, no entanto de uma eficiência comprovada.
Saiu para a rua. Ficou agradada com o entardecer, não haveria chuva, valha-lhes isso. Foi a pé, o Pedro morava a dez minutos e ela gostava de andar. Agradou-lhe o trajecto, as ruas largas e as casa baixas que deixavam ver o céu e as pessoas despreocupadas que regressavam a casa ao fim da tarde. Pensou em si e na sua profissão, o dever moral de proteger, ajudar, salvar o mundo dos males do quotidiano. Hoje sentia isso de uma forma diferente. As mortes, esses estranhos grupos de culto incerto, os interesses de que o Pedro falava, pareciam-lhe demasiado, faziam-na duvidar das suas capacidades. Existem alturas em que é preciso fazer as perguntas, dar as respostas, avaliar para poder decidir. As rondas tornaram-se perigosas, já não eram só larápios e bêbados e pessoal da noite com todo o tipo de substâncias ilícitas e acidentes de viação…Estaria à altura se fosse necessário? Se fosse necessário sacar, sacar e disparar, quem sabe, matar? Teria o sangue frio, suficientemente frio para o Pedro poder cofiar nela? O Pedro acredita que sim, passou pelo mesmo, sabe das dúvidas, conhece algumas respostas. Alice sente-se bem no seu monólogo, encara os cenários inventados como realidades já experimentadas despindo-as da imprevisível brutalidade. Ri-se de si enquanto toca à campainha da casa do Pedro e da Gabriela.


(Ainda Continua...)

2007-03-08

Edite

O edifício em frente tem janelas de vidro, mas eu não consigo ver para lá dessas janelas. Do nome que me deram não lhe acrescentei nada, sou Paulo, quanto muito Sr. Paulo.
Talvez se não fosse só Paulo eu pudesse ver para lá daqueles vidros, talvez me explicassem os enganos que não entendo, me pedissem desculpa pelo incómodo causado, pelo tempo gasto na procura do que me é devido, mas sou Paulo…E pouco mais…
Tenho um envelope em cima da secretária. Dentro desse envelope cinco folhas me agridem, agridem sobretudo o meu raciocínio. Eu devia entendê-las, mas não entendo. Percebo de química e sou pago por isso. Sorte? Também! Quando a constituição consagra o trabalho como um direito não deveria ser assim…Mas é! Mas também o que é a constituição, conjunto de regras que se adaptam às conveniências de maiorias eleitas…E que vontade têm eles de mudar tudo, tudo o que impedir o desenvolvimento económico…Despache-se a constituição e a lei geral do trabalho e todas essas tretas que nos impedem a grandeza…Ficamos à espera…
Espalho as cinco folhas pela mesa de trabalho na tentativa de lhes dar significado. Não será bem significado, de significado estão elas cheias, cheias das horas que passei para lá da rede da fábrica…Têm um número no fim e desse número faço a minha vida…
Preciso que me expliquem o número, preciso que me expliquem as cinco folhas que resumem o meu trabalho, preciso saber que alguém se preocupa, mesmo que isso não seja verdade.
Imagino-me da estrada, escolho dos apressados. Imagino sinais de luzes, a urgência de outras velocidades, emergência na passagem do obstáculo que sou eu…Paulo…Sem mais do que me dê importância.
Agora ouço uma voz, não é imaginação minha. É a voz de alguém que me chama “Sr. Paulo?!!”, “Sim…”, “Sou eu não se assuste. Vai jantar a que horas?”, “Lá para as oito e meia.”, “Veja lá se demora pelo menos meia hora a comer para eu ter tempo de lavar o chão e ficar seco.”, “Está combinado.”. Sorri sem força, a Edite percebeu, “Você hoje não está nos seus dias.”, “Pois não…”, desabafei…E expliquei-lhe porquê.
Não fui demorado assim como a resposta da Edite. Sem recibo do ordenado vai para uma semana, acertos sempre em atraso, ordenado a descer, regalias a fugir, “E é para quem quer Sr. Paulo.”, sentença final, também para mim uma sentença. Dei-lhe uma pequena palmada nas costas e fui jantar mais cedo…Obrigado Edite!

2007-03-05

A Lagoa VI

Também sei que o Pedro e a Alice não vão ser chamados, ocupados que estão no apoio à divisão de trânsito e à fiscalização económica. Vai ser dia de feira porque é quarta feira, uma das quartas feiras do mês em que isso é permitido na cidade, cidade pequena mas que do nome não se livra, não do de baptismo, esse é Vila Nova, do outro, do administrativo. Adiante com o que interessa. São vasculhadas as carrinhas dos feirantes, gente cigana na sua maioria, e mesmo os que não o são por etnia são-no por modo de vida. Estes e estas, condutores e viaturas, procuram passar por todo o lado.
Foi por uma das picadas do pinhal que se meteu a carrinha do Aurício, cigano, casado e pai de cinco filhos. Foi ele que se perdeu e desembocou no meio da fiscalização policial. Teve azar e perdeu a carga, na sua totalidade material contrafeito. Vinha com a mulher e três dos seus filhos, uma bebé, menina de mama, um varão de seis anos e uma rapariga espigada e de olhar vivo, dir-se-ia matreiro se não fosse a seriedade do semblante.
Decidiu abalar daquele lugar para nunca mais voltar no mesmo momento em que pôs a carrinha a funcionar. Decisão apressada e que não iria ter as consequências pretendidas, como veremos brevemente. Seria o barco a opção para atravessar o Sado. Para chegar mais depressa, não, apenas para ver a foz do rio, porque lhe apeteceu. O destino é como é e prega-nos partidas utilizando meios insuspeitos como seja a nossa memória. Foi o que aconteceu a Aurício com a sua, dele, memória. Veio-lhe a esta imagens da sua, dele, juventude, de quando era o filho mais novo de um rebanho de doze, de quando a família era maior e mais unida e se passavam noites no campo a olhar para o céu, durante semanas de acampamento junto de povoações amigáveis. Tudo isto quando se preparava para abandonar o perímetro da Lagoa que ficava do seu lado esquerdo, todas estas imagens que o fizeram olhar com atenção para a berma da estrada e reconhecer um caminho, uma casa velha ali perto, talvez oitocentos metros, erva alta e mato bravio, sem regra nem dono. A decisão que não precisa de permissão para ser mudada visto nunca ter sido comunicada, porque nestas coisas o homem manda, cada coisa no seu lugar. A viragem quase brusca provocou um cair de caixas vazias que os guardas haviam deixado…Quase no gozo…Cabrões da merda…Era preferível andar praí a matar…Filhos da puta…A carrinha que se meteu pelo caminho arenoso em direcção à água em direcção à memória passada, povo das estrelas, antigo de três mil anos antes de Cristo, Norte da Índia, quem sabe, a quem lhe interessa, a memória de Aurício não vai tão longe nem a carrinha consegue tal prodígio, pedra filosofal de qualquer historiador que se preze, o recuo na memória da história…Das histórias…
Parou junto a uma casa velha, em ruínas, metade telhado, metade paredes, metades de portas e janelas por onde passaram vidas inteiras. Conhecera os donos, um casal com dois filhos que sempre o trataram bem, sempre os trataram bem, ao seu pai, à sua mãe, à família. Ficavam ao fundo do terreno que tinha extrema junto à água, suficientemente perto para ouvir o seu restolhar manso no silêncio da noite. Também o mar ficava perto, por detrás da lagoa, também ele marcara presença na memória de Aurício.
O dia estava cinzento, cinzento húmido mas calmo, calmo da chuva que não ficou mais grada e acabou por desaparecer, calmo do vento que se escondeu no horizonte. Desceu sozinho, sem palavras que solicitassem o mesmo destino aos seus acompanhantes, um descer mecânico, movimento incontrolado que o fez tirar o chapéu preto e respirar fundo, tão fundo quanto os seus pulmões, gastos do alcatrão dos cigarros, permitiam. Não foi logo que o viu, nem eu tenho a certeza de ter sido ele o primeiro. O gaiato, o Manelito, também descera, impaciência da idade, apelo da natureza à sua volta, correu a molhar as mãos. Aurício olhava-o distraído quando o viu parar e virar a cabeça. Será que ouviu o grito do filho, certamente, a julgar pelo impulso que o levou para perto dele. Agora estão juntos e olham para a beira de água, para a mulher deitada de cabelos lambidos pelo líquido milagroso, bênção de Santo, nome de lagoa. A mulher está morta, do pescoço cortado um fio de sangue seco indica o local do corte, ferida feia e comprida, boca aberta na carótida.

2007-02-28

Existe um lugar

Existe um lugar
Onde a terra não é firme
E o mar não sabe a mar

O Homem Novo diz o que sabe
O Velho ouve sem saber
Os pés longe da terra
Os olhos cegos sem ver

Neste lugar moderno
O dinheiro fez o Homem Novo
O Velho não sente o mar
Da janela do quarto, no lar.

Existe um lugar
Onde a terra não é firme
E o mar não sabe a mar

O Novo conduz o Velho
No papel está o contracto
A visita pelo Natal
Tudo o que é normal

Os olhos que vão cegar
A ti que acabas de chegar te aclamam
Qual será a doença
O motivo da presença

Existe um lugar
Onde a terra não é firme
E o mar não sabe a mar

Eu que sou velho, adivinho
A conversa que tiveram
Entre o Novo que é meu filho
E o lugar onde me meteram

Chega-te ao grupo
Vem devagar que tens tempo
Neste lugar sem firmeza
Onde tu não és certeza

Existe um lugar
Onde a terra não é firme
E o mar não sabe a mar

Não acredito em Deuses
Nem em paraísos distantes
Neste lugar onde estou
O Mundo já acabou

Sinto enorme o sossego
Não me consigo levantar
Deito os olhos ao céu
Pois o mar não sabe a mar.

2007-02-22

A Lagoa V

Começou a chover. O sol de Inverno desapareceu e deu lugar ao cinzento que, uniformemente, preencheu o céu. A chuva não é grada, pelo menos por enquanto. Mais tarde se verá. Nos cafés começa-se a falar do assunto, procura-se nos jornais diários a informação que falta e que continuará a faltar. Sabe-se de jornalistas no Hotel Novo, imprensa escrita que a televisão e a rádio andam noutros Carnavais. Nem só nos cafés se fala, mas serão sempre estes locais os privilegiados para debater acontecimentos.
Numa sala interior, Pedro e Alice ainda se encontram reunidos com o seu Superior e com o inspector da Judiciária. Manifestaram interesse em ajudar nas investigações, foi um interesse genuíno, de quem tinha visto três cadáveres em menos de vinte e quatro horas e queria respostas. Sim, iriam ter esse facto em consideração, mas para já era tudo. Saíram desiludidos. Compraram qualquer coisa para comer e por sua conta e risco decidiram voltar ao pinhal.
Para os lados da lagoa o vaivém dos crentes continua. Dependentes do que aprenderam sobre o líquido milagroso mantêm as romarias. Pode ser impressão, e dai talvez não, os semblantes estão, como se costuma dizer, carregados, carregados de medo, o medo que desperta os sentidos e nos põe alerta. Alice pergunta, “Conhecias o homem?”, “Não pessoalmente, mas conhecia-o de vista.”, “Quem era”, a pergunta seca, de quem não devia precisar colocá-la. Foi necessário, dai a secura, “Não ouviste o sargento?!..”, a resposta irónica, também ela seca, “Ouvi! Fiquei a saber o nome, a idade e a profissão.”, “Não te chega?”, “Não!”, o desencontro, situação invulgar entre os dois, diz quem sabe que estes dias também são precisos, para aferir das relações, sejam elas de amizade ou não, “Está bem!...”, o Pedro rende-se, ou finge fazê-lo.
Disse-lhe que o homem tinha perdido a mulher aquando das primeiras mortes, foi uma das vítimas que apareceu queimada. Quando isto aconteceu o filho mais velho de Pedro estava prestes a fazer dois anos. Disse-lhe que o homem tinha dois filhos, um rapaz, uma rapariga, o primeiro foi para França e nunca mais voltou, a filha ficou-se pela rotunda, avenida de prazer, rastos negros nos braços, nas mãos, nos pés, no pescoço…Também ela, de alguma forma, não voltou. Disse-lhe que o homem começou a beber até parar por momentos para tratar de uma crise hepática depressa voltando à rotina. Falou-lhe do trabalho que o homem abandonou e nos desenrasques de sobrevivência até que há dois anos tinha atinado. Uma mulher, viúva recente, tirara-o do vício, arranjara-lhe um emprego decente na empresa onde o marido havia sido director, trabalho menor é certo, mas digno e razoavelmente bem remunerado. As más línguas ligavam-na a cultos satânicos perpetuados no pinhal e acusavam-na da morte do marido, conhecido peregrino dos banhos da lagoa, associaram o cancro fatal a rezas e maldições. Isto era o que o povo dizia e o que ele sabia. Agora, com a morte do Rafael, vão dizer muito mais.
Alice ouviu com atenção, sem interrupções, e mesmo depois do Pedro se ter calado, manteve-se em silêncio durante mais algum tempo, “Quer isto dizer que anda tudo à volta do mesmo?”, a palavras vieram-lhe reconciliadoras, “Depende do ponto de vista.”, a secura foi-se, manteve-se a ironia, “Não brinques comigo. Tudo passa por essa gente que se reúne para evocar sei lá o quê…Uns dentro de água, outros com fogo…outros com…Paranóias!”, voltou-lhe a irritação, “Existe mais gente interessada no conflito desde que ele leve à destruição das árvores junto ao mar.”, ele sabia que ela iria ficar interessada e menos agressiva, por esse motivo prolongou a frase num tom suspensivo, “Que gente?”, o efeito foi o pretendido e ele continuou, “Gente que constrói, gente que manda, gente de dinheiro, gente que quer transformar a lagoa numa estância turística…”, deixou a frase no ar, “Existem assim tantos interesses?”, contente por a ter de volta prosseguiu, “Também se fala numa fábrica, mas dessa têm tratado os ecologistas…”, pausa, “Mais alguém?...”, “os suspeitos do costume, drogados, contrabandistas e traficantes que se servem da praia como local de desembarque…Mas esses estão mais interessados em não levantar ondas e para mim não têm nada a ver com o assunto.”, “Falas como se os conhecesses…”, desta vez foi dela a ironia, “E conheço, após alguns anos e num meio pequeno fica-se a conhecer muita gente”, Pedro respondeu mostrando aborrecimento, “E isso não te chateia?”, ela espetou a faca mais fundo, “Aprendi a ser uma pessoa normal quando dispo a farda. À civil os meus ouvidos são civis e a minha boca discreta.”, ele estava a levar a coisa a peito, “Não me estás a dizer que os deixas andar?...”, “Estou a dizer-te que também tenho vida para além da farda. E se queres um conselho digo-te que é melhor separares as águas ou serás uma eterna estrangeira.”, quem assim falou, falou danado, “Achas que é fácil fazer o que dizes?...”, e que dizia ele?...”Não!...Mas é a melhor maneira.”, ela não lhe perguntou que outras maneiras havia, mas não ficou convencida…E o Pedro sentiu-se ofendido, desrespeitado, ou algo entre as duas…Nem sempre é fácil explicar aos mais novos que os anos de serviço funcionam como analgésico…Nem sempre é fácil explicar aos mais velhos que pode haver quem faça a diferença, em qualquer dos casos é uma questão de tempo.
Separaram-se de mau humor. Ele vai dormir a pensar no caso, ela vai pensar na conversa que tiveram, principalmente na última parte da conversa.
Durante a noite dois vultos circularam no pinhal e apesar da chuva deixaram acesos três candeeiros a petróleo. Do lado da lagoa os peregrinos começaram a usar facas dissimuladas na roupa, principalmente os mais novos.
O que vos vou contar sei porque sou o narrador e é dever do narrador saber tudo…Ou quase…Neste caso sei que esses dois vultos arrastaram um corpo para a beira da água…Junto à lagoa.

(Cont.)

2007-02-18

Esperas (Da nossa vida que é um somatório de esperas)

Uma de tantas…

Saio de casa tarde. O relógio avisa-me do atraso, ou do mundo lá fora a girar…E eu parado, ou quase…Tentando chegar...
Primeiro a estação, o passe comprado no início do mês, o comboio que parte…Não o vejo mas sei que parte, ruído de partida…
Quando chego ao cais este encontra-se vazio. Vislumbro a silhueta que se afasta…Metal contra metal e a electricidade que o faz mover…Espero…Vou ficar à espera e estou atrasado.
Está frio mas eu não o sinto. Sei que está frio porque o ar que me sai da boca vem condensado, gasto, usado em mim e por mim…E espero…Lá longe adivinho o som metálico dos carris percorridos…Vejo-os inertes, inúteis, esquerda, direita, vazios…
O relógio de pulso diz-me, “Estás atrasado”, respondo-lhe, “Sim, eu sei.”.
Chegam pessoas ao cais. Escolhem posições e ficam à espera…Como eu!...Eu não!
Eu vou-me embora!


Outra, noutro lugar

O parque está cheio. Tenho dificuldade em encontrar um lugar, misto de sorte, paciência, sorte, olhos abertos…Eu não fechei os olhos e aproveito rápido uma saída repentina, sou mais rápido a sacar. Por detrás do vidro percebo as palavras maldosas, “…Filho da puta…”, “…Paneleiro da merda…”, “Cabrão do caralho…”, minutos atrás eu era apenas o Paulo…
Tenho as rodas paradas, o chassi em descanso, a carroçaria promete-me protecção.
Tenho uma moeda na mão, da moeda um carrinho…E o caminho das prateleiras…Tudo o que preciso está etiquetado…O carrinho enche-se e fica pronto a ser levado…Eu levo-o…Ele deixa-se levar…
Estou parado à espera. À minha frente esperam vários carrinhos…Atrás outros carrinhos…Espero mais um pouco…
…Carrinhos com dono!
O meu?...Abandonado.
Eu estou lá fora…Adeus!


Uma lixada

Duas mulheres choram na sala. Na sala mais ninguém chora…Tudo espera. Não se vê o sorriso descontraído, o olhar perdido dos sonhos de encantar. As duas mulheres choram junto à enfermeira de serviço, esperam notícias…A enfermeira espera a hora de saída, a rendição do turno, o encontro com o filho pequeno que está com a avó…Eu espero que o choro acabe…Do lado de fora estou a ouvir…Por dentro o tempo parou, no destilado das horas o resíduo que sou eu…Desaparece…
O choro das mulheres parou e foi substituído por outro…De criança…Sofrido de angústia, de pânico…Eu espero…Tudo mudou menos eu…Hoje eu vou esperar…Tenho um nome para esta espera…


A última... As outras ficam por contar.

São dez horas da manhã e o homem aparece com um papel, uma lista, nomes de testemunhas, de arguidos, queixosos…Advogados?...Já não me lembro.
O empregado judicial vai marcando presenças. Eu espero pelo meu nome, pela minha vez de dizer presente, sim, sou eu…Mas antes não fosse…
Fico-me pelo, “Sim, sou eu.”, ou “Estou aqui”…Agora que penso melhor, não me lembro de ter respondido…
Os processos são muitos, muita gente, muitos minutos, infinitos minutos. Equívocos e desde logo algumas discussões, a tensão de quem se confronta, circo romano com regras definidas em leis que poucos conhecem…Desengane-se o senso comum…Também ele um engano…
Espera-se em pé, nos corredores, ouvem-se as conversas de grupos próximos, viram-se costas aos rivais. O ar fica cheio, e eu cheio do ar e da espera.
Junto de mim dois guardas prisionais esperam comigo….

2007-02-13

A Lagoa IV

Era o Pedro que conduzia, foi ele que engrenou as mudanças que rentabilizaram a aceleração. O Nissan Patrol não era dado a grandes velocidades embora fosse dotado de um motor potente. O barulho da máquina inundou o habitáculo. Os balanços tornaram-se instáveis e perigosos, as curvas no limite do equilíbrio. Porquê tanta pressa? Os cadáveres não têm urgência. A necessidade de respostas, essa sim, provoca-nos tremores, dependências psicológicas. É essa a urgência. As luzes vão acesas, avisando prioridade a quem quer que se atravesse, curva à esquerda, curva à direita e contra-curva, recta até à via rápida, saída para as Areias Brancas, desaceleração, redução, curva a noventa graus, entrada em estrada de terra e areia. Esperavam ver alguém a indicar o local, gritando, talvez em pânico. Não se via ninguém. Travou bruscamente e só agora olhou para a parceira, “Aonde?!”, “Cerca de quinhentos metros, na berma…”. Arrancou devagar. Sim, o vulto percebia-se bem, ali estava ele mais à frente, impossível de não se encontrar, borrão negro no amarelo da areia. Estão perante um corpo do sexo masculino enrolado numa posição fetal que lembra a gestação, o que confere um ar de fragilidade ao cadáver. Percebe-se que internamente se encontra desconjuntado, desajustado nos seus alinhamentos naturais.
Quem o encontrou? Quem deu o alerta? O Pedro não foi. É casado, tem dois filhos, vive com a mulher, é alto de um metro e oitenta e oito, cabelo muito curto e preto, não tem barriga, mesmo demasiado magro. É escuro de pele. Se não fosse tão alto e tivesse bigode ou barba poderia passar por magrebino, e pode não ser totalmente mentira visto as suas origens sulistas, família antiga da região de Silves.
Alice também não. Alice é divorciada, não tem filhos, não tem namorado, vive sozinha e é do norte, de Chaves. Alice é alta de um metro e setenta e cinco. Tem a pele muito branca, cabelo loiro e cara de menina. Talvez seja este o motivo da sua atitude agressiva, de uma masculinidade encenada, com que encara as adversidades, sejam elas profissionais ou pessoais. O respeito é algo de muito importante para quem se quer dar a ele e ela quer. É fisicamente bem constituída, não é magra, tem um sorriso aberto e olhos azuis cor do mar em dia de Verão. É bonita, cara equilibrada nas distâncias que definem a beleza, raiz normanda onde sobressai uma boca bem desenhada, de lábios grossos, que faz do seu sorriso a sua imagem de marca entre os mais chegados, imagem de boa disposição e alegria que às vezes lhe falta.
Quem o encontrou não foram Pedro e Alice, estes vieram de chamada. Talvez a voz feminina que telefonou para o posto e que desligou rapidamente. Sim, essa sim comunicou ao piquete a existência de um cadáver, sem pormenores à excepção do local.
O alerta foi dado de pouca fé, adivinhava-se a brincadeira. Neste momento os dois elementos da GNR presentes no local sabem que isso não é verdade. Sabem também que o povo vai começar a falar. Falharam as expectativas do Pedro, deu-se razão à Alice.
A tudo nos acostumamos, também à morte. Alice foi profissional na comunicação ao posto, como no outro caso actuou em conformidade. Porém mais calma, atenta na observação dos detalhes, do cadáver, do local e dos acessos. Os dois procuram registrar tudo o que possa ser útil para a investigação, para a judiciária, para eles. Alice tirou do bolso um pequeno bloco e uma caneta que se percebe ser objecto pessoal, caneta fina, de cor matizada em verdes, só para referir o carinho com que a escrita lhe sai, a bonita caligrafia, esguia, desenhada, de quem é cuidadoso e perfeccionista. Pedro olha em volta, para o pinhal que se adensa do lado esquerdo, para a estrada de areia que o separa do lado direito, também ele pinhal, para a frente, em direcção ao mar que se pressente numa faixa cinzenta escura por cima duma lomba da picada, para a origem desta, no sentido oposto, no acesso à via rápida por onde vieram. Esta total abrangência visual, este cheirar o ar, fê-lo cerrar os olhos, como se nesse gesto dissecasse os dados recolhidos, os organizasse, alinhasse, desse sentido, apontasse uma direcção.
No entanto esta tarefa vai pertencer a uma brigada especial recentemente formada no corpo da GNR e que a titulo experimental vai trabalhar em conjunto com a judiciária.
Quanto a eles iram continuar as rondas que certamente vão ser reforçadas. Para já, acabam a manhã a falar com o sargento e com um inspector da Judite que chegou na noite anterior.


(Cont.)

2007-02-06

A Lagoa III

O Pedro jantou cedo. Pouco falou. Os miúdos discutiram aproveitando o espaço livre, demasiado adolescentes para perceber. A mãe repôs a ordem substituindo a apatia paternal. No silêncio, o diálogo dos talheres, o roçar nos pratos, palavras impedidas de sair pelas garfadas de esparguete, pela carne à bolonhesa, pelo queijo ralado.
O Pedro deixou os filhos verem um filme no aparelho da sala. Despediu-se deles e foi para o quarto, a mulher seguiu-o, já sabia do crime. Gabriela deitou-se com ele. Pedro adormeceu de barriga para cima, de olhos no tecto, ela com a cabeça no peito dele, a boca roçando um mamilo, uma mão no outro, fez amor sem ele saber.
Alice dormiu sozinha. O café que bebeu depois do jantar deu-lhe insónias e nem o romance que leu lhe evitou o desconforto da solidão. A história da lagoa não lhe largava a ideia. Derrotada pelo cansaço mergulhou num sono profundo e sonhou. Via-se mãe, mãe das meninas mortas, chorando, gritando revolta. Via-se vingadora, de faca na mão, matando e estropiando, estranhos grupos de culto incerto, obscuros e ruins como convém a quem odeia. Via-se errando na praia de noite, o pinhal ardendo, o lago vermelho…Ela entregando-se ao mar, mar vivo de vaga grande e vigorosa, a espuma espelho do fogo.
O tempo é carrasco e não pára. Parece especialmente cruel quando se dormiu mal, o descanso foi pouco, o sol demasiado cedo ou já quase a aparecer quando nos deitamos.
Mas é assim que funciona, não há nada a fazer. Para a Alice e para o Pedro a noite foi pequena. Alice estava em pior estado quando apareceu no posto, os olhos vermelhos, branca, demasiado branca, os músculos da cara desistindo da expressão. Pedro já lá estava e tirou-lhe dois cafés de máquina, “Aguentas-te?”, “Dormi mal e sonhei com as gaiatas, aquela coisa que tu me contaste não me largou a noite toda.”, “Desculpa, eu sabia que não te devia ter contado.”, ela esboçou um esforçado sorriso, no entanto bonito, “Não sejas parvo, julgas que só tu vais fazer essa associação? Mais cedo ou mais tarde vai andar na boca do povo.”, “Talvez não…Se não houverem mais mortes.”, “Não acredito.”, “Que não haja mais mortes?”, “Que o povo não fale…”. Meteram-se à estrada. Até ao final da semana era aquele o serviço. Passaram pela aldeia, patrulharam duas pequenas povoações e a herdade dos “malandros”, alcunha pela reputação dos proprietários. Demoravam-se sempre um pouco lá, atraídos pela calma do lugar, o jeep em primeira, quase sem pé no acelerador. Os sobreiros espaçados, pontos verdes no espaço aberto, molhados da orvalhada, de cara lavada, o ar limpo e gélido, o céu azul, azul referência, consequência óptica de belo efeito, tudo isto para dizer que hoje este trajecto fez-lhes bem. Preferiram fazê-lo calados, recuperando forças para voltar à lagoa. Mas para já a várzea lugar húmido e que ainda se encontra alagado de chuvas recentes. Depois as bombas, a rotunda e finalmente a lagoa. Está deslumbrante como sempre, aquele calma que contrasta com o rugir do mar por detrás das dunas, aquele ambiente que convida o espírito a acreditar, efeito especial preparado pela natureza. Por momentos quase se esquecem do dia anterior, olhar rendido naquelas águas tranquilizadoras. Mesmo com a presença constante de alguns grupos de crentes o local é silencioso, como se os ruídos das pessoas se misturassem no registo de fundo e perdessem identidade, ruídos sem expressão individual. Até o barulho do motor diesel encaixava, um ronco que ao longe se transforma em zunido, que se perde no espaço.
É o rádio que os acorda, o posto que os chama, alguém que encontrou um corpo junto à saída para as Areias brancas, na picada que divide o pinhal.
(Cont.)

P.S. Desculpem-me os amigos que me costumam ler pelo espaçamento da narrativa. O tempo que dedico ao blog teve de ser encolhido por razões que me são alheias (desculpa para motivos pessoais). Vou no entanto continuar aqui, acabando o que comecei e sempre que possível fazendo mais.
Obrigado por me aturarem e um bem haja a todos!