2023-10-31

Verborreia ou incontinência oral?

 De bata branca. De bata imaculadamente branca apresentei-me na Escola Básica Nº 1 da Amadora. De que me serve relembrar essa criança de sete anos, asmática e frágil, de pequeno porte, como se diz dos poneys. A fotografia existe e foi digitalizada hà alguns anos por um gajo que se chama Paulo Saboga. Já não o vejo hà algum tempo. Descobri a fotografia por acaso. Bem, nem por isso. Procurava outra pessoa, outro local, uma recordação que não era minha mas que que eu conhecia como se fosse. Cabo Ruivo a preto e branco, um homem de fato e gravata parecido comigo, bancadas com intrumentos analíticos fora de moda, telefones pretos que faziam Trrriimmm quando queriam o conforto de uma orelha, um beijo no bocal, o bafo quente e humido que se infiltrava pelo emissor radiofónico, e folhas, muitas folhas, e papel químico, e canetas, esferas gráficas que rolavam, modernas, pelos boletins impressos, gritando BIIIQUEEE (BIC). Hoje gritam-se outras coisas nos teclados. Fala baixo Paulo, vê lá se alguém te ouve nesse teu matraquear furtivo; o sujeito pára de escrever e olha desconfiado à sua volta. Não, não está ninguém a ver...de bata branca, de bata imaculadamente branca apresentei-me no gabinete do Engenheiro. Penso que foi o Guerreiro que lá foi. Primeiro bateu à porta, uma porta sempre fechada, uma porta que guardava a segunda sala no primeiro andar, do lado esquerdo...seria a segunda ou a terceira? Que interessa isso agora? Quem poderá confirmar essa tua realidade, repetida até à exaustão durante anos. Lembras-te dos sapatos? Talvez botas, ou ténis...e das calças? Calças de ganga no verão, bombazine no inverno, talvez nem fosse eu. Bem, o cabelo comprido, a barba grande e mal aparada, tinha tudo para ser eu, mas podia não ser, já foi hà tanto tempo, dezoito? Já não me lembro quantas farpas estavam cravadas no bolo...sim, pareciam velas e estavam acesas, se calhar eram só duas, por uma questão de economia. Com esta conversa a bata branca já não está à porta. Deve ter batido suavemente, devem-lhe ter dado ordem para entrar, daquelas ordens de quem manda uma coisa que não quer, deve ter entrado e pedido autorização para se sentar e deve ter-se sentado. Agora um grande plano nas mãos que procuram refugio nos bolsos da bata mas...algo se passa nesses bolsos, pois elas recuam para repousar uma em cada perna. 

Não Doutor, esta conversa das mãos agarrou-se de tal maneira à minha pele que quase lhe sinto o cheiro. Ah, o Doutor não sabia que as conversas têm cheiro? Não Dr., não estou a ser irónico. Tenho cheiros de conversas que nunca mais esqueci, talvez seja o meu lado animal, ou outra coisa qualquer. Nos dias que estava com alergia, ou constipado, os cheiros deixavam de ter significado e as conversas perdiam a importancia. Quer voltar às batas brancas? Quais Dr.? Tenho tantas batas brancas na minha vida.

Peço desculpa Dr. mas tive de ir jantar. Iamos aonde? Nas batas brancas? Nem sempre foram batas e nem sempre foram brancas. O branco aleija sabe, no papel obriga-me a escrever, não descanso enquanto não o cubro de simbolos, porventura palavras, frases que brotam sem que as possa estancar. Muitas vezes, quando as revisito, descobro nelas sentidos que não fazem parte da sua genese. O meu mal é querer dar-lhe sentido, importância. Vou falando, escrevendo, sem que consiga parar. Talvez seja da chuva, do frio, das noticias que teimam em querer dividir, és a favor ou és contra? Não sei, deixa-me pensar. Vá lá, depressa, tens dúvidas? Não me digas que não entendes, que não sabes como as coisas são. Vá lá, A ou B, preto ou branco, sim ou não...não sei... deixa-me dormir...

Dr., acho que a conversa já vai longa e o jantar deixou-me mole. Sim, é melhor deixar para outra vez. Da próxima, prometo contar-lhe histórias das esplanadas nos cafés da Amadora. Já as revi tantas vezes que, para não fartar, as vesti de diversas maneiras. Possivelmente aconteceram com todas essas roupas, adereços inventados  e figurinos avulso. Porque é que as continuo a contar? Ao fim de todos estes anos continuo a ser um miúdo da reboleira. 

Hoje a bata branca fica nas costas da cadeira. Está lá para me lembrar do que fui. às vezes imagino que sou eu que estou lá sentado. Por vezes tento descobrir-me, preso que estou entre os dois ecrãs ligados ao processador. 

Até amanhã Dr., já são quase dez horas e acabei por não dizer nada do que queria falar. Sim Dr. , voçê sabe ao que é que me estou a referir. Ok Dr., então até amanhã.

2023-10-04

Inter vs Benfica

 Há quanto tempo que não o via Doutor. A coisa vai andando. Sabe Doutor, ELA é uma companheira fiel, mas cobra-me um preço muito elevado. O amor é assim, possessivo, algumas vezes doentio, ciumento quando a entrega é incondicional, intenso em todos os momentos e assim se mantém até se tornar banal e desinteressado, mas por essa altura já não estarei cá para o sentir. Não Doutor, não estou a ser pessimista, muito pelo contrário. Na minha opinião até estou muito optimista. Repare Doutor, em vez de banal e desinteressado o amor poderia tornar-se odioso, ai sim é que a coisa podia dar para o torto. O ódio gerado pelo amor é um ódio sem piedade, rancoroso e vingativo, metódico na sua capacidade de provocar sofrimento. Se ELA assim já é difícil de aturar, imagine-a tomada por um sentimento assim. Em vez do desinteresse e do abandono que me permitiria um esquecimento gradual até ao fim da nossa relação eu teria 24 horas de sofrimento continuo, a respiração forçada, fraldas molhadas, quedas sucessivas, mazelas registando o conflito constante, a comida por um tubo, os orgãos desistindo de mim em gritos de agonia, Deus me livre de tal sorte Doutor!

Doutor, ontem vi o jogo do Benfica. Jogou com quem? Foi a Milão levar porrada do Inter. Sim Doutor, sou do Benfica. A bem dizer não sou de ninguém, porque isto de "ser", tem muito que se lhe diga. Talvez da minha mãe e do meu pai mas, agora que eles já não estão cá, da D... e da M..., fardo herdado, fado cantado, letra barrenta num gemido de guitarra sem cordas, a voz de um destino, cortado pela naifa que repousa no bolso de trás das calças de Deus. Não, não era sobre Deus que eu queria falar. Era sobre tristeza, neste caso a tristeza que eu senti no final do jogo. Sim Doutor, também fiquei triste por o Benfica ter perdido, mas não era dessa tristeza que eu queria falar. A tristeza que eu senti foi por ainda cair na mesma esparrela de sempre. Eu que não alimento o negócio do futebol subscrevendo canais de pontapés na bola, comprando jornais desportivos de arremedos coloridos "à la carte", indo a estádios para partilhar vocabulário vernáculo gritado em uníssono num orgasmo colectivo, adquirindo  o merchandise apropriado como prova de um amor partilhado que justifica a minha existência, eu que não sou sócio de nada (o clube desportivo da empresa onde trabalho não conta), não participo em esperas apoteóticas à porta de hotéis, salivando por uma foto ou um autografo, eu que não faço nada disto, ontem tive uma recaída e ressaquei. De boca seca e com hálito venoso, jardei merdas e mágoas, mágoas de merda que me revoltaram o estômago e me deram a volta aos intestinos. A Bola é como o álcool, se não sabes beber, não vejas. Na prática vi o Benfica ser humilhado e de nada me serviu justificar aquela exibição com um penálti por marcar ou umas cotoveladas no João. Podia ter-me sentado a ler um livro de Nabokov, tentando-me culto, ou ouvir um CD de Coltrane só porque sim e para parecer bem. Mas não, acedi à voragem contagiosa de um hino, do qual não gosto particularmente, e entreguei-me de garfo numa mão e copo de vinho na outra, numa degustação medíocre que me deixou com azia. Se aprendi alguma coisa? Claro que sim! Aprendi que a companhia do meu irmão M... e da minha D.... era muito mais valiosa que aqueles 22 mocinhos correndo pelo prado da glória em arremedos de pop stars. 

Continuo com as seções de fisioterapia. Vou às segundas, quartas e sextas, sempre das 18H00 às 20H00. Se me fazem bem? Não tenho a menor dúvida. Gosto da disciplina que é necessária para fazer os exercícios, gosto de chegar ao fim das seções com a sensação de dever cumprido, gosto do apoio que a D... me dá, gosto da minha fisioterapeuta. Se estou melhor? Essa é a pergunta a que não devo responder.

As duas horas que passo na clínica são redentoras. Atravesso a rampa como se fosse o rio Jordão. Verto águas no WC reservado às pessoas com mobilidade reduzida. A sanita adaptada é a minha pia baptismal, o meu confessionário. 

A minha D... tem sido incansável. Não sei se seria capaz de aguentar com ELA sem ela. 


2023-09-16

Por cada tremor um beijo na testa

 Já fui a muitos casamentos e a aniversários mas, este último ano, não consigo olhar para eles sem pensar que irão ser os últimos. Ontem o meu irmão M... fez anos e convidou-me para um jantar em sua casa. Eu e a D... saímos tarde do trabalho e estávamos ambos muito cansados. Recusar o convite do meu irmão estava fora de questão mas, para não variar, estava receoso de como iria aguentar tantas horas a uma mesa, visto que, os jantares do meu mano são sempre bem regados, com muita conversa e sem equipamentos electrónicos ligados. Também para não variar, tudo correu bem. Acabei por ficar até à meia-noite e passei umas horas muitíssimo agradáveis junto de pessoas amigas e de conversa fácil. Como cereja no topo do bolo tive a presença da minha filha que chegou, vinda de Lisboa, por volta das 22H.

Hoje de manhã disseram-me que a terra tremeu ontem à noite, 3 e meio na escala de Richter segundo o Telejornal, ou terá sido a D...? Não dei por nada e dormi que nem um anjo. A terra liberta-se de tenções com pequenos aconchegos no seu corpo. Enquanto assim for a coisa não está mal. Já eu só consigo acumular tensões. Em mim os abalos são sempre superiores a 7 na escala acima referida. Olho para o meu corpo e os estragos são evidentes, não há operações de resgate que consigam salvar alguma coisa. Ontem bem que o Moisés farejava nos meus escombros algum sinal de sobrevivência. Bendito animal de olhos tão meigos, negros como o pelo, negros como a noite onde adormeço e sonho. Não sei se sonhei contigo mas, se o fiz, de certeza que te abracei.

"Ó Doutores da medicina/Sacerdotes de Hospital/Guardem de mim memória/Por este amor tão fatal", assim começa um poema que fui encontrar numa prancheta, no meio da papelada técnica, lá no trabalho. Para dizer a verdade, não é assim que ele começa, mas é este o refrão. Está desatualizado, e é tudo o que tenho a dizer sobre o assunto. Bem, devo acrescentar que estou pensando utilizá-lo numa canção, no fim de contas escrevi-o com esse propósito. Haja tempo, paciência, mãos e necessária quantidade de prazer para o fazer.

Estou a ouvir Albert Wynn & His Gut Bucket Five. Jazz & Ragtime, Chicago entre duas guerras mundiais. Qual a razão para tal referência. Talvez porque, passados cem anos, também vivemos os nossos anos vinte, com os nossos devaneios, a nossa procura de divertimentos que nos façam esquecer  o futuro incerto, o nosso consumo de substâncias que nos ajudem a suportar a ausência de respostas. Limitemo-nos animais, sonhadores de impossíveis e, já que não nascemos com o dom da loucura esquizofrénica, que abre o mundo à genialidade, contentem-nos com a química que a finge.

Se tenho mais a dizer? Tenho sempre tanto para dizer. Poderá ser irrelevante, sim, claro que sim, mas, dentro da minha irrelevância, será sempre o que de mais relevante tenho para dizer. Que cena mais egocêntrica para exteriorizar mas, neste momento, eu sou como um barco em alto mar, sempre à procura do equilíbrio certo para não naufragar. Às vezes permito-me distrações mas, não podem ser prolongadas. A brincar, pode dizer-se que vivo por turnos; haverá sempre, dentro de mim, alguém em vigília. Porque não uso eu substâncias geradoras de genialidade e desassossego, de bem estar e adormecimento, de sensual felicidade e corporal necessidade? Porque tenho medo de não me reconhecer.

Domingo vai longo, cá por estes lados, e a tarde onde navego, tem rochedos encalhados.

Domingo vai cheio, cá por estas bandas, e o barco onde navego, não tem janelas nem varandas.

Que dizes tu, barcos sem janela e sem varandas? Bem, eu da arte de navegar só sei mesmo é do balanço do mar e da brisa que sopra no ecrã do portátil. Retirem-se as janelas, deixem-se as varandas. Coloque-se um vaso com cravos vermelhos...e não me façam mais perguntas.


2023-09-09

Blá, Blá, Blá...

 Doutor , há quanto tempo. O que tenho feito? Rotinas doutor, rotinas que justificam a minha existência e me ajudam a passar o tempo. Agora agarro-me a detalhes e retiro-lhes significados. Ainda ontem, à hora de almoço, tive uma discussão sobre futebol. Não foi bem sobre futebol, porque de futebol hoje ninguém fala. Falámos do tempo extra dado pelos árbitros, das faltas simuladas, do video árbitro, das reações dos  comentadores, das redes sociais, do dinheiro das transferências, blá, blá blá. Com quatro jornadas disputadas o assunto afunila-se em desconfianças e rancores, ingredientes indispensáveis a uma eterna e saudável polémica. Que bom poder desfrutar de uma conversa inconsequente e inócua. Espero sinceramente que este ambiente de guerrilha permanente continue a minar o futebol português. Sem ele éramos obrigados a falar de táticas, de escolhas, do jogo jogado no relvado...de futebol.

Não Dr., não foi para isso que cá vim. Tinha um trabalho de casa? Ha sim, pois tinha. Não escrevi nada mas tenho tudo na ponta da língua, melhor dizendo, na extremidade da memória. Não Dr. não me vou perder na semântica. Sabe Dr., após as doenças veio a bonança e a revolta. Comecei a viver depois do vinte cinco de Abril e no verão quente de setenta e cinco andava pela rua distribuindo panfletos dos pequenos partidos de esquerda cujas sedes, em apartamentos contíguos a habitações familiares, estavam sempre abertas a putos como eu, que ferviam de excitação com a agitação continua desses tempos. Não, não tinha ideias políticas mas apercebia-me do ódio que, depois de uma primeira fase florida, com cravos, abraços e cenas assim, crescia nas ruas. Gostava particularmente do MES (Movimento de Esquerda Socialista), a bola vermelha (agora o encarnado era perseguido) com a estrela amarela como promessa de liberdades que eu não conseguia imaginar, aqueles jovens adultos de cabelo comprido sempre tão simpáticos para os putos. Não tenho a certeza, mas penso ser dai a minha primeira paixão.

Sim Dr. era feliz, era mesmo muito feliz. Saia da escola, chegava a casa, e largava a mochila para sair logo de seguida. Rua, rua, rua e mais rua. colavam-se e descolavam-se cartazes a pedido. Era um trabalho nocturno que envolvia um certo risco, dependendo do número de participantes dos grupos envolvidos. Para alguns era uma forma de vida, muito mais do que uma motivação político. Por essa altura não se respeitava a autoridade. A bem dizer a única autoridade que eu respeitava eram as patrulhas dos Comandos que circulavam pela Amadora. Encontrava-os muitos vezes no "Lami", um café com matrecos e jogos de flippers. Olhava-os com respeito e admiração. O cabelo comprido, que saia por debaixo da boina vermelha, a G3 encostada à cadeira,  o cigarro ao canto da boca e uma cerveja na mão faziam parta da imagem de marca desta autoridade revolucionária.

Não Dr., as coisas não estão fáceis. Se tenho pensado muito no assunto? Todos os dias eu penso no assunto mas não lhe dedico muito tempo. Estou focado e sei o que tenho que fazer, assim como sei o que farei quando chegar a altura. Durmo bem graças a Deus. Às vezes não adormeço logo mas não tem a ver com falta de sono. Sabe Dr., eu gosto muito de ler e às vezes abuso um bocadinho. Já chegou a hora? Então até para a semana Dr.

2023-09-03

E os dias de espera

 E os dias de espera? O que têm eles? É mais o que não têm. Falta-lhes ritmo, melodia, o silêncio no tempo certo. Falta-lhes a cor que define o tempo, a pincelada que revela os objectos. Falta-lhes a serenidade da tua companhia nos dias em que a sobrevivência te requisita para funções de mera sobrevivência.

O cadeirão tem um sistema eléctrico que permite elevar as pernas concedendo repouso a esses membros preguiçosos. Talvez esteja a ser duro ao adjectiva-los desta forma, mas a verdade é que eles pouco fazem do que eu mando. Quando estou sozinho é mais difícil. Os movimento tem de ser estudados e os percursos definidos com antecedência. O que primeiro procuro num destino é a acessibilidade. Todos os objectivos passam por um crivo rigoroso, uma checklist com itens inegociáveis. O cadeirão também me ajuda a levantar. Sentado no meu cadeirão eu sou Rei.

E os dias de espera? O que têm eles? Têm de tudo; o levantar, a casa de banho, a bacia e o chuveiro, e isto só para começar. Achas pouco? Sabes lá tu o trabalho que isto dá. Depois há o secar-me, o vestir-me, tudo com muitas hesitações, tudo muito bem pensado, os gestos lentos procurando coordenação, a cabeça procurando a mensagem certa que devolva o resultado pretendido e eu de lado apreciando o esforço, preparado para aplaudir, boa Paulo, és o maior, e sabendo que não sou. 

A cadeira que me faz descer ao rés do chão também é eléctrica. Sento-me nela com cuidado. Fecho-lhe os braços, aperto o sinto e, com o manipulo na mão direita, vou correndo pelas escadas abaixo. Adoro a palavra "correr", adora a forma como ela escorre da minha boca, os "R's" ressaltando na minha garganta procurando fugir por entre os dentes cerrados. A chegada é acompanhada por um sinal sonoro: Não sei porquê mas faz-me lembrar os eléctricos em Lisboa. Havia um que ia para Santos, para a Escola Profissional Fonseca Benevides, eu sentado junto à janela, atordoado pelos compostos químicos que me devoravam a consciência. A cadeira é o meu transporte favorito, leva-me de cima para baixo e de baixo para cima, permitindo circular entre os meus reinos. Adormeço perto do céu e alimento-me junto à terra. Se existe simbolismo nesta merda? Talvez, mas não lhe dou muita importância.

E os dias de espera? O que têm eles? Têm de tudo um pouco; o pequeno almoço servido pelo melhor ser humano que conheço, os comprimidos dentro da fruteira - já teve fruta lá dentro mas agora dá mais jeito ter as lamelas de comprimidos, é preciso agilizar - , a taça com iogurte, frutos vermelhos e muesli, o café e  um copo de água, o cigarro electrónico fumado à porta de casa agarrado ao andarilho. Ainda só são nove horas da manhã e já consegui tanto. Os dias de espera são todos, e para que continue a esperar tenho tanto que fazer...


2023-08-20

O sarampo? Não foi só o sarampo.

 Bom dia Dr., cá estou eu outra vez. Tudo normal; as pernas de arrasto, o corpo mais magro, a mão esquerda trémula de gestos e a cabeça projectando-se num futuro que não está longe. Fui ao fisiatra para uma avaliação. Prescreveu-me três seções semanais de fisioterapia. Sim, deveria estar contente mas o problema é que em agosto tudo pára e já não há lugar para mim, talvez em setembro. Bem, na prática ficou tudo na mesma e eu vou tentar que ELA também tire o agosto de férias. Não será fácil, mas bem conversadinha é capaz de resultar.

Devíamos ir mais para trás? Acha mesmo que vale a pena? E quão longe quer você que eu recue? Até às primeiras lembranças? Ok Dr. vou fazer um esforço...

Sempre aquele pátio interior e eu sentado no poial de entrada com um bocado de plástico amarelo moldado de forma a assemelhar-se a uma pequena camioneta de caixa aberta. A minha mão é pequena mas  a pequena viatura encontra nela o espaço suficiente para se posicionar. Olho-a de cima e com a mão disponível coloco-a no poial junto a mim. Arrasto-a com a mão simulando o movimento causado por um motor. Ali perto, na estrada, os automóveis passam numa cadência constante. É de dia e estou sozinho. Não, nunca tive oportunidade de confirmar a vericidade desta memória. Certo é que nunca consegui apagar esta imagem.

Procuro o primeiro carinho sem o encontrar. No entanto estou certo de terem acontecido momentos em que eles estiveram presentes, o primeiro e todos os outros. O rés do chão, já na Amadora, era uma casa vazia com tacos de madeira. Eu corria e deixava-me cair de joelhos deslizando pelo corredor até ao wall de entrada. Paulo Jorge, não faças isso que ficas mal. Seriam essas as palavras? E proferidas por quem? Possivelmente pela minha mãe.

Da cama e do sarampo também tenho muitas imagens. A cama que, durante o dia, recolhia para dentro de um móvel que se prolongava ao longo da parede como uma estante. De lá também saia uma escrivaninha. Na parede oposta repousava um sofá com braços de madeira. Os assentos eram castanhos, de um castanho que me ficou marcado na memória como sendo a cor de um Ford Cortina que estacionava lá na rua. Mais tarde o assento do sofá foi tapado com uma manta de lã que a minha mãe tricotou com várias cores. Ela comprava as meadas de lã e eu ajudava-a a fazer os novelos. Segurava a meada com os braços esticados e as mãos por dentro mantinha-a esticada. Conforme a minha mãe principiava a fazer o novelo eu oscilava os braços para a esquerda e para a direita permitindo ao fio um deslizar regular que fazia o novelo crescer. De vez em quando eu invertia o movimento só para ter o olhar reprovador da minha mãe nos meus olhos.

O sarampo? Não foi só o sarampo. Foi o sarampo, a papeira, a broncopneumonia, a varicela, as crises de asma, as gripes e as constipações. Por essa altura também fui operado aos adenóides e às amígdalas. Eu falo do sarampo porque, na altura, era uma doença que metia respeito às jovens mães. Dizia-se que podia provocar lesões permanentes e a minha mãe ficou muitíssimo preocupada quando eu o apanhei. Havia a convicção de que a luz vermelha ajudava na cura da doença, por esse motivo, todas as luzes do meu quarto, foram forradas com papel celofane dessa cor. O quarto ficava com um ambiente estranho e os livros de bonecos adquiriam uma coloração avermelhado que lhe conferia uma áurea de mistério. Por essa altura o sangue era encarnado, da cor das camisolas do Benfica, das quais só tinha conhecimento pelos cromos da caderneta de futebol, e não havia vermelho. A guerra? Ouvia os meus pais falar e sentia a sua preocupação quando olhavam para mim.

Já chegou ao fim Dr. ? Bom, então até para a semana.


2023-08-12

Morte assistida, suicídio, ou sofrimento em nome de um ideal de moralidade

 Não, hoje não consegui consulta e contento-me com a simulação digital numa folha de papel. Porquê o tema? Bem, desde outubro do ano passado que este é um tema recorrente, ELA assim obriga. Algo foi aprovado na assembleia da republica sobre o assunto e muitas das questões que se colocaram estão relacionadas com a ética e a moralidade. Muito se falou dos médicos e dos profissionais de saúde a quem competiria executar o acto clínico, da constituição e do direito à vida, da religião, que sem direito de veto, continua a exercer pressões para lá do que seria admissível num estado laico, e dos partidos políticos, alguns dos quais pretenderiam referendar o assunto. 

Um dos argumentos utilizados, para além dos conceitos morais e ideológicos e atenção, espantem-se caros leitores, temos o comunismo, a igreja católica e um partido, apelidado de extrema direita pela imprensa da especialidade, comungando de igual condenação, muito embora por razões aparentemente diversas, dizia eu que um dos argumentos utilizados contém em si uma racionalidade perversa, a de que o estado deve providenciar todas as condições às famílias, aos cuidadores informais, às instituições que se dedicam ao árduo trabalho de manter vivas pessoas que já não se mexem e que muitas vezes só existem para satisfazer o egoísmo de familiares pouco interessados em saber a sua opinião. 

Ser prisioneiro de um corpo não é para todos. Há quem goste, quem deteste, quem se habitue, quem não suporte, quem nunca mais se consiga identificar com alguma coisa, por outras palavras, há gostos para tudo, mas, acima de tudo, há muito sofrimento.

Ser um fardo, quer seja assumido ou não por quem nos carrega, é algo que alguns de nós não conseguimos esquecer. Para essas pessoas a morte assistida  ou o sofrimento em nome de um ideal de moralidade, não são opções válidas. Para essas pessoas a espera caridosa por direitos escritos e não cumpridos não é solução. Ái que boas as intenções dos nossos governantes, nem por aqui vou, caminho obtuso, relatar a ansiedade de quem precisa, pede e lhe pedem para esperar, mesmo quando não há tempo e a solução passa pelo investimento particular (imagino o sofrimento de quem não tem).

Ser um fardo é ser pedinte. Precisar e ter medo de incomodar...desculpe eu ser assim, não tive culpa, aconteceu...

Numa fase terminal, tendo admitido que morte assistida é imoral, que o suicídio é pecado ou que não não se está preparado para partir, resta um corpo imóvel agarrado a uma cadeira e uma mente que se mantém activa sem nada para comandar. E chegado a este ponto meus amigos, nem todos sofrerão da mesma maneira, nem todos verão recompensada a sua lealdade para com o principio sagrado da vida.

Mas uma coisa é certa, assistida ou não, ela acabará por chegar e, em última análise, enquanto houver ação a decisão será sempre pessoal, seja ela difícil ou não.

Alerto para o facto de este texto conter em si uma reflexão filosófica sobre o assunto. Talvez o que o distinga de muitas outras considerações seja a legitimidade com que ele é escrito e à qual não admito contestação.

Nota: Este texto tem como referências a aprovação de uma lei, as palavras do Papa, a hipocrisia partidária e, na prática, os que discutem sem serem, verdadeiramente, a parte interessada. Esta história de que conheço pessoas, ou que tenho familiares próximos, ou qualquer outra coisa parecida, não conta. Por muito que doa estar perto não é estar dentro.


2023-08-09

Eu não sou Cristo, não tenho nenhuma mensagem para deixar...

 Está calor. Está muito calor. É de noite e está muito calor. É de noite, está muito calor e o termómetro marca 24ºC depois de uns sufocantes 39ºC durante a tarde. Tenho dificuldade em mexer-me na cama. Os lençóis queimam e a ventoinha de plástico não consegue diminuir a grossura das veias nas minhas mãos. Ontem arrastei-me até à casa de banho onde mergulhei as mãos em água fria e molhei o peito, as costas e a  nuca. Quando voltei para a cama já estava seco. Hoje a D. deixou-me uma garrafa spray com água de uma marca conhecida. Borrifo-me várias vezes mas não consigo estabilizar a temperatura do meu corpo. 

Olho para o relógio que me deram, uma preciosidade da tecnologia que me permite monitorizar, entre outras coisas, a percentagem de oxigénio no meu sangue. Consideram-se valores bons qualquer coisa entre os 95%  e os 100%. Valores abaixo de 90% são maus. Olho para a porcaria do relógio todas as manhãs apenas para descobrir que os meus níveis de oxigénio no sangue descem durante a noite e estacionam teimosamente nos 88%. Haverá espaço para colocar uma garrafa de oxigénio junto à mesa de cabeceira? Já houve tempo em que outras garrafas velaram o meu sono.

A D. diz-me que eu devo escolher os livros a peso. Expliquei-lhe que gosto da companhia de um bom livro por mais de um mês. Geralmente escolho-os para ler na cama. São trinta e tal dias de companhia, à qual me habituo ao fim de uma semana, e da qual sinto saudades quando acaba. Pelo meio, na sala, leio amigos mais pequenos. Já pensei comprar um suporte de leitura...para me ir habituando. Quem primeiro me sugeriu a ideia foi o Dr. V.J. Penso que não resolve o problema para todos os livros porque alguns teimem em fechar-se mal se libertam da pressão dos meus dedos. Força-los seria ferir-lhes a lombada, deixar a a minha marca no seu lombo, mostrar que os domestiquei.

Acabaram as jornadas, duram os incêndios e começa o futebol. Entre os recordes de temperatura, Marcelo e Costa tiram proveito do sucesso da missão JMJ. Francisco foi igual a si próprio, uma lufada de ar fresco perdida na hipocrisia de uma Igreja que se tenta actualizar mas há temas que continuam a doer. A morte assistida é um deles. Perguntam sempre a opinião às pessoas erradas...

Assumo a minha fé cristã. Mais do que em Deus eu acredito no Cristo-Homem, Cristo-Revoltado, um Cristo-Social que nos inventou iguais para nos apresentar ao seu Pai. Também ele teve uma morte assistida quando se deixou crucificar. Podia ter evitado a cruz, mas não o fez. Decidiu-se pelo sacrifício e inventou-lhe um significado. Foi esse o seu testemunho e por esse motivo adoramos a cruz. Eu não sou Cristo, não tenho nenhuma mensagem para deixar e gostaria de morrer sem sofrimento mas com dignidade.

O relógio da cozinha está a precisar de pilhas outra vez. Já pensei em deixar que os seus ponteiro se imobilizem para sempre numa ilusão de imortalidade, apenas desfeita duas vezes por dia, mas a ideia não agradou à D. e eu tive de concordar com ela. Afinal ainda precisamos do relógio da cozinha, nem que seja para constatar, todos os dias da semana, que estamos atrasados para o trabalho, ainda por cima eu não posso correr...

2023-08-05

Atualização manual; a linha base da lucidez...

 Bom dia Doutor. Já há algum tempo que eu não venho cá e estava a precisar de falar. Podia ter telefonado? Eu sei, mas achei melhor esperar pela consulta que tinha marcado. Sabe Doutor, eu preciso de digerir o que vai acontecendo. Cada dia que passa apresenta-me um número infinito de desafios. Cada ação é uma batalha cuidadosamente preparada. Cada gesto é minuciosamente cálculado. Nunca posso baixar a guarda.

Fui ao médico para preparar as coisas e informar-me sobre o meu seguro de saúde. Ficou espantado por ainda me encontrar a trabalhar. Queria dar-me baixa. Enfim, lá lhe expliquei que preciso dessa rotina para me manter são. Para já vamos adiantar o processo de modo a obter a reforma por invalidez, são coisas que demoram tempo e precisam ser tratadas atempadamente. As análises que me mandou fazer estão uma merda. Desculpe Doutor, mas a palavra é mesmo essa. Receitou-me mais comprimidos...estou nuito doce. Qualquer dia tenho abelhas ao meu redor recolhendo nectar do meu corpo, levando o meu polén para lugares distantes. Pergunto-me a que saberá o mel fabricado a partir do meu nectar.

Fui a Santa Maria a semana passada. As informações que me dão não são novidade para mim. Pior das pernas, pior da mão esquerda, os pés a recusarem mexer-se, o diafragma a ficar preguiçoso durante o sono,  a evolução, que eu gostaria mais lenta, tem vida própria. Receitou-me vitamina B. Parece que chegaram à conclusão que faz bem. Mostrei-lhe as análises, os açucares elevados, as gorduras a subir, o figado a ceder, um sem número de anomalias a juntar à anomalia que eu sou. Disse-me para eu não me preocupar com as gorduras. O facto de ter os valores elevados até que é bom, pormenores desta doença. Só preciso de controlar os açucares.

Finalmente vou a um fisiatra. Decidiram que eu preciso de fisioterapia especializada e passaram-me uma credencial. Entretanto a APELA contactou-me. Parece que também querem fazer-me uma avaliação. Se me agrada? Penso que sim, funciona como uma espécie de droga, mas cujo o efeito é, temporalmente, muito reduzido. Quando cheguei a casa já tinha passado. Sabe Doutor, agora estou sempre à espera de qualquer coisa, boa ou má. O melhor é esperar sentado. Rio-me da ironia desta frase...por enquanto ainda consigo rir-me.

Estou a ler "O Homem Revoltado" de Albert Camus. Já leu? Sim? Era de esperar. As interrogações e as linhas de raciocinio que lá estão esplanadas são, de alguma forma, universais. O Homem, Deus, qual o significado da minha existência. São coisas boas para distrair mas não acrescentam nada ao meu quotidiano. Não me entenda mal Doutor, eu estou a adorar o livro, fez-me até ler alguns filosofos que me passaram ao lado. 

Por enquanto ainda consigo abrir um livro. A mão esquerda tem dificuldade em passar as folhas. Por cada uma que viro obtenho uma vitória. Ainda tenho tanto para ler. Escrever? Deixou de ser um objectivo. Não sei porquê mas as palavras deixaram de ter importância. Desculpe Doutor, eu não me estou a fazer entender. O que se passa é que eu já não procuro uma escrita cuidada, bem estruturada gramaticalmente, com adjectivos preciosamente escolhidos, joias de prosa sem valor, poemas que qualquer IA pode imitar.

Será que as palavras esculpidas em marmore de dor também podem ser imitadas. A base de dados de todo o sofrimento humano. Ó máquina divina, dá-me ai um soneto com a dor d'ELA no meu corpo, estilo Cesário Verde. Porquê Cesário Verde? Porque também ele morreu de doença, novo. Talvez assim as palavras gritem de dor bem fingida.

Às vezes pergunto-me, para que serve a inteligência biológica? Só a Moral nos impede de morrer, tudo o resto é acessório. Moral, palavra turva, manifestamente filosófica, encantadoramente ambigua. No dia em que ensinarmos à máquina os conceitos morais que presidem ao julgamento das acções, deixaremos de ser necessários.

Sim Doutor, eu sei que me estou a desviar do assunto que doi, mas, porra, acho que tenho o direito de me iludir, cobrir-me com uma manta e olhar pela nesga, que mantenho com a mão direita, para o mundo lá fora. 

Já acabou Doutor? Eu hoje estiquei-me um bocadinho, eu sei. Mas isto é mesmo assim, há dias que dói mais e o tempo nunca chega para dizer tudo. Até para a semana Doutor e obrigado pela paciência.

No ecrã a placa anuncia o que se espera por detrás do processador...Dr. Blogue... 

2023-07-27

Desculpa D.... amo-te tanto

E o mundo continua a girar. Esta constatação poderá não ser dramática, mas para mim tem um sabor amargo. O FMM arrancou em Porto Covo e chegou quarta-feira a Sines. Sentem-se os aromas no ar, e as conversas dividem-se entre combinações de encontros e projectos de férias. Por momentos o Mar Negro perde importância. As ameaças a navios civis, os bombardeamentos, a falta de alimentos nos países pobres, as alterações climáticas, as taxas de juro, a greve dos médicos, os professores, os desvios na Altice, tudo isto, por breves instantes, deixa de ser assunto. Por momentos o mar é azul e cheira a protetor solar, as refrigerantes e a Gin tónico. Os corpos bronzeados, manipulados em ginásios, disfarçados por roupas criadas para o efeito, tomam conta das ruas. Ái de quem não se converta. As piras de madeira, recentemente cortada, são estrategicamente colocadas nas esplanadas. 

O mundo continua a girar e eu sinto-me traído. Como é possível que ele não dê pelo meu sofrimento? Como é possível que ele não ouça os meus gritos de desespero enquanto tento equilibrar-me para chegar à casa de banho, enquanto tento calçar os meus ténis, enquanto tento cortar um bocado de carne no prato, enquanto tento uma vida o mais normal possível?

Sinto a vertigem do movimento. O mundo gira deixando atrás de si o crepúsculo de pessoas consumidas. O menino bate recordes na sua tentativa de grelhar a humanidade e eu pergunto a mim próprio se devo preocupar-me. Claro que sim. O amor que sinto pela minha filha, pela minha mulher, não me deixaria responder de outra maneira, mas a verdade é que, às vezes, estou-me completamente nas tintas. Quando acordo, depois de um sonho em que controlava o meu corpo, eu deixo-me ficar deitado esperando voltar a adormecer. Ainda hoje aconteceu, que tristeza os meus olhos abertos, as cãibras pelo corpo, a pele enxovalhada, os músculos mirrados, que tristeza eu mesmo a girar com o mundo.

Vendi o meu carro, já não o consigo conduzir. Há dois anos atrás jurava a mim próprio que o havia de levar para a cova, coisa parva para se dizer, mas que era a demonstração verbal do meu amor pelas coisas que me acompanharam na vida. Pela primeira vez consegui chegar aos 200.000km com um veículo. O meu Juke vermelho. 

Um dia, num jantar, ou seria um almoço, bem não interessa, uma dessas refeições em que juntamos uma dezena de pessoas para comemorar uma coisa qualquer, ou a pretexto de qualquer coisa, alguém, numa conversa a respeito de automóveis, comentou que o meu Juke era o carro mais feio que havia, e chamou-lhe Yuke. Senti tanto orgulho nessa fealdade que passei a referir-me ao meu carro como o meu Yuke. Gostava tanto de o conduzir, possivelmente o automóvel de que mais gostei

Não fui capaz de despedir-me do meu Yuke. Sinto-me triste e o mundo continua a girar. Os objectos à minha volta revelam-se inimigos implacáveis quando tento resistir à imobilidade, sempre dispostos a relembrarem as barreiras, o campo minado em que se transformou o mundo que me rodeia.

Preciso de marcar uma consulta com o Dr. Blogue. Desta vez não quero só falar, quero alguma espécie de resposta, uma merda qualquer, nem que seja só para me dizer isso mesmo, que sou uma merda. Ninguém tem coragem para o dizer, coitado do deficiente, não batam mais no ceguinho.

São 19H10 e, alguns anos atrás, estaria a preparar-me para uma noite de concertos. Talvez eu amanhã arranje coragem para aceitar o convite, a exposição mediática do corpo destroçado a quem ninguém liga.

Desculpa D.... amo-to tanto.


 

2023-07-23

Trabalhar; um desafío diário

Está sim? Boa tarde, o meu nome é Paulo Guerreiro e sou paciente do Dr. Blogue. Será que haveria hipótese de me arranjar uma consulta para esta semana? O Dr. está cheio! Só para daqui a quinze dias? Não me consegue arranjar ai um buraco onde me encaixar? Ok, vai falar com ele e já me diz qualquer coisa, obrigado.

Este Doutor é espectacular, arranja sempre tempo para me ouvir, e hoje preciso tanto de falar. Sentei-me no sofá. Não me apetece deitar, podiam as palavras ficar engasgadas na garganta, repousando preguiçosas na horizontalidade do meu corpo. 

Amanhã volto ao trabalho após três semanas de férias. Se foram boas? Foram óptimas. O hotel tinha todas as condições e eu levei a cadeira de rodas. O que eu mais gostei? Das piscinas. A exterior era muito boa, com quatro acessos muito bem conseguidos, bastava levarem-me até ao corrimão. Que felicidade, a água fresca no meu corpo mirrado, a sustentabilidade e o equilíbrio, como que por magia, recuperados. Se houve lágrimas? Claro que houve. Essas nunca mais me abandonarão.

Amanhã volto ao trabalho. A cada semana que passa sinto-me mais limitado, menos eu. Ainda não decidi se levo o andarilho ou a cadeira de rodas. Se levar a cadeira de rodas ando mais depressa, o milagre da roda, que maravilhosa invenção. Algumas das portas são um contratempo, a casa de banho também. Mas também, por esta altura, tudo é um contratempo. 

A noite que passou fartei-me de pensar. Construí o dia de amanhã a partir dos meios receios. Custa-me tanto o olhar piedoso, principalmente o dos meus amigos mais próximos. Eles bem que tentam disfarçar, mas eu descubro-lhe esse ligeiro franzir de testa, a empatia e a dor que lhes provoca. São breves os segundos, mas a cada dificuldade eles repetem-se e eu sinto-os. Ando a treinar-me para os ignorar. Os meus amigos? Não! Os segundos, são os segundos que eu pretendo ignorar.

Ainda não decidi se vou mudar de gabinete. Amanhã logo vejo. Preciso de ver qual deles fica mais perto da casa de banho. Se já uso fraldas? Ainda não, mas já pensei nisso. Esta história de ir à casa de banho mói o juízo a uma pessoa, sempre a pensar se chego a tempo, se consigo segurar-me. Sentar-me na sanita é outro problema. Em casa arranjei um adaptador com braços, na verdade arranjei dois, um para cada casa de banho. Também comprei um para levar para o trabalho. acha que me vou safar? Depende de mim? Ok, compreendo.

Já passou a hora? Ah, Dr. é sempre tão rápida esta hora, fica sempre tanto por dizer. 

Escrevo diretamente no editor do blogue. Não procuro estilos nem palavras bonitas, procuro-me a mim por detrás delas, das palavras. Consigam elas revelarem-se em pensamentos. Estou convencido que a sua leitura, num tempo posterior, me permitirá reconhecer-me. Nem sempre escrevi para mim, mas neste momento tenho total consciência desse facto. 

Gosto de ver as palavras aparecer na pré-visualização. Fica mais fácil entender-me. Às vezes até me esqueço que fui eu que originei o grafismo e que aquelas palavras me pertencem. Chego, até, a gostar um pouco de mim.

Imagino-me a descer as escadas do consultório. É melhor voltar atrás e repetir...imagino-me a descer de elevador, deixando os pensamentos tomarem conta de mim.

O melhor é despedir-me...

Até amanhã Paulo!





2023-07-21

Esmola



Sentado no lugar do passageiro espero por mais uma esmola. Transformei-me num especialista. Faço os pedidos por interpostas pessoas e envio os meus emissários em diversas direções, numa procura incessante por subsídios. Carregam consigo o bastão da deficiência, a palavra chorosa do anormal. Sentado no lugar do passageiro congratulo-me por mais um sucesso. Sinto vontade de bater as palmas das mãos, de aplaudir em pé. Em pé? Ah! Ah! Ah! E seguro-me aonde? Pedes para te agarrarem, no fim de contas, "Pedir", é o teu nome do meio. Saímos de Santiago com a sensação de dever cumprido, mais uma bandeirinha no cume da montanha, amanhã outras haverá para escalar.

Enquanto esperei apaguei um conto do Blogue, assim como o link que dele havia criado no Face. Que diabo, o que era aquilo? Um rapaz, uma mãe, uma árvore, um destino divino, uma porcaria, lixo que inventei porque não quero admitir o que sinto.

O que sinto eu? Talvez um pequeno episódio o possa representar. Ontem acordei tarde, nada de especial para quem está de férias. O problema é que eu tinha de fazer análises, aquela coisa de levar um pequeno recipiente com urina e, em jejum, deixar que alguém faça um pequeno orifício numa das veias do braço para de lá extrair um líquido escuro, possivelmente sangue, se alguém assim o quiser apelidar, e esperar pelo inevitável resultado a confirmar o que muitas vezes já se sabe. Bem, deixemo-nos de divagações e vamos diretos ao assunto. Acordei tarde e, a muito custo, sentei-me na cama. Urinei para onde tinha de urinar sabendo que estava atrasado e que tinha de me despachar. Levantei-me a muito custo e procurei pela bengala, acessório indispensável para o meu equilíbrio. Já em pé, e com uma confiança pouco cautelosa, arrisquei alguns passos. O desequilíbrio foi imediato, dois passos atrás, a tentativa de cair em cima da cama, o resvalar para o chão, a boca dirigindo-se para a gaveta da mesa de cabeceira, a cabeça na parede, e o sabor de sangue na boca. OK, já está! Hoje é assim e isto é só o começo. O que sinto eu? Que isto é só o começo.

O meu futuro tem hoje outra velocidade e eu ainda não acertei na sincronização. As palavras escorrem até aos meus dedos com o sabor de sangue na boca, por esse motivo não consigo brincar com elas, usá-las para usufruir do prazer da criação. Neste momento tudo o que fizer nesse sentido se revelará inócuo, irrelevante e acima de tudo, mal escrito.

Resta-me ser eu mesmo. E o que sou eu, por detrás da máscara que coloco todos os dias? Sou alguém com uma doença degenerativa, Esclerose Lateral Amiotrófica, ELA. ELA já me tirou algumas coisas; tirou-me as pernas, para andar, tirou-me a mão esquerda, para tocar, e vai-me tirando, todos os dias, pedaços de mim. O que me resta então de todos os sonhos que adiei? Acordar e fazer com que o dia valha a pena, retribuir com amor a quem, todos os dia, ainda acredita em mim. Sendo assim, ainda me falta tanto que não lhe vou chamar "resto".

E a escrita? O que fazer com as palavras que continuam a escorrer pelas minhas mãos? A escrita será a minha consulta de psicologia. Finalmente um objectivo concreto para toda esta verborreia. "Um Dia Depois..." será o sofá onde poderei espojar-me, chorar e rir, barafustar e, porque não, gritar até que o diafragma desista de mim.

Leio o que escrevi. Agora sim começo a fazer sentido. Reconheço-me neste palavreado que, de alguma forma, é uma manifestação de auto comiseração. Sim Paulo, não inventes, tu não precisas de inventar nada. Vá, não despejes tudo num só dia, já passou uma hora e não pagaste para mais.

Até à próxima Dr. Blogue



2022-04-23

Sentado na minha cadeira e sem querer ter razão

Sentado na cadeira questiono-me. A chuva lá fora é banda sonora. Cá dentro sou o corpo que está sentado. Tenho uma manta sobre os joelhos e um ecrã defronte dos meus olhos, tenho o mundo à distância dos meus braços e as extremidades, a que se convencionou chamar dedos, vibram febrilmente procurando novidades. A guerra, conflito armado entre dois povos, é invasão e libertação, operação militar e ocupação injustificável. O conflito é servido com a respetiva guarnição de contradições. Antigos ódios renascem das cinzas e reerguem-se os muros que se consideravam extintos. Os anos noventa e a nova ordem mundial, a globalização e a deslocalização de empresas, o dinheiro voando sem ideologia pelos céus sem fronteiras, as relações comerciais que de tão vantajosas impediriam futuros conflitos armados, tudo destruído num só dia, um sonho europeu que nunca se concretizou. Sentado na minha cadeira questiono-me sobre esta europa, sentado na minha cadeira questiono-me sobre o meu mundo. O comunismo transformado em capitalismo de estado e o capitalismo tradicional recebendo de braços abertos esta nova oportunidade.

No meio de tudo isto o trabalho no mundo cada vez menos remunerado. No meio de tudo isto mais um país invadido, mais mortes, mais refugiados, mais…

No meio de tudo isto as desigualdades que se acentuam, as sociais, as raciais, as de género…

Sentado na minha cadeira teimo em ter esperança.

Hoje é tempo para ver, sentir e decidir.

A razão virá depois, ou não.       

2021-11-07

Democracia a funcionar

Dissolver o parlamento 
Não é nada excecional
Olha quem ficou sentado
Quando acabar o Natal
 
Dissolver o parlamento 
Não é drama para chorar
É o Natal em janeiro 
Democracia a funcionar
 
Passam meses até haver
Um Parlamento e governo. 
E muitos mais até chegar 
Uma espécie de Orçamento.
 
E ainda mais hão-de ser 
Para que os novos ministros
Saibam o que estão a fazer. 
Nada de grave 
Nada de excecional. 
Olha quem ficou sentado 
Quando acabar o Natal
São presentes em janeiro
Democracia a funcionar
 
Perder meses com processos
Prazos, avisos, discursos
Conferências e recursos
Não é nada de novo, 
É hábito em Portugal.
É um regalo pró povo
Democracia a funcionar
 
Divergências entre partidos
A falta de convergência
Pontos de vista sortidos
Portugal em convalescença
Bases sólidas de entendimento
São frequentes em Portugal.
Duram um instante, um lamento 
É a democracia a funcionar
 
A gravidade do momento
E a crise financeira
Nunca serão suficientes
Para mudar de bandeira
Não bastam para que os partidos 
Entendam que devem mudar
Novas soluções: nada de novo,
É a nossa democracia a funcionar
 
Depois de ler…

António Barreto
O grande sarilho (grande angular) Público Edição Lisboa 6 de novembro de 2021
 

2021-04-25

2021/04/25 10H39

 2021/04/25 10H39

 

Dois mil e vinte e um,

Abril, dia vinte cinco,

Domingo.

São dez horas da manhã e devia sentir alguma coisa.

 

Passaram quarenta e sete anos pela data.

Passaram cinquenta e seis por mim.

Algo passou, foi o tempo.

Eu mato esse tempo para poder recordar,

Como se fosse hoje.

 

 

 

 

A criança sentada no sofá da sala.

O olhar silencioso desvendando o silêncio da mãe.

Uma lágrima solitária desce apressada após uma breve hesitação.

A lágrima repousa no canto da boca.

A criança lê os sinais,

Lê a lágrima pura e cristalina da progenitora,

Lê-lhe o canto da boca,

O risco que se eleva,

O quase sorriso.

A aparelhagem sonora que é rádio e gira discos hoje é outra coisa.

 

Não me consigo recordar das palavras,

Do verbo dos homens da rádio,

Da música que saía pelos altifalantes.

Passaram quarenta e sete anos,

E eu era tão novo.

Quero acreditar que a minha mãe me abraçou.

Quero acreditar que abraçada a mim chorou de alegria,

Pelo fim da guerra,

Para poder esquecer aquele dia em 73 quando três homens bem vestidos lhe tiraram o marido.

Três dias durou a ausência.

O desassossego, esse perdurou.

Talvez acabe hoje, naquele dia, há quarenta e sete anos.

 

Era ainda noite quando o telefone tocou.

Não me lembro do telefone mas sei que ele tocou.

Sei que do outro lado o meu pai avisou a minha mãe.

Não posso sair…Um golpe de estado…Tropa à entrada da refinaria…Liga o rádio…

Terão sido essas as palavras?

Não sei…

 

Gostava de lhes perguntar,

De confirmar a veracidade deste passado.

Hoje, juntos onde se encontram, não me podem responder.

Hoje comemoram sozinhos o seu aniversário,

 

E eu, o que comemoro eu?

Sem sombra de dúvida que comemoro a liberdade.

Haverá algo mais a comemorar?

Necessitarei de mais palavras?

Penso que não e mesmos estas poderão ter sido desnecessárias.

 

Aos homens e às mulheres que possibilitaram o 25 de Abril um grande obrigado.

A homenagem possível é uma promessa que não pode ser quebrada.

Preservar a liberdade não é coisa pouca e nem todas as pessoas a entendem da mesma forma.

Poder escrever estas palavras e não ser incomodado é quanto me basta hoje.

 

Amanhã será outro dia…

2021-03-24

Apenas um sonho como tantos outros

 Encontro-me envolto numa substância aquosa. Não me sinto desconfortável. Aparentemente o meu corpo adaptou-se ao meio e com gestos fluídos faz-se deslocar de maneira célere.  Poderia dizer-se que nada, de tal forma a deslocação é eficiente. Tomo agora consciência que a minha deslocação é feita debaixo de água. Forço a apneia e agito pernas e braços de forma harmoniosa. Terei eu um destino pelo qual valha a pena o esforço...penso que sim visto que, apneico, mantenho um rumo direito e objetivo. Sinto-me observado por alguém no exterior. Procuro não me abstrair e foco-me na respiração. Tenho uma respiração controlada, mesmo debaixo de água. Penso, isto não devia acontecer, eu não devia ser capaz de respirar. Os meus pensamentos são abruptamente travados por uma parede, aparentemente, intransponível.

Estou cá fora e o que eu julguei ser um mar não é mais que um grande tanque em cimento no meio de uma seara verde. A seara tem quase a minha altura. Apercebo-me da minha nudez e envergonho-me. Que maçã terei eu mordido...estou só, tudo à minha volta é verde e o tanque desapareceu. Caminho sem destino sentindo nos pés torrões de terra seca e morna. Primeiro devagar, depois cada vez mais depressa. Sinto as espigas fustigarem-me o corpo. Por alguma razão que desconheço tenho uma agradável sensação de calor. Olho para o céu e deslumbro-me com um sol de meio-dia pintado por uma criança de cinco anos, um sol vertical e sem sombras. Descortino ao longe uma casa branca. Imagino-a caiada porque a cal me devolve a mocidade e o meu pai.

Estamos os dois numa clareira de um grande quintal. No centro desse quintal uma figueira distribui os seus ramos repletos de folhas de forma equitativa e uniforme. A sombra que estes projetam assemelha-se à de um alpendre. Junto ao tronco da árvore está um bidon ao qual cortaram o tampo. Lá dentro grandes blocos de cal imitam icebergues num mar branco e revolto. O meu pai segura um bastão de madeira e com ele provoca remoinhos lentos fazendo soltar gases desconhecidos. Sinto o cheiro a figos e a merda de galinha. Já não vejo o meu pai e agora sou eu que seguro o bastão numa pose de imitação disfarçada.

Os meus olhos perdem-se no branco da cal. O branco da cal, a principio difuso, começa a definir  granulados. São granulados familiares, rugosidades conhecidas, que cercam por completo o meu campo de visão. Os granulados revelam-se uma parede, a parede revela-se um quarto e o quarto diz-me que acordei...   

2021-03-22

Lugares sagrados (As Pedras Brancas)

O carro sai da estrada de asfalto e segue por um caminho secundário de terra batida. Afasta-se da via principal envolto numa nuvem de poeira. Dirige-se para uma pequena mata na orla do Grande Pinhal. O Grande Pinhal é um lugar de redenção, simultaneamente adorado e temido como acontece a muito do que é sagrado. O carro imobiliza-se junto a uma clareira na qual jaz uma pedra branca.  A pedra tem a forma de meia esfera com um metro de raio e ocupa o centro da clareira. Do carro saem quatro pessoas que circundam a pedra. As sombras são quase inexistentes o que num dia soalheiro indicia a proximidade  da hora que divide o dia ao meio. As quatro pessoas colocam-se de forma equidistante ao redor da pedra. O grupo não é homogéneo sendo composto por dois homens e duas mulheres de idades e raças distintas. Dos dois homens um é jovem, de raça negra, feições angulosas e cabeça rapada. É muito alto e o fato negro que enverga fica-lhe justo e mal lhe esconde a compleição atlética. O segundo homem é o seu oposto. É branco, baixo, de idade avançada, o cabelo fraco e ralo cai-lhe sobre os ombros e a cabeça revela uma coroa generosa de pele alva ligeiramente corada. Também veste um fato negro que lhe faz sobressair o abdómen proeminente, indicador de uma sedentariedade bem consolidada. As mulheres são ambas elegantes e os seus vestidos, também negros, emprestam-lhes um ar de dignidade aristocrática. Têm mais ou menos a mesma altura e esta é mediana no que toca à estatura feminina. As diferenças revelam-se na sua idade e origem racial. Uma, muito jovem, tem traços vincadamente asiáticos e o aspecto frágil de uma boneca de porcelana, lábios finos, nariz pequeno e ligeiramente arrebitado, orelhas bem desenhadas que os seus cabelos, de um negro profundo e apanhados atrás da cabeça, fazem sobressair revelando uma proporcionalidade quase perfeita. A outra mulher é caucasiana, muito branca, maçãs do rosto salientes e bastante coradas. Os olhos são como o reflexo do mar num dia sem sol. O azul acinzentado que apresentam contrasta de forma peculiar com a suas faces coradas dando ao conjunto uma sensação bizarra que tanto pode ser de afectuosidade como de frieza. O seu cabelo loiro exibe algumas cãs que não se distinguem sem uma observação cuidadosa. 
No seu conjunto e observados à distância todas estas diferenças se diluem e o que sobressai é o contraste negro das suas roupas e a alvura da pedra que eles cercam. O Grande Pinhal por detrás apresenta-se como o toque decorativo num cenário de teatro e só vem realçar a estranheza da situação. Poderia dizer-se que o Grande Pinhal, com toda a sua carga esotérica, estaria a validar os actos deste grupo tão peculiar mas, com um olhar mais atento, percebemos que também ele é testemunha e, tal como nós, não tem poder sobre a acção que se vai desenrolar.
  Durante algum tempo as quatro figuras negras deixam-se ficar estáticas, braços caídos ao longo do corpo, cabeça levantada em direcção à pedra. Num repente e de forma simultânea, aproximam-se da pedra. Primeiro com a mão direita, depois com a mão esquerda, deixam que estas repousem sobre ela. Após breves segundos de contacto a pedra eleva-se, ligeiramente e sem ruído, do solo.
Tão simultâneamente como as colocaram, as quatro figuras negras retiram as mãos e afastam-se até à posição inicial. A pedra mantém-se suspensa durante algum tempo. Depois, silenciosamente, eleva-se até que a sua alvura se confunde com a luz do sol e desaparece no céu. Nenhum dos participantes desviou o olhar para observar o fenómeno. Voltam ao carro fazendo o trajecto contrário até à estrada asfaltada. O carro afasta-se em velocidade moderada até desaparecer no horizonte luminoso que faz de cenário a este dia de verão.

2021-03-18

Despedida I

  Procuro uma resposta como se fosse importante. Procuro uma resposta porque é importante. Se não fosse importante não doía tanto. Dura à cinco anos a minha despedida. Começou numa manhã de Janeiro, uma manhã solarenga e morna, uma manhã fora de época. Começou com um telefonema, um apelo, um grito de socorro sussurrado ao ouvido, Paulo, podes vir cá, Sim Pai, passa-se alguma coisa, Vem cá que depois falamos. Desliguei o telemóvel e fiquei suspenso. Senti urgência em saber, senti angustia sem lhe conhecer a razão. Durante os últimos anos, os anos em que o meu Pai ficara só, fruto do divorcio que o separou da mulher com quem casara após enviuvar da minha Mãe, que eu pressentia desgraças quando o telefone tocava e ele não estava presente. Mas quando atendia e lhe ouvia a voz, a minha alma repousava suavemente nas suas mãos. Nessa manhã de Janeiro isso não aconteceu, nunca mais aconteceu.

  Nessa manhã morna e solarenga saí de casa com o coração nas mãos deixando apenas espaço para segurar no volante. Toquei à porta do prédio e subi as escadas galgando lanços até estancar à porta do 1º E. A porta ainda estava fechada e eu controlando a respiração bati suavemente com os nós dos dedos na madeira, És tu Paulo, Sim, sou eu Pai, podes abrir. O meu Pai ainda estava de pijama e tinha um ar cansado e ao mesmo tempo assustado, Preciso falar contigo. Fechei a porta e segui-o até à mesa da sala de jantar. Paulo eu aceito a tua ideia, corriam-lhe lágrimas pela cara, fiquei desarmado, abracei-o e chorei com ele. O que ele aceitava era a ideia que eu lhe sugerira de ele ir para um lar. A doença avançava rápido e com o meu trabalho não havia muitas soluções disponíveis. Almoçamos juntos, eu, ele e a neta que fui buscar à escola. Um almoço de silêncios que só eu e ele compreendíamos, um almoço que ela estranhou, mas que foi diluído nas preocupações normais de uma adolescente.

Sim, foi assim que começou a minha despedida...  

Manual de lembranças I

 Escoa-se em mim o tempo de ser. Levantei-me todos os dias e todos os dias perguntei porque me levantei. Comecei novo e nunca mais parei. Primeiro na mercearia lá na rua, aproveitando a distração do Zé Monge, perdido nos peitos da vizinha. Uma mão no saco de rebuçados, apanhando o que vinha à mão, um olho no Monge e outro nos mamilos que se empertigavam contra a camisola de lã. Trazia de lá com que adoçar a boca e a noite. Nas férias da escola, quando o Liceu estava fechado, o pequeno vidro partido escondido por detrás de uma badana de cimento, simulacro de uma persiana gigante deitada sob o lado esquerdo. Já com doze anos mas ainda cabia por aquela nesga de dentes afiados. Os chocolates na prateleira e os refrigerantes na grade valiam bem a camisola rasgada e o corte no braço. Na papelaria, onde o cheiro a tinta das revistas me deixava sem folgo. A dona Fernanda preocupada com o jornal do Sr. Doutor, num sorriso branco, ligeiramente rosado por causa do baton vermelho, num contraste de branca de neve com a sua pele. Sabia que não podia chegar aos cromos, demasiado distantes e protegidos pelo corpo robusto de dona Fernanda, mas os livros da coleção RTP ficavam desprotegidos, a capa branca e desengonçada, Albert Camus , "A Queda", nº 39 , ecrã azul num debrum televisivo verde alface e azul gaiato. A dona Fernanda tinha seios enormes, mas a cara desagradável que dedicava aos miúdos do bairro estragava qualquer fantasia. A papelaria Nanda, onde eu comprava religiosamente a revista Tintin. Doze e quinhentos de aventuras em continuação, Blueberry, Corto Maltese, Jonathan, heróis de liberdade infinita, liberdade que eu desejei sem nunca alcançar. Nem todos somos talhados para seguir as pegadas dos nossos heróis. Segui outras liberdades na instabilidade dos finais de setenta. Distribuía panfletos do Movimento de Esquerda Socialista porque a sede ficava ao pé de uma pastelaria e porque a malta que lá parava era simpática para os "putos". Os homens do partido tinham a barba e cabelo grande. As mulheres, lindíssimas, tinham o cabelo escorrido e sem maquilhagem e eram pouco mais velhas que eu, talvez uns cinco ou seis anos, o que para os meus catorze significava uma barreira intransponível. Eram Deusas, as primeiras que adorei...

Comecei novo e nunca mais parei...Mas hoje paro por aqui...

2020-09-16

Perguntas e respostas sem nexo

O imenso céu de chumbo verte cinzentos sobre a alma.

A alma afoga-se em vermelhos absurdos enquanto tudo arde.

Tudo o que arde tem um fim. O fogo eterno é uma mentira.

A mentira faz parte do cenário.

O cenário revela a mentira ao contrário.

O contrário procura o seu oposto numa ânsia de equilíbrio.

O equilíbrio desloca-se impulsionado por razões numéricas.

As razões numéricas são aleatórias, dependentes de múltiplos factores incontroláveis.

Os factores incontroláveis vertem-se perversos no imenso céu de chumbo.

A alma afoga-se.


Pergunta:

Qual a cor da chuva que cai num dia cinzento

Resposta:

Cinzenta

E o mar que a liberta evaporou-a da cor do céu, dias antes, quando tudo era azul e o sol brilhava. 

Nesse dia a alma negrava-se e os amantes amavam-se.

Amantes novos penetravam-se,

Amantes experientes tocavam-se,

Amantes velhos pensavam no seu amor,

E enquanto se amavam, choravam por saber que o amor nunca é eterno.


Pergunta:

Qual a cor do amor com que se ama num dia cinzento?

Resposta:

Cinzento

As almas que o criaram beberam da luz branca e transmutaram-se em prisma. 

As almas que o criaram verteram-no em infinitas cores quando tudo era azul e o sol brilhava.


A alma arde.

Pergunta:

É fogo que se vê 

Resposta:

É fogo que arde

Há dias em que se vê 

Outros há em que se oculta enquanto tudo arde à sua volta.

Não é fogo de apagar e não é eterno.

É um fogo que morrerá quando tiver consumido toda a alma, combustível da sua existência.


A eternidade é uma mentira piedosa 

Pergunta:

Porque é  a eternidade uma mentira

Resposta:

É uma invenção do racionalismo humano

É uma invenção do nosso medo

Uma defesa, um segredo,

Um antivírus da idade,

Uma segunda oportunidade.

O espaçotempo é sempre tão pouco

Falta sempre qualquer coisa,

Falta cumprir o que fomos inventando.

Quando deixamos de inventar morremos precocemente.

A eternidade é a mão que sustem os sonhos. 

É a verdade oculta na mentira da nossa existência.


Pergunta:

Quem criou o cenário 

Resposta:

Quem criou o Homem foi o homem

Antes o homem era bicho 

Consubstanciou-se com a sua criação e tornou-se Deus

Juntou todos os poderes num só 

A mentira e a verdade são as faces de uma única moeda

Ao mesmo tempo objecto de culto e pagamento

Vivemos num cenário onde a moeda única se desmultiplica

Em versões credíveis de pagamento.


Pergunta:

Se eu despir a mentira que tenho em mim, fico com a mentira ao contrário 

Resposta:

Se tu vestires a verdade ao contrário ficas com a mentira que tens em ti

Tu nunca poderás despir a tua pele

Somos o que somos e o nosso oposto

Somos o que somos nos momentos que escolhemos para ser.

Escolhemos o que somos porque escolher é viver

E viver pode ser uma mentira cheia de verdades

Ou uma verdade cheia de mentiras


Pergunta:

E o equilíbrio

Resposta:

É um balanço controlado

Uma tentativa de anular a gravidade

Anular a existência quase não existindo

E nessa não-existência passar sem visto

O equilíbrio é uma não acção.

Quando atinges o equilíbrio a não-acção é a totalidade do teu ser.

As acções que tendem para o equilíbrio têm como objectivo a não-acção

O paraíso eterno é um equilíbrio total

A morte, até ver, também poderá ser uma forma superlativa de equilíbrio.

Convém manter algum desequilíbrio para nos sentirmos vivos.


Pergunta:

Quais as razões numéricas para a nossa existência 

Resposta:

As razões numéricas provam a nossa extinção muito mais que a nossa existência 

A razão é simples

A compreensão do nosso mundo assenta na utilização de números para se poder provar

A ciência que prova, primeiro escreve a hipótese, depois cria a fórmula e no fim cria o postulado. 

Depois, uma mão de mãe cuidadosa mói tudo num creme de fácil digestão e faz-nos digerir a mistela ao som de coisas alegres e bonitas.

Uns comem melhor que outros, outros não comem.

Uns habituam-se à papa e não querem outra coisa, outros querem saber como se faz a papa.

Todas as razões numéricas dizem que não somos viáveis. O expoente da nossa existência é incompatível  com o nosso mundoconjuntofechado.


Os factores incontroláveis vertem-se num rigor profético

Pergunta:

Porque são incontroláveis os factores

Resposta:

Porque são as ferramentas do nosso Deus consubstanciado

São arma e defesa, justificação e promessa

Salvam a alma que se afoga e no mesmo processo deixam-na afogar-se

E a alma afoga-se em cinzentos sob um céu de chumbo.



2020-06-19

Despedimento


 

Despedimento.

Despem-me da carne a pele,

a alma e o sustento.

O pouco que sobrou de mim

negociado numa mesa e o fim

anunciado no momento.

Quer, não quer, é o que há.

Hoje posso amanhã quem julgará

Não pense que eu sou o que sou,

Considere-me a voz do desengano,

nova oportunidade ou alento.

Sou porta voz de um jumento

em fim de ciclo ou novo ano.

 

 

 

Noites houve,

que a semana não contou,

em que a minha vida desfilou

pelos meus olhos cerrados.

O meu número num cartão,

e o meu nome num borrão,

são prova do que passei,

fragmentos do que fui e do que sou,

restos do que sonhei

pedaços de mim espalhados.

 

Hoje entrei,

tingindo de rosa o pudor.

Trespassei o corredor

Lembrando como cheguei.

Sinto a mão que me empurra

mas não lhe tenho rancor.

Trago um alívio de dor,

por tudo aquilo que eu dei.


2020-02-01

O Rio




O canal de águas barrentas transmuta-se em visão onírica.
Dissimula-se cobrindo o seu leito com um véu negro onde se perdem, infindas, as luzes da cidade.
Criaturas apaixonadas perdem-se e apertam-se no encanto da sua cinesia.
Águas geladas recebem-lhes os gestos e as palavras não ditas, reprofundando dentro de si a confidência de loucas promessas.
As cores que a cidade derramou no rio deixaram de lhe pertencer.
Diluídas, são obra involuntária, produto de casualidade, mesmo que a origem lhe seja indiferente e que a mão sábia do homem as tenha inventado.
Na manhã o inverno devolverá o barro ao rio, a cinza e a sépia às fachadas húmidas, a nudez crua do que é desvendado áquele que acordou.
Vemos então o canal que molda a água escorrer formas.
Quando de negro se transmutar novamente serão elas os amantes e os filhos do seu leito, escravos do seu peito, seus eternos e noctívagos navegantes.


2019-12-24

Carta aberta ao Pai Natal


Carta aberta ao Pai Natal

Meu caro Pai Natal nem sei por onde começar. Tive dúvidas no título e hesitei na “carta”. Poderia ter-lhe chamado email ou mensagem ou outra coisa qualquer mas achei que isso não tinha importância, desde que estejas disponível para ler estas sinceras palavras, o nome é apenas um nome e tu não te prendes com tais irrelevâncias.
Também tive dúvidas sobre o conteúdo, essas mais graves e de difícil resolução mas, como sempre tentei ser honesto, vou começar pelo meu comportamento. Sou um filho incompleto e a prestações. Depositei o meu Pai num lugar onde filhos incompletos como eu depositam os seus pais. Faço duas visitas semanais mas sinto-me culpado por não o ver todos os dias. O trabalho, as rotinas, a doença que lhe tomou conta da memória e não o deixa lembra-se de mim, o descanso de que necessito e mais uma mão cheia de outras desculpas servem de justificação para uma tão fraca assiduidade quando na realidade, o que me custa é vê-lo desaparecer lentamente. Sei que quanto a isto não podes fazer nada, a vontade é minha e a vida a Deus pertence, portanto o que te vou pedir é mais à tua medida.
Amanhã, dia de Natal gostava de ver o meu Pai barbeado e limpo, com roupa simples e asseada, sentado numa cadeira nova num quarto a cheirar a detergente onde uma cama em condições poderia fazer sonhar quem nela se deitasse. Gostava também de o ver pouco trôpego e com um sorriso nos lábios para podermos ir passear e ver o mar.
OK, sei que estás muito ocupado e que deves ter passado os últimos meses em centros comerciais e outros estabelecimentos do género de modo a suprir o teu stock de desejos e ambições. Também sei que já não tenho idade para acreditar em ti mas o que é que queres, também já não acredito em quase nada…
Desejo-te um excelente dia de trabalho, sem falhas nas entregas, atrasos ou imprevistos.
Um abraço deste gaiato crescido e cheio de imperfeições que muito te estima.
Até para o Ano


Jorge Saboga

2019-11-22

Verbalização Pictórica

 Abro a janela do meu quarto e respiro fundo. A tela está em branco e a paleta repleta de palavras. Começo pelo céu. Um céu nublado de nuvens gordas em camadas sucessivas, cinzentos que do claro ao escuro lhe conferem dimensão. É um céu que não oprime, antes liberta e seduz. O céu terá um ponto de referência, local onde os olhos procuram sem que tenham sido convocados. O sol nasce mas não se vê. Apercebemo-nos do seu parto. Captamos tonalidades sépias em gradientes radiais enquanto aguardamos o seu corpo, o seu calor, a sua indefinição luminosa que nos induz a noção de esfera apenas porque o desenhamos em círculo. Na contraluz matinal as formas surgem e eu coloco pequenas casas brancas, isoladas, térreas, pequenos sinais de vida adormecidos. Os últimos galos pigarreiam ladainhas de arrogância para galinhas ensonadas. Alguns animais invisíveis deixam nervosos os cães de guarda. Quem sabe se uma raposa atrasada ou uma família de javalis que ainda revolve a terra. Nada disto ficará registado, a invisibilidade e o som apenas poderão ser adivinhados. Depois das casas surge uma fileira de canas. Exército de lanças ao alto, perfilado ao longo de um curso de água. Logo depois um campo lavrado de castanhos escuros e sombras negras. Envolve-o um fino véu de pequenas gotas de água. Irei chamar-lhe névoa para que fique perceptível embora a mim me pareça a transpiração vaporosa de um corpo quente e húmido. Jogo as palavras na tela e de repente surge-me a transparência de uma camisa de dormir. Será aquela terra toda uma mulher adormecida. Sendo assim irei cobri-la com outra fileira de lanças, estas mais perto e porque mais perto, ondulantes. a seu pés percebe-se o correr da água. Tudo isto se passa num plano primeiro onde irei colocar um pássaro negro. Para lhe retirar a pose agressiva verbalizo-o no cimo de uma das lançascanas...oscilante. O pássaro negro, de asas abertas, procura o equilíbrio e com esse gesto perde a inquietante negatividade transformando-se num elemento ao mesmo tempo frágil e cómico. Dou as últimas pinceladas. Procuro corrigir algum erro de gramática, disfarçar alguma tonalidade verbal dissonante, dar coerência ao aleatório da tela. Não sei se consegui...

2017-11-27

Carta para o meu irmão desconhecido

O abraço é grande e o tempo que me sobra é incerto. De Novembro a Novembro passou um ano e eu não quero deixar passar outro sem te escrever estas palavras. São o que são e valem o que valem mas acima de tudo são sinceras. Pesam-me incertezas e o medo de ter falhado. Imagino um homem venerável e idoso. De olhar crítico e ao mesmo tempo indiferente. Traz numa mão o somatório do que fui e na outra um rol de dívidas por cobrar. Hoje alguém pagou as suas. Duas semanas de hospital não resolveram um coração cansado. Tanto trabalho para tão pouco descanso.
Tenho dormido melhor, acordo menos vezes durante a noite e já não fumo para adormecer. Não sei porque te conto estas coisas, mas o tempo voa e um dia pode ser tarde demais. Assim ficas a saber que a cama se tornou minha amiga e já não me tortura com aconchegos.
Ontem saí à meia-noite e perguntei-me porque estava a rega automática ligada. Pareceu-me estranho que na cidade deserta apenas nos repuxos aquíferos houvesse vida. A relva está viçosa e agradece este mimo autárquico. Ainda se pode pisar a relva, mas depois de ver gastar tanta água o gosto já não é o mesmo. Lembro-me de um familiar da ex-mulher do meu pai, aqui há uns anos, criticar esta “malta nova” por estar sempre a tomar banho. Segundo ele um banho por semana bastava. Na altura achei ridícula a observação, hoje acho ridículo o que eu achei.
Os dias estão cada vez mais pequenos mas eu tenho cá para mim que não é o Inverno que os anda a encolher. De ano para ano os dias vão ficando menores e o tempo escasseia para tudo. Sempre pensei que a lista de coisas para fazer fosse diminuindo. Pura mentira. A lista aumenta de dia para dia e coisas tão improváveis como a leitura de um livro deixam-me angustiado. Tanto que me falta ler, eu que continuo a comprar mais livros do que aqueles que consigo consumir. Hoje demorei uma hora a decidir-me por um. Cheguei à conclusão que perdi uma hora de leitura. Depois cheguei a outra conclusão, perco demasiado tempo a decidir-me.
Deixo-te esta confissão com a certeza de que te rirás de mim.
Faço votos para que esse sorriso te traga alguma alegria.
Abraço grande meu irmão desconhecido.

26 de Novembro de 2017


P. Guerreiro 

2017-11-25

Carta para ninguèm

Escrevo-te como se de uma carta se tratasse. Posso tratar-te por tu porque não te conheço, posso revelar-me porque nunca me dirás que me compreendes.
Lembras-te da última vez que cruzamos textos; eu escrevia e tu lias, tal como hoje o teu silêncio era meu companheiro e ajudava-me a passar o tempo. Passaram alguns anos e o sabor que trago nos dedos já não deixa impressões. Confesso que tenho saudades tuas, confesso que tenho saudades minhas. Na verdade já há algum tempo que não me vejo. Os anos passam e tudo o que eu deixei por fazer continua exatamente por fazer. Partiram mais alguns e o meu pai entrou num lar. Confessou-me a sua impotência e chorou e eu abracei-o sem o olhar, com medo que as suas lagrimas se juntassem às minhas e se transformassem num mar impossível de navegar. Já passaram quase dois anos e eu sei que não voltei a ser o mesmo. Nunca se volta ser o mesmo. Fiz cinquenta anos e não te disse nada, também não comemorei. Nesse dia chorava-se a morte de um primo, 36 anos de álcool e 48horas de hospital bastaram-lhe para a despedida. No dia que fiz cinquenta anos fui a dois funerais. Na altura não te disse porque não havia nada para dizer. As parcas palavras transformaram-se em gestos para consolar quem me era próximo.
Continuo destemido de garrafa na mão e troquei o álcool escocês pelo medronho caseiro e pelo tinto de 14 e meio. Enquanto o fígado resistir e não inventarem uma hepatite d por cá ficarei mais alguns anos. Espero que te encontres de boa saúde quando leres estas linhas. Dá cumprimentos meus a quem tu muito bem entenderes e se porventura, ou outra qualquer razão, te ajoelhares para rezar não te esqueças de interceder por mim que eu farei o mesmo por ti.
Não te quero incomodar mais.

Abraço grande e até qualquer linha.

24 de Novembro de 2017

P. Guerreiro

2015-06-09

A felicidade

Procura-se, constrói-se, adquire-se por procuração ou numa loja perto de nós? Qual o estado de ser feliz, quais os fluidos orgânicos que nos levam a esse êxtase? Posso eu acordar e bastar-me vivo para ser bafejado pelo seu toque, serei considerado minimalista ou pouco exigente? Conseguirei eu vinte e quatro horas ininterruptas de superior comiseração egoísta, de consolo permanente? Dependerá a minha felicidade de mim, apenas e só de mim, ou terão os outros uma palavra a dizer? E o tempo, consideração meteorológica, o sol, a chuva, o céu nebulado, o céu azul, serão eles apenas adereços prontos a ser desfrutados, lápis de cores, serão eles capazes de provocar felicidade, facilitar-lhe a vida? E o tempo, o outro tempo, que juntamente com o espaço nos confere dimensão, referência, ancora, nos situa e nos faz situar, foi antes, é agora, será depois ou nunca será, será esse tempo regenerador ou fator de erosão? Conseguirá a felicidade resistir a tantas questões, será ela racional, emocional, uma mistura em partes iguais ou uma formula secreta que se adapta e multiplica?
Porque não deixá-la aparecer e desaparecer, chegar e partir ao sabor de marés, limitarmo-nos marinheiros, aprender a navegá-la, saborear-lhe as nuances, os bons e os maus humores que lhe advêm da inconstância, do seu estado de constante volatilidade, permanência intermitente, que salpica as nossas vidas de sal doce.
Já assisti à sua procura, homens e mulheres dispostos a tudo nessa viagem alucinada. Vi homens e mulheres passarem-lhe ao lado por centímetros, outros chocarem com ela e nem a verem. Vi homens e mulheres que se decidiram pela sua construção e trabalharam todos os dias com ela ali ao lado, ajudando-os, fazendo-lhes a massa com que se unem os seus tijolos, vi esses homens e mulheres desesperarem por nunca ter a construção acabada, vi homens e mulheres chorarem, porque depois de acabada a construção, sentiram medo, o medo de a perder, o medo de ver a erosão destruir a sua obra. Vi homens e mulheres sonhá-la, desenhá-la, pintá-la, esculpi-la com mil cuidados, todos eles com medo de acordar. Vi homens e mulheres tentarem comprá-la, conquistá-la á força, sem nunca saber quando parar, sem nunca saber se realmente a tinham atingido, consumidos pela dúvida, esquecidos do que realmente queriam.
A felicidade é um conceito, comporta satisfação, êxito, contentamento, gosto, prazer, alegria, exultação, júbilo, regozijo, consolação, contento, bem-estar, deleite e muitos outros adjetivos.
Porque não aproveitar uma satisfação inesperada, um êxito ocasional, um contentamento genuíno, um gosto aprendido, um prazer antecipado, uma alegria ocasional, uma exultação esperada, um júbilo de conquista, um regozijo merecido, uma consolação pelo esforço, um contento pela vida, um bem-estar físico e natural, enfim, deleitarmo-nos com a vida, deixar sempre as portas abertas para que a felicidade possa entrar, para que a tristeza possa sair.
Ontem, na televisão, ouvi filósofos, escritores, advogados e outros pensadores. Ontem fiquei com uma certeza.
A felicidade não se escreve, não se diz, sente-se!

2015-05-09

Os segredos do Jorge

A noite tem segredos que não são dela, são nossos. Por vezes assusta-nos revelando-os. Será talvez a escuridão que transforma a sua pálida luz em brilho ofuscante, quase insuportável. Nessas ocasiões sentimo-nos expostos, nus. Uma nudeza crua que nos revela o interior ensanguentado. Podemos então chorar mas não é um choro de ocasião, é um carpir de fingimentos acumulados, fragmentos de histórias passadas, histórias às quais não conseguimos escrever um fim. São essas histórias que fazem a noite tão interessante, o sal que tempera a sua voluptuosidade. Quem não se descobriu na noite? A manhã, pelo contrário, é uma esponja de efeito anticéptico, absorve a nossa sujidade interior e elimina-a deixando apenas restos de nós. A cara cheia de rugas, os olhos inchados, a pele pálida e gordurosa, os músculos flácidos, os pulmões ressequidos, a vergonha do que mostrámos sem querer.
O Jorge foi deixando de sair à noite. Já não suportava o fingimento matinal, o voltar a ser o que não era, o que não queria ser. O Jorge desistiu de todos os sonhos. A escrita morreu no casamento, a pintura no primeiro filho, a música no segundo, quando todo o tempo de criar se acabou, finado entre o trabalho na fábrica e o cansaço da alma. A noite assusta-o. Por vezes, confrontado com convites irrecusáveis, cede a contragosto com a certeza do arrependimento, também ele certo. O susto persegue-o sem que ninguém se aperceba. Longe vão os tempos da recriminação. Não sabes beber, bateste outra vez com o carro, não te lembras do que fizeste, a vergonha do desconhecimento, versões múltiplas do seu medo.
Começava sempre da mesma maneira. A promessa de ser diferente estava condenada ao fracasso. Eterno fracasso, antecipado, anunciado, desde logo aceite como inevitável. O primeiro embate junto da mesa onde se acumulavam os pratos e os copos. Os copos que voltariam a encontra-lo, noutras mesas, balcões, superfícies planas que lhes permitissem a verticalidade. Os copos que se encheriam de diversas bebidas, de diversas percentagens, 5%, 14%, 30%, 50%, percentagens que subiriam e desceriam ao sabor da oportunidade, da companhia, da conversa, do desafio. No fim o mesmo medo, o vazio, a sensação vertiginosa do abandono, sozinho ou acompanhado sempre o mesmo abandono, o seu abandono.
Hoje o Jorge saiu á noite. Não fez promessas. O Jorge que desistiu dos sonhos escreve para si, toca para si, pinta para si e sente-se bem consigo. Não lhe apetece sair mas a noite é especial. Alguém que parte, que se despede, um companheiro de lutas, de desilusões. Perante estes termos seria de esperar um receio incontido, um desnorte descontrolado. Mas o Jorge já não tem ilusões. O Jorge morreu por dentro. No interior do seu corpo o sangue já não tem a mesma cor. As histórias inacabadas tiveram o seu fim. Por esse motivo o Jorge saiu descontraído, bebeu descontraído, despediu-se controladamente e foi-se deitar sóbrio.

A noite deixou de ter segredos para o Jorge e as manhãs passaram a ser todas iguais.

Deus queira que o Jorge não se canse de si...