2007-04-30

Feriado vivo

Do dia vinte cinco de Abril tenho várias lembranças. A primeira das primeiras veio com a experiência festiva dos meus pais. Festejavam nesse dia o casamento, união acordada, paixão confessa em meados de sessenta. Aprendi o dia e entreguei-lhe um significado que durou até mil novecentos e setenta e quatro. No dia vinte cinco de Abril desse ano acrescentei-lhe outro. Tanto que esse dia me deu…Tanto que falar, que ouvir, histórias que todos tinham medo de contar. Todo eu sou depois, filho da liberdade. Só depois percebi a busca em minha casa, o meu pai indo embora, a minha mãe a chorar.
Dias atrás tentei escrever qualquer coisa sobre o assunto mas não fui capaz, faltaram-me as palavras para explicar. Indignação, talvez… Por feliz coincidência comprei o jornal “Público”, edição de vinte e oito de Abril de dois mil e sete, ano XVIII, nº 6238, e na página 45 deparei com o seguinte artigo, “Feriados vivos e mortos” escrito pelo José Pacheco Pereira. Este ano gostaria de ter escrito esse texto…”O vinte cinco de Abril é um dos poucos feriados vivos que ainda existem”, palavras que antecedem o título…”A manifestação popular do vinte cinco de Abril é uma não-entidade, um caso curioso de como uma coisa que existe não existe nem para os media, nem para a mecânica da opinião pública e publicada”…Palavras chocantes sem dúvida…Mas que dizer das comemorações do dia da Restauração, que dirão aqueles que desejam ser espanhóis nesse dia feriado, e que dirão os monárquicos no dia da implantação da Republica, mas quem se lembra?...Serão esses feriados vivos? Soubéssemos nós da nossa história e lembraríamos com menos asfalto e frenesim consumista esses dias.
Termina José Pacheco Pereira o artigo com as seguintes palavras, “Resta pois o único feriado vivo de carácter histórico e cívico, o 25 de Abril, porque continua controverso e divisor, politicamente pouco neutro e mexendo com a paixão ou repulsa das pessoas que o viveram e que ainda são muitas. Mas como em tudo, é só esperar que o tempo o mate. A entropia fará o serviço de reduzir o 25 de Abril ao 5 de Outubro, como reduziu o 5 de Outubro ao 10 De Junho e o 1º de Dezembro a nada. Ficou alguma coisa?...”. A esta pergunta o autor do texto responde, “Ficou e muita, mas perderá a data como referência e ainda bem, porque significa que teve sucesso depois de estarmos todos mortos.”. Pensei muito nisto… não seria desta maneira que finalizaria o artigo…Que ficou alguma coisa ficou! Se vai ficar depende do que ensinarmos aos mais novos…Mesmos depois de mortos…
Como também diz Pacheco Pereira “…A liberdade, algo tão abstracto porque felizmente ainda existe como o ar que se respira, ou seja, não se dá por ela a não ser quando não se tem.”.
Não sou do Partido Popular Democrático, que perdeu o Partido Popular para o Centro Democrático social e se tornou Social Democrata, ou do Partido socialista que substituiu o punho em fundo vermelho pela rosa, ou do Partido Comunista tornado CDU, talvez não seja de nada, talvez seja parvo…O que sei é que enquanto viver vou agradecer todos os dias aos capitães de Abril.

Nota: O Texto do Pacheco merece ser lido…O Social-democrata mais comunista que eu conheço.

VINTE CINCO DE ABRIL SEMPRE

2007-04-20

A Lagoa X (Finalmente o fim)

Difícil foi a tarefa de identificação. Por entre gritos e insultos lá conseguiram o nome de toda a gente. Alguns, conhecidos, apelavam a esse facto para obterem tratamento especial. As circunstâncias não o permitiam e esse apelo foi ignorado. Finalmente, presos os treze homens, puderam os guardas concentrar-se no pinhal e na lagoa.
Para fazer cumprir a interdição do acesso a esses locais foi deslocada a polícia de intervenção, agora que a situação no hospital estava sanada. Com os efectivos todos na rua, a GNR sentia-se impotente perante a onda de violência que se deslocou para a cidade. Dizia-se que havia mais mortos no pinhal e que as autoridades queriam ocultar a questão. Na verdade, por entre o mato, haviam mais dois cadáveres, mas as autoridades não tinham disso conhecimento, são um aproveitamento da situação. Quem provocou estas mortes quis misturar intenções, dispersar culpas, livrar-se de alguém incómodo.
Desconhecem-se as causas que levaram as águas da lagoa a mudar de cor. Sabe-se que os peixes morreram e as plantas apodreceram deixando por cima da água um cheiro azedo de decomposição.
Também o pinhal mudou de cor. Com o avançar da tarde levantou-se vento forte e aumentou o calor. Passavam trinta minutos das três horas. O fogo apareceu do lado do mar, do lado menos guardado, rapidamente consumiu os pinheiros.
Foram estas cores, estes tons de vermelho, que fizeram parar a violência humana. De todos os lados convergia gente e uma enorme multidão se juntou em silêncio à beira da via rápida. Do outro lado o fogo, entre eles a polícia de intervenção que lá ficara com a incumbência de vedar acessos. Acessos que pelos vistos não vedou. Embora habituados a estas andanças, alguns dos rostos destes homens, geralmente duros e insensíveis, mostravam uma perturbação anormal.
Pedro e Alice tinham ficado na cidade e procuravam acalmar dois grupos que se tinham envolvido em confrontos na paragem dos Expressos. A coisa não estava fácil, as pessoas facilmente se dispersavam recomeçando as escaramuças algumas dezenas de metros depois. As ruas largas e o terreno aberto não ajudavam a conter tanta gente e eles eram só dez. Fez mais o cheiro a queimado do que os seus esforços, na luta desigual que travavam. Os confrontos acabaram subitamente e as pessoas, como autómatos, dirigiram-se para o pinhal e para a lagoa. Pedro e Alice pediram novas instruções perante esta nova situação. Não tinham efectuado detenções e os feridos, se os havia, tinham desaparecido arrastados pelos desertores, pela forte ventania sem direcção definida.
Pedro vai saber da mulher, do filho mais novo, Alice vai com ele. Os outros guardas seguem em direcção ao inferno.
Ouvem-se as sirenes dos bombeiros. Momentaneamente cercado pela lagoa e pelo mar, o fogo investe violentamente contra a via rápida e desagua pelo lado sul por onde o pinhal se prolonga até aos viveiros, até ao tratamento de águas, até à rotunda.
Dos dois corpos que lá se encontram só o carvão é testemunha da sua presença, talvez os especialistas consigam descobrir identidades.
Na lagoa o peixe que veio à superfície para morrer, jaz boiando junto às margens. Também as enguias e os lagostins lhe fazem companhia, fauna morta, feita fronteira entre a terra e a água. Vermelha, a água reflecte o vermelho do fogo. Do pinhal, nuvens negras de fumo, rodopiam em pequenos tornados. O calor é insuportável e o vento decide empurrar as chamas de encontro ao asfalto. São as faúlhas que o atravessam pegando fogo ao mato rasteiro do outro lado, do lado da cidade, na periferia sul.
Acossados pelo fogo os polícias de intervenção empurraram a multidão. A princípio estupefacta, a mole humana dispersou em direcção à cidade. Pequenos grupos de corajosos cidadãos organizaram-se junto às primeiras habitações decididos a defendê-las.
Mas depois de atravessada a via rápida as primeiras casas tornaram-se cordeiros dispostos ao sacrifício. Vê-se gente acorrer num atropelo de urgência, na defesa dos seus lares.
Sem razão para estarem presentes, os elementos da polícia de intervenção foram desmobilizados. Corporações de bombeiros das povoações vizinhas apareciam de todos os lados. A coordenação era difícil e ainda se encontrava muita gente nas ruas.
Travado no lado sul pela rotunda e pela colaboração dos trabalhadores de duas fábricas perto do local, o fogo ocupava-se agora a queimar as casas na orla da cidade. Mesmo com os meios dispersos os soldados da paz tentaram salvar as habitações que ainda não tinham ardido. Entretanto, no lado norte, mesmo junto à lagoa, o lume encontrara uma pequena passagem de mato entre as águas e a estrada ameaçando várias pequenas quintas ao longo da costa. Libertara-se o inferno e este tudo consumia.
Desesperados, antigos rivais, lutavam lado a lado na tentativa de travar a destruição. Tivesse esta união vindo mais cedo…..
De como tudo recomeçou passados tantos anos há-de ficar um mistério para as autoridades e para a população. Eu, no entanto, sou o narrador e tenho por obrigação saber mais, e do que sei vou-vos contar. Sei que as duas crianças foram mortas por vingança, vingança do Rafael. O Rafael que não resistiu às insinuações do caseiro, pai das meninas, e que frequentava a sua filha lá para os lados da rotunda. Ele sabia o que custava ter perdido uma filha…O outro havia de perder as duas…Não abusou delas, não era essa a intenção, destruiu-as por dentro apenas para camuflar o crime. Nessa mesma noite, no café do Aníbal, encontraram-se os dois e numa troca de olhares o caseiro percebeu quem o tinha feito. A espera foi feita nessa mesma noite, a asfixia foi rápida, também ai a destruição interna do cadáver foi pormenor de encobrimento, pormenor que não teve com Dona Inês que sabia o que Rafael tinha feito e foi à casa do caseiro para lhe contar. Este matou-a com uma faca e com a ajuda da mulher deixou-a junto à lagoa.
A verdade destas mortes ficou selada quando o casal sucumbiu perante o fogo. Na tentativa de salvarem a sua pequena quinta deixaram-se cercar e morreram carbonizados….
As outras mortes foram fruto da situação, assim como os conflitos e ódios que germinaram entre a população.
Ficam duas perguntas…E o fogo no pinhal? E a água envenenada? Terá sido castigo divino?
Talvez as respostas estejam no empreendimento turístico que vai ser construído no local onde existia o pinhal…Junto à lagoa…

Fim

2007-04-12

Três pequenos textos sobre a vida… Sem nexo…




De faca na mão à procura do destino risquei todos os carros que encontrei no caminho da estação, carros grandes e pequenos, de cores híbridas, disfarçadas pela noite. Faca de cozinha com vinte centímetros de lâmina, os alarmes tocando nas pressões maiores, nas penetrações profundas. Pessoas à janela e a faca que desaparece no blusão de ganga e o blusão de ganga desvanecendo-se no fundo da rua, tal como os carros todo ele híbrido na cor. As montras apelativas e as marcas nas montras, as marcas de gordura do meu nariz no vidro fabricado vitrina, procurando tocar nas outras marcas. A polícia que passa depressa, o desinteresse despercebido, figura diluída, alguém que grita “Foi ele!!!”, demasiado tarde…O movimento do corpo deixa cair a faca que volta a riscar na rua seguinte. Um casal em silêncio, olhos nos olhos com a loucura, o branco demasiado branco, dois círculos pretos, aberturas escuras, buracos negros desesperando por luz. O casal que é sombra, tudo é sombra, também eu sou sombra no meio de sombras. A estação está guardada, por guardas, por sistemas de vigilância, por silhuetas suspeitas que me fazem recuar, o recuo físico da lâmina no avanço do resto do corpo que atravessa o átrio rumo a nenhures…








Inventei margens junto ao rio, só para ir de uma à outra. Não construí pontes nem jangadas, mergulhei nas águas, ontem revoltas, hoje paradas. Nadei até me cansar e quando me cansei nadei mais…Tenho lama e lodo nas mãos, marcas de quem esgravatou para subir. Nas unhas sujas bocados das margens que alcancei. Percorri terrenos alagados onde enterrei os meus pés, fossem eles de barro e teria lá ficado. Tenho sede dos pântanos, dos mosquitos e suas bombas de sucção, motores insaciáveis na imensidão do meu sangue. Cortei canas por apelo, por amor à vara verde. Soubesse eu tocar e teria feito uma flauta. Das varas fiz bordões que levaram os meus passos, passos que me levaram…







Hoje jantei junto à televisão. Ligada que estava informou-me das coisas, coisas importantes. Disse-me de cursos de ministros, de professores de ministros, executores de politicas, da existência de um título que os defina, lhes dê importância. Falou-me de outros que não são ministros mas desejam ser ministros, da sua indignação perante a falta de confirmação das valências do que entre todos é o primeiro. Explicou-me que no ecrã as pessoas tornam-se mais pessoas, que entre filhos abandonados existem uns mais abandonados que outros, com pais mas sem pais adoptivos presos, sem o apoio da nossa opinião. Fez-me acreditar que precisamos de mais um aeroporto, porque três é a conta que Deus fez, porque sim, porque mesmo sem dinheiro podemos fazer romarias nesses locais de culto, olhar o progresso e sentirmo-nos nele. Convenceu-me que na agricultura os problemas são os agricultores, que não souberam semear o dinheiro que receberam, fadado que estava ao crescimento, desperdício de boa vontade. Explicou-me que lá fora acreditam no caminho que seguimos mesmo que nós não saibamos qual é, tudo uma questão de fé. Mostrou-me que na assembleia também existem seres humanos com virtudes humanas e defeitos humanos (Um abraço à Odete pela sua maneira honesta de ser, mesmo quando é inconveniente…Vou sentir falta), que também se vão embora com mais de vinte cinco anos de trabalho e possivelmente sem entrada directa numa das grandes empresas sedentas de assessores, paciência…Contou-me a história de um parto numa ambulância, no Alentejo, a mim que não sei de ambulâncias mas sei o que é levar uma mulher a parir, a cem quilómetros de distância do local de residência, noite passada numa pensão, “Ainda não é hoje, o melhor é ir-se embora e vir amanhã.”, eu que não fui, que a deixei lá para ir dormir num quarto de aluguer, “Pode vir que vai nascer.”, sete horas da manhã, “Tenho tempo para pagar?...”, passaram-se mais de seis anos e esta já era a realidade, mesmo quando fizemos um cordão humano e a ministra da saúde, Maria? De Belém? Que nome mais apropriado, nos disse que tínhamos de foder mais, não nascíamos em número suficiente….Poderemos nós morrer em número suficiente para garantir as reformas?
Passaram sete horas desde que abandonei o ecrã amigo. Depois disso fiz o resto do serviço, desliguei equipamentos e luzes, fechei portas, entreguei chaves vim para casa e estou a escrever (Decididamente a hora não ajuda). Apeteceu-me desabafar…Os textos ainda não estão publicados mas é esse o seu destino…Hoje, ao fim de uma semana sem me ligar ao mundo deixo aqui o meu testemunho.

2007-04-04

A Morte é...

A morte é vida camuflada,
Uma alma desnivelada,
A luz invisível de uma vela,
O choro de alguém a uma janela,

Um lenço preto estendido numa corda,
O sono de alguém que não acorda,
Um monte de terra e uma cruz,
O brilho de ouro que não reluz,

Uma ajuda que nunca vem,
Um lamento vindo do além,
Um charco de água gelada,
Uma conversa cortada,

Uma vida que desaparece,
O meu olhar que não te esquece,
O teu seio, o teu calor,
A recordação de te perder, a dor.


Vinte anos se passaram, foi em Março de 1987 que me deixaste.
Para ti esta adaptação (o original era bem mais duro...O tempo suavizou a tua falta mas não a anulou)…Um beijo do teu filho Paulo
.

(À memória da minha MÃE)

2007-04-02

A Lagoa IX

Grandes foram as discussões e trocaram-se palavras azedas, pouco dignas de tão distintos intervenientes. Havia quem quisesse cortar o mal pela raiz, lotear, vender, ganhava-se dinheiro e acabava-se com a insegurança. Do outro lado a crença, o respeito pelo local.
Por falta de consenso aceitou-se a interdição temporária dos dois locais, vigilância apertada. A falta de meios dificultava esta opção mas o responsável a quem caberia a tarefa garantiu-a. Como sempre seriam os peões a pagar a factura neste jogo de xadrez. Mas os acontecimentos precipitavam-se, os ânimos estavam exaltados e enquanto estas decisões eram ponderadas, perto do pinhal, várias pessoas confrontavam-se violentamente. Conta quem esteve presente que o ódio prevaleceu durante a contenda e além de vários feridos graves encontravam-se duas pessoas mortas. Ainda a reunião não tinha terminado quando as noticias chegaram. O isolamento da área tornou-se urgente e todos os meios foram convocados. Também a polícia de intervenção foi chamada como forma de acalmar os vários grupos que se formaram nas imediações do local. No Hospital para onde tinham sido levados os feridos, acompanhantes rivais envolveram-se em confrontos. Pacientes desprevenidos foram agredidos, enfermeiras, bombeiros, pessoal da segurança e forças policiais corriam em todas as direcções sem conseguir travar os tumultos. Ouviram-se tiros e no meio da confusão um maqueiro foi atingido. A situação só ficou controlada quando chegaram as duas carrinhas da polícia de intervenção, deslocadas que foram, à pressa, do seu destino original. Pedro e Alice ainda dormiam, mas por pouco tempo. Quem acordou o Pedro foi Afonso que tinha ido almoçar a casa. Chegara excitadíssimo, comendo as palavras enquanto contava o que sabia ao pai. Alice acordou com o telefone, monótono chamamento que ela custou a interpretar, primeiro lá no fundo, primitivo chamamento dos sentidos, sem identificação e sem urgência, depois mais próximo, estou aqui, ouve-me Alice, acorda, alguém precisa de ti. Pedro telefonou à mulher, professora primária na escola P2, perto do pinhal. Por lá tudo bem. Do Hugo sabia-o em Lisboa, numa visita de estudo, por via das dúvidas também lhe telefonou, “Acordaste tão cedo para me telefonar?”, “Foi a tua mãe que me pediu…”, “Pai, não sabes mentir.”, “Precisava de te saber bem…As coisa aqui estão complicadas…”, “As seitas?!”, “Sim…Não sei bem mas penso que sim. Possivelmente vou ser chamado. Quando voltares telefona-me.”, “Não te preocupes.”, “Promete-me que esta noite não sais de casa.”, “Eu depois telefono-te, um beijo…”, a ligação interrompida, teria de ser a Gabriela a cuidar deste caso.
Encontraram-se no posto, quase vazio. As ordens eram claras, dentro em pouco começariam a chegar pessoas para ser identificadas, “Quantos?”, “Ninguém sabe ao certo mas parece que esta merda vai ficar cheia.”, “E onde é que os metemos?”, “Logo se vê…”. As celas estavam atafulhadas de papelada e a primeira coisa a fazer foi limpá-las, não no sentido de limpeza mas no sentido espacial da questão. Tanta porcaria que para ali havia…Eram três celas, em condições normais dariam para doze detidos a julgar pelos dois beliches que faziam parte do mobiliário de cada uma. No rádio do posto as noticias eram boas e más. No Hospital a situação estava controlada mas para os lados da Lagoa não havia gente suficiente e foram detectados vários grupos que se dirigiam nessa direcção. Para contrastar com os acontecimentos o tempo estava óptimo, sem nuvens, calor até demasiado tendo em conta a época e um sol que parecia indiferente à agitação humana, que tem ele com isso?...Também me parece!
A primeira carrinha a chegar trazia treze pessoas, todos homens, algemados e cercados por guardas que mostravam ostensivamente as suas armas automáticas. Alguns dos presos traziam escoriações, algumas delas bastante feias. Do Hospital tinham vindo sem ser tratados, não fora esse o motivo que os levara lá. Percebia-se que não pertenciam todos ao mesmo grupo, os olhares de morte não enganavam, teriam isso em consideração quando os arrumassem nas celas.


(Continua mas está quase no fim....)

2007-04-01

Jim Morrinson


Influênciado pelo AD voltei a ouvir alguns dos meus discos de Doors, em vinyl...Enquanto os ouvia fui desenhando...O resultado está à vista...Não é brilhante mas é honesto.
Foi para mim uma das maiores referências musicais e não só...
Um abraço a todos.
P.S. Vejam isto como uma simples homenagem...

2007-03-27

Escolher o melhor

Para ser justo acho que o canal “um” prestou um serviço público ao realizar este programa/concurso/escolha/seja lá o que lhe queiram chamar. Falou-se de Portugal, de Portugueses, realizaram-se documentários interessantes e fizeram-nos ler a História, a nossa História, pelo menos eu revisitei-a. Não quero entrar em polémicas sobre a originalidade, os critérios, a votação, o resultado, para mim interessa-me sobretudo o que nos foi fornecido em termos de informação irrevogável e comprovada ou no mínimo consensual.
De Fernando Pessoa voltei a apaixonar-me, de Aristides fiquei a conhecer pormenores, de Camões a irreverência e a genialidade à época, antes dele dois iluminados, um Rei, acordou com os espanhóis a divisão do mundo conhecido, o outro Infante, via para além do mar. Houve quem neles acreditasse, caso do Vasco, outros que os cantaram, Camões, também Pessoa. Na origem o Henriques, o primeiro dos Afonsinos (Leiam o “Cavaleiro da Águia” de Fernando Campos, um romance em que se aprende muito) o mestre de diplomacia que convenceu os cruzados a fazer a guerra santa em Portugal, em Lisboa, na conquista. Mais tarde Pombal, a organização após a destruição, a organização do ensino, quase um plano de contingência.
Chegamos ao século XX, povo gasto, de brilho baço, desse tempo escolhemos QUATRO, Pessoa, Aristides, Cunhal e Salazar, um sonhador, um moralista/humanista e dois antagonistas que ainda hoje nos atormentam.
Dos resultados da votação percebe-se imediatamente que não temos memória, os três primeiros viveram no século vinte e os dois primeiros existiram em oposição (o segundo ao primeiro). Se olharmos para o facto de o primeiro ter perseguido os dois segundos apertamos ainda mais a malha da memória. Só esses três Portugueses arrecadaram mais de 70% dos votos. Para mim isto é um facto incrível mas que revela o que nos vai na alma. Ainda estamos divididos, por políticas, por clubes, por sei lá mais o quê, a tal ponto que deixamos de ser coerentes, independentes.
Não votei, acho que não se pode votar a história, fiquei-me pelo conhecimento adquirido ou relembrado.
É esse o agradecimento ao canal “um”, obrigado por cumprirem com a vossa obrigação!


P.S. Poderão algumas pessoas estranhar a minha falta de indignação em relação ao primeiro lugar (isto é para ti Titá), mas não era esse o objectivo deste post. Li História e isso agradou-me, ponto final….Talvez…..

A Lagoa VIII


Ouvem-se vozes dentro de casa e passos que se aproximam da porta, passos leves, de gente jovem. Foi o Hugo que abriu a porta, rapaz alto, parecido com o pai, tem dezassete anos. É o filho mais velho do casal e para o próximo ano entra na universidade. “Boa noite Alice, entra!”, “Boa noite Hugo.”, ela entrou sem notar que Hugo ao fechar a porta lhe apreciou as formas e as imaginou por debaixo da farda, a idade não perdoa e o crescimento traz consigo sensações extraordinárias. Cheirava bem, a Gabriela tinha a sorte de viver perto da casa da mãe, pessoa humilde mas que conseguia tirar do quintal a auto-suficiência saudável da vida no campo. Frango do campo com pimentos, batata nova, cortada na hora, frita para o momento, salada fresca, vinho novo, pão comprado à vizinha que tinha um forno a lenha e também fazia folares, pena que o jantar tivesse de ser rápido. Gabriela cumprimentou Alice, “Boa noite Alice, o Pedro ainda está na casa de banho mas está quase despachado.”, “Temos tempo.”, “Será coisa que não vos faltará…”, palavras sem malícia, relembrando apenas a noite longa em local de desassossego, “Quando escolhemos esta profissão temos de nos habituar.”, “Faz anos que ouvi essas mesmas palavras da boca do Pedro.”, “Ele mudou?”, “Não, habituou-se.”. Pedro chegou já fardado, sentaram-se à mesa. Entretanto Afonso largara a Playstation que tinha no quarto e juntara-se ao resto da família. Moço de catorze anos fazia o lado da mãe, irrequieto, irreverente, sentimental, muito diferente do irmão mesmo tendo em conta a diferença de idades. Jantaram quase em silêncio, a comida convidava à apreciação gustativa, este só foi quebrado para discutir banalidades do quotidiano. Afonso acabou mais cedo e pediu para voltar ao quarto, tinha o jogo a meio e encontrava-se impaciente para o terminar. Hugo ficou até ao fim olhando de soslaio para Alice, aquela mulher perturbava-o, com ela sim se transformaria num homem, pensamentos de uma adolescência a acabar. Pedro levantou-se devagar, por vontade própria teria ficado com a mulher, nem que fosse a ver a novela, só para lhe sentir o calor, o conforto, quem sabe se quando fossem para a cama…Mas não foram, ele não vai dormir na cama esta noite. Foram a pé para o posto. Ao Pedro não lhe apetecia falar, Alice percebeu e respeitou-lhe a vontade.
“Até às seis, pode ser?”, não uma pergunta, uma ordem simpática de uma hierarquia humana. Até que ponto a recusa, mas eles não pensam nisso, sabem o que têm para fazer e a sua inevitabilidade, o treino para isso serviu.
Patrulharam a noite toda o perímetro do lago. Outros dois colegas noutra viatura fizeram o mesmo no pinhal. Sempre com o canal de rádio ligado não fosse o diabo tece-las. Os grupos de crentes haviam diminuído na lagoa e os poucos que avistaram mostravam-se receosos. Ao interpelarem um destes grupos para identificação provocaram a debandada do mesmo, que se separou em várias direcções impedindo a sua missão.
Foi já depois de terem chegado a casa e de se terem deitado que o mantorras descobriu o cadáver da mulher. Coincidência ou não a mulher morta era Dona Inês, mulher viúva que tinha aconchegado Rafael, também morto. Foi por esta altura que as decisões se agudizaram. As autoridades tinham na mão quatro mortes num caso que reabria feridas profundas de um passado recente. Informaram o presidente da autarquia e foi promovida uma reunião de urgência que tivesse em conta os vários aspectos da situação. Temia-se o pânico nas populações, a má fama que os acontecimentos traziam para a região, o turismo prejudicado, a queda de um projecto que não se queria industrial. Nem todos estavam descontentes e entre os convocados para essa reunião encontravam-se pessoas agradadas com o desenrolar dos acontecimentos.

(cont.)

2007-03-18

Circunstâncias II

Circunstâncias
A sede, a solidão, o espaço fechado.
Circunstâncias
A noite que se pressente mas não se ouve.
Circunstâncias
Uma voz no escuro que teima em dialogar.
Circunstâncias
As palavras vazias de confissões alcoólicas.
Circunstâncias
As palavras que nunca se dizem.
Circunstâncias
A cadeira, o homem de pernas cruzadas.
Circunstâncias
A mulher que bebe ao balcão.
Circunstâncias
…E no entanto nada se sabe.
Circunstâncias
Nestas e noutras a dúvida persiste…

…Circunstâncias
E nada mais do que isso mesmo…
…Circunstâncias!



P.S. Escrito em mil novecentos e noventa e um, na Reboleira, caderno diário, amarelo, caneta de tinta permanente, feito de uma só vez, sem emendas. Pertence a um grupo mais vasto de circunstâncias, passos, e sem sentido, numerados conforme iam sendo feitos. Sei-lhes o ano, foi a única referência que lhes deixei. Julguei este caderno perdido, perdido nas mudanças dos anos noventa, vim descobri-lo por acaso na procura de uma credencial que me fez revirar a sala. Chamou-me a atenção aquele caderno amarelo com uma assinatura e uma data, nada mais, só depois de aberto revelou o que tinha para revelar. Tirando duas ou três coisas já feitas, que postei no blog, nunca tinha ido buscar nada tão antigo. Fica a excepção…Fica a recordação…Um pouco do que fui…
Não sendo este o objectivo da minha presença na blogosfera prometo retornar à normalidade já no próximo post.
Um abraço para todos os que me visitam…

2007-03-15

A Lagoa VII

Aurício não vai comunicar a presença daquele corpo, chega de polícia. Com a sorte que tenho os gajos ainda me prendem, pensou, quem sabe se com razão. Levou o filho para dentro da carrinha e abalou do lugar, deles só os rastos dos pneus à mistura com tantos outros.
Que repouse em paz a mulher que lá ficou, morta. Assim vai ficar todo o dia e toda a noite até ser descoberta pelo Mantorras, rafeiro alentejano, cão de alma nobre e guerreira, cão pesado, ossudo, de cabeça grande, como os seus antepassados Asiáticos trazidos pelos soldados romanos. O Mantorras estava a brincar com o dono, o Miguel, pastor de quinze anos com inteligência de seis, o único de quatro filhos que ficou com o pai, refém do atraso ficará certamente refém do progenitor enquanto este for vivo, mas era do Mantorras que eu falava. Ao focinho deste cão não escapou o cheiro a morte, melhor dizendo, o cheiro putrefacto da matéria abandonada. Sim, porque existe uma diferença, podemos cheirar morangos e morrer de ataque, só depois o odor acre, a reacção química, a decomposição.
Mas tudo isto para mais tarde, o dia ainda não acabou, a carrinha ainda marca presença, gasóleo queimado no ar, perto de um crime que Aurício não cometeu.
A meio da manhã, Pedro e Alice estão à beira da via rápida, ajudam no fluir de viaturas que saem da berma após controlo, na sua maioria carrinhas, um ou outro mais descarado ou suspeito, é bom não esquecer que já morreram três pessoas, da quarta só nós, Aurício e a família, e os presumíveis autores do crime que a transportaram para a lagoa, têm conhecimento. Estão ressentidos um com o outro, é natural, usaram argumentos duros. Natural será também que tudo passe, que vença a amizade, é recente mas verdadeira, o carácter dos dois não a permitiria de outra forma. Para ajudar à reconciliação, vão ter de fazer horas extras juntos, foram convocados para rondas nocturnas junto da lagoa. Deram-lhes algum tempo, o suficiente para comer, tomar um banho, Pedro convidou-a para jantar lá em casa, a Gabriela iria gostar muito, “Ela simpatiza contigo.”, “Tens a certeza que ela não se vai aborrecer?”, ficou combinado para depois do duche.
Alice entrou cansada em casa, despiu-se devagar, com cuidado, amaciando a pele com os dedos, examinando-a meticulosamente defronte do espelho, no quarto de banho, procurando vestígios de sujidade, vestígios de um dia na rua, na estrada. Alice tomou banho de pé, a água do chuveiro escorrendo-lhe pelo corpo bem desenhado, libertando-a de tensões. Ensaboou-se com cuidado e demorou-se com a espuma, viu-se menina, na banheira, mostrando ao pai que já tomava banho sozinha, que saudades do pai, “Porque partiste pai?...”.
Foi mais lesta a vestir-se. Conseguia fazê-lo de modo rápido e desembaraçado, um pouco masculino, no entanto de uma eficiência comprovada.
Saiu para a rua. Ficou agradada com o entardecer, não haveria chuva, valha-lhes isso. Foi a pé, o Pedro morava a dez minutos e ela gostava de andar. Agradou-lhe o trajecto, as ruas largas e as casa baixas que deixavam ver o céu e as pessoas despreocupadas que regressavam a casa ao fim da tarde. Pensou em si e na sua profissão, o dever moral de proteger, ajudar, salvar o mundo dos males do quotidiano. Hoje sentia isso de uma forma diferente. As mortes, esses estranhos grupos de culto incerto, os interesses de que o Pedro falava, pareciam-lhe demasiado, faziam-na duvidar das suas capacidades. Existem alturas em que é preciso fazer as perguntas, dar as respostas, avaliar para poder decidir. As rondas tornaram-se perigosas, já não eram só larápios e bêbados e pessoal da noite com todo o tipo de substâncias ilícitas e acidentes de viação…Estaria à altura se fosse necessário? Se fosse necessário sacar, sacar e disparar, quem sabe, matar? Teria o sangue frio, suficientemente frio para o Pedro poder cofiar nela? O Pedro acredita que sim, passou pelo mesmo, sabe das dúvidas, conhece algumas respostas. Alice sente-se bem no seu monólogo, encara os cenários inventados como realidades já experimentadas despindo-as da imprevisível brutalidade. Ri-se de si enquanto toca à campainha da casa do Pedro e da Gabriela.


(Ainda Continua...)

2007-03-08

Edite

O edifício em frente tem janelas de vidro, mas eu não consigo ver para lá dessas janelas. Do nome que me deram não lhe acrescentei nada, sou Paulo, quanto muito Sr. Paulo.
Talvez se não fosse só Paulo eu pudesse ver para lá daqueles vidros, talvez me explicassem os enganos que não entendo, me pedissem desculpa pelo incómodo causado, pelo tempo gasto na procura do que me é devido, mas sou Paulo…E pouco mais…
Tenho um envelope em cima da secretária. Dentro desse envelope cinco folhas me agridem, agridem sobretudo o meu raciocínio. Eu devia entendê-las, mas não entendo. Percebo de química e sou pago por isso. Sorte? Também! Quando a constituição consagra o trabalho como um direito não deveria ser assim…Mas é! Mas também o que é a constituição, conjunto de regras que se adaptam às conveniências de maiorias eleitas…E que vontade têm eles de mudar tudo, tudo o que impedir o desenvolvimento económico…Despache-se a constituição e a lei geral do trabalho e todas essas tretas que nos impedem a grandeza…Ficamos à espera…
Espalho as cinco folhas pela mesa de trabalho na tentativa de lhes dar significado. Não será bem significado, de significado estão elas cheias, cheias das horas que passei para lá da rede da fábrica…Têm um número no fim e desse número faço a minha vida…
Preciso que me expliquem o número, preciso que me expliquem as cinco folhas que resumem o meu trabalho, preciso saber que alguém se preocupa, mesmo que isso não seja verdade.
Imagino-me da estrada, escolho dos apressados. Imagino sinais de luzes, a urgência de outras velocidades, emergência na passagem do obstáculo que sou eu…Paulo…Sem mais do que me dê importância.
Agora ouço uma voz, não é imaginação minha. É a voz de alguém que me chama “Sr. Paulo?!!”, “Sim…”, “Sou eu não se assuste. Vai jantar a que horas?”, “Lá para as oito e meia.”, “Veja lá se demora pelo menos meia hora a comer para eu ter tempo de lavar o chão e ficar seco.”, “Está combinado.”. Sorri sem força, a Edite percebeu, “Você hoje não está nos seus dias.”, “Pois não…”, desabafei…E expliquei-lhe porquê.
Não fui demorado assim como a resposta da Edite. Sem recibo do ordenado vai para uma semana, acertos sempre em atraso, ordenado a descer, regalias a fugir, “E é para quem quer Sr. Paulo.”, sentença final, também para mim uma sentença. Dei-lhe uma pequena palmada nas costas e fui jantar mais cedo…Obrigado Edite!

2007-03-05

A Lagoa VI

Também sei que o Pedro e a Alice não vão ser chamados, ocupados que estão no apoio à divisão de trânsito e à fiscalização económica. Vai ser dia de feira porque é quarta feira, uma das quartas feiras do mês em que isso é permitido na cidade, cidade pequena mas que do nome não se livra, não do de baptismo, esse é Vila Nova, do outro, do administrativo. Adiante com o que interessa. São vasculhadas as carrinhas dos feirantes, gente cigana na sua maioria, e mesmo os que não o são por etnia são-no por modo de vida. Estes e estas, condutores e viaturas, procuram passar por todo o lado.
Foi por uma das picadas do pinhal que se meteu a carrinha do Aurício, cigano, casado e pai de cinco filhos. Foi ele que se perdeu e desembocou no meio da fiscalização policial. Teve azar e perdeu a carga, na sua totalidade material contrafeito. Vinha com a mulher e três dos seus filhos, uma bebé, menina de mama, um varão de seis anos e uma rapariga espigada e de olhar vivo, dir-se-ia matreiro se não fosse a seriedade do semblante.
Decidiu abalar daquele lugar para nunca mais voltar no mesmo momento em que pôs a carrinha a funcionar. Decisão apressada e que não iria ter as consequências pretendidas, como veremos brevemente. Seria o barco a opção para atravessar o Sado. Para chegar mais depressa, não, apenas para ver a foz do rio, porque lhe apeteceu. O destino é como é e prega-nos partidas utilizando meios insuspeitos como seja a nossa memória. Foi o que aconteceu a Aurício com a sua, dele, memória. Veio-lhe a esta imagens da sua, dele, juventude, de quando era o filho mais novo de um rebanho de doze, de quando a família era maior e mais unida e se passavam noites no campo a olhar para o céu, durante semanas de acampamento junto de povoações amigáveis. Tudo isto quando se preparava para abandonar o perímetro da Lagoa que ficava do seu lado esquerdo, todas estas imagens que o fizeram olhar com atenção para a berma da estrada e reconhecer um caminho, uma casa velha ali perto, talvez oitocentos metros, erva alta e mato bravio, sem regra nem dono. A decisão que não precisa de permissão para ser mudada visto nunca ter sido comunicada, porque nestas coisas o homem manda, cada coisa no seu lugar. A viragem quase brusca provocou um cair de caixas vazias que os guardas haviam deixado…Quase no gozo…Cabrões da merda…Era preferível andar praí a matar…Filhos da puta…A carrinha que se meteu pelo caminho arenoso em direcção à água em direcção à memória passada, povo das estrelas, antigo de três mil anos antes de Cristo, Norte da Índia, quem sabe, a quem lhe interessa, a memória de Aurício não vai tão longe nem a carrinha consegue tal prodígio, pedra filosofal de qualquer historiador que se preze, o recuo na memória da história…Das histórias…
Parou junto a uma casa velha, em ruínas, metade telhado, metade paredes, metades de portas e janelas por onde passaram vidas inteiras. Conhecera os donos, um casal com dois filhos que sempre o trataram bem, sempre os trataram bem, ao seu pai, à sua mãe, à família. Ficavam ao fundo do terreno que tinha extrema junto à água, suficientemente perto para ouvir o seu restolhar manso no silêncio da noite. Também o mar ficava perto, por detrás da lagoa, também ele marcara presença na memória de Aurício.
O dia estava cinzento, cinzento húmido mas calmo, calmo da chuva que não ficou mais grada e acabou por desaparecer, calmo do vento que se escondeu no horizonte. Desceu sozinho, sem palavras que solicitassem o mesmo destino aos seus acompanhantes, um descer mecânico, movimento incontrolado que o fez tirar o chapéu preto e respirar fundo, tão fundo quanto os seus pulmões, gastos do alcatrão dos cigarros, permitiam. Não foi logo que o viu, nem eu tenho a certeza de ter sido ele o primeiro. O gaiato, o Manelito, também descera, impaciência da idade, apelo da natureza à sua volta, correu a molhar as mãos. Aurício olhava-o distraído quando o viu parar e virar a cabeça. Será que ouviu o grito do filho, certamente, a julgar pelo impulso que o levou para perto dele. Agora estão juntos e olham para a beira de água, para a mulher deitada de cabelos lambidos pelo líquido milagroso, bênção de Santo, nome de lagoa. A mulher está morta, do pescoço cortado um fio de sangue seco indica o local do corte, ferida feia e comprida, boca aberta na carótida.

2007-02-28

Existe um lugar

Existe um lugar
Onde a terra não é firme
E o mar não sabe a mar

O Homem Novo diz o que sabe
O Velho ouve sem saber
Os pés longe da terra
Os olhos cegos sem ver

Neste lugar moderno
O dinheiro fez o Homem Novo
O Velho não sente o mar
Da janela do quarto, no lar.

Existe um lugar
Onde a terra não é firme
E o mar não sabe a mar

O Novo conduz o Velho
No papel está o contracto
A visita pelo Natal
Tudo o que é normal

Os olhos que vão cegar
A ti que acabas de chegar te aclamam
Qual será a doença
O motivo da presença

Existe um lugar
Onde a terra não é firme
E o mar não sabe a mar

Eu que sou velho, adivinho
A conversa que tiveram
Entre o Novo que é meu filho
E o lugar onde me meteram

Chega-te ao grupo
Vem devagar que tens tempo
Neste lugar sem firmeza
Onde tu não és certeza

Existe um lugar
Onde a terra não é firme
E o mar não sabe a mar

Não acredito em Deuses
Nem em paraísos distantes
Neste lugar onde estou
O Mundo já acabou

Sinto enorme o sossego
Não me consigo levantar
Deito os olhos ao céu
Pois o mar não sabe a mar.

2007-02-22

A Lagoa V

Começou a chover. O sol de Inverno desapareceu e deu lugar ao cinzento que, uniformemente, preencheu o céu. A chuva não é grada, pelo menos por enquanto. Mais tarde se verá. Nos cafés começa-se a falar do assunto, procura-se nos jornais diários a informação que falta e que continuará a faltar. Sabe-se de jornalistas no Hotel Novo, imprensa escrita que a televisão e a rádio andam noutros Carnavais. Nem só nos cafés se fala, mas serão sempre estes locais os privilegiados para debater acontecimentos.
Numa sala interior, Pedro e Alice ainda se encontram reunidos com o seu Superior e com o inspector da Judiciária. Manifestaram interesse em ajudar nas investigações, foi um interesse genuíno, de quem tinha visto três cadáveres em menos de vinte e quatro horas e queria respostas. Sim, iriam ter esse facto em consideração, mas para já era tudo. Saíram desiludidos. Compraram qualquer coisa para comer e por sua conta e risco decidiram voltar ao pinhal.
Para os lados da lagoa o vaivém dos crentes continua. Dependentes do que aprenderam sobre o líquido milagroso mantêm as romarias. Pode ser impressão, e dai talvez não, os semblantes estão, como se costuma dizer, carregados, carregados de medo, o medo que desperta os sentidos e nos põe alerta. Alice pergunta, “Conhecias o homem?”, “Não pessoalmente, mas conhecia-o de vista.”, “Quem era”, a pergunta seca, de quem não devia precisar colocá-la. Foi necessário, dai a secura, “Não ouviste o sargento?!..”, a resposta irónica, também ela seca, “Ouvi! Fiquei a saber o nome, a idade e a profissão.”, “Não te chega?”, “Não!”, o desencontro, situação invulgar entre os dois, diz quem sabe que estes dias também são precisos, para aferir das relações, sejam elas de amizade ou não, “Está bem!...”, o Pedro rende-se, ou finge fazê-lo.
Disse-lhe que o homem tinha perdido a mulher aquando das primeiras mortes, foi uma das vítimas que apareceu queimada. Quando isto aconteceu o filho mais velho de Pedro estava prestes a fazer dois anos. Disse-lhe que o homem tinha dois filhos, um rapaz, uma rapariga, o primeiro foi para França e nunca mais voltou, a filha ficou-se pela rotunda, avenida de prazer, rastos negros nos braços, nas mãos, nos pés, no pescoço…Também ela, de alguma forma, não voltou. Disse-lhe que o homem começou a beber até parar por momentos para tratar de uma crise hepática depressa voltando à rotina. Falou-lhe do trabalho que o homem abandonou e nos desenrasques de sobrevivência até que há dois anos tinha atinado. Uma mulher, viúva recente, tirara-o do vício, arranjara-lhe um emprego decente na empresa onde o marido havia sido director, trabalho menor é certo, mas digno e razoavelmente bem remunerado. As más línguas ligavam-na a cultos satânicos perpetuados no pinhal e acusavam-na da morte do marido, conhecido peregrino dos banhos da lagoa, associaram o cancro fatal a rezas e maldições. Isto era o que o povo dizia e o que ele sabia. Agora, com a morte do Rafael, vão dizer muito mais.
Alice ouviu com atenção, sem interrupções, e mesmo depois do Pedro se ter calado, manteve-se em silêncio durante mais algum tempo, “Quer isto dizer que anda tudo à volta do mesmo?”, a palavras vieram-lhe reconciliadoras, “Depende do ponto de vista.”, a secura foi-se, manteve-se a ironia, “Não brinques comigo. Tudo passa por essa gente que se reúne para evocar sei lá o quê…Uns dentro de água, outros com fogo…outros com…Paranóias!”, voltou-lhe a irritação, “Existe mais gente interessada no conflito desde que ele leve à destruição das árvores junto ao mar.”, ele sabia que ela iria ficar interessada e menos agressiva, por esse motivo prolongou a frase num tom suspensivo, “Que gente?”, o efeito foi o pretendido e ele continuou, “Gente que constrói, gente que manda, gente de dinheiro, gente que quer transformar a lagoa numa estância turística…”, deixou a frase no ar, “Existem assim tantos interesses?”, contente por a ter de volta prosseguiu, “Também se fala numa fábrica, mas dessa têm tratado os ecologistas…”, pausa, “Mais alguém?...”, “os suspeitos do costume, drogados, contrabandistas e traficantes que se servem da praia como local de desembarque…Mas esses estão mais interessados em não levantar ondas e para mim não têm nada a ver com o assunto.”, “Falas como se os conhecesses…”, desta vez foi dela a ironia, “E conheço, após alguns anos e num meio pequeno fica-se a conhecer muita gente”, Pedro respondeu mostrando aborrecimento, “E isso não te chateia?”, ela espetou a faca mais fundo, “Aprendi a ser uma pessoa normal quando dispo a farda. À civil os meus ouvidos são civis e a minha boca discreta.”, ele estava a levar a coisa a peito, “Não me estás a dizer que os deixas andar?...”, “Estou a dizer-te que também tenho vida para além da farda. E se queres um conselho digo-te que é melhor separares as águas ou serás uma eterna estrangeira.”, quem assim falou, falou danado, “Achas que é fácil fazer o que dizes?...”, e que dizia ele?...”Não!...Mas é a melhor maneira.”, ela não lhe perguntou que outras maneiras havia, mas não ficou convencida…E o Pedro sentiu-se ofendido, desrespeitado, ou algo entre as duas…Nem sempre é fácil explicar aos mais novos que os anos de serviço funcionam como analgésico…Nem sempre é fácil explicar aos mais velhos que pode haver quem faça a diferença, em qualquer dos casos é uma questão de tempo.
Separaram-se de mau humor. Ele vai dormir a pensar no caso, ela vai pensar na conversa que tiveram, principalmente na última parte da conversa.
Durante a noite dois vultos circularam no pinhal e apesar da chuva deixaram acesos três candeeiros a petróleo. Do lado da lagoa os peregrinos começaram a usar facas dissimuladas na roupa, principalmente os mais novos.
O que vos vou contar sei porque sou o narrador e é dever do narrador saber tudo…Ou quase…Neste caso sei que esses dois vultos arrastaram um corpo para a beira da água…Junto à lagoa.

(Cont.)

2007-02-18

Esperas (Da nossa vida que é um somatório de esperas)

Uma de tantas…

Saio de casa tarde. O relógio avisa-me do atraso, ou do mundo lá fora a girar…E eu parado, ou quase…Tentando chegar...
Primeiro a estação, o passe comprado no início do mês, o comboio que parte…Não o vejo mas sei que parte, ruído de partida…
Quando chego ao cais este encontra-se vazio. Vislumbro a silhueta que se afasta…Metal contra metal e a electricidade que o faz mover…Espero…Vou ficar à espera e estou atrasado.
Está frio mas eu não o sinto. Sei que está frio porque o ar que me sai da boca vem condensado, gasto, usado em mim e por mim…E espero…Lá longe adivinho o som metálico dos carris percorridos…Vejo-os inertes, inúteis, esquerda, direita, vazios…
O relógio de pulso diz-me, “Estás atrasado”, respondo-lhe, “Sim, eu sei.”.
Chegam pessoas ao cais. Escolhem posições e ficam à espera…Como eu!...Eu não!
Eu vou-me embora!


Outra, noutro lugar

O parque está cheio. Tenho dificuldade em encontrar um lugar, misto de sorte, paciência, sorte, olhos abertos…Eu não fechei os olhos e aproveito rápido uma saída repentina, sou mais rápido a sacar. Por detrás do vidro percebo as palavras maldosas, “…Filho da puta…”, “…Paneleiro da merda…”, “Cabrão do caralho…”, minutos atrás eu era apenas o Paulo…
Tenho as rodas paradas, o chassi em descanso, a carroçaria promete-me protecção.
Tenho uma moeda na mão, da moeda um carrinho…E o caminho das prateleiras…Tudo o que preciso está etiquetado…O carrinho enche-se e fica pronto a ser levado…Eu levo-o…Ele deixa-se levar…
Estou parado à espera. À minha frente esperam vários carrinhos…Atrás outros carrinhos…Espero mais um pouco…
…Carrinhos com dono!
O meu?...Abandonado.
Eu estou lá fora…Adeus!


Uma lixada

Duas mulheres choram na sala. Na sala mais ninguém chora…Tudo espera. Não se vê o sorriso descontraído, o olhar perdido dos sonhos de encantar. As duas mulheres choram junto à enfermeira de serviço, esperam notícias…A enfermeira espera a hora de saída, a rendição do turno, o encontro com o filho pequeno que está com a avó…Eu espero que o choro acabe…Do lado de fora estou a ouvir…Por dentro o tempo parou, no destilado das horas o resíduo que sou eu…Desaparece…
O choro das mulheres parou e foi substituído por outro…De criança…Sofrido de angústia, de pânico…Eu espero…Tudo mudou menos eu…Hoje eu vou esperar…Tenho um nome para esta espera…


A última... As outras ficam por contar.

São dez horas da manhã e o homem aparece com um papel, uma lista, nomes de testemunhas, de arguidos, queixosos…Advogados?...Já não me lembro.
O empregado judicial vai marcando presenças. Eu espero pelo meu nome, pela minha vez de dizer presente, sim, sou eu…Mas antes não fosse…
Fico-me pelo, “Sim, sou eu.”, ou “Estou aqui”…Agora que penso melhor, não me lembro de ter respondido…
Os processos são muitos, muita gente, muitos minutos, infinitos minutos. Equívocos e desde logo algumas discussões, a tensão de quem se confronta, circo romano com regras definidas em leis que poucos conhecem…Desengane-se o senso comum…Também ele um engano…
Espera-se em pé, nos corredores, ouvem-se as conversas de grupos próximos, viram-se costas aos rivais. O ar fica cheio, e eu cheio do ar e da espera.
Junto de mim dois guardas prisionais esperam comigo….

2007-02-13

A Lagoa IV

Era o Pedro que conduzia, foi ele que engrenou as mudanças que rentabilizaram a aceleração. O Nissan Patrol não era dado a grandes velocidades embora fosse dotado de um motor potente. O barulho da máquina inundou o habitáculo. Os balanços tornaram-se instáveis e perigosos, as curvas no limite do equilíbrio. Porquê tanta pressa? Os cadáveres não têm urgência. A necessidade de respostas, essa sim, provoca-nos tremores, dependências psicológicas. É essa a urgência. As luzes vão acesas, avisando prioridade a quem quer que se atravesse, curva à esquerda, curva à direita e contra-curva, recta até à via rápida, saída para as Areias Brancas, desaceleração, redução, curva a noventa graus, entrada em estrada de terra e areia. Esperavam ver alguém a indicar o local, gritando, talvez em pânico. Não se via ninguém. Travou bruscamente e só agora olhou para a parceira, “Aonde?!”, “Cerca de quinhentos metros, na berma…”. Arrancou devagar. Sim, o vulto percebia-se bem, ali estava ele mais à frente, impossível de não se encontrar, borrão negro no amarelo da areia. Estão perante um corpo do sexo masculino enrolado numa posição fetal que lembra a gestação, o que confere um ar de fragilidade ao cadáver. Percebe-se que internamente se encontra desconjuntado, desajustado nos seus alinhamentos naturais.
Quem o encontrou? Quem deu o alerta? O Pedro não foi. É casado, tem dois filhos, vive com a mulher, é alto de um metro e oitenta e oito, cabelo muito curto e preto, não tem barriga, mesmo demasiado magro. É escuro de pele. Se não fosse tão alto e tivesse bigode ou barba poderia passar por magrebino, e pode não ser totalmente mentira visto as suas origens sulistas, família antiga da região de Silves.
Alice também não. Alice é divorciada, não tem filhos, não tem namorado, vive sozinha e é do norte, de Chaves. Alice é alta de um metro e setenta e cinco. Tem a pele muito branca, cabelo loiro e cara de menina. Talvez seja este o motivo da sua atitude agressiva, de uma masculinidade encenada, com que encara as adversidades, sejam elas profissionais ou pessoais. O respeito é algo de muito importante para quem se quer dar a ele e ela quer. É fisicamente bem constituída, não é magra, tem um sorriso aberto e olhos azuis cor do mar em dia de Verão. É bonita, cara equilibrada nas distâncias que definem a beleza, raiz normanda onde sobressai uma boca bem desenhada, de lábios grossos, que faz do seu sorriso a sua imagem de marca entre os mais chegados, imagem de boa disposição e alegria que às vezes lhe falta.
Quem o encontrou não foram Pedro e Alice, estes vieram de chamada. Talvez a voz feminina que telefonou para o posto e que desligou rapidamente. Sim, essa sim comunicou ao piquete a existência de um cadáver, sem pormenores à excepção do local.
O alerta foi dado de pouca fé, adivinhava-se a brincadeira. Neste momento os dois elementos da GNR presentes no local sabem que isso não é verdade. Sabem também que o povo vai começar a falar. Falharam as expectativas do Pedro, deu-se razão à Alice.
A tudo nos acostumamos, também à morte. Alice foi profissional na comunicação ao posto, como no outro caso actuou em conformidade. Porém mais calma, atenta na observação dos detalhes, do cadáver, do local e dos acessos. Os dois procuram registrar tudo o que possa ser útil para a investigação, para a judiciária, para eles. Alice tirou do bolso um pequeno bloco e uma caneta que se percebe ser objecto pessoal, caneta fina, de cor matizada em verdes, só para referir o carinho com que a escrita lhe sai, a bonita caligrafia, esguia, desenhada, de quem é cuidadoso e perfeccionista. Pedro olha em volta, para o pinhal que se adensa do lado esquerdo, para a estrada de areia que o separa do lado direito, também ele pinhal, para a frente, em direcção ao mar que se pressente numa faixa cinzenta escura por cima duma lomba da picada, para a origem desta, no sentido oposto, no acesso à via rápida por onde vieram. Esta total abrangência visual, este cheirar o ar, fê-lo cerrar os olhos, como se nesse gesto dissecasse os dados recolhidos, os organizasse, alinhasse, desse sentido, apontasse uma direcção.
No entanto esta tarefa vai pertencer a uma brigada especial recentemente formada no corpo da GNR e que a titulo experimental vai trabalhar em conjunto com a judiciária.
Quanto a eles iram continuar as rondas que certamente vão ser reforçadas. Para já, acabam a manhã a falar com o sargento e com um inspector da Judite que chegou na noite anterior.


(Cont.)

2007-02-06

A Lagoa III

O Pedro jantou cedo. Pouco falou. Os miúdos discutiram aproveitando o espaço livre, demasiado adolescentes para perceber. A mãe repôs a ordem substituindo a apatia paternal. No silêncio, o diálogo dos talheres, o roçar nos pratos, palavras impedidas de sair pelas garfadas de esparguete, pela carne à bolonhesa, pelo queijo ralado.
O Pedro deixou os filhos verem um filme no aparelho da sala. Despediu-se deles e foi para o quarto, a mulher seguiu-o, já sabia do crime. Gabriela deitou-se com ele. Pedro adormeceu de barriga para cima, de olhos no tecto, ela com a cabeça no peito dele, a boca roçando um mamilo, uma mão no outro, fez amor sem ele saber.
Alice dormiu sozinha. O café que bebeu depois do jantar deu-lhe insónias e nem o romance que leu lhe evitou o desconforto da solidão. A história da lagoa não lhe largava a ideia. Derrotada pelo cansaço mergulhou num sono profundo e sonhou. Via-se mãe, mãe das meninas mortas, chorando, gritando revolta. Via-se vingadora, de faca na mão, matando e estropiando, estranhos grupos de culto incerto, obscuros e ruins como convém a quem odeia. Via-se errando na praia de noite, o pinhal ardendo, o lago vermelho…Ela entregando-se ao mar, mar vivo de vaga grande e vigorosa, a espuma espelho do fogo.
O tempo é carrasco e não pára. Parece especialmente cruel quando se dormiu mal, o descanso foi pouco, o sol demasiado cedo ou já quase a aparecer quando nos deitamos.
Mas é assim que funciona, não há nada a fazer. Para a Alice e para o Pedro a noite foi pequena. Alice estava em pior estado quando apareceu no posto, os olhos vermelhos, branca, demasiado branca, os músculos da cara desistindo da expressão. Pedro já lá estava e tirou-lhe dois cafés de máquina, “Aguentas-te?”, “Dormi mal e sonhei com as gaiatas, aquela coisa que tu me contaste não me largou a noite toda.”, “Desculpa, eu sabia que não te devia ter contado.”, ela esboçou um esforçado sorriso, no entanto bonito, “Não sejas parvo, julgas que só tu vais fazer essa associação? Mais cedo ou mais tarde vai andar na boca do povo.”, “Talvez não…Se não houverem mais mortes.”, “Não acredito.”, “Que não haja mais mortes?”, “Que o povo não fale…”. Meteram-se à estrada. Até ao final da semana era aquele o serviço. Passaram pela aldeia, patrulharam duas pequenas povoações e a herdade dos “malandros”, alcunha pela reputação dos proprietários. Demoravam-se sempre um pouco lá, atraídos pela calma do lugar, o jeep em primeira, quase sem pé no acelerador. Os sobreiros espaçados, pontos verdes no espaço aberto, molhados da orvalhada, de cara lavada, o ar limpo e gélido, o céu azul, azul referência, consequência óptica de belo efeito, tudo isto para dizer que hoje este trajecto fez-lhes bem. Preferiram fazê-lo calados, recuperando forças para voltar à lagoa. Mas para já a várzea lugar húmido e que ainda se encontra alagado de chuvas recentes. Depois as bombas, a rotunda e finalmente a lagoa. Está deslumbrante como sempre, aquele calma que contrasta com o rugir do mar por detrás das dunas, aquele ambiente que convida o espírito a acreditar, efeito especial preparado pela natureza. Por momentos quase se esquecem do dia anterior, olhar rendido naquelas águas tranquilizadoras. Mesmo com a presença constante de alguns grupos de crentes o local é silencioso, como se os ruídos das pessoas se misturassem no registo de fundo e perdessem identidade, ruídos sem expressão individual. Até o barulho do motor diesel encaixava, um ronco que ao longe se transforma em zunido, que se perde no espaço.
É o rádio que os acorda, o posto que os chama, alguém que encontrou um corpo junto à saída para as Areias brancas, na picada que divide o pinhal.
(Cont.)

P.S. Desculpem-me os amigos que me costumam ler pelo espaçamento da narrativa. O tempo que dedico ao blog teve de ser encolhido por razões que me são alheias (desculpa para motivos pessoais). Vou no entanto continuar aqui, acabando o que comecei e sempre que possível fazendo mais.
Obrigado por me aturarem e um bem haja a todos!

2007-01-29

A Lagoa II

A carroçaria estremeceu, lá dentro voaram papéis e caíram objectos, os pneus resvalaram e o jeep deslizou alguns metros atravessando-se na via sem atingir o obstáculo humano. Alice sente o coração batendo junto à boca, um sabor ácido que escorre pela garganta depois de ter subido pelo estômago, Pedro recupera primeiro e abandona a viatura em direcção ao homem que os fez parar. Isso acalmou-a, deu-lhe confiança. Foi ter com o parceiro que se debatia com a atrapalhação de palavreado do interlocutor que berrava, gaguejava, apontava para a berma da estrada onde, numa primeira observação, tudo parecia normal. Juntos convenceram o homem que se acalmou com a presença de Alice. Ela reparou, o Pedro também. O homem queria levá-los para fora da estrada e ela seguiu-o. Ele foi arrumar o jeep na berma. Ouviu-a gritar, o choque, uma exclamação, ela que foi à frente, que não esperou por ele. Correu! Via-os imóveis, o tempo parado…E ele que nunca mais chegava…Chegou, eles imóveis olhando para o chão, para os corpos destorcidos de duas crianças. Não havia sangue, apenas a brutalidade do crime, duas jovens, talvez sete anos, desmontadas por dentro. Quem conhecesse os processos do Santo Ofício certamente encontraria algo de semelhante no estado das vítimas…a tortura sem sangue. Fizeram o que tinham de fazer, comunicaram a ocorrência, cercaram o local com fita e identificaram a testemunha. Veio ambulância e médico da morte e a coisa arrastou-se até à hora de almoço. Almoçaram tarde, desgastados, oprimidos pelo crime. Para Alice tinha sido o primeiro contacto profissional com a morte após quase dois anos de serviço. O Pedro tinha mais anos, de serviço, de idade, também de mortes, de acidentes, disputas de terras, heranças, desavenças entre vizinhos, de tudo o que serve de desculpa para matar. O Pedro era casado e tinha dois filhos, o mais velho com dezasseis anos, tantos como os de serviço. Alice era divorciada de um casamento de dois anos, continuam amigos, sempre foram amigos, casaram para se apoiar, a vida os juntou, a vida os separou. Estas inconfidências para justificarem a calma aparente do Pedro, o nervosismo evidente de Alice. “Isto fica entregue à judiciária?”, “Fica.”, “Conhecias as miúdas?”, “Sim.”, “Quem eram?”, “As filhas de um caseiro.”, “Pobres pais…Filho da puta do gajo que fez isto.”, “Disputas…”, “Disputas?”, “Sim…Entre os da lagoa e do pinhal…”, “Estás a brincar, não estás?”, “Não.”. Tiveram esta conversa durante o almoço. Depois disto só ela falou, ele limitou-se a ouvir acenando que sim e que não. Alice não estava satisfeita, queria saber mais. Ele estava arrependido de ter falado, era um assunto tabu sobre acontecimentos passados. Era um jovem guarda quando essas pessoas morreram queimadas. Falou-se de acidente, de pacto com o diabo. Passados três dias foram encontrados mortos dois jovens namorados numa situação em tudo idêntica à que haviam acabado de presenciar. Durante os meses seguintes houve mais algumas mortes, na lagoa, no pinhal. Fizeram-se patrulhas, as pessoas deixaram de ir para lá e de repente tudo acabou. Terminou o que começara e explico-lhe o que sabia, o que isto lhe trazia de angústia, o medo de tudo se repetir. “E nunca apanharam ninguém?”, “Nunca.”, “E suspeitos?”, “Houve de todos os tipos, mas nenhum aguentava tamanha dispersão de vítimas sem relação, quase uma lotaria. Depressa passavam a outros até que tudo terminou e eles terminaram também.”, “Pensas mesmo que isso se vai repetir?”, “Não sei…Sei que aqueles lugares não me deixam descansado.”, “Estás a deixar-me nervosa.”, “Desculpa, estou a ser estúpido e a assustar-te sem razão.”, “Não faz mal. Eu é que insisti…”, “Vamos embora…Deixa estar que eu pago…Pela conversa mórbida…”. Ela riu, ele apenas sorriu. Faltava a tarde para acabar o dia, ele sentiu falta da mulher, dos filhos, ela sentiu medo de passar a noite sozinha.

2007-01-25

A Lagoa I

A lagoa está serena. À sua volta terras encharcadas e o mar. O mar de Inverno, ruidoso, trovoando a noite inteira, batendo na areia. Praia sem rochas, em cunha para dentro de água. De manhã a calma, o sol que roda baixo, o azul intenso, frio, a lagoa fica bonita…
Aquele pedaço de líquido espalhado pela areia, tem um contorno atraente…
Sempre se ouvira falar de rituais, de pessoas que se juntavam e que deixavam rastos, cenários satânicos no meio do pinhal, nas encruzilhadas das picadas, junto a casas abandonadas. Entre brincadeira e realidade havia quem acreditasse que as águas dessa lagoa eram milagreiras. Era gente da região, pessoas desiludidas da medicina, outros sem posses. Também os havia a acreditar por convicção profunda, fé no local, no nome, no nome de santo.
O jeep da GNR percorre lento a estrada que corta a várzea. Sobe junto às bombas, contorna rotunda e desce em direcção à lagoa. O motor a gasóleo, cansado de tantas patrulhas, tem um trabalhar velho mas de confiança. Dentro do carro estão dois soldados, uma mulher, um homem, ela conduz. Vão em silêncio. Ele olha distraído para um pequeno grupo que vai em direcção à lagoa, mais ao longe outro grupo vem na direcção oposta. Não têm mais que dez elementos cada, nunca têm mais que dez elementos, mas chegam a ser vários grupos. Não há desordens, apenas o entrar dentro de água e molhar o corpo, ninguém o faz nu e há até quem o faça totalmente vestido. Ouve-se o chapinhar, o gemido, o arrepio, o murmúrio, o lamento, rezas à nossa senhora e ao santo. As autoridades estão atentas e as rondas tornaram-se mais frequentes. Eles, cada um por si, relembram as ordens no posto, “…Mostrar presença sem intervir…”, ela vai com atenção à estrada, a terceira metida, devagar, “Às vezes é tão difícil andar devagar…”. Viram à esquerda, por um atalho ladeado de pequena vegetação, em frente e antes do areal que precede a lagoa, atravessam um pequeno pinhal, não mais que vinte árvores. Pensam no outro pinhal, o que fica a sul, e instintivamente movem o olhar na sua direcção. Sentem-no ao longe, uma massa verde escura, com vida, “De noite é pior!...”, ela disse-o, ele confirmou-o com gesto de cabeça, ela não viu o gesto mas sabe que ele sente o mesmo. Saíram para campo aberto. Do lado norte três pessoas em fato de banho mergulhavam na água. Meteram por um trilho de areia, redutoras ligadas, segunda metida, um serpentear ao longo da margem até um segundo trilho que os desvia de lá e os obriga a contornar duas casas velhas. Mais um pouco e estão no extremo norte. Só as palavras fazem o trajecto rápido, na realidade demoram cerca de meia hora a fazer o percurso. As três pessoas que se banhavam já se foram embora. Agora, do lado sul, um grupo um pouco maior começava o ritual. Orações, rezas, meditações, cada um à sua maneira, evocavam poderes ocultos naquelas águas tranquilas. Tudo começara em oposição ao lado negro que se acreditava existir no enorme pinhal. O que lá se fazia, só à noite era feito e de forma bastante furtiva. Por três vezes já tinham perseguido luzes que pareciam de fogueira. O resultado teve variantes de cálculo mas foi sempre negativo. Da primeira atolaram o jeep, na segunda desistiram após uma hora de gato e rato, da terceira vez iam tendo um acidente grave, “Quando alguém os quiser apanhar faz-se a coisa a sério…Com mais homens!”, foi o desabafo nessa noite. Era mais fácil apanhar contrabandistas. No fundo todos tinham receio, mesmo os descrentes não se sentiam à vontade. No posto todos tinham histórias semelhantes.
Mas hoje a patrulha é de dia e estão a acabar a volta ao lago pelo lado este, no oeste está a praia que o separa do mar. Metem pela estrada de volta à vila. “Tenho fome!”, foi ele que o disse, “Queres que eu pare aqui?”, “Não vale a pena, paramos na vila.”. Ela acelerou um pouco, para chegar mais depressa e para contrariar a moleza que a volta à lagoa lhe tinha provocado. Abriu um pouco o vidro e gracejou “Já estou farto de te ouvir!”, ele respondeu, “Não estou nos meus dias”. De repente e após uma lomba um homem atirou-se para a estrada e obrigou-a a uma travagem brusca.


(Ficção-cont.)

2007-01-20

Domingo de manhã


Afasto bem as cortinas
Deixo todo o sol entrar
Pela minha boca aberta
Que deixei ao bocejar.


Levo o corpo do quarto
Vou também amanhecer
Fazer da manhã um sonho
Voltar de novo a nascer.


São horas de ver o mundo
Entrar por ele a gritar
Agarrá-lo com as mãos
Ajudá-lo a girar.


Tenho o tamanho do céu
E vontade de aprender
Levantei-me mais um dia
Mais um dia para viver.


Nesta manhã de domingo
Eu respiro o novo ar
No infinito do mundo
Hoje marquei um lugar.




(Dedicado ao meu Pai)

2007-01-16

Durante o sono…

No dia à dia, nas noites que os separam, o dia, do dia. Em todos os instantes, suplicantes do impossível, pedintes do improvável, com pena de si e da vida guardam as portas, as de entrada e as de saída, cada coisa no seu lugar. Para além do torcer a maçaneta, do empurrar da madeira existem fins de séculos, fins de milénios, acontecimentos apocalípticos, génese de algo, códigos que são o que são…E o leite no copo pela manhã, o dedo sujo de manteiga…Na tua mão…Meiga. E tu frágil de remorsos egoístas…Não! Não posso sentir por ti, posso fazer um esforço, uma tentativa, uma aproximação, até posso fingir!...Mas sentir?...Não!
Foi no dia em que nos chamaram “fascistas”? Ou seria “comunistas”?
Transparente, talvez translúcido, entre a ausência e a sabedoria, nos opostos que nós fomos, nesse desassossego da conquista, quando acreditamos que podemos possuir pessoas…E não é verdade. Não se possuem pessoas…Eu não te consegui possuir…Pergunto que horas são e o que isso significa, de pecado, de miséria, de esperança, de sorrisos, dos bons e dos maus, de tudo o que faz o teu gesto, esse delicado mecanismo, piano de luxo em noite de estreia. Sempre o pecado, a pequena vingança, presos do que prometemos a nós próprios, pela nossa honra…Amanhã não há hora de saída. No espelho já não estou todo…Como um todo…Perdi algumas partes…Faltam-me bocados…Fragmentos de ti…De ti quando eras em mim…Tudo…
Que tal voar um pouco…Entre dois trapézios de gaiola…Fugiste?
Larguei a mecânica no parque. Vou subir…O prédio é novo…O elevador espera por mim, convidativo, de portas abertas, demasiado abertas. Estás em casa? Eu quero que tu estejas em casa…Fui pelas escadas ou pelo elevador? Já não me lembro, foi tudo tão rápido …Cheguei a dizer que te amava?...Quem era o outro? Cheguei a saber o nome dele?
Não posso entrar…Alguém no meu lugar…Lembras-te das torradas que eu te fazia? E do café com leite? Lembras-te de mim a pegar na cafeteira, a acender o fogão, a pôr a mesa?...E o sol? Lembras-te do sol…A entrar…Morno da manhã, sem forças para queimar?...O bem que me fazia poder ser gentil para ti, agradar-te…Alguém no meu lugar…
Estou sozinho em frente a uma porta…O mundo da Alice, sem coelhos, sem o homem do chapéu, sem a rainha de copas…Apenas o túnel…O escuro que me separa do deserto…O voo desnorteado, as razias vertiginosas, eu próprio o animal, voando sem asas e depois a queda…A queda sem fim…Um travo de morte na garganta…Um silvo agudo, guincho do diabo…O corpo suado na cama…A mulher ao lado…Bela como sempre…Malditos pesadelos…


Nota do autor:
Este sonho perseguiu-o e refinou-se até ela o deixar…foram necessários doze anos…
(Ficção)

2007-01-08

Urbe V

Passou a tarde a observar a Carmem, a pensar na Teresa a juntá-las, fundi-las numa só, filha e mãe, mãe e filha. Agora sim reparava no cansaço, uma fadiga elegante de disfarce, dissipada nos gestos, diluída nas expressões faciais, no entanto evidente, pelo menos para a mãe. Será este “sexto sentido” o segredo de ser “Mãe”, sentido, segredo, magia e prático, eficiente. Imaginou-a mais velha, como a Teresa, imaginou a Teresa mais nova, como ela. Do seu ponto de vista, ambas as mulheres eram atraentes e ter consciência disso deixava-o nervoso. Há muito que não se sentia assim, atraído, duplamente atraído. Se queria cumprir com a sua palavra teria de pôr prioridades na acção e a primeira delas exigia de si alguma subtileza. Foi com muitas dúvidas que começou a conversa com a Cármen, “Estás cansada? Mesmo cansada ficas bonita…”, pergunta com resposta sabida preparando o desabafo, “…Ficas bonita…”, que não a deixou indiferente. Ficou mais frágil, baixou a guarda, primeiro os olhos que olharam doutra maneira, depois as palavras, “Obrigado! Só tu para me alegrares o dia.”. Eram três e meia da tarde quando esta conversa teve lugar. O Ricardo não a foi buscar e ela saiu com o Osvaldo. Foram a uma pastelaria lanchar, “Pago eu!”, disse ele, ela sorriu, quase que riu, “Está bem!... Eu ia na mesma.”, também ele sorriu. Foi entre bolos e sumos que ela lhe confidenciou os tempos menos bons que estava a passar, o dinheiro que não chegava, para a casa, para água, para a luz…Para o vício…“She don’t lie…”, para os vícios do Ricardo, o Ricardo que pouco fazia além de se julgar actor, dormir lá em casa, comer lá em casa, drogar-se lá em casa com o dinheiro dela e que ultimamente já nem a procurava e trazia na roupa outros cheiros rivais. O Ricardo que ela uma vez apanhou na sua cama com um colega de trabalho, coisas de actores, que a convenceu a ficar, a cheirar, a beber com eles. Aquelas duas semanas de baixa, sem sair de casa, sem dormir…Comecei a cheirar todos os dias, mas não me injecto!...Fico em casa a ouvir música, a escrever, a desenhar…O dinheiro não chega…Somos dois a gastar e só um é que traz dinheiro para casa…
A mãe acertara em cheio. Ela estava desesperada, não tinha experiência e poderia dentro de pouco tempo forçar-se a decisões perigosas. Para já a oferta de ajuda. Levou-a para sua casa, para lhe passar um cheque com o seu nome. Nessa noite compraram uma pizza e beberam garrafa e meia de vinho alentejano. Sentaram-se no seu sofá da sala, ligou o som da aparelhagem, baixo, uma guitarra acústica, sem vozes, só guitarra, ela sentada no sofá e ele que se sentou junto dela, abraçou-a, ela abraçou-o…Acordaram na cama dele, com o mesmo abraço, a mesma ternura, o mesmo desejo carente.
A vida não mudou, ela ainda gostava do Ricardo, do vício. Ele teria de acelerar o encontro com a mãe dela. Após três contactos pessoais com Teresa, garantiu-lhe um encontro com Carmem, seria em casa dele.
O encontro deu-se à noite. Ele estava em casa com a Carmem quando a Teresa apareceu, maternal, linda de ternura, “Esta senhora precisa falar contigo…Confia em mim”, “Sim!”, “Vou sair. Volto às onze.”. Quando voltou não encontrou ninguém. No dia seguinte a Carmem não foi trabalhar, falava-se em carta de despedimento. O telemóvel não atendia, a casa dela desabitada. Assim foi durante seis meses. Custou-lhe a falta da Carmem, chegou a arrepender-se, o que poderia ele fazer. Uma noite recebeu um telefonema, era a Teresa, pedia desculpa, estava em Itália e levara a filha com ela, estavam bem, “Não se preocupe que você fez o que tinha de ser feito. Ela está aqui ao pé de mim e quer falar consigo.”, “Osvaldo?”, “Estás bem Carmem?”, “Estou! E tu?”, “Porquê tão depressa, sem palavras, sofri…”, “Eu também!”, “O que é que a tua mãe te disse para teres decidido tão depressa, sem um adeus?”, “Disse-me que ambas tínhamos o mesmo pai, que éramos uma espécie de irmãs com mãe diferente, que a diferença era ela ser minha mãe.”.
Despediu-se dele e prometeu que um dia o visitava.

Ele chorou...Chorou com pena de as perder, a elas que se tinham reencontrado. Foi um choro interior, que se desfez com imagem das duas mulheres, felizes, em Itália.
Adeus Carmem, adeus Teresa, por mim levanto-me ás seis e vou trabalhar!


FIM!

2007-01-03

Urbe IV

Na rua os ruídos, sonoridades da vida que a percorre e que o acalma, atrasa o passo, reduz o batimento cardíaco. Mistura-se e deixa-se levar até à porta do café, entra, a ansiedade marcada no olhar…Este que o abandona na procura rápida de uma mesa, que o alerta para o objectivo, ali está uma! Mesmo junto à janela!...Senta-se rápido, um pouco brusco, um guinchar de cadeiras que provocou expressões de desagrado na cara dos restantes clientes…Que se lixe! Estou sentado…Agora é só esperar a poeira assentar e…Esperar…Esperar olhando para a porta, olhando à volta…Ainda bem que trouxe um livro, o livro que dissimula o errante esforço de observação…Meu bom amigo “A Curva do Rio” que ando a ler mais uns dois ou três “Bons amigos”, mas que hoje não me fazem companhia, hoje é Naipaul que me conta uma história de Africa, de imigrantes, de revoluções, sonhos, poder, prepotência e da beleza oscilante entre o amargo e doce, vontades do homem, vontades do clima, o que faz uma terra ser “terra”.
Reflexões de quem lê sem ler, de quem atropela as palavras perdendo-lhe logo o sentido, repetindo leituras que a concentração não deixa terminar, apontada que está na direcção da porta. No relógio de pulso os ponteiros marcam treze horas e quatro minutos…Mas ele tem sempre o relógio adiantado cinco minutos.
O empregado chama-o, pergunta-lhe se é o costume, “A sopa hoje está muito boa, da grossa…Vão uns croquetes ou uns rissóis? …Uma cerveja?”, “Não quero cerveja, hoje quero um sumo…De laranja!”……”Boa tarde! Posso sentar-me e fazer-lhe um pouco de companhia?”….”Claro!...Esteja à vontade!...”
O gesto desajeitado, nem se levantou nem ficou sentado num misto de apanhado fotográfico, atordoado pela voz, pela surpresa, pela imagem daquela mulher que tão gentilmente lhe pedia permissão…Lhe pedia permissão…Uma mulher mais velha que ele mas bem tratada, bonita, bem cuidada, bem vestida sem tentar iludir idades confiante do seu valor…Foi pelo menos essa a imagem que lhe ficou e assim se manteve quando ela recomeçou a falar , “Espero não o ter deixado assustado. Como vai ver o assunto interessa-me de uma forma especial pelo que considero um favor o facto de ter aceite o meu convite…Obrigado!”, acenou com a cabeça, fez que sim, mas não conseguiu responder e ela continuou, “O assunto é sobre uma pessoa de quem gostamos muito, da Carmem!”, esperou um pouco, aguardou alguma reacção e continuou. Ele ouviu tudo, acenando nas interrupções. Ouviu a primeira confissão, “Eu sou a mãe da Carmem!”, ele que sabia da Carmem viver com pais adoptivos, desconhecedora dos seus progenitores. Ouviu-lhe um nome, “Maria Teresa d’Almeida e Castro, Maria Teresa como a minha avó e de quem a família herdou a fortuna.”. Ouviu-a falar da gravidez indesejada, de ter dezoito anos, de ter tentado esconder, do parto em dificuldades, da decisão em entregar o bebé para adopção para poder voltar para casa, ela que decidiu na cama do hospital sob o efeito de sedativos e na presença do advogado da família, enquanto tentava curar uma anemia que lhe ia tirando a vida. Ela que decidiu sem saber que havia ficado estéril. Contou que casou, saiu de casa com um homem bom, que foi o primeiro de três que não aguentou. Do suícidio do pai, do internamento da mãe e finalmente da decisão de vir revelar-se à filha. Havia oito meses que a havia encontrado através de um detective privado e de algum dinheiro na instituição de adopção. O nome da instituição foi um presente da sua mãe num dia de crise. Havia oito meses que lhe conhecia a vida, que soubera da rotura com um namorado que lhe batia, que o Osvaldo a levou a casa várias vezes durante esse período, que chegou a dormir lá até….”Sempre como amigos que ela nunca quis nada comigo.”, “Eu sei!”, “Sabe!”, “Vejo-o nos seus olhos!”…Até aparecer este novo rapaz, o Ricardo…”Parece-me bom rapaz!”, “Anda a enganá-la e leva-lhe todo o dinheiro, ele também não tem culpa…Anda perdido...E ela também já lá caiu…Por isso preciso de si…Peço-lhe desculpa por ter mentido, mas se calhar não foi totalmente mentira…você gosta da Carmem…Eu também…Até agora não tive coragem para me revelar, mas perante esta situação…Não a queria perder outra vez!”.
Osvaldo não sabia o que dizer, “E que ajuda posso eu dar?”, “Mostre-se atento e pergunte-lhe se ela precisa de alguma coisa…Ela está sem dinheiro…Vai-lhe pedir de certeza um empréstimo e você vai-lhe emprestar o que eu lhe vou dar.”, “E depois?...”,
“Depois tenho de me encontrar com ela em sua casa e você vai fazer com que isso aconteça”.
O Osvaldo que quase nada disse, aceitou um cheque, aceitou esperar por um telefonema e comeu a sopa fria, os croquetes sem graça, escapou o sumo…

(Cont.)

Nota do autor: eu prometo que acabo para a próxima...

2006-12-27

Urbe III

Acordou sem rebanho, não seguia nenhuma caravana e do deserto só o calor das mantas com que se cobrira. Levantou-se depressa enxotando ideias e profecias. Foi uma manhã normal, de sentido único, na direcção da urbe que o esperava sem especial necessidade. Levou um livro debaixo do braço e ele lá ficou, inerte, sem forças para se abrir. Chegou a horas aonde tinha de chegar e só nesse momento recordou a voz feminina que lhe marcara a noite anterior. Procurou abstrair-se ligando-se à informática bancária, despachou serviço, autómato numa linha de montagem, sem ver, utilizando a rotina memorizada, encharcou-se em números, percentagens, planos disto e daquilo, contas para os outros e de outros que não ele. O relógio de pulso marcava passo, nove e trinta, nove e trinta e cinco, nove e quarenta, nove e quarenta e um, assim não vou longe… A máquina de café tão longe, ele tão longe, tudo tão longe e os números a precisarem da sua atenção, a solicitá-lo exigindo-lhe cálculos de destreza automática…”Osvaldo, queres um café?”, “Não…Sim…Quero sim!”, a voz da Carmem trazendo-o pela mão à rotina da agência, a voz doce da Carmem. Por segundos fecha os olhos e imagina-se longe, com aquela voz. Os segundos são o que são e não são o mesmo para todos, ele viajou, ela não e já lhe trazia um copo de plástico, branco e fumegante. Pegou-lhe com três dedos e deixou que este os aquecesse…Como a areia do deserto, do deserto que ele era, sem areia. Porque será a pele dela tão branca, deliciosamente branca, “Bebe o café senão fica frio!”, “Sim…”, ela já não ouviu o sim, o sim que se diluiu no seu perfume, como nos anúncios de televisão, ele o figurante perdido, a personagem fugaz, o relance humano de sentimentos banais e no entanto profundos. Nove e cinquenta, nove e cinquenta e um, o chefe que o chama e ele sem ouvir, sem ver, olhando sem ver, “Vou já!”. “Preciso que me faças o relatório…” e o relatório que ele aponta distraído num bloco de notas com o logótipo da instituição, lembra-te de quem te paga, lembra-te…E ele lembra-se da voz feminina do outro lado da linha, dez e trinta, dez e…Hoje vou almoçar mais cedo, a quem dirigiu ele esta declaração de intenção, ao chefe, à Carmem que espera pelo namorado, à dona Esmeralda que hoje o estranhou mas não teve coragem para lho dizer, ao irritante Ricardo que tudo faz para agradar, “Queres que te ajude nalguma coisa?”, “Não!”, seco como o deserto que ele deixou, no sofá…Ao longe uma septuagenária discute com o caixa…O senhor André precisa de um empréstimo, crédito fácil…Ao longe a velha mulher tenta fazer entender-se…No ecrã alguém que precisa de um carro novo, o senhor André? Não esse já tem carro novo!
Onze horas e quatro minutos, “Não falte, ficaria bastante desiludida.”, não faltarei, eu quase nunca faltei…Ou faltei?...Onze e quinze…Tira o relógio do pulso e volta a colocá-lo…No pulso…Hoje vou almoçar mais cedo, está decidido, já estava decidido. Lá fora o ruído dos automóveis é apelativo, quase metafórico, liberdade que rola e desaparece…Talvez para o deserto…Merda mais o deserto!
Meio-dia, tanto que demorou o meio-dia, minuto a minuto o meio-dia é muito mais que meio-dia…O trabalho avança sem erros, ele espera que sim, ele precisa que assim seja, as coisas não estão fáceis e ele não deve falhar…O ponto da situação, mais de três horas sem se levantar e o ruído lá fora, por detrás da enorme vitrina que o deixa ver…O ruído lá fora e o relógio a dizer-lhe, meio-dia e trinta…”Acabei o relatório!”, eis a comunicação, eis a chave libertadora, “Hoje preciso de ir mais cedo…Tenho de tratar de uns assuntos…Pessoais…”, como quem diz , não me chateiem, deixem-me em paz e não me peçam explicações…Pega no casaco e sai…São doze horas e quarenta e cinco minutos.
(cont.)

2006-12-16

Urbe II

Olhou-o com desprezo, incomodado com o apelo incógnito. Deixou-se cair no sofá procurando abstrair-se, pausa, toque, pausa, toque, pausa, toque, merda, nunca mais se cala. Estava quase a desistir quando o outro se rendeu. Agradeceu o silêncio e fechou os olhos, adormeceu sem dar por isso. Já era noite quando acordou, o corpo entorpecido, os músculos com cãibras, o estômago faminto, a boca seca e um arrepio que lhe fez pensar na morte. Não foi desta que me levou. Deixou que os olhos se habituassem à penumbra, apenas cortada pelos reflexos néon que vinham de fora pela janela da sala, intrusos luminosos lembrando que do outro lado ainda existia vida. Os objectos ganhavam dimensões e ele foi-os observando com dormência. Procurou pelo comando da televisão afagando o espaço vazio ao seu lado. Sentiu-o na mão, familiar, botões conhecidos dos seus dedos. O ecrã iluminou-se com um estalido seco e retirou de imediato o som. Desfilou canais e imagens numa cadência que parecia programada, para a frente, depois para trás e novamente para a frente. Largou o comando saturado de tanta inércia e dirigiu-se para a cozinha. Estava arrumada, tudo parecia em ordem e isso espantou-o por momentos até reparar num bilhete em cima da mesa. A mulher que lhe fazia a limpeza da casa tinha estado lá e recordava-lhe o número de horas de trabalho que ele tinha de pagar. Abriu o frigorífico e descobriu desalentado que não fora ao supermercado. Restavam-lhe duas fatias de queijo, alguns iogurtes, meio pacote de manteiga e seis cervejas de lata. Tirou o queijo e uma cerveja, na caixa do pão três fatias com mau aspecto seriam o revestimento de uma refeição improvisada. Não chegou a sentar-se e a segunda cerveja acompanhou-o à sala. Tirou o casaco mas sentiu frio e foi buscar uma manta. Deitou-se no sofá e cobriu-se com ela. Assim ficou até o telefone tocar outra vez. Olhou para o relógio de pulso, duas da manhã, quem seria a esta hora? Levantou-se com esforço e pegou no aparelho, “Está? Quem fala?”, “Estou a falar com o sr. Osvaldo Garcia?”, “Sim é o próprio!”, a voz feminina era de uma mulher madura, educada, que pausava as palavras e as proferia de um modo correcto, como a sua professora de português no primeiro ano do liceu por quem teve uma paixão avassaladora, adorava a sua voz. “Eu sei que você não me conhece, mas tenho um assunto para tratar consigo que decerto o vai interessar.”, “Sim…”, “Seria possível encontrarmo-nos amanhã à hora de almoço? Suponho que tenha hora de almoço na agência bancária?”, “Como é que sabe onde trabalho?”, “Da mesma maneira que sei outras coisas sobre si. Encontre-se comigo e verá que não se arrepende.”, “E onde será esse encontro?”, “Decida você!”, “Eu costumo almoçar num café ao fundo da rua…”, “Pode ser! Estarei lá à uma em ponto. Não falte, ficaria bastante desiludida.”, “Esteja descansada que lá estarei…”. A chamada acabou tão repentinamente como tinha começado. Ela pode ter ficado descansada, o mesmo não se passou com ele. Porque raio aceitou encontrar-se com aquela mulher, uma desconhecida. Experimentou várias sensações, teria sido o sono, o cansaço ou simples curiosidade? Agora não interessava, a decisão estava do seu lado, pelo menos assim o pensava, esquecido que estava do facto daquela mulher saber tanto sobre ele e poder controlar os seus movimentos. Procurou distrair-se lendo um livro sobre religiões. Quedou-se sobre a vida do profeta Maomé, Maomé, filho de Abd-Alá, nasceu em Meca no ano de 570. Fazia parte dos Haqmitas, ramo dos Coraixitas. A sua família parece que não foi das mais importantes da cidade. Sua mãe, Amina, Já viúva quando ele nasceu, vivia em condições bastante precárias. Conheciam muito pouco dos seus primeiros anos, visto que a lenda, encarregando-se aqui, como em toda a parte, de preencher lacunas da história, bordou numerosas narrativas sobre o tema da infância do Profeta, de sabor mais ou menos poético. O que entretanto parece estabelecido é que a criança foi entregue a uma ama beduína, de seu nome Halima. Era costume dos ricos mercadores de Meca confiarem os filhos, nos seus primeiros anos, a árabes do deserto. Embora com poucos recursos a família de Maomé não quebrou a tradição.
Pouco depois sua mãe morreu; durante algum tempo o pequeno órfão viveu junto de seu avô, já octogenário; depois foi recolhido pelo seu tio Abu-Talib. Este último, segundo parece, não devia ser rico, porque se conta que Maomé precisou de tomar a profissão, pouco considerada, de pastor, tendo um modesto lugar no pessoal menor das caravanas de comércio.
Também ele era órfão desde tenra idade. Adormeceu imaginando-se no deserto, pastor como o profeta.

(cont.)

2006-12-12

Urbe

Seis da manhã, ele acordou, o sol não. No escuro do quarto os números digitais iluminam-lhe a hora. A boca está seca, os olhos também. Torpor que se desvanece, consciência que retorna ao corpo cansado. Foram duas as horas dormidas, porquê o despertar, o despropósito matinal de quem não descansou o suficiente. A roupa que despiu encontra-se arrumada, anormalmente arrumada. Na mesa um copo meio de água. Estende a mão ao interruptor, acaricia-o e hesita, espera pela reacção ocular, desiste do interruptor. Sabe mover-se no escuro, sabe da casa de banho no escuro e encontra-a. A sanita, a banheira, o chuveiro e a água quente…Que bem que lhe sabe a água quente, sangue de lagarto aquecido, fluido interno que lhe lembra a vida. Todos os dias são dias de trabalho, dias de viagem, peregrinação à cidade. Hoje o comboio? O carro? Melhor o comboio. As ruas enchem-se de pessoas, sentidos únicos, cada um com o seu. Estações, paragens de autocarro, ruas e estradas, o mecanismo recomeça. Sem dar conta hoje é ontem e ontem será amanhã e a gravata está desalinhada, o casaco que cobre a camisa pede lavandaria. Lisboa chega sem ele pedir e ele não pede para entrar. Mais estações, mais ruas e prédios e a agência do banco. Sabe de si pelo olhar dos colegas…Isto está mal, nem a barba que lhe custou a fazer o safa, o comprimido que tomou para acordar ainda não se mostrou no seu efeito milagroso.
Está sentado por detrás de uma secretária, tenta organizá-la, organizar-se, mentira que mantém durante cinco minutos, tudo está estabelecido, as ordens são claras e o gerente já lhe disse o que pretendia. Rende-se, abre a gaveta e tira um molho de processos, empréstimos de todos os tipos que precisam ser avaliados antes de chegar ao chefe. De longe a dona Esmeralda procura-o com o olhar tentando captar a sua atenção, consegue-o e ele rende-se. Também ela precisa de ajuda, a idade não ajuda e espera paulatinamente pela reforma. “Ajudas-me nisto? Não percebo nada desta porcaria”, aponta para o monitor, para uma janela de erro, teimosa, que não se deixou intimidar pelas sucessivas escapadelas. “Dá-me só um minuto.”, buscou uma cadeira de uma secretária vazia onde já tinha trabalhado alguém, agora é de todos, à vez, redução de custos que a tanto obrigas, maldita produtividade. O problema não era complicado, um conflito manhoso de um programa mal dimensionado, fecha-se a aplicação e reinicia-se o computador, “Tinhas salvo o trabalho?”, “Estava agora a começá-lo.”, “Um beijo Esmeraldinha.”, “Obrigado meu filho, és um anjo.”, voltou para o seu lugar, desperto, bem consigo próprio pela ajuda prestada aquela velha senhora que tanto o considerava.
Sente falta de um café, a nicotina está domada e já só precisa dela depois das refeições, há quem o inveje por isso. A máquina encontra-se ao fundo da ampla sala, não muito longe de uma máquina de fotocópias de última geração cheia de ruídos suaves e estalidos discretos. A Carmem tira fotocópias com um olhar atento ao visor. Sem se voltar murmura, “Vais tirar um café?”, “Vou!”, “Tira dois.”. Sim a Carmen é uma bela rapariga, a mais nova, ele tenta agradar-lhe sempre que pode. Tem a pele bonita, branca, de um branco que lhe lembra as figuras gregas dos livros de história, lisa, sem nódoas ou marcas que lhe estraguem a matriz. Tem uns olhos sinceros, tão sinceros que não foi preciso tentar para saber que não tinha hipóteses, que pena. A diferença de vinte anos não perdoa a quem não é rico e tem de competir com o belo rapaz que a costuma ir buscar por volta das cinco. “Toma! Se não estiver bom eu tiro-te outro.”, “Está óptimo! Obrigado!”. Finalmente começa o seu trabalho. Por volta da uma da tarde tem metade dos processos revistos. Não vão almoçar todos ao mesmo tempo, revezam-se e ele dá uma mãozinha à Carmem para ela ir comer com o Ricardo, o namorado. Ficou na caixa até às duas e só depois foi para o café onde esperavam por ele uma sopa e dois rissóis. Ainda teve tempo para um bolo, um café e um cigarro. Não admira que as análises estejam uma porcaria, o médico já o avisou, você tem de se alimentar como deve ser.
A vida de solteiro também não ajuda e os jantares são uma mistura de álcool com gorduras em quantidades desaconselháveis, “Olhe o coração! Os acidentes cardiovasculares são cada vez mais frequentes em pessoas na casa dos quarenta!”, “Eu sei doutor!”, “Se sabe não parece…”, conversa repetida nestes últimos dois anos.
Na parte da tarde foi falar com o chefe, tinha noção de ter avançado bem mas não tinha a certeza de ter sido o suficiente para não ficar até mais tarde. Entregou os papéis, explicou os casos mais complicados, os que precisariam de uma segunda avaliação, dos outros, os mais simples, garantiu serem rentáveis à instituição. Esperou numa ansiedade contida, algo que os anos lhe ensinaram, “Está tudo bem. Amanhã logo vemos o resto.”, isto significava que depois de fechar o balcão só teria de ficar mais uma hora. O trajecto para casa pareceu-lhe uma eternidade, a porta de casa o paraíso. Ainda não se tinha sentado quando o telefone tocou.

(cont.)

2006-12-07

I

Nasci pequeno
Do tamanho que se quer a quem nasce
Pela barriga com o cordão ao pescoço
Moniz contemporâneo entregando a ponta ao destino

Da árvore do nascimento
Até ao chão do pomar
Sente-se o calor da fermentação
Fruto de sabor alcoólico

Maçã negra de Inverno
O Inverno existe em pensamento
Pensamos em chuva e chove
O que nos faz pensar em tanta água?

Rebelde cinzento, como se existisse o cinzento
Como se cor fosse cor
O olho detecta o câmbio
O passar de um estado a outro
E a outro

De um lado o passado
Todo ele coisas internas
Sensações
Partidas
Travessuras de uma memória devassa

Escorre em mim essa água interior
Enxurrada que desagua em rios menores
Capilares que se perdem em extremidades de vida

Os quatro elementos
O Ar
A Terra
O Fogo
E o Éter que justifica o desconhecido
Meu caro Mendeliev que os atirou prá tabela
Cento e tal coisas que aprendi com medo de não entender

Do fogo tenho noções
Aquecimentos que me fazem companhia
De dia
De noite o calor é outro
Desassossego
Aperto o lençol da cama como se fosse minha mãe
Mas não sou
Sou eu



Nem a cama é cama
É a ideia que dela ficou
Da cama e de tudo o resto
Do berço que não me lembro mas sei que existiu

Fada madrinha
Anjo da guarda que eu guardo debaixo do colchão
E a mão que lá o colocou
Era eu menino
Talvez nem isso

Dorme bebé vem fazer ó ó
Dorme, dorme meu menino
Agora que já és homem

2006-12-03

Um cão, uma rua e mais qualquer coisa…

Sou um cão, chamam-me “Benfica” e dou-me pelo nome. Nas ruas onde nasci, vi crescer crias humanas, pequenos rebentos que dos braços das mães passaram para carrinhos de bebé e dai para o chão. São eles que eu sigo para todo o lado, conheço-lhes as portas, as portas para onde os sigo no fim do dia, as portas onde espero por eles nas manhãs. O Paulo Jorge, o Dado, o João, o Carlos do “lugar”, o Zé Alberto, o Mário Rui, o Rui “Gordo”, duma ponta à outra da Alexandre Salles. Houve uma altura em que andavam sempre na rua, agora só quando o sol começa a descer. Falam da escola, falam de clubes e grupos e eu sento-me e ouço, gosto de os ter por perto, gosto deles, dos seus risos, das suas festas, das suas brincadeiras. Sei que estou ficando velho, por algum motivo que desconheço eu vou perdendo as forças e eles vão ficando cada vez maiores. Gosto de duas cadelas, não preciso ir muito longe quando me sinto inquieto, a “Flecha” e a “Vaidosa”. Disputo-as com outros cães que vêm de longe, alguns de muito longe. Sempre lutei pelo que precisava, sou orgulhoso e defendo o meu território. Sei que muito do meu esforço foi morto ou perdeu-se nas ruas sem eu saber porquê, no entanto um dos últimos esforços foi premiado. Soube pelo Paulo Jorge que o grupo queria fazer um clube, fui atrás deles quando escolheram o sítio, as traseiras dos prédios, via-se o comboio passar a ponte e ouvia-se melhor a sirene que todos os dias tocava quando o sol estava a pino. Desprezaram uma árvore e dois outros lugares que alagavam durante o Inverno. Meteram mãos à obra roubando materiais das obras que iam sendo feitas no imenso descampado que separava a rua do caminho de ferro. Mais tarde soube que pertenciam à futura escola preparatória. Vi o Paulo furar o pé num prego e trazerem as tábuas de arrasto com ele, passei tardes a ouvir cavar e martelar, vi a casa…”O Clube” tornar-se abrigo, com telhado, com janela e com porta de senha para entrar. Nasceram por essa altura quatro filhos meus do ventre da “vaidosa”. O “Nero”, parecido com a mãe era gordo e com pelo louro que se adivinhava longo, o “Lorde”, magro e de pelo curto de um castanho indeciso, destinado a substituir-me e mais dois que nunca vi. A “Vaidosa” tinha dono, tinha donos, moravam numas barracas junto aos prédios novos onde os meus amigos costumavam ir para comer pevides, amendoins e tremoços em troca de algum trabalho, trabalho ligeiro a ensacar essas coisas que me ofereciam e de das quais eu nunca gostei. Também eles não gostaram desses quatro cachorros, os primeiros duma cadela que sempre protegeram. Ao “Nero” arranjaram logo dono, era bonito e prometia ser um belo animal. Ao “Lorde” foram os meus amigos que o salvaram, comprando-o por doze e quinhentos, dinheiro tirado às suas economias a bem do clube que haviam formado, ouvi falar do clube dos sete mas nunca percebi bem porquê…Dos outros dois adivinhei-lhes a morte…Não havia lugar para bocas a mais.
Um dia fiquei doente, talvez velhice, ou coisa que comi, os olhos envidraçaram-se e as moscas seguiam-me para todo o lado. Deixei de comer e os miúdos percebiam-me moribundo…Alguns chegaram a chorar…Abalei para morrer sozinho…longe…Para os lados da Damaia…Numa casa abandonada…Tive uma vida de cão, cão completo, com filhos e amigos que recordo. Tenho pena de não os ter visto crescer, mas sei que fui feliz por ter partilhado com eles tantos momentos…Momentos que me ajudaram a partir…

Nota: A história é verdadeira, os nomes também…O pensamento do animal é da minha imaginação....

2006-11-29

Branco...




Branco…Eis o meu testemunho em branco…
A minha parede roubada.
Escrevam nela a revolta, a vontade de viver.
Um abraço muito grande a todos os que lutam para ficar entre nós!